A Cidade e as Serras/IX

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A Cidade e as Serras
por Eça de Queirós


Cedo, de madrugada, sem rumor, para não despertar o meu Jacinto, que, com as mãos cruzadas sobre o peito, dormia beatificamente na sua enxerga de granito - parti para Guiães.

Ao cabo duma semana, recolhendo uma manhã para o almoço, encontrei no corredor as minhas malas tão desejadas, que um moço do casal da Giesta trouxera num carro com “recados do sr. Pimentinha”. O meu pensamento pulou para o meu Príncipe. E lancei pelo telégrafo, para Lisboa, para o Hotel Bragança, este brado alegre: - “Estás lá? Sei recuperaste Grilo e Civilização! Hurra, Abraço!” - Só depois de sete dias, ocupados numa delicada apanha de aspargos com que outrora civilizara a horta da tia Vicência, notei o silêncio de Jacinto. Num bilhete postal renovei, desenvolvi o grito amigo: - “E tornam desatento e mudo? Eu, todo aspargos! Responde, quando chegas? Tempo delicioso! 23º à sombra. E os ossos?” - Veio depois a devota romaria da Senhora da Roqueirinha. Durante a Lua-nova andei num corte de mato, na minha terra das Corcas. A tia Vicência vomitou, com uma indigestão de morcelas. E o silêncio do meu Príncipe era ingrato e ferrenho.

Enfim, uma tarde, voltando da Flor da Malva, de casa da minha prima Joaninha, parei em Sandofim, na venda do Manoel Rico, para beber de certo vinho branco que a minha alma conhece - e sempre pede.

Defronte, à porta do ferrador, o Severo, sobrinho do Melchior de Tormes e o mais fino alveitar da serra, picava tabaco, escarranchado num banco. Mandei encher outro quartinho: ele acariciou o pescoço da minha égua que já salvara dum esfriamento; e como eu indagasse do nosso Melchior, o Severo contou que na véspera jantara com ele em Tormes, e se abeirara também do fidalgo...

-Ora essa! Então o sr, D.Jacinto está em Tormes?

O meu espanto divertiu o Severo:

-Então V. Exª... Pois em Tormes é que ele está, há mais de cinco semanas, sem arredar! E parece que fica para a vindima, e vai lá uma grandeza!

Santíssimo nome de Deus! Ao outro dia, Domingo, depois da missa e sem me assustar com a calma que carregava, trotei alvoroçadamente para Tormes. Ao latir dos rafeiros, quando transpus o portal solarengo, a comadre do Melchior acudiu dos lados do curral, com um alguidar de lavagem encostado à cintura. - Então o sr. D. Jacinto?... O sr. D. Jacinto andava lá para baixo, com o Silvério e com o Melchior, nos campos de Freixomil...

-E o sr. Grilo, o preto?

-Há bocadinho também o enxerguei no pomar, com o francês, a apanhar limões doces...

Todas as janelas do solar rebrilhavam, com vidraças novas, bem polidas. A um canto do pátio notei baldes de cal e tigelas de tintas. Uma escada de pedreiro descansara durante o dia Santo arrimada contra o telhado. E, rente ao muro da capela, dois gatos dormiam sobre montões de palha desempacotada de caixotes consideráveis.

-Bem - pensei eu. - eis a Civilização!

Recolhi a égua, galguei a escada. Na varanda, sobre uma pilha de ripas, reluzia num raio de Sol uma banheira de zinco. Dentro encontrei todos os soalhos remendados, esfregados a carqueja. As paredes, muito caiadas, e nuas, refrigeravam como as dum convento. Um quarto, a que me levaram três portas escancaradas com franqueza serrana, era certamente o de Jacinto: a roupa pendia de cabides de pau; o leito de ferro, com coberta de fustão, encolhia timidamente a sua rigidez virginal a um canto, entre o muro e a banquinha onde de um castiçal de latão resplandecia sobre um volume do S. Quixote; no lavatório pintado de amarelo, imitando bambu, apenas cabia o jarro, a bacia, um naco gordo de sabão; e uma prateleirinha bastava ao esmerado alinho da escova, da tesoura, do pente, do espelhinho de feira, e do frasquinho de água de alfazema que eu mandara de Guiães. As três janelas, sem cortinas, contemplavam a beleza da serra, respirando um delicado e macio ar, que se perfumava nas resinas dos pinheirais, depois nas roseiras da horta. Em frente, no corredor, outro quarto repetia a mesma simplicidade. Certamente a previdência do meu Príncipe o destinara ao seu Zé Fernandes. Pendurei logo dentro, no cabide, o meu guarda-pó de lustrina.

Mas na sala imensa, onde tanto filosofáramos considerando as estrelas, Jacinto arranjara um centro de repouso e de estudo - e desenrolara essa “grandeza” que impressionava o Severo. As cadeiras de verga da Madeira, amplas e de braços, ofereciam o conforto de almofadinhas de chita. Sobre a mesa enorme de pau branco, carpinteirada em Tormes, admirei um candeeiro de metal de três bicos, um tinteiro de frade armado de penas de pato, um vaso de capela transbordando de cravos. Entre duas janelas uma cômoda antiga, embutida, com ferragens lavradas, recebera sobre o seu mármore rosado o devoto peso dum Presépio, onde Reis Magos, pastores de surrões vistosos, cordeiros de esguedelhada lã, se apressavam através de alcantis para o menino, que na sua lapinha lhes abria os braços, coroado pôr uma enorme Coroa Real. Uma estante de madeira enchia outro pedaço de parede, entre dois retratos negros com caixilhos negros; sobre uma das suas prateleiras repousavam duas espingardas; nas outras esperavam, espalhados, como os primeiros Doutores nas bancadas dum concílio, alguns nobres livros, um Plutarco, um Virgílio, a Odisséia, o Manual de Epíteto, as Crônicas de Froissart. Depois, em fila decorosa, cadeiras de palhinha, muito envernizadas. E a um canto um molho de varapaus.

Tudo resplandecia de asseio e ordem. As portadas das janelas, cerradas, abrigavam do Sol que batia aquele lado de Tormes, escaldando os peitoris de pedra. Do soalho, borrifado de água, subia, na suavizada penumbra, uma frescura. Os cravos rescendiam. Nem dos campos, nem da casa, se elevava um rumor. Tormes dormia no esplendor da manhã santa. E, penetrado pôr aquela consoladora quietação de convento rural, terminei pôr me estender numa cadeira de verga junto da mesa, abrir languidamente um tomo de Virgílio, e murmurar, apropriando o doce verso que encontrara:

Fortunate Jacinthe! Hic, inter arva nota
Et fontes sacros, frigus captabis opacum...

