A Abóbada/III

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A Abóbada por Alexandre Herculano
Capítulo III: O Auto

Juncto a uma das columnas da igreja de Sancta Maria da Victoria estava levantado um estrado, sobre o qual se via uma grande e macissa cadeira de espaldas, feita de castanho, e lavrada de curiosos bestiães e lavores: era este o logar onde elrei devia assistir ao auto da adoração dos reis. No mesmo estrado havia varios assentos rasos para nelles se assentarem os fidalgos e cavalleiros que o acompanhavam. Defronte do estrado e collocado ao pé do arco da capella do fundador corria para um e outro lado da parede um devoto presepio, [1] mui erguido do chão, e representando serranias agrestes, ao sopé das quaes estava armada uma especie de choça, onde sobre a tradicional manjadoura se via reclinado o menino Jesus, e de joelhos juncto delle a Virgem e S. José, acompanhados de varios anjos, em acto de adoração. Diante da cabana corria, no mesmo nivel, um largo e grosseiro cadafalso de muitas táboas, para o qual, por um dos lados, davam serventia duas grossas e compridas pranchas de pinho, por onde deviam subir as personagens do auto.

Tanto que elrei saíu da porta do cruzeiro que dá para a sacristia, encaminhou-se pela igreja abaixo, e veio assentar-se na cadeira de espaldas, conduzido por Fr. Lourenço, que com todos os modos de homem cortezão offereceu os assentos rasos aos demais cavalleiros e fidalgos.

Pela mesma porta da sacristia saíram logo as primeiras figuras do auto, que, descendo ao longo da nave, subiram ao cadafalso pelas pranchas de que fizemos menção.

Estas primeiras figuras eram seis, formando uma especie de prologo ao auto. Tres que vinham adiante representavam a Fé, a Esperança, e a Caridade: após ellas vinham a Idolatria, o Diabo, e a Suberba; todas com suas insignias mui expressivas e a ponto; mas o que enlevava os olhos da grande multidão dos espectadores era o Diabo, vestido de pelles de cabra, e com um rabo que lhe arrastava pelo tablado, e seu forcado na mão, mui vistoso e bem posto. Feitas as venias a elrei, a Idolatria começou seu arrazoado contra a Fé, queixando-se de que ella a pretendia esbulhar da antiga posse em que estava de receber cultos de todo o genero-humano, ao que a Fé acudia com dizer que ab initio estava apontado o dia em que o imperio dos idolos devia acabar, e que ella Fé não era culpada de ter chegado tão asinha esse dia. Então o Diabo vinha lamentando-se de que a Esperança começasse de entrar nos corações dos homens; que elle Diabo tinha jus antiquissimo de desesperar toda a gente; que se dava ao démo por vêr as perrarias que a Esperança lhe fazia; e com isto careteava com taes momos e tregeitos, que o povo ria a rebentar, o mais devotamente que era possivel. Ainda que o Diabo fizesse de truão da festa, nem por isso a sua contendora, a Esperança, dava descargo de si com menos compostura do que a tão honrada virtude cumpria, dizendo que ella obedecia ao senhor de toda las cousas, e que este vendo e considerando os grandes desvairos que pelo mundo íam, e como os homens se arremessavam desacordadamente no inferno, a mandára para lhes apontar o direito caminho do céu; e por aqui seguia com razões mui devotas e discretas, que moveriam a devotissimas lagrymas os ouvintes, se a devoto riso os não movesse o Diabo com seus tregeitos e visagens, como, com bastante agudeza, reflecte o auctor da antiga chronica, de que fielmente vamos transcrevendo esta veridica historica. A Suberba, que estava impando, ouvidas as razões da Esperança, travou della mui rijo, e com voz torvada e rosto acceso, começou de bradar, que esta dona era sandía, porque entendera enganar os homens com vaidades de incertos futuros, e sustenta-los com fumo; que pretendia contra toda a ordem de boa razão, que a gente vil houvesse igual quinhão no céu com os senhores e cavalleiros, o que era descommunal ousadia, e fóra da geral opinião e direito, indo por aqui discursando com remoques mui orgulhosos, como a Suberba que era. Não soffreu, porém, o animo da Caridade tão descomposto razoar da sua figadal inimiga, e lh’o atalhou com tomar a mão naquelle ponto, e notar que os filhos de Adão eram todos uns aos olhos do Todo-Poderoso; que a Suberba inventára as vans distincções entre os homens, e que á vida eternal mais amorosamente eram os pequenos e humildosos chamados, do que os potentes, o que provou claramente á sua contraria com bastos textos das sanctas escripturas, de que a Suberba ficou mui corrida, por não ter contra tão grande auctoridade resposta cabal. E acabado o dizer da Caridade, um anjo subiu ao cadafalso, para dar sua sentença, que foi mandar recolher ao abysmo a Idolatria, o Diabo e a Suberba, e annunciar ás tres virtudes que as ía elevar ao céu, onde reinariam em gloria perduravel. Então o Diabo, fazendo horribilissimos biocos, pegou pelas mãos ás duas companheiras, e fugiu pela igreja fóra com grandes apupos e doestos dos espectadores. Guiando as tres virtudes, o anjo (por uma daquellas liberdades scenicas que ainda hoje se admittem, quando, nas vistas de marinha, o actor, que vem embarcado, desce dois ou tres degráus das ondas de papelão para a terra de soalho) em vez de subir ao céu, como annunciára, desceu pelas pranchas, que davam para o pavimento da igreja, e caminhando ao longo da nave se recolheu á sacristia, acompanhado da Fé, Esperança e Caridade, tão victoriadas pelos espectadores, como apupado fôra o Diabo e as suas infernaes companheiras.

