A Alma do Lázaro/II/I

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A Alma do Lázaro por José de Alencar
Segunda Parte: O Diário, 7 de março de 1752

Estou só no mundo.

Minha mãe morreu... Pobre mãe!... Antes assim! Devias sofrer muito a ver teu filho asco e horror da gente... Mas por que me deixaste neste vale de lágrimas?

Minha alma morreu contigo. Vivem as úlceras que devoram estes restos de corpo, sobejo da enfermidade terrível! Sem ti, que me consolavas, que sofrias comigo da minha angústia, que vai ser de mim neste exílio?...

Resta-me uma irmã.

Foi... Agora tem outra família. Ela me quer, bem sei, e com amor. Mas sou um estranho para os seus. Meto-lhe medo. Não por ela... Por seus filhos. E tem razão.

Tu só, mãe, não tinhas nojo de meu hálito de peste! Tu só não te arreceavas do fogo que me abrasa o sangue! Tu só não me abandonaste enquanto o Senhor não te chamou!

Devia chamar-nos a ambos.

A quem direi agora a minha dor, se tu não estás aqui para ouvi-la? Ao vento, para levá-la á gente que me escarnece?... Sim, ao vento! Fossem peçonha minhas palavras, que eu as cuspiria sobre eles sem dó, como dó não tiveram do mísero, de mim.

Perdoai-me, Senhor!... Menti! Eles não me fizeram nenhum mal. Que culpa têm do castigo que pesa sobre o infeliz?...

Quando estavas ao meu lado, mãe, eras alívio ao meu padecimento. Meu gemido ia ao teu coração; e por não te ver sofrer, eu sofria menos.

Vi-te pela última vez.

A terra abriu-se para roubar-te aos meus braços. Se não me tivessem arrancado!... Eu dormiria em teu seio o último sono como dormi o primeiro, feliz e tranqüilo.

Este anel de cabelos é tudo que me resta de ti. Mas tu vives em minha alma.

Eu te sinto em mim. Falo-te; me respondes.