O Sertanejo/I/XX

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O Sertanejo (Primeira Parte: Capítulo XX: O aboiar)
por José de Alencar
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O sol transmontara.

As sombras das colinas do poente desdobravam-se pelos campos e várzeas e cobriam a rechã dêsse candor da tarde, que em vez da alegria da alva matutina tem o desmaio, a languidez e a melancolia da luz que expira.

Por aquelas devesas já envôltas no umbroso manto, só destacam-se as copas das árvores altaneiras ainda imergidas nos fogos do arrebol, e que de longe parecem as chamas de um incêndio rompendo aquí e alí do seio da mata.

O gado espalhado pelas várzeas solta os profundos e longos mugidos com que se despede do sol, e que propagam-se pelo ermo, como os carpidos da natureza ao sepultar-se nas trevas.

Respondem as vacas nos currais, e os bezerros misturam seus berros descompassados com os balidos das ovelhas e borregos, também já recolhidos ao aprisco.

Lá das matas reboa o surdo estridor em que se condensam os cantos de todos os pássaros e o grito de todos os animais, para formar a grande voz da floresta, que exala-se, sobretudo nessa hora, abafada e sombria das espêssas abóbadas de verdura.

No meio, porém, dêsse concêrto e do borborinho que ainda levantava a labutação diária, atravessava o espaço uma nota dorida, plangente, ressumbro de saudade infinda. Se a alma da solidão se fizesse mulher, ela não tiraria de seu mavioso seio um suspiro tão melancólico e tocante como o arrulho da jurití ao cair da noite.

Nessa hora a lida jornaleira das fazendas torna-se mais pressurosa, como para aproveitar os últimos instantes do dia.

Os lenhadores voltavam do mato carregados de feixes, enquanto os companheiros conduziam à bolandeira cêstos de mandioca, aind ada plantação do ano anterior, para a desmancharem em farinha durante o serão.

As mulheres livres ou escravas, umas pilavam milho para fazer o xerém; outras andavam nos poleiros guardando a criação para livrá-la das raposas; e os moleques as ajudavam na tarefa, batendo o matapasto, ou dando cêrco às frangas desgarradas.

As cozinheiras, encaminhando-se para a fronte a fim de lavar alí na água corrente a louça de mesa e fogão, assim como as caçarolas, cruzavam-se em caminho com as lavadeiras que já se recolhiam com as trouxas de roupa na cabeça.

Nos currais tirava-se o leite, acomodavam-se os bezerros, e cuidava-se de outros serviços próprios das vaquejadas, que já tinham começado com a entrada do inverno, porém só mais tarde deviam fazer-se com a costumada atividade.

Era a êste, de todos o mais nobre dos labores rurais, que o capitão-mór costumava assistir regularmente, para o que todas as tardes à hora da sombra transportava-se êle do seu pôsto no patamar da casa, e vinha com a família sentar-se defronte do curral na mesma poltrona, que o pagem levara após si.

D. Genoveva entendia mais particularmente com o leite, o qual alí mesmo distribuia; uma parte entregava-se às doceiras incimbidas dos bolos e massas; outra repartia pelas crias, e o resto era levado à queijaria. Isto quando não tinha chegado ainda a fôrça do inverno, porque nesse tempo havia tal abundância, que enchiam-se todas as vasilhas e até os coches onde os cães do vaqueiro iam beber.

O narrador desta singela história teve em sua infância ocasião de ver na fazenda da Quixaba, próxima à serra do Araripe, êsse aluvião de leite, na máxima parte desaproveitado pelo atraso da indústria, e que podia constituir um importante comércio para a província.

Enquanto a mulher ocupava-se com êsses misteres caseiros, o capitão-mór percorria os currais, tomando contas aos vaqueiros, mandando apartar os novilhos que era costume reservar para bois de serviço; indicando a rês que se devia matar para o gasto da casa; e assistindo a esfolar e esquartejar, no que se comprazia com a perícia dos carniceiros.

No tempo da ferra, tratava de apurar os garrotes apanhados na safra do ano anterior, escolhendo os da propriedade para deixar o dízimo do vaqueiro, segundo as condições do trato, que ainda são atualmente as mesmas em voga no sertão da província.

Com êstes e outros serviços das vaquejadas deleitava-se o capitão-mór, que achava nessa vida ativa e agitada as emoções das lides e façanhas guerreiras, para que o atría sua índole.

Mais de uma vez, quando algum touro bravo resistia aos moços do vaqueiro e acuado pelos cães no meio da várzea, bramia escarvando o chão, aceso em fúria, com os olhos em sangue, o velho capitão-mór sentindo repontarem-lhe uns ímpetos de juventude, vestia o gibão de couro e as perneiras, montava no seu ruço, e empunhando a vara de ferrão na esquerda, arremetia contra o animal, topava-o no meio da carreira, e o trazia ao curral pela ponta do laço.