Ainda bem não eram recolhidas estas figuras, quando, pela mesma porta do cruzeiro, saíram os tres reis magos, ricamente vestidos ao antigo, com roupas talares de fina téla, mantos reaes, e corôas na cabeça. Adiante vinha Balthasar, homem já velho, mas bem disposto de sua pessoa, com aspecto grave e auctorisado, e com umas barbas, posto que brancas, bem povoadas: logo após elle vinha o rei Belchior, e a este seguia-se Gaspar: traziam todos suas bocetas, em que eram guardados os preciosos dons, que ao recem-nascido vinham de longes terras offertar. Subindo ao cadafalso, disseram como uma estrella os guiára até Jerusalem, e como desta cidade, depois de mui trabalhado e duvidoso caminho, tinham acertado em vir a Bethlem, e com grande folgança encontravam ahi o presepe, para fazer seu offertorio, o que em verdade era cousa mui piedosa d’ouvir. O rei Balthasar, como mais velho e sisudo, foi o primeiro que ajoelhou juncto do presepe, e com voz mui entoada, e depondo ante o menino seus presentes, disse:

Sancto filho de David,
    Divinal

Salvador da triste raça
    Humanal,
Que descestes lá do assento
    Celestial;
Vós da gloria imperador
    Eternal,
Acceitae este offertorio
    Não real,
Pobre si. É quanto posso:
    Não hei al.
O que fôra compridoiro
    De auto tal
Bem o sei. Andei más vias,
    Por meu mal;
Que dez dias prantei tendas
    De arrayal
Nas soidões fundas d'Arabia,
    Mui fatal.
Meus camellos ha tisnado
    Sol mortal;
E um, de vento do deserto,
    Vendaval.
O presente, que ahi vêdes,
    Pouco vai;
É somente algum incenso
    Oriental;
Que o thesouro que eu trazia,
    Mui cabal,

Soterrou-mo a tempestade
    No areal.

E com isto o veneravel rei Balthasar, depois de fazer sua oração em voz baixa, ergueu-se; e o rei Belchior, ajoelhando e depondo a urna que trazia nas mãos ante o presepe, disse:

      Vindo sou Iá do Cataio
      A adorar-vos alto infante,
         Redemptor:
      Não me poz na alma desmaio
      Ser de lerra tào distante
         Rei, senhor!
      É bem torva a minha lace:
      Minhas mãos tingidas são
         De negrura;
      Mas na terra onde o sol nace
      Mais se cobre o coração
         De tristura;
      Porque o torpe Mafamede
      Sua crença mui sandia
         Mandou lá;
      E não ha quem della arrede
      Essa gente, que aperfia
         Em ser má.

Real tronco de Jessé
      Mui fermoso, se eu podéra
         Vos levára;
      E comvosco á vossa fé
      Os incréus eu convertêra,
         E os salvára.
      Ora quero vêr se peito
      São José, que é vosso padre ….