Afortunado Jacinto, na verdade! Agora, entre campos que são teus e águas que te são sagradas, colhes enfim a sombra e a paz!

Li ainda outros versos. E, na fadiga das duas horas de égua e calor desde Guiães, irreverentemente adormecia sobre o divino Bucolista - quando me despertou um berro amigo! Era o meu Príncipe. E muito decididamente, depois de me soltar do seu rijo abraço, o comparei a uma planta estiolada, emurchecida na escuridão, entre tapetes e sedas, que, levada para o vento e o sol, profusamente regada, reverdece, desabrocha e honra a Natureza! Jacinto já não corcovava. Sobre a sua arrefecida palidez de supercivilizado, o ar montesino, ou vida mais verdadeira, espalhara um rubor trigueiro e quente de sangue renovado que o virilizava soberbamente. Dos olhos, que na Cidade andavam sempre tão crepusculares e desviados do Mundo, saltava agora um brilho de meio-dia, resoluto e largo, contente em se embeber na beleza das coisas. Até o bigode se lhe encrespara. E já não deslizava a mão desencantada sobre a face - mas batia com ela triunfalmente na coxa. Que sei? Era Jacinto novíssimo.

E quase me assustava, pôr eu ter de aprender e penetrar, neste novo Príncipe, os modos e as idéias novas.

-Caramba, Jacinto, mas então...?

Ele encolheu jovialmente os ombros realargados. E só me soube contar, trilhando soberanamente com os sapatos brancos e cobertos de pó o soalho remendado, que, ao acordar em Tormes, depois de se lavar numa dorna, e de enfiar a minha roupa branca, se sentira de repente como desanuviado, desenvencilhado! Almoçara uma pratada de ovos com chouriço, sublime. Passeara pôr toda aquela magnificência da serra com pensamentos ligeiros de liberdade e de paz. Mandara ao Porto comprar uma cama, uns cabides... E ali estava...

-Para todo o verão?

-Não! Mas um mês... Dois meses! Enquanto houver chouriços, e a água da fonte, bebida pela telha ou numa folha de couve, me souber tão divinamente!

Caí sobre a cadeira de verga, e contemplei, arregalado, quase esgazeado, o meu Príncipe! Ele enrolava numa mortalha tabaco picado, tabaco grosso, guardado numa malga vidrada. E exclamava:

-Ando aí pelas terras desde o romper de alva! Pesquei já hoje quatro trutas magníficas... Lá embaixo, no Naves, um riachote que se atira pelo vale de Seranda... temos logo ao jantar essas trutas!

Mas eu, ávido pela história daquela ressurreição:

-Então, não estiveste em Lisboa?... Eu telegrafei...

-Qual telégrafo! Qual Lisboa! Estive lá em cima, ao pé da fonte da Lira, à sombra duma grande árvore, sub tegmine não sei quê, a ler esse adorável Virgílio... e também a arranjar o meu palácio! Que te parece, Zé Fernandes? Em três semanas, tudo soalhado, envidraçado, caiado, encadeirado!... Trabalhou a freguesia inteira! Até eu pintei, com uma imensa brocha. Viste o comedouro?

-Não.

-Então vem admirar a beleza na simplicidade, bárbaro!

Era a mesma onde nós tanto exaltáramos o arroz com favas - mas muito esfregada, muito caiada, com um rodapé besuntado de azul estridente, onde logo adivinhei a obra do meu Príncipe. Uma toalha de linho de Guimarães cobria a mesa, com as franjas roçando o soalho. No fundo dos pratos de louça forte reluzia um galo amarelo. Era o mesmo galo e a mesma louça em que na nossa casa, em Guiães, se servem os feijões aos cavadores...

Mas no pátio os cães latiram. E Jacinto correu à varanda, com uma ligeireza curiosa que me deleitou. Ah, bem definitivamente se esfrangalhara aquela rede de malha que se não percebia e que outrora o travava! - Nesse momento apareceu o Grilo, de quinzena de linho, segurando em cada mão uma garrafa de vinho branco. Todo se alegrou “em ver na Quinta o siô Fernandes”. Mas a sua veneranda face já não resplandecia, como em Paris, com um tão sereno e ditoso brilho de ébano. Até me pareceu que corcovava... Quando o interroguei sobre aquela mudança, estendeu duvidosamente o beiço grosso.

-O menino gosta, eu então também gosto... Que o ar aqui é muito bom, siô Fernandes, o ar é muito bom!

Depois, mais baixo envolvendo num gesto desolado a louça de Barcelos, as faces de cabo de osso, as prateleiras de pinho como num refeitório de Franciscanos:

-Mas muita magreza, siô Fernandes, muita magreza!

Jacinto voltara com um maço de jornais cintados:

-Era o carteiro. Já vês que não amuei inteiramente com a Civilização. Eis a imprensa!... Mas nada de Fígaro, ou da horrenda Dois-Mundos! Jornais de Agricultura! Para aprender como se produzem as risonhas messes, e sob que signo se casa a vinha ao olmo, e que cuidados necessita a abelha provida.... Quid faciat laetas segetes... De resto para esta nobre educação, já me bastavam as Geórgicas, que tu ignoras!

Eu ri:

-Alto lá! Nos quoque gens sumus et nostrum Virgilium sabemus!

Mas o meu novíssimo amigo, debruçado da janela, batia as palmas - como Catão para chamar os servos, na Roma simples. E gritava:

-Ana Vaqueira! Um copo de água, bem lavado, da fonte velha! Pulei, imensamente divertido:

-Ó Jacinto! E as águas carbonatadas? E as fosfatadas? E as esterilizadas? E as sódicas?...

O meu Príncipe atirou os ombros com um desdém soberbo. E aclamou a aparição de um grande copo, todo embaciado pela frescura nevada da água refulgente, que uma bela moça trazia num prato. Eu admirei sobretudo a moça... Que olhos, dum negro tão líquido e sério! No andar, no quebrar da cinta, que harmonia e que graça de Ninfa latina!

E apenas pela porta desaparecera a esplêndida aparição:

-Ó Jacinto, eu daqui a um instante também quero água! E se compete a esta rapariga trazer as coisas, eu, de cinco em cinco minutos, quero uma coisa!... Que olhos, que corpo... Caramba, menino! Eis a poesia, toda viva, da serra...

