A Alma do Lázaro/II/XI

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A Alma do Lázaro por José de Alencar
Segunda Parte: O Diário, 22 de março de 1752

Decorei finalmente as endeixas que tamanha impressão me fizeram, da primeira vez que as ouvi, pela sua singeleza

A menina canta-as todas as noites, ao nascer da estrela d'alva. É uma Ave-Maria graciosa e pura; inspirou-a o amor filial santificado pela religião.

Tornei a ouvi-la ontem, e hoje ainda ouço o eco a murmurejar-me dentro d'alma.

Quero escrevê-la.

Os homens ricos de prazeres e afeições, desfloram apenas as suas alegrias; quando o quisessem, não teriam tempo de estancar-lhes a última gota de essência.

Fazem como as crianças que babujam e provam de todos os frutos, e de nenhum se fartam.

Esses pródigos de sua alma não compreendem decerto a usura dos pobres e deserdados, como eu, quando Deus lhes depara no deserto da vida com um óbolo de prazer.

Avaro de sua migalha, que lhe é tesouro, não se cansa de a gozar; vive nela, sonha dela. Quer senti-la por todos os modos e a todos os instantes.

Assim fui eu com aqueles versos, que muitos acharão mesquinhos; mas, ou fosse pela voz harmoniosa que os dissera, ou pelo desvelo e saudade que respiravam, ou pela cadência suave do ritmo; me infundiram não sei que doce melancolia.

É outra Cousa que os felizes não compreendem. Como a melancolia é supremo júbilo para as almas imersas num continuado descrer e numa acerba tristeza.

Mas a canção... Não me saciei de a escutar, de a recordar, de a repetir às vagas que rumorejavam na praia. Quero senti-la pelos olhos. Já a ouvi tantas vezes, ainda não a vi.

Esquecer-me-ia?...

Não! — lembro-me...

Ave, Maria! Ave, estrela,
Formosa estrela do mar!
Dá-me novas de meu pai,
Que se foi a navegar.
Por esses mares dalém
Vai seu brigue a bolinar.
— Leme á orça! Molha a vela!
E deixa o vento soprar.
A borrasca o não assusta:
Não se teme de afrontar;
Mas eu que temo por ela
Vivo somente a rezar.
Fio de ti, minha estrela,
Que o protejas sem cessar.
Faz que bem cedo ele possa
A minha mie abraçar.
Dá-lhe tempo de bonança,
Mares de leite a surcar;
Vento á feição, quanto baste
Para depressa chegar.
Ave, Maria! Ave, estrela,
Formosa estrela do mar!
Cheia de graça tu brilhas
A quem te sabe adorar.

Onde aprendeu aquela menina esta oração?... Quem lha ensinou? Por que a diz ela todas as noites?