Uma Orquestra

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Uma Orquestra
por Luís da Gama
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Poema publicado em Primeiras Trovas Burlescas de Getulino

Por certa cidade
Sozinho vagando,
Ao mórbido corpo
Alívio buscando:

Acorde harmonia
Ao longe escutei,
E aos dúlios acentos
Meus passos guiei.

Além, numa rua,
Em casa antiquada,
Diviso ao luar
De Euterpe a morada.

A ela me chego,
Com gesto tardio,
Por entre as janelas
Os olhos enfio.

Mas eis que diviso
Um velho zangão,
Zurzindo raivoso
No seu rebecão.

Marcava o compasso,
A pança empinava,
Que, em clave de bufo,
Confusa roncava...

Mexia-se todo,
Fazendo caretas;
As ventas fungavam
— Sonantes trombetas.

Na vasta batata,
Que tem por nariz,
Formara seu ninho
Crescida perdiz.

Sobr’ela, de encaixe,
Luzindo se via
A vítrea cangalha
Que a vista auxilia.

Num lado da penca,
Em alto degrau,
Sereno cantava
Audaz Pica-pau.

Da luta cansado,
Tremendo e suando,
A bola afrescava
Pitadas tomando.

As grossas c’ravelhas
Ligeiro torcia,
Na banza afinada
De novo zurzia.

— Sentada num canto,
Bochechas inchadas,
De solfa na frente,
Em notas pausadas,

De venta enfunada,
Com ar de Sultão,
A dona da casa
Tocando trombão!

— Formosa deidade,
Galante Ciprina,
— Vestida à romana —
Trajando batina,

Tapava os suspiros
De seu clarinete,
Soprando com fúria
D’um anglo paquete!

A filha mais velha
Do tal Corifeu,
Que em flauta d’um tubo
Tem fama d’Orfeu,

Melíflua tocava
No seu canudinho,
Amenos prelúdios,
Lundu miudinho.

A outra, segunda,
Dione formosa,
Impando as bochechas,
Possante e raivosa

Berrava na trompa,
Qual doida Avertana,
Mão dentro, mão fora
Da rasa campana!

Ridente menina,
Que um lustre contava,
Roliça baqueta
Airosa empunhava.

Nos pratos batia,
Malhava o zabumba,
Num moto-contínuo
De bumba-catumba!

No meio da bulha,
Que os ares feria,
O velho, de gosto,
Contente sorria.

A testa esfregava
Co’a destra enrugada,
Nas largas ventrechas
Sorvia a pitada.

Com voz de soprano,
Fazendo trejeitos,
Alegre exclamava,
Batendo nos peitos:

“— Maestros famosos
“Da Grécia não temo,
“Nem Chinas ou Persas
“Da raça do demo.

“A todos confundo
“Com meu rebecão,
“Que ronca e rebrame,
“Qual fero trovão!

“Ferindo estas cordas
“Bezerros imito,
“Grunhido de porcos,
“Berrar de cabrito;

“Zurzidos de burros
“Miados de gato,
“Coaxados de sapos
“— Em tom pizicato —.

“Oh vinde Maestros
“Da Itália e da França,
“De passo ligeiro
“Dançar contradança!

“Oh vinde Aretino,
“Mozart e Rossini,
“Deixando a rebeca
“Também Paganini!

“Que todos patetas
“Aqui ficarão,
“Ao som retumbante
“Do meu rebecão!

“Toquemos meninas,
“Faceiras Camenas,
“Valsitas, quadrilhas
“Nas brandas avenas.

“E todos alegres,
“Vibrando o compasso,
“Os nomes gravemos,
“Na lira d’um Tasso!...”