Um sussurro, que começára no momento em que o rei preto ajoelhou, e que mal deixára ouvir a precedente loa (obra mui prima de certo leigo, affamado jogral daquelle tempo) cresceu neste momento a tal ponto, que o corista, que fazia o papel de Belchior, não pôde, continuar, com grande dissabor do poeta, que via murchar a corôa de louros, que neste auto esperava obter. O povo agitava-se, e do meio delle saíam gritos descompostos, que augmentavam o tumulto. Elrei tinha-se erguido, e junctamente os demais cavalleiros e fidalgos: todos indagavam a origem do motim; mas não havia acertar com ella. Emfim, um homem rompendo por entre a multidão, sem touca na cabeça, cabellos desgrenhados, bôca torcida e cuberto de escuma, olhos esgazeados, saltou para dentro da têa, que fazia um claro em roda do tablado. Apenas se viu dentro daquelle recincto, ficou immovel, com os braços estendidos para o tecto, as palmas das mãos voltadas para cima, e a cabeça encolhida entre os bombros, como quem cheio de horror via sobre si desabar aquellas altissimas e macissas arcarias.

“Mestre Ouguet!—­exclamou elrei espantado.

“Mestre Ouguet!—­gritou Fr. Lourenço, com todos os signaes de assombro.

“Mestre Ouguet!—­repetiram os cavalleiros e fidalgos, para tambem dizerem alguma cousa.

“Quem fala aqui no meu nome?—­rosnou David Ouguet, com uma voz comprimida e sepulchral.—­Malvados! Querem assassinar-me?! Querem arrojar sobre mim esse montão de pedras, como se eu fôra um cão judeu, que merecesse ser apedrejado?! Oh meu Deus, salvae a minha alma!”—­E depois de um breve silencio, em que pareceu tomar fôlego:—­ “Não vos chegueis ahi!—­bradou elle.—­Não vedes essas fendas profundas como o caminho do inferno? São escuras: mas atravez dellas lá enxergo eu o luar! Vós não, porque vossos olhos estão cegos ... porque o vosso bom nome não se escoa por lá!... Cégos? Não vós!... mas elle!... Elle é que se ri e folga em sua orgulhosa suberba! Vêde como escancára aquella bôca hedionda; como revolve, debaixo das palpebras cubertas de vermelhidão, aquelles olhos embaciados!... Maldicto velho, foge diante de mim!... Maldicto, maldicto!... Curvada ja no centro ... sentia-a escaliçar e ranger... Estavas tu assentado em cima della? Feiticeiro!... Anda, que eu bem ouço as tuas gargalhadas!... Não ha um raio que te confunda?.. Não!”

Dizendo isto, mestre Ouguet cubriu a cara com as mãos, e ficou outra vez immovel.

Elrei, os cavalleiros, os padres mais dignos, que estavam de roda do estrado real, os reis magos, os populares, todos olhavam pasmados para o architecto que assim interrompêra a solemnidade do auto. Um silencio profundo succedêra ao ruído, que a apparicào daquelle homem desvairado excitara. Milhares de olhos estavam fitos nesse vulto, que semelhava uma larva de condemnado saída das profundezas para turbar a festa religiosa. Por mais de um cérebro passou este pensamento: em mais de uma cabeça os cabellos se eriçaram de horror; mas dos que conheciam mestre Ouguet nenhum duvidou de que fosse elle em corpo e alma. Que proveito tiraria o demonio de tomar a figura do architecto para fazer uma das suas irreverentes diabruras? Só uma supposição havia, que não era inteiramente desarrazoada; David Ouguet podia estar possesso, em consequência de algum grave peccado; peccado que talvez tivesse escondido na ultima confissão, que fizera na vespera de Natal. Isto era possivel, e até natural; que não vivia elle a mais justificada vida. Suppôr que endoudecêra parecia grande desproposito; porque nenhum motivo havia para tal lhe acontecer, quando merecêra os gabos d’elrei e de todos, por ter levado a cabo a grandiosa obra que lhe estava encommendada. Estes e outros raciocinios, hoje ridículos, mas segundo as idéas daquella epocha hem fundados e correntes, fazia o reverendo padre procurador Fr. Joanne, que tinha vindo assistir ao auto, e estava em pé atraz do estrado, e perto de Fr. Lourenço Lamprêa. Revolvendo taes pensamentos, no meio daquelle silencio ancioso em que todos estavam, não pôde ter-se que, pé ante pé, se não chegasse ao prior, e lh’os communicasse em voz baixa, e ao ouvido.