O meu Príncipe sorria, com sinceridade:

-Não! não nos iludamos, Zé Fernandes, nem façamos Arcádia. É uma bela moça, mas uma bruta... Não há ali mais poesia, nem mais sensibilidade, nem mesmo mais beleza do que numa linda vaca turina. Merece o seu nome de Ana Vaqueira. Trabalha bem, digere bem, concebe bem. Para isso a fez a Natureza, assim sã e rija; e ela cumpre. O marido todavia não parece contente, porque a desanca. Também é um belo bruto... Não, meu filho, a serra é maravilhosa e muito grato lhe estou... Mas temos aqui a fêmea em toda a sua animalidade e o macho em todo o seu egoísmo... são porém verdadeiros, genuinamente verdadeiros! E esta verdade, Zé Fernandes, é para mim um repouso.

Lentamente, gozando a frescura, o silêncio, a liberdade do vasto casarão, retrocedemos à sala que Jacinto já denominara a Livraria. E, de repente, ao avistar num canto uma caixa com a tampa meio despregada, quase me engasguei, na furiosa curiosidade que me assaltou:

-E os caixotes? Ó Jacinto?... Toda aquela imensa caixotaria que nós mandamos, abarrotada de Civilização? Soubeste? Apareceram?

O meu Príncipe parou, bateu alegremente na coxa:

-Sublime! Tu ainda te lembras daquele homenzinho, de saco a tiracolo, que nós admiramos tanto pela sua sagacidade, o seu saber geográfico?... Lembras? Apenas falei em Tormes, gritou que conhecia, rabiscou uma nota... Nem era necessário mais! “Ó! Tormes, perfeitamente, muito antigo, muito curioso!” Pois mandou tudo para Alba de Tormes, em Espanha! Está tudo em Espanha!

Cocei o queixo, desconsolado:

-Ora, ora... Um homem tão esperto, tão expedito, que fazia tanta honra ao progresso! Tudo para Espanha!... E mandaste vir?

-Não! Talvez mais tarde... Agora, Zé Fernandes, estou saboreando esta delícia de me erguer pela manhã, e de Ter só uma escova para alisar o cabelo.

Considerei, cheio de recordações, o meu amigo:

-Tinhas umas nove.

-Nove? Tinha vinte! Talvez trinta! E era uma atrapalhação, não me bastavam!... Nunca em Paris andei bem penteado. Assim com os meus setenta mil volumes: eram tantos que nunca li nenhum. Assim com as minhas ocupações; tanto me sobrecarregavam, que nunca fui útil!

-Nove? Tinha vinte! Talvez trinta! E era uma atrapalhação, não me bastavam!... Nunca em Paris andei bem penteado. Assim com os meus setenta mil volumes: eram tantos que nunca li nenhum. Assim com as minhas ocupações; tanto me sobrecarregavam, que nunca fui útil!

De tarde, depois da calma, fomos vaguear pelos caminhos coleantes daquela Quinta rica, que, através de duas léguas, ondula pôr vale e monte. Não me encontrara mais com Jacinto em meio da Natureza, desde o remoto dia de entremez em que ele tanto sofrera no sociável e policiado bosque de Montmorency. Ah, mas agora, com que segurança e idílico amor se movia através dessa Natureza, de onde andara tantos anos desviado pôr teoria e pôr hábito! Já não receava a humildade mortal das relvas; nem repelia como impertinente o roçar das ramagens; nem o silêncio dos altos o inquietava como um despovoamento do Universo. Era com delícias, com um consolado sentimento de estabilidade recuperada, que enterrava os grossos sapatos nas terras moles, como no seu elemento natural e paterno; sem razão, deixava os trilhos fáceis, para se embrenhar através de arbustos emaranhados, e receber na face a carícia das folhas tenras; sobre os outeiros, parava, imóvel, retendo os meus gestos e quase o meu hálito, para se embeber de silêncio e de paz; e duas vezes o surpreendi atento e sorrindo à beira dum regatinho palreiro, como se lhe escutasse a confidência...

Depois filosofava, sem descontinuar, com o entusiasmo dum convertido, ávido de converter:

-Como a inteligência aqui se liberta, hem? E como tudo é animado duma vida forte e profunda!... dizes tu agora, Zé Fernandes, que não há aqui pensamento...

-Eu?! Eu não digo nada, Jacinto...

-Pois é uma maneira de refletir muito estreira e muito grosseira...

-Ora essa! Mas eu...

-Não, não percebes. A vida não se limita a pensar, meu caro doutor...

-Que não sou!

-A vida é essencialmente Vontade e Movimento: e naquele pedaço de terra, plantado de milho, vai todo um mundo de impulsos, de forças que se revelam, e que atingem a sua expressão suprema, que é a Forma. Não, essa tua filosofia está ainda extremamente grosseira...

-Irra! Mas eu não...

-E depois, menino, que inesgotável, que miraculosa diversidade de formas... E todas belas!

Agarrava o meu pobre braço, exigia que eu reparasse com reverência. Na Natureza nunca eu descobriria um contorno feio ou repetido! Nunca duas folhas de hera, que, na verdura ou recorte, se assemelhassem! Na Cidade, pelo contrário, cada casa repete servilmente a outra casa; todas as faces reproduzem a mesma indiferença ou a mesma inquietação; as idéias têm todas o mesmo valor, o mesmo cunho, a mesma forma, como as libras; e até o que há mais pessoal e íntimo, a Ilusão, é em todos idêntica, e todos a respiram, e todos se perdem nela como no mesmo nevoeiro... a mesmice - eis o horror das Cidades!

-Mas aqui! Olha para aquele castanheiro. Há três semanas que cada manhã o vejo, e sempre me parece outro... A sombra, o sol, o vento, as nuvens, a chuva incessantemente lhe compõem uma expressão diversa e nova, sempre interessante. Nunca a sua freqüentação me poderia fartar...

Eu murmurei:

-É pena que não converse!

O meu Príncipe recuou, com olhares chamejantes, de Apóstolo:

-Como que não converse? Mas é justamente um conversador sublime! Está claro, não tem ditos, nem parola teorias, ore rotundo. Mas nunca eu passo junto dele que não me sugira um pensamento ou me não desvende uma verdade... Ainda hoje quando eu voltava de pescar as trutas... Parei: e logo ele me fez sentir como toda a sua vida de vegetal é isenta de trabalho, da ansiedade, do esforço que a vida humana impõe; não tem de se preocupar com o sustento, nem com o vestido, nem com o abrigo; filho querido de Deus, Deus o nutre, sem que ele se mova ou se inquiete... E é esta segurança que lhe dá tanta graça e tanta majestade. Pois não achas?

Eu sorria, concordava. Tudo isto era decerto rebuscado e especioso.Mas que importavam as requintadas metáforas, e essa metafísica mal madura, colhida à pressa nos ramos dum castanheiro? Sob toda aquela ideologia transparecia uma excelente realidade - a reconciliação do meu Príncipe com a Vida. Segura estava a sua Ressurreição depois de tantos anos de cova, de cova mole em que jazera, enfaixado como uma múmia nas faixas do Pessimismo!

