A Carne/II

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A Carne por Júlio Ribeiro
Capítulo II

Pior do que na cidade, horrível foi a princípio o isolamento de Lenita na fazenda.

A velha octogenária, além de entrevada, era muito surda. O coronel Barbosa, pouco mais moço do que a mulher, sofria de reumatismo, e, às vezes, passava dias e dias metido na cama. O filho, o divorciado, estava caçando havia meses no Paranapanema.

O trabalho da fazenda era dirigido por um administrador caboclo, homem afável, mas ignorantíssimo sobre tudo o que não dizia com a lavoura.

Lenita comia quase sempre só na vastíssima varanda; depois de almoçar ou de jantar ia conversar com o coronel, e fazia esforços incríveis para conseguir fazer-se ouvir da velha que, resignada e risonha, aumentava com a mão trêmula a concha da orelha para apanhar as palavras.

Tal entretenimento cansava a moça, e ela recolhia-se logo aos seus cômodos para ler, para procurar distrair-se.

Tomava um livro, deixava; Tomava outro, deixava; era impossível a leitura.

Apertava-lhe, constringia-lhe o ânimo a lembrança do pai. E tudo lhe fazia lembrar - uma passagem marcada a unha em um livro, uma folha dobrada em outro.

Saía, ia de novo conversar, tornava a voltar, tomava a sair, era um inferno.

A mulher do administrador, carinhosa já por índole, recebera do patrão recomendações especiais a respeito de Lenita.

A todo o momento eram copos de leite quente, copos de garapa, café, doces, frutas.

Lenita ora recusava, ora aceitava uma ou outra coisa, indiferentemente, só por comprazer à boa mulher.

O coronel Barbosa dera a Lenita uma sala independente, um quarto amplo com duas janelas e uma alcova; pusera-lhe às ordens, para seu serviço especial, uma mulatinha esperta, de alta trunfa e cor deslavada, e também um molecote acaboclado, risonho, de dentes muito brancos.

Lenita, por vezes, passava horas e horas à janela, contemplando as pendências da fazenda.

Estava esta a meia encosta de um outeiro a cuja balda corria um ribeirão. Em frente estendia-se o grande pasto. A monotonia de verdura clara era quebrada aqui e ali pelo sombrio da folhagem basta de alguns paus-d'alho, deixados propositadamente para sombra, e pelo amarelo sujo das reboleiras de sapé. Ao fundo, de um lado, em corte brusco, a mata virgem, escura, acentuada, maciça quase, confundindo em um só tom mil cores diversíssimas; de outro em colinas suaves, o verde-claro alegre e uniforme dos canaviais agitados sempre pelo vento; mais além, os cafezais alinhados, regulares, contínuos, como um tapete crespo, verde-negro, estendido pelo dorso da morraria. Em um ou outro ponto, a terra roxa de pedra de ferro, desnudada, punha uma nota estrídula de vermelho-escuro, de sangue coagulado.

E sobre tudo isso, azul, diáfano, puro, cetinoso, recurvava-se o céu em uma festa de luz branca, vivificante, mordente...

Quando se embruscava o tempo a paisagem mudava: o céu pardacento, carregado de nuvens plúmbeas, como que se abaixava, como que queria afogar a terra. O revestimento verde perdia o brilho, empanava-se, amortecia em um desfalecimento úmido.

Lenita deu em sair, em passear pelas cercanias, ora a pé, acompanhada pela mulata, ora a cavalo, seguida pelo rapazinho.

Mas o exercício, a pureza do ar, a liberdade do viver da roça, nada lhe aproveitou.

Uma languidez crescente, um esgotamento de forças, uma prostração quase completa ia-se apoderando de todo o seu ser: não lia, o piano conservava-se mudo.

Com a morte do pai, parecia ter-se-lhe transformado a natureza: já não era forte, já não era viril como em outros tempos. Tinha medo de ficar só, tinha terrores súbitos.

Ia para o quarto da entrevada, recostava-se em uma cadeira preguiçosa e aí se deixava ficar quieta horas e horas, mal respondendo às perguntas solícitas do coronel.

Quando voltava para os seus aposentos, tomada em caminho por um pavor inexplicável, agarrava-se trêmula à mulata.

Não podia comer, tinha um fastio desolador, cortado por desejos violentos de coisas salgadas, de coisas extravagantes.

Sobrevieram-lhe salivações constantes, vômitos biliosos quase incoercíveis.

Uma manhã não se pôde levantar.

Acudiram apressados o coronel e a mulher do administrador; abeiraram-se do leito, instando com a enferma para que tomasse um chá de erva-cidreira, um remédio qualquer caseiro, enquanto não vinha o médico que se tinha mandado chamar a toda a pressa.

Quando este chegou estava Lenita abatidíssima: emaciada, lívida, com os olhos afundados em uma auréola cor de bistre, comprimia o peito, estertorava sufocada. Uma como bola subia-lhe do estômago, chegava-lhe à garganta, estrangulava-a. No alto da cabeça, um pouco para a esquerda tinha uma dor circunscrita, fixa, lancinante, atroz: era como se um prego aí estivesse cravado.

E seu sistema nervoso estava irritadíssimo: o mais ligeiro ruído, o jogo de luz produzido pelo abrir da porta arrancava-lhe gritos.

O doutor Guimarães, médico já velho, de fisionomia inteligente e bondosa, aproximou-se da cama, examinou a enferma detidamente, em silêncio, sem tomar-lhe o pulso, sem incomodá-la na mínima coisa, baixando-se muito, com as mãos cruzadas nas costas, para ouvir-lhe a respiração, para escutar-lhe os gemidos, para atentar-lhe nas contrações da face.

— Quando começou isto, coronel? perguntou.

— Doente tem ela estado desde que aqui chegou, mas assim, ruim, é só hoje.

— Sufoco! acudam-me! gritou de repente Lenita e, revolvendo-se, escoucinhando, dilacerava a camisa com as mãos ambas, arranhava o peito. Um rubor súbito, vivíssimo, colorira-lhe o rosto, brilhavam-lhe os olhos de modo insólito.

— Sei o que isto é, disse o médico; tenho pela frente um conhecido velho, não me dá cuidado, volto já.

E saiu.

Poucos minutos depois reapareceu, trazendo uma seringuinha de Pravaz.

— Dê-me o braço, minha senhora, vou fazer-lhe uma injeção, e verá como daqui a pouco nada mais há de sentir.

Lenita estendeu a custo o braço nu, e o doutor, tomando-o, pôs-se a beliscá-lo morosamente, demoradamente, em um lugar só, na altura do bíceps; depois segurando a parte malaxada entre o dedo índice e o polegar da mão esquerda, com a direita fez penetrar por baixo da pele a agulha do instrumento e, calcando no cabo do pistão, injetou todo o conteúdo do tubo de vidro.

Lenita, apesar de seu estado de irritabilidade nervosa, nem pareceu sentir.

O efeito foi pronto. Dentro de pouco tempo as faces descoraram, cessaram as crispações nervosas dos membros, cerraram-se os olhos, e um suspiro de alívio entumeceu-lhe o peito.

Adormeceu.

— Deixemo-la assim, disse o médico, deixemo-la dormir, quando acordar estará boa. Todavia vou receitar: não dispenso para estes casos o meu brumoreto de potássio.

E saíram nos bicos dos pés. Junto de Lenita ficou a mulher do administrador.