“Não vou fóra disso:”—­respondeu o prior, que, emquanto o outro frade lhe falára, estivera dando á cabeça em signal de approvação.—­“O olhar espantado, o escumar, o estorcer os membros, o falar não sei de que feiticeiro; tudo me induz o crer que o demonio se chantou naquelle miseravel corpo, como vós aventaes. Se assim é, pouco juizo mostrou desta vez o diabo em vir com seus esgares e tropelias atalhar o mui devoto auto da adoração. Examinemos se assim é, eu vo-lo darei bem castigado.”

Dizendo isto, Fr. Lourenço chegou-se a el-rei, e disse-lhe o que quer que foi. Elle escutou-o attentamente, e tanto que o prior acabou, sentou-se outra vez na sua cadeira de espaldas, e fez signal com a mão aos fidalgos e cavalleiros para que tambem se assentassem.

Fr. Lourenço, acompanhado de mais alguns frades, subiu pela igreja acima, e entrou na sacristia: todos ficaram esperando, silenciosos e immoveis como mestre Ouguet, o desfecho desta scena, que se encaixava no meio das scenas do auto.

Tinham passado obra de tres credos, quando, saindo outra vez da porta da sacristia, Fr. Lourenço voltou pela igreja abaixo, revestido com as vestes sacerdotaes, cbegou á têa, abriu-a, e encaminhou-se para mestre Ouguet. Depois, olhando de roda, e fazendo um aceno de aucloridade, disse:

“Ajoelhae, christãos, e orae ao Padre Eterno por este nosso irmão, tomado do espirito immundo.”

A estas palavras, rei, cavalleiros, frades, povo, tudo se poz de joelhos. E ouvia-se ao longo das naves o sussurro das orações.

Só mestre Ouguet ficou sem se bulir com o rosto mettido entre as mãos.

O prior lançou a estola á roda do pescoço do possesso, e queria atar os tres nós do ritual; mas o paciente deu um estremeção, e tirando as mãos da cara, fez um gesto de horror, e gritou:

“Frade abominável, tambem tu és conluiado com o cégo?”

“Não ha duvida!—­disse por entre os dentes o prior:—­mestre Ouguet está endemoninhado.”

Tirando então da manga um pergaminho, em que estavam escriptas varias cousas de doutrina, o poz sobre a cabeça do mestre, fazendo sobre elle tres vezes o signal da cruz.

David Ouguet soltou então uma destas risadas nervosas, que horrorisam, e que tão frequentes são quando o padecimento moral sobrepuja as forcas da natureza.

“Cão tinhoso—­bradou Fr. Lourenço—­espirito das trevas, enganador, maldicto, luxurioso, insipiente, ebrio, serpe, vibora, vil e refece demónio, emfim, castelhano[2]. Em nome do creador e senhor de todas las cousas, te mando que repitas o credo, ou sáias deste miseravel corpo.”

Mestre Ouguet ficou immovel e calado.

“Não cedes?!”—­proseguiu o prior—­“Recorrerei ao septimo, ao mais terrivel exorcismo. Veremos se poderás a teu salvo escarnecer das creaturas feitas á imagem e semelhança de Deus.”

Depois de varias ceremonias e orações, Fr. Lourenço chegou-se ao pobre irlandez, e começou a repetir o conjuro, fazendo-lhe uma cruz sobre a testa a cada uma das seguintes palavras, que proferia lentamente:

"Hel—Heloym—Heloa—Sabaoth—Helyon—Esereheye—Adonay—Iehova—
Ya—Thetagrammaton—Saday—Messias—Hagios—Ischiros—Otheos—
Athanatos—Sother—Emanuel—Agla—……

“Jesus!”—­bradou a uma voz toda a gente que estava na igreja.

“Diabo!”—­gritou mestre Ouguet; e caíu no chão como morto.

E houve um momento de angustia e terror, em que todos os corações deixaram de bater, e em que todos os olhos, braços e pernas ficaram fixos como se fossem de bronze.