Naquela tarde, não se entreteve o fazendeiro, como em outras, com a inspeção do gado; pois recolheu-se mais cedo que de costume; e sua fisionomia que só nos raros, mas terríveis, transportes de ira, perdia a calma e apática serenidade, mostrava nessa ocasião sintomas visíveis de descontentamento.

Caminhava o capitão-mór com o passo grave e pausado, medido pela cadência de sua alta bengala de carnaúba, rematada em um castão de ouro lavrado, o qual tocava-lhe pelos ombros. Sua contrariedade denunciava-se, para quem lhe conhecia a solenidade do gesto, na frequência com que êle consertava o chapéu armado, como se lho incomodasse.

D. Genoveva ia ao lado do fazendeiro e embora não escapassem à sua solicitude êstes sinais de impaciência, todavia não pensava em interrogá-lo diretamente e esperava que êle se decidisse a comunicar-lhe seu pensamento. O extremoso amor da boa senhora não se animava a infringir o respeito e submissão que tinha pelo marido.

D. Flor e Alina tinham passado adiante e já iam longe, a-pesar-da sujeição a que obrigavam seu pé leve e ágil para acompanhar a marcha lenta do capitão-mór. Atrás, mas em distância conveniente para não escutar a conversa dos donos da fazenda, seguia o ajudante.

O capitão-mór consertou ainda uma vez o chapéu armado, e retendo o passo, disse para a mulher:

— Não temos vaqueiro, D. Genoveva!

Depois do que, avançando o passo retido, continuou sua marcha para a casa. D. Genoveva, que esperara a continuação da confidência, animou-se então a perguntar:

— E o Inácio Góis?

— O Inácio Góis é um cangueiro; e mal pode consigo. Não viu o que sucedeu com a Bonina? Se lhe tivesse ido logo no rasto, como era sua obrigação, a novilha não havia de sumir-se. Mas êle nem conhece o gado de sua entrega! Pergunta-se-lhe por uma vaca, e o homem não faz senão encher as ventas de tabaco!

Contrariado e prevenido por causa do desparecimento da novilha que dera de mimo a D. Flor, o capitão-mór achara o vaqueiro em faltas que ainda mais o indispuseram.

— Desde que tivemos a desgraça de perder o Louredo, que o nosso gado anda à mercê de Deus, D. Genoveva. É tempo de pôr côbro a isso. O Inácio Góis nunca prestou nem mesmo para vaqueiro duma fazenda, quanto mais para nosso vaqueiro geral com o govêrno de todas as fazendas. Êsse lugar, nós os guardamos para o Arnaldo, que já está em idade de serví-lo; portanto, senhora, cuide com toda a presteza no enxoval da Alina, para casá-la quanto antes com o rapaz. É o que havemos resolvido.

O fazendeiro tinha parado para dizer estas palavras à mulher, cuja surpresa pintou-se-lhe no semblante.

— O Arnaldo? Mas êle não fugiu, sr. Campelo? interrogou a dona suspeitando que o marido tivesse esquecido aquela circunstância.

O velho voltou-se com ênfase para a mulher e disse-lhe fincando rijo no chão a ponteira de ouro de sua bengala:

— Há de aparecer e há de casar, que assim o determinamos, D. Genoveva.

D. Genoveva calou-se, e por algum tempo seguiu o marido silenciosamente; mas levado pelo fio das idéias, seu espírito passara a outro assunto, pois de repente voltou-se para perguntar ao marido:

— E Flor?

O capitão-mór refletiu antes de responder:

— Já temos pensado no seu futuro, D. Genoveva, disse o capitão-mór.

— Ela está com dezenove anos.

— Até os vinte não é tarde.

— Mas o noivo?

— Eis a dificuldade. Lembrámo-nos primeiro, de nosso sobrinho, Leandro Barbalho, de Pajeú de Flores. Agora com a vinda do Marcos Fragoso ao Bargado, estamos em dúvida, qual nos convenha melhor.

— O Marcos Fragoso, sr. Campelo, o filho do coronel? Acha que Flor pode casar com êle?

— Se formos a esperar que apareça um mancebo com dotes para merecer a nossa filha, D. Genoveva, ela não casará nunca, pois onde está êsse? Nem que vamos a Lisboa procurá-lo na melhor fidalguia do reino, acharemos um marido como nós o queríamos para Flor. Assim que temos de escolher entre o que há; e o Marcos Fragoso é dos poucos; as maldades do pai, êle não as herdou, com o grosso cabedal de sua casa.