E o que esse Príncipe, nesta tarde, me esfalfou! Farejava com uma curiosidade insaciável, todos os recantos da serra! Galgava os cabeços correndo, como na esperança de descobrir lá do alto os esplendores nunca contemplados dum Mundo inédito. E o seu tormento era não conhecer os nomes das árvores, da mais rasteira planta brotando das fendas dum socalco... Constantemente me folheava como a um Dicionário Botânico.

-Fiz toda a sorte de cursos, passei pelos professores mais ilustres da Europa, tenho trinta mil volumes, e não sei se aquele senhor além é um amieiro ou um sobreiro.

-É um azinheiro, Jacinto.

Já a tarde caía quando recolhemos muito lentamente. E toda essa adorável paz do Céu, realmente celestial, e dos campos onde cada folhinha conservava uma quietação contemplativa, na luz docemente desmaiada, pousando sobre as coisas com um liso e leve afago, penetrava tão profundamente Jacinto, que eu o senti, no silêncio em que caíramos, suspirar de puro alívio.

Depois, muito gravemente:

-Tu dizes que na natureza não há pensamento...

-Outra vez! Olha que maçada! Eu...

-Mas é pôr estar nela suprimido o pensamento que lhe está poupado o sofrimento! Nós desgraçados, não podemos suprimir o pensamento, mas certamente o podemos disciplinar e impedir que ele se estonteie e se esfalfe, como na fornalha das cidades, ideando gozos que nunca se realizam, aspirando a certezas que nunca se atingem!... E é o que aconselham estas colinas e estas árvores à nossa alma, que vela e se agita: - que vive na paz dum sonho vago e nada apeteça, nada tema, contra nada se insurja, e deixe o Mundo rolar, não esperando dele senão um rumor de harmonia, que a embale e lhe favoreça o dormir dentro da mão de Deus. Hem, não te parece, Zé Fernandes?

-Talvez. Mas é necessário então viver num mosteiro, com o temperamento de S. Bruno, ou Ter cento e quarenta contos de renda e o desplante de certos Jacintos... E também me parece que andamos léguas. Estou derreado. E que fome!

-Tanto melhor, para as trutas, e para o cabrito assado que nos espera...

Bravo! Quem te cozinha?

-Uma afilhada do Melchior. Mulher sublime! Hás de ver a canja! Hás de ver a cabidela! Ela é horrenda, quase anã, com os olhos tortos, um verde e outro preto. Mas que paladar! Que gênio!

Com efeito! Horácio dedicara uma ode àquele cabrito assado num espeto de cerejeira. E com as trutas, e o vinho do Melchior, e a cabidela, em que a sublime anã de olhos tortos pusera inspirações que não são da terra, e aquela doçura da noite de Junho, que pelas janelas abertas nos envolveu no seu veludo negro, tão mole e tão consolado fiquei, que, na sala onde nos esperava o café, caí numa cadeira de verga, na mais larga, e de melhores almofadas, e atirei um berro de pura delícia.

Depois, com uma recordação, limpando o café do pêlo dos bigodes:

-Ó Jacinto, e quando nós andávamos pôr Paris com o Pessimismo às costas, a gemer que tudo era ilusão e dor?

O meu Príncipe, que o cabrito tornara ainda mais alegre, trilhava a grandes passadas o soalho, enrolando o cigarro:

-Ó! Que engenhosa besta, esse Schopenhauer! E a maior besta eu, que o sorvia, e que me desolava com sinceridade! E todavia - continuava ele, remexendo a chávena - o Pessimismo é uma teoria bem consoladora para os que sofrem, porque desindividualiza o sofrimento, alarga-o até o tornar uma lei universal, a lei própria da Vida; portanto lhe tira o caráter pungente duma injustiça especial, cometida contra o sofredor pôr um Destino inimigo e faccioso! Realmente o nosso mal sobretudo nos amarga, quando contemplamos ou imaginamos o bem do nosso vizinho: - porque nos sentimos escolhidos e destacados para a infelicidade, podendo, como ele, Ter nascido para a Fortuna. Quem se queixaria de ser coxo - se toda a humanidade coxeasse? E quais não seriam os urros, e a furiosa revolta do homem envolto na neve e friagem e borrasca dum Inverno especial, organizado nos Céus para o envolver a ele unicamente - enquanto em redor, toda a Humanidade se movesse na luminosa benignidade duma Primavera?

-Com efeito - murmurei eu - esse sujeito teria imensa razão para urrar...

-E depois - clamava ainda o meu amigo - o Pessimismo é excelente para os Inertes, porque lhes atenua o desgracioso delito da Inércia. Se toda a meta é um monte de Dor, onde a alma vai esbarrar, para que marchar para a meta, através dos embaraços do mundo? E de resto todos os Líricos e Teóricos do Pessimismo, desde Salomão até o maligno Schopenhauer, lançam o seu cântico ou a sua doutrina para disfarçar a humilhação das suas misérias, subordinando-as todas a uma vasta lei de Vida, uma lei Cósmica, e ornando assim com a auréola de uma origem quase divina as suas miúdas desgraçazinhas de temperamento ou Sorte. O bom Schopenhauer formula todo o seu schopenhauerismo, quando é um filósofo sem editor, e um professor sem discípulos; e sofre horrendamente de terrores e manias; e esconde o seu dinheiro debaixo do sobrado; e redige as suas contas em grego nos perpétuos lamentos da desconfiança; e vive nas adegas com o medo de incêndios; e viaja com um copo de lata na algibeira para não beber em vidro que beiços de leproso tivessem contaminado!... Então Schopenhauer é sombriamente Schopenhauerista. Mas apenas penetra na celebridade, e os seus miseráveis nervos se acalmam, e o cerca uma paz amável, não há então, em todo Francoforte, burguês mais otimista, de face mais jucunda, e o gozando mais regradamente os bens da inteligência e da Vida!... e outro, o Israelita, o muito pedantesco rei de Jerusalém! Quando descobre esse sublime Retórico que o mundo é Ilusão e Vaidade? Aos setenta e cinco anos, quando o Poder lhe escapa das mãos trêmulas, e o seu serralho de trezentas concubinas se lhe torna ridiculamente supérfluo. Então rompem os pomposos queixumes! Tudo é verdade e aflição de espírito! nada existe estável sob o Sol! Com efeito, meu bom Salomão, tudo passa - principalmente o poder de usar trezentas concubinas! Mas que se restitua a esse velho sultão asiático, besuntado de Literatura, a sua virilidade - e onde se sumirá o lamento do Eclesiastes? Então voltará em Segunda e triunfal edição, o êxtase do Livro dos Cantares!...