Um ruído semelhante ao de cem bombardas, que se houvessem disparado dentro do mosteiro, e que soára da banda da sacristia, tinha arrancado aquelle grito de mil bôcas, e tinha convertido em estatuas essa multidão de povo.

Ha situações tão violentas, que se durassem, a morte se lhes seguiria em breve; mas a providente natureza parece restaurar com dobrada energia o vigor physico e espiritual do homem depois destes abalos espantosos; e então, melhor que nunca, elle sente em si que, posto que despenhado, não perdeu a sublimidade da sua origem divina. A reacção segue a acção; e quanto mais timido o individuo se mostrou, mais viva é a consciência da propria força, que depois disso renasce com o destemor e ousadia.

Foi o que succedeu a D. João I, aos cavalleiros do seu sequito, e ao povo que estava na igreja de Sancta Maria, passado aquelle instante de sobrenatural pavor. A terribilidade da ceremonia que Fr. Lourenço practicava; o ruído inesperado que rompêra o exorcismo; o grito blasphemo do architecto, no momento de cahir por terra; o logar; a hora, eram cousas que, reunidas, fariam pedir confissão a uma grande manada de philosophos encyclopedistas, e que por isso, não é de admirar fizessem uma impressão vivissima em homens de um seculo, não só crente, mas tambem supersticioso. Todavia o animo indomavel do Mestre d’Aviz brevemente fez cobrar alento a todos os que ahi estavam.

“É, em verdade, descommunal maravilha o que temos visto e ouvido—­disse elle com voz firme, voltando-se para os que o rodeavam;—­mas cumpre indagar d’onde procede o ruído que veiu interromper o mui devoto padre prior no exercicio de seu ministerio tremendo. Soou esse medonho estampido da banda do claustro: vamos examinar o que seja: se diabolico, estamos na casa de Deus, e a cruz é nosso amparo: se natural, que haverá no mundo capaz de pôr espanto em cavalleiros portuguezes?”

Dizendo isto, elrei desceu do estrado, e encaminhou-se para a sacristia. Os cavalleiros da comitiva, os frades, os tres reis magos (que ainda estavam em pé sobre o tablado) e uma grande parte do povo tomaram o mesmo caminho.

Elrei ía adiante, e o prior era o que mais de perto o seguia. Cruzaram o arco gothico, que dava communicação para a sacristia: ahi tudo estava em silencio: uma lampada que pendia do tecto dava uma luz frouxa e mortiça, e a esta luz incerta e baça encaminharam-se para a porta do capitulo. Ao chegar a ella todos recuaram de espanto, e um segundo grito soou, e veiu morrer sussurrando pelas naves da igreja quasi deserta:

“Jesus!”

As portas haviam estourado nos seus grossissimos gonzos, e muito cimento solto e pedras quebradas tinham rolado pelo portal fóra, entulhando-lhe quasi um terço da altura. Olhando para o interior daquella immensa quadra não se viam senão enormes fragmentos de cantos lavrados, de laçarias, de cornijas, de voltas e de relevos: a lua, que passava tranquilla nos céus, reflectia o seu clarão pallido sobre este montão de ruinas semelhantes aos monumentos irregulares de um cemiterio christão; e por cima daquelle temoroso silencio passava o frio leste da noite, e vinha bater nas faces turbadas dos que apinhados na sacristia contemplavam este lastimoso espectaculo. Dos olhos d’elrei e de Fr. Lourenço cahiram algumas lagrymas, que elles debalde tentavam reprimir.

A abobada do capitulo, acabada havia vinte e quatro boras, tinha desabado em terra!


  1. Presepio, ou presepe, significa propriamente um estabulo, ou estrebaria; mas a accepção vulgar desta palavra é a de uma especie de embrechado, ou paizagem de vulto, representando a choça de Belém, em que nasceu o Salvador.
  2. O inquisidor Sprenger, no livro intitulado Mallens Maleficarum, recommenda aos exorcistas que antes de tudo descomponham e injuriem quanto poderem os possessos, advertindo que não são propriamente estes que recebem as affrontas, mas sim o diabo, que tem no corpo. A conveniencia de taes doestos é que para o demonio, pae da suberba, não póde haver maior pirraça do que ser descomposto na sua cara, sem que elle se possa desaggravar. Veja-se o livro citado, edição de Lyão de 1604—­Tom. 3. pág. 83.