— Diziam tanta coisa dêsse moço no Recife! observou D. Genoveva abaixando os olhos com o recato calmo de uma senhora.

— Rapaziadas que passam; quando for marido de Flor, êle não se atreverá a faltar-nos ao respeito; pois sabe que não lhe perdoaríamos o menor descomedimento.

— O Leandro sempre é parente.

— Mas não é tão abastado como o Marcos Fragoso; e não tem o seu porte fidalgo, respondeu o capitão-mór que era homem das formas.

Lá no campanário da capela, acabava de soar a primeira badalada do toque de ave-maria. O som argentino da sineta vibrando nos ares foi repercutir ao longe no borborinho da floresta, de envôlta com o mugir do gado e os rumores da herdade.

O capitão-mór parou, e descobrindo-se, pôs o joelho em terra para fazer sua oração mental. As pessoas de sua família o imitaram; e por toda a extensão da fazenda, a faina jornaleira interrompeu-se um momento. O carregador arreara o seu fardo; o trabalhador cessara o serviço; e todos de joelhos, com as mãos postas, rezaram a singela oração da tarde.

Ainda retiniam as últimas badaladas das trindades, quando longe, pela várzea além, começaram a ressoar as modulações afetuosas e tocantes de uma voz que vinha aboiando.

Quem nunca ouviu essa ária rude, improvisada pelos nossos vaqueiros do sertão, não imagina o encanto que produzem os seus harpejos maviosos, quando se derramam pela solidão, ao pôr do sol, nessa hora mística do crepúsculo, em que o eco tem vibrações crebras e profundas.

Não se distinguem palavras na canção do boiadeiro; nem êle as articula, pois fala ao seu gado, com essa outra linguagem do coração, que enternece os animais e os cativa. Arrebatado pela inspiração, o bardo sertanejo fere as cordas mais afetuosas de sua alma, e vai soltando às auras da tarde em estrofes ignotas o seu hino agreste.

A voz que aboiava naquele momento tinha um timbre forte e viril, que não perdia nunca, nem mesmo nas inflexões mais ternas e saudosas. Ainda quando sua melodia se repassava de suavíssimos enlevos, sentia-se a percussão íntima de uma alma pujante, que brandia às comoções do amor, como o bronze ferido pelo malho.

O gado dos currais, que já se tinha acomodado e ruminava deitado, levantando-se para responder ao canto do aboiador, mugia não ruidosamente como pouco antes, mas quebrando a voz, em um tom comovido, para saudar o amigo.

Alina estremecera, escutando os sons vibrantes da canção: e seu olhar vago, volvendo em tôrno cruzou-se além com o olhar de Agrela, que de longe a fitava. Nesse relance chocaram-se as almas de ambos. À muda interrogação da moça, o ajudante respondera afirmando; e à súplica instante que seguiu-se, opôs um pálido sorriso, cuja ironia tinha um travo amargo e triste.

Transida de susto por êsse sorriso, a môça inclinou-se para sua companheira e murmurou-lhe ao ouvido:

— Arnaldo!

— Aonde? perguntou Flor distraída.

— Não ouve?

D. Flor aplicou o ouvido. Também ela conhecia os módulos frementes daquela voz, que enchia o deserto.

— E agora? continuou Alina palpitante. Se êle vem?... O sr. capitão-mór!...

— Meu pai o castigará, Alina; e será um benefício para êle, que está se perdendo. Arnaldo já não é criança; carece emendar-se.

Alina retraiu-se como uma sensitiva. Esperava achar proteção em D. Flor; e a severidade da donzela, que bem revelava neste incidente a contrariedade de seu humor, a desanimou.

Nas outras pessoas o aboiar, que se aproximava cada vez mais, não causara a menor impressão, como coisa muito comum no sertão. Apenas alguns dos agregados e vaqueiros lembraram-se que era êsse o modo de cantar de Arnaldo; e viram que antes deles já o gado havia reconhecido o filho de seu antigo vaqueiro.

De repente uns gritos no curral chamaram para alí a atenção. Voltou-se o capitão-mór, e inquiriu do Agrela com o olhar a causa do rumor.

— É a Bonina que apareceu, disse o ajudante apontando para a novilha parada junto à cêrca.

O capitão-mór para alí encaminhou-se tão satisfeito que alterou a sua habitual circunspecção. D. Flor, porém, tinha-se adiantado com Alina e já abraçava a ingrata, quando o pai aproximou-se.

Indagou o fazendeiro do caso; e Inácio Góis, insinuando-se como o descobridor da Bonina, começara uma história em que se derramaria sua habitual loquela, quando D. Flor o atalhou:

— Alí está quem a trouxe, meu pai!