Assim discursava o meu amigo no noturno silêncio de Tormes. Creio que ainda estabeleceu sobre o Pessimismo outras coisas joviais, profundas ou elegantes - mas eu adormecera, beatificamente envolto em Otimismo e doçura.

Em breve, porém, me fez pular, escancarar a pálpebras moles, uma rija, larga, sadia e genuína risada. Era Jacinto, estirado numa cadeira, que lia o Dom Quixote... Ó! bem-aventurado Príncipe! Conservara ele o agudo poder de arrancar teorias a uma espiga de milho ainda verde, e pôr uma clemência de Deus, que fizera reflorir o tronco seco, recuperara o Dom divino de rir, com as facécias de Sancho!

Aproveitando a minha companhia, as duas semanas de bucólica ociosidade que eu lhe concedera, o meu Jacinto preparou então a cerimônia tão falada, tão meditada, a trasladação dos ossos dos velhos Jacintos - dos “respeitáveis ossos” como murmurava, cumprimentando, o bom Silvério, o procurador, nessa manhã de Sexta-feira, em que almoçava conosco, metido num espantoso jaquetão de veludinho amarelo debruado de seda azul! A cerimônia, de resto, reclamava muita singeleza pôr serem tão incertos, quase impessoais, aqueles restos, que nós estabeleceríamos na Capelinha do vale da Carriça, na Capelinha toda nova, toda nua e toda fria, ainda sem alma e sem calor de Deus.

-Porque enfim V. Exª compreende - explicava o Silvério passando o guardanapo pôr sobre a larga face suada e pôr sobre as imensas barbas negras, como as dum turco -, naquela mixórdia... Ó! peço desculpa a V. Exª! Naquela confusão, quando tudo desabou, não pudemos mais conhecer a quem pertenciam os ossos. Nem sequer, falando verdade, nós sabíamos bem que dignos avós de V.Exª jaziam na capela velha, assim tão antigos, com com os letreiros apagados, senhores de todo o nosso respeito, certamente, mas, se V.Exª me permite, senhores já muito desfeitos... Depois veio o desastre, a mixórdia. E aqui está o que decidi, depois de pensar. Mandei arranjar tantos caixões de chumbo, quantas as caveiras que se apanharam lá embaixo na Carriça, entre o lixo e o pedregulho. Havia sete caveiras e meia. Quero dizer, sete caveiras e uma caveirinha pequenina. Metemos cada caveira em seu caixão. Depois: Que quer V.Exª? Não havia outro meio! E aqui o sr. Fernandes dirá se não acha que procedemos com habilidade. A cada caveira juntamos uma certa porção de ossos, uma porção razoável... Não havia outro meio... Nem todos os ossos se acharam. Canelas, pôr exemplo, faltavam! E é bem possível que as costelas dum daqueles senhores ficassem com a cabeça de outro... Mas quem podia saber? Só Deus. Enfim fizemos o que a prudência mandava... Depois, no dia de Juízo, cada um destes fidalgos apresentará os ossos que lhe pertencerem.

Lançava estas coisas macabras e tremendas, penetrado de respeito, quase com majestade, espetando, ora em mim, ora no meu Príncipe, os olhinhos agudos e reluzentes como vidrilhos.

Eu aprovei o pitoresco homem:

-Perfeitamente! Andou perfeitamente, amigo Silvério. São tão vagos, tão anônimos, todos esses avós! Só faz pena, grande pena, que se tresmalhassem os restos do avô Galião.

-Não estava cá! - acudiu Jacinto. - Vim a Tormes expressamente pôr causa do avô Galião, e pôr fim o seu jazigo nunca foi aqui, na Capelinha da Carriça... Felizmente!

O Silvério sacudiu gravemente a calva trigueira:

-Nunca tivemos o Exmo Sr. Galião. Há cem anos, Sr. Fernandes, há cem anos que se não depositava na capela velha corpo de cavalheiro cá da casa.

-Onde estarão então?...

O meu Príncipe encolheu os ombros. Pôr esse Reino... Na igrejinha, no cemitério de alguma das freguesias numerosas, onde ele possuía terras. Casa tão espalhada!

-Bem! - concluí. - Então, como se trata de ossadas vagas, sem nome, sem data, convém uma cerimoniazinha muito simples, muito sóbria.

-Quietinha, quietinha! - murmurou o Silvério, dando um forte sorvo assobiado ao café.

E foi quietinha, duma rústica e doce singeleza a cerimônia daqueles altos senhores. Cedo, pôr uma manhã, levemente enevoada, os oito caixões pequeninos, cobertos dum veludo vermelho mais de festa que de funeral, com molhos de rosas espalhados contendo cada um o seu montezinho de ossos incertos, saíram aos ombros dos coveiros de Tormes e dos moços da quinta, da Igreja de S. José, cujo sino leve tangia, na enevoada doçura da manhã - quando fina e levemente! - como pia um passarinho triste, Adiantem um airoso moço de sobrepeliz erguia com zelo a velha cruz prateada; abrigando o pescoço sob um imenso lenço de rapé, de quadrados azuis, o velho e corcovado sacristão segurava pensativamente a caldeirinha de água benta; e o bom abade de S. José, com os dedos entre o breviário fechado, movia os lábios, numa lenta, murmurosa reza, que ia pelo doce ar, espalhando mais doçura. Logo atrás do último cofre, o mais pequenino, o da caveirinha pequena, Jacinto caminhava; e eu, a estalar dentro dum fato preto de Jacinto, tirado à pressa duma das malas de Paris quando, de manhã, já tarde para mandar a Guiães, me lembrei que toda a minha roupa era de cores festivais e pastoris.

Depois marchava o Silvério, soleníssimo, com um imenso peitilho, onde as barbas imensas se alastravam negríssimas. De casaca, com o grosso beiço descaído, descaído todo ele pôr aquela melancolia de enterro que se juntava à melancolia da serra, o Grilo enfiava no braço a sua coroa, enorme, de rosas e de heras. Pôr fim seguia o Melchior, entre um rancho de mulheres, que, sumidas na sombra dos lenços pretos, desfiando longos rosários, rosnavam surdas ave-marias, através de espaçados suspiros, tão doridos como se inconsoladamente lhes doesse a perda daqueles Jacintos. Assim, pelas várzeas entrecorridas de regueiros, lenta nos recostos dos matos, escorregando mais rápida, pelos córregos pedregosos, seguia a procissão, sempre com a cruz adiante, alta e prateada, rebrilhando pôr vezes num breve raiozinho de Sol que, vagarosamente, surdia da névoa desfeita. Ramos baixos de lódão ou de salgueiro passavam uma derradeira carícia sobre o veludo dos caixões.

Um regato pôr vezes nos acompanhava, com discreto fulgir entre as relvas, sussurrando e como rezando também, alegremente; e nos quintalinhos umbrosos, à nossa passagem, os galos, de cima das pilhas de mato, faziam soar o seu clarim festivo. Depois, adiante da fonte da Lira, como o caminho se alongava, e desejássemos poupar o nosso velho abade, cortamos através duma seara, já alta, quase madura, toda entremeada de papoulas. O Sol radiou: sob a brisa larga, que levara a névoa, toda a messe ondulou numa lenta vaga dourada, em que se balouçavam os esquifes; e, como enorme papoula, a mais vermelha, rutilava o guarda-sol de paninho logo aberto pelo sacristão para abrigar o abade.

Jacinto tocou no meu cotovelo:

-Que lindos vamos! Ora vê tu a Natureza... Num simples enterrar de ossos, quanta graça e quanta beleza!

Na Capelinha, nova, dominando o vale da Carriça, solitária e muito nua, no meio dum adro, ainda mal alisado, sem uma verdura de relva, uma frescura de arbusto, dois moços seguravam à porta molhos de tochas, que o Silvério distribuiu, a passos graves, com cortesias, soleníssimo. Dentro as curtas chamas mal luziam, mal derramavam a sua amarelidão triste, esbatidas na reluzente brancura dos muros estucados, na jovial claridade que caía das altas vidraças bem polidas. Em torno dos esquifes, pousados sobre bancos, que pesados veludilhos recobriam, o abade murmurava um suave latim, enquanto ao fundo as mulheres, sumidas na sombra dos seus negros lenços, gemiam améns agudos, abafavam um respeitoso soluço. Depois, tomando levemente o hissope, ainda o bom abade aspergiu, para uma derradeira purificação, os incertos ossos dos incertos Jacintos. E todos desfilamos pôr diante do meu Príncipe, timidamente encostado à ombreira, com o Silvério ao lado esmagando contra o peitilho as barbas imensas, a face descaída, cerradas as pálpebras como contendo lágrimas.

No adro, o meu Príncipe acendeu regaladamente um cigarro pedido ao Melchior:

-E então, Zé Fernandes, que te pareceu a cerimoniazinha?

-Muito campestre, muito suave, muito risonha... Uma delícia.

Mas o Abade, que se desvestira na Sacristia, apareceu, já com o seu grande casaco de lustrina, o seu velho chapéu desabado, trazidos pelo moço da Residência, num saco de chita. Jacinto, imediatamente lhe agradeceu tantos cuidados, a afável hospitalidade que oferecera aos ossos, durante a construção da Capelinha nova. E o suave velho, todo branquinho, de faces ainda menineiras e coradas, com um claro sorriso de dentes sadios, louvava Jacinto, que assim viera de tão longe, em tão longa jornada, para cumprir aquele dever de bom neto.

-São avós muito remotos, e agora tão confusos! - murmurava Jacinto, sorrindo,

-Pois mais mérito ainda o de V.Exª. Respeitar um avô moto, bem é corrente... Mas respeitar os ossos dum quinto avô, dum sétimo avô!

-Sobretudo, sr. Abade, quando deles nada se sabe, e naturalmente nada fizeram.

O velho sacudiu risonhamente o dedo gordo:

-Ora quem sabe, quem sabe! Talvez fossem excelentes! E pôr fim, quem muito se demora no mundo, como eu, termina pôr se convencer que no mundo não há coisa ou ser inútil. Ainda ontem eu lia num jornal do Porto, que pôr fim, segundo se descobriu, são as minhocas que estrumam e lavram a terra, antes de chegar o lavrador e os bois com o arado. Não há nada inútil... Eu tinha lá na residência uma porção de cardos a um canto da horta, que me afligiam. Pois refleti e terminei pôr me regalar com eles em xarope. Os avós de V.Exª pôr cá andaram, pôr cá trabalharam, pôr cá padeceram. Quer dizer: pôr cá serviram. E, em todo o caso, que lhes rezemos um Padre-Nosso pôr alma, não lhes pode fazer senão bem, a eles e a nós.

E assim, docemente filosofando, paramos num souto de carvalheiras, nose esperava a velhíssima égua do Abade, porque o santo homen agora depois do reumatismo do último Inverno, já não afrontava rijamente como antes os trilhos duros da serra. Para ele montar, filialmente Jacinto segurou o estribo. E enquanto a égua se empurrava pelo córrego acima, quase tapada sob o imenso guarda-sol vermelho em que se abrigava o velho, nós recolhemos a casa metendo pela serra da Lombinha, através dos milhos, e depressa, porque eu estalava, aperreado, dentro da roupa preta do meu Príncipe.

-Estão pois acomodados estes senhores, Zé Fernandes! Só resta rezar pôr eles o Padre Nosso, que recomenda o Abade. Somente, eu não sei, já não me lembro do Padre-Nosso.

-Não te aflijas, Jacinto, peço à tia Vicência que reze pôr mim e pôr ti. É sempre a tia Vicência que reza os meus Padre-Nossos.

Durante essas semanas que preguicei em Tormes, eu assisti, com enternecido interesse, a uma considerável evolução de Jacinto nas suas relações com a Natureza. Daquele período sentimental de contemplação, em que colhia teorias nos ramos de qualquer cerejeira, e edificava sistemas sobre o espumar das levadas, o meu Príncipe lentamente passava para o desejo da Ação... E duma ação direta e material, em que a sua mão, enfim restituída a uma função superior, revolvesse o torrão.

Depois de tanto comentar, o meu Príncipe, evidentemente, aspirava a criar.

Uma tardinha, ao anoitecer, sentados no pomar, no rebordo do tanque, enquanto o Manuel hortelão apanhava laranjas no alto duma escada arrimada a uma laranjeira, Jacinto observou, mais para si do que para mim:

-É curioso... Nunca plantei uma árvore!

-Pois é um dos três grandes atos, sem os quais, segundo diz não sei que Filósofo, nunca se foi um verdadeiro homem... Fazer um filho, plantar uma árvore, escrever um livro. Tens de te apressar, para ser um homem. É possível que talvez nunca prestasses um serviço a uma árvore, como se presta a um semelhante!

-Sim... Em Paris, quando era pequeno, regava os lilases. E no Verão é um belo serviço! Mas nunca semeei.

E como o Manuel descia da escada, o meu Príncipe, que nunca acreditara inteiramente - pobre homem! - no meu saber agrícola, imediatamente reclamou o parecer daquela autoridade:

-Ó Manuel, ouça lá o que se poderia agora semear?

Com o cesto das laranjas enfiado no braço, o Manuel exclamou, através dum lento riso, entre respeitoso e divertido:

-Semear, patrão? Agora é antes colher... Olhe que já se anda a limpar a eirazinha para a debulha, meu patrão.

-Pois sim... Mas sem ser milho nem cevada... então ali no pomar, rente do muro velho, não se podia plantar uma fila de pessegueiros?

O riso do Manuel crescia.

-Isso sim, meu senhor! Isso é lá para os Santos ou para o Natal. Agora só a couvinha na horta, a beldroega, os espinafres, algum feijãozinho em terra muito fresca...

O meu Príncipe sacudiu, com brando gesto, estes legumes rasteiros.

-Bem, boa noite, Manuel. Essas laranjas são da tal laranjeira que diz o Melchior, muito doces, muito finas? Então leve para os seus pequenos. Leve muitas para os pequenos.

Não! o empenho era criar a árvore contemplada na serra em sua verdadeira majestade, na beneficência da sua sombra, na frescura embaladora do seu rumorejar, na graça e santidade dos ninhos que a povoam, começara talvez, lentamente, o seu amor novo da Terra. E agora sonhava uma Tormes toda coberta de árvores, cujos frutos e verduras, e sombras, e rumorejos suaves, e abrigados ninhos, fossem a obra e o cuidado das suas mãos paternais.

No silêncio grave do crepúsculo, que descia, murmurou ainda:

-Ó Zé Fernandes quais são as árvores que crescem mais depressa?

-Eh, meu Jacinto... A árvore que cresce mais depressa é o eucalipto, o feiíssimo e ridículo eucalipto. Em seis anos tens aí tormes coberta de eucaliptos...

-Tudo tão lento, Zé Fernandes...

Porque o seu sonho, que eu compreendia, seria plantar caroços que subissem em fortes troncos, se alargassem em verdes ramarias, antes de ele voltar ao 202, no começo do Inverno...

-Um carvalho!... Trinta anos, antes que seja belo! Desanimo! É bom para deus, que pode esperar... Patiens quia oeternus. Trinta anos! Daqui a trinta anos, árvores só para me cobrirem a sepultura!

-Já é um ganho. E depois para teus filhos, Jacinto...

-Filhos! Onde os tenho eu?

-É o mesmo processo dos castanheiros. Semeia. Não faltam pôr aí terras agradáveis... Em nove meses tens uma planta feita. E quanto mais tenrinhas, e mais pequeninas, mais essas plantas encantam.

Ele murmurou, cruzando as mãos sobre os joelhos:

-Tudo leva tanto tempo!...

E à borda do tanque nos quedamos, calados, na fresca doçura do anoitecer, entre o cheiro avivado das madressilvas do muro, olhando o crescente da Lua, que surdia dos telhados de Tormes.

E decerto esta pressa de se tornar a Natureza não mais um sonhador, mas um criador, arremessou vivamente o seu interesse para os gados! Repetidamente, nos nossos passeios através da Quinta, ele lhe notava a solidão.

-Faltam aqui animais, Zé Fernandes!

Imaginava eu que ele apetecia em Tormes o ornato elegante de veados e pavões. Mas um Domingo, costeando o largo campo da Ribeirinha, sempre escasso de águas, agora mais ressequido pôr Verão de tanta secura, o meu Príncipe parou a considerar os três carneiros do caseiro, que retouçavam com penúria uma relvagem pobre.

E, de repente, como magoado:

-Justamente! Aqui está o espaço para um belo prado, um imenso prado, muito verde, muito farto, com rebanhos de carneiros brancos gordíssimos como bolas de algodão pousadas na relva!... Era lindo, hem? É fácil, não é verdade, Zé Fernandes?

-Sim... Trazes a água para o prado. Águas não faltam na serra.

E o meu Príncipe, encadeando logo nesta inspirada idéia outra, mais rica e vasta, lembrou quanta beleza daria a Tormes encher esses prados, esses verdes ferregiais, de manadas de vacas, formosas vacas inglesas, bem nédias e bem luzidias. Hem? Uma beleza. Para abrigar esses gados ricos, construiria currais perfeitos, duma arquitetura leve e útil, toda em ferro e vidro, fundamente varridos pelo ar, largamente lavados pela água... Hem? Que formosura! Depois, com todas essas vacas, e o leite jorrando, nada mais fácil e mais divertido, e até mais moral, que a instalação duma queijeira, à fresca moda holandesa, toda branca e reluzente, de azulejos e de mármore, para fabricar os Camemberts, os Bries... os Coulommiers... Para a casa, que conforto! E para toda a serra, que atividade!

-Pois não te parece, Zé Fernandes?

-Com certeza. Tu tens, em abundância, os quatro elementos: o ar, a água, a terra, e o dinheiro. Com estes quatro elementos, facilmente se faz uma grande lavoura. Quanto mais uma queijeira!

-Pois não é verdade? E até como negócio! Está claro, para mim o lucro é o deleite moral do trabalho, o emprego fecundo do dia... Mas uma queijaria, assim perfeita, rende. Rende prodigiosamente. E educa o paladar, incita a instalações iguais, implanta talvez no pais uma indústria nova e rica! Ora, com essa instalação perfeita, quanto me poderá custar cada queijo?

Fechei um olho, calculando:

-Eu te digo... Cada queijo, um desses queijinhos redondos, como o Camembert ou o Rabaçal, pode vir a custar-te, a ti Jacinto queijeiro, entre duzentos e cinqüenta e trezentos mil-réis.

O meu Príncipe recuou, com os olhos alegres espantados para mim.

-Como trezentos mil-réis?

-Ponhamos duzentos... Tem certeza! Com todos esses prados, e os encantamentos de água, e a configuração de serra alterada, e as vacas inglesas, e os edifícios de porcelana e vidro, e as máquinas, a extravagância, e a patuscada bucólica, cada queijo te custa, a ti produtor, duzentos mil-réis. Mas com certeza o vendes no Porto pôr um tostão. Põe cinqüenta réis para a caixa, rótulos, transporte, comissão, etc. Tens apenas, em cada queijo, uma perda de cento e noventa e nove mil oitocentos e cinqüenta réis!

O meu Príncipe não desanimou.

-Perfeitamente! Faço um desses espantosos queijos pôr semana, ao Sábado, para o comermos nós ambos ao Domingo!