O capitão-mór ergueu os olhos na direção indicada pela filha, e viu parado a pequena distância Arnaldo montado no cardão. O mancebo tirou o chapéu e ficou imóvel.

O ânimo de quantos assistiam a esta cena estava suspenso no pressentimento de um novo e terrível assomo de cólera da parte do fazendeiro. Entretanto o mancebo aguardava tranquilamente o choque, embora o olhar e atitude indicassem a resolução em que estava de não ceder.

A fisionomia do capitão-mór conservava sua habitual seriedade. A surpresa que a animara um instante, cedera à concentração da vontade sempre morosa e tolhida, quando não a arrebatava a paixão.

Tendo demorado por algum tempo o olhar no semblante do mancebo, retirou-o afinal para volvê-lo na direção do Agrela. Êste, porém, que previra o movimento, simulou uma distração a propósito e esquivou-se à consulta.

Então o capitão-mór revestiu-se de toda a solenidade de aparato e estendeu majestosamente a mão para Arnaldo, o qual apeando-se pronto veio beijá-la comovido.

— Vá tomar a benção à sua mãe, disse o fazendeiro paternalmente.

Depois que a filha satisfez-se de acariciar a ingrata Bonina, o capitão-mór, passando a título de recomendação um novo capelo no Inácio Góis, tornou à casa acompanhado pela família.

D. Flor dirigiu-se pressurosa a seu camarim; e tomando alí um objeto que procurava, saiu com Alina em busca do casalinho da Justa.

Era noite já. O crescente da lua que surgia no horizonte azul esparzia sôbre a terra uma claridade tênue e indecisa que flutuava na atmosfera como gaze finíssima, tecida de fios de prata.

Além, no terreiro dos agregados, trilavam os sons cristalinos da viola, a ralhar no meio do susurro da conversa. Mais longe, em frente às casas dos vaqueiros, a gente de curral fazia o serão ao relento, deitada sôbre os couros, que serviam de esteiras.

Uma voz cheia cantava com sentimento as primeiras estâncias do Boi Espácio, trova de algum bardo sertanejo daquele tempo, já então muito propalada por toda a ribeira do São Francisco, e ainda há poucos anos tão popular nos sertões do Ceará.

Vinde cá meu Boi Espácio,
Meu boi preto caraúna;
Por seres das pontas liso,
Sempre vos deitei a unha.

Criou-se o meu Boi Espácio
No sertão das Aroeiras;
Comia nos Cipoais,
Malhava nas capoeiras.

Foi êste meu Boi Espácio
Um boi corredor de fama;
Tanto corria no duro,
Como na varge de lama.

Nunca temeu a vaqueiro,
Nem a vara de ferrão;
Temeu a José de Castro
Montado em seu alazão.

Os tons doces e melancólicos da cantiga sertaneja infundiram um enlêvo de saudade, sobretudo naquela hora plácida da noite.

Entrando no casalinho, Flor e Alina encontraram-se com Justa, que avisada pelo rumor das vozes acudia a recebê-las. Ao clarão do fogo aceso na cozinha próxima avistaram um vulto, que ambas reconheceram, a-pesar-de quase desvanecido na sombra do canto escuro.

Fôra um nobre impulso do coração que alí trouxera D. Flor naquele instante. Não tendo pouco antes agradecido a Arnaldo o serviço que êste lhe prestara, vinha mostrar à ama o seu contentamento e acompanhá-la na alegria que devia sentir vendo restituídas ao filho as boas graças do dono da Oiticica.

Em caminho, porém, a efusão dêste sentimento se acalmara, e de todo aplacou-se ao entrar na choupana. Abraçou com meiguice sua mãe de leite, e entregou-lhe o objeto que trazia na mão: uma bolsa de teia de prata como se usava naquela época.

— Esta bolsa, mamãe Justa, é que eu trouxe do Recife para Arnaldo. Tinha feito tenção de não lha dar mais, por causa da desobediência que êle praticou, sobretudo depois de enganar-me, fugindo de minha companhia. Mas como êle achou a Bonina e voltou arrependido, eu quero perdoar-lhe, como meu pai. Aquí a tem; entregue-a da minha parte, como mimo que lhe faço.

— Obrigada, minha Flor! Como êle vai ficar contente!...

O vulto surgiu da sombra. Era Arnaldo, o qual aproximando-se de Justa, tirou-lhe das mãos a bolsa e foi arremessá-la ao fogo.

— Pague aos seus criados, disse êle com a voz áspera.

— Arnaldo! exclamou Justa escandalizada.

D. Flor erguera a altiva fronte, e com um gesto de plácida dignidade atalhou a ama:

— Fez bem: êle não merecia uma lembrança minha.

E retirou-se.