E tanta energia lhe comunicava o seu novo Otimismo, tão ansiosamente aspirava a criar, que logo, arrastando o Silvério e o Melchior pôr cabeços e barrancos, largou a percorrer a Quinta toda, para determinar onde cresciam, ao seu mando inspirado, os verdes prados, e se ergueriam, rebrilhantes no sol de Tormes, os currais elegantes. Com a esplêndida segurança dos seus cento e nove contos de renda, não surgia dificuldade, risonhamente murmurada pelo Melchior, ou exclamada, com respeitoso pasmo, pelo Silvério, que ele não afastasse brandamente, com jeito leve, como um galho de roseira brava atravessado numa vereda.

Aquelas rochas, além, empecendo? Que se arrancassem! Um vale importuno dividia dois campos? Que se atulhasse! O Silvério suspirava, enxugando sobre a escura calva um suor quase de angústia. Pobre Silvério! Rijamente sacudido na doce pachorra da sua administração, calculando despesas que se afiguravam sobre-humanas à sua parcimônia serrana, forçado a arquejar, sem descanso, sob soalheiras de Junho, o desgraçado retomara na Serra o jeito que Jacinto deixara em Paris - e era ele que corria pelas longas barbas tenebrosas os dedos desalentados... Enfim uma tarde desabafou comigo, a um canto da varanda, enquanto Jacinto, na livraria, escrevia a um seu amigo de Holanda, o conde Rylant, Mordomo-Mor da Corte, pedindo desenhos, e planos, e orçamentos duma queijeira perfeita.

-Pois, Sr.Fernandes, se toda esta grandeza vai pôr diante, sempre lhe digo que o Sr. D. Jacinto enterra aqui na serra dezenas de contos, Dezenas de contos!

E como eu aludia à fortuna do meu Príncipe, a quem todas essas obras tão vastas, que alterariam o antiquíssimo rosto da serra, não custavam mais que a outros o conserto dum socalco - o bom Silvério atirou os longos braços para as coxas, ainda mais desolado:

-Pois pôr isso mesmo, Sr. Fernandes! Se o Sr. D. Jacinto não tivesse a dinheirama, recuava. Assim, é zás, para diante; e eu não o censuro pela idéia. Lograsse eu a renda de S. Exª, que me atirava também a uma lavoura de capricho. Mas não aqui, Sr. Fernandes, nestas serranias, entre alcantis. Pois um senhor que possui aquela linda propriedade de Montemor, nos campos de Mondego, onde até podia plantar jardins de desbancar os do Palácio de Cristal do Porto! E a Veleira? Isso é um condado! E uma terra chã, boa terra, toda junta, ali em volta da casa, com uma torre. Um regalo, Sr. Fernandes. Mas sobretudo Montemor! Lá é que eram prados e manadas de vacas inglesas, e queijeira e horta rica, de fartar, e aí trinta perus na capoeira...

-Então que quer, Silvério? O Jacinto gosta da serra. E depois este é o solar da família, e aqui começaram no século XIV os Jacintos...

O pobre Silvério, no seu desespero, esquecia o respeito devido à secular nobreza da casa.

-Ora! até ficam mal ao Sr. Fernandes essas idéias, neste século da liberdade... Pois estamos lá em tempos de se falar em fidalguias, agora que pôr toda a parte tudo em República? Leia o Século, Sr. Fernandes! leia o Século, e verá! E depois eu sempre quero ver o Sr.D. Jacinto, aqui no Inverno, com o nevoeiro a subir do rio logo pela manhã, e a friagem a traspassar os ossos, e ventanias que atiram carvalheiras de raízes ao ar, e chuvas e chuvas que se desfaz a serra!... Olhe, até mesmo pôr amor da saúde o Sr. D. Jacinto, que é fraquinho e acostumado à cidade, necessita sair da serra. Em Montemor, em Montemor é que Sua Exª estava bem. e o Sr. Fernandes, tão amigo dele e assim com tanta influência, devia teimar, e berrar, até que o levasse para Montemor.

Mas, infelizmente para quietação do Silvério, Jacinto lançara raízes, e rijas, e amorosas raízes na sua rude serra. Era realmente como se o tivessem plantado de estaca naquele antiquíssimo chão, de onde brotara a sua raça, e o antiquíssimo húmus refluísse e o penetrasse todo, e o andasse transformando num Jacinto rural, quase vegetal, tão do chão, e preso ao chão, como as árvores que ele tanto amava.

E depois o que o prendia à serra era o Ter nela encontrado o que na Cidade, apesar da sua sociabilidade, não encontrara nunca - dias tão cheios, tão deliciosamente ocupados, dum tão saboroso interesse, que sempre penetrava neles, como numa festa ou numa glória.

Logo de manhã, às seis horas, eu, no meu quarto, mexendo ainda regaladamente o meu corpo nos colchões de fresco folhelho, sentia os seus rijos sapatões pelo corredor, e o seu cantarolar, desafinado, mas ditoso como o dum metro. Em poucos instantes escancarava com fragor a minha porta, já de chapéu desabado, já de bengalão de cerejeira, disposto com reservado fervor para os trilhos conhecidos da serra. E era sempre a mesma nova, quase orgulhosa:

-Dormi hoje deliciosamente, Zé Fernandes. Tão bem, com uma tal serenidade, que começo a acreditar que sou um justo! Um dia lindo! Quando abri a janela, às cinco horas, quase gritei de puro gosto!

Na sua pressa, nem me deixava demorar na frescura da banheira; e quando eu repetia a risca mal começada do cabelo, aquele antigo homem das trinta e nove escovas protestava contra esse desbarato efeminado dum tempo devido aos fortes gozos da terra.

Mas quando, depois de acariciar os rafeiros no pátio, desembocávamos da alameda de plátanos, e adiante de nós se dividiam matutinamente, mais brancos entre o verde matutino, os caminhos coleantes da Quinta, toda a sua pressa findava, e penetrava na Natureza, com a reverente lentidão de quem penetra num Templo. E repetidamente sustentava ser “contrário à Estética, à Filosofia e à Religião, andar depressa através dos campos”. De resto, com aquela sutil sensibilidade bucólica que nele se desenvolvera, e incessantemente se afirmava, qualquer breve beleza, do ar ou da terra, lhe bastava para um longo encanto. Ditosamente poderia ele entreter toda uma manhã, caminhar pôr entre um pinheiral, de tronco a tronco, calado, embebido no silêncio, na frescura, no resinoso aroma, empurrando com o pé as agulhas e as pinhas secas. Qualquer água corrente o retinha, enternecido naquela serviçal atividade, que se apressa, cantando, para o torrão que tem sede, e nele se some, e se perde. E recordo ainda quando me reteve meio Domingo, depois da Missa, no cabeço, junto a um velho curral desmantelado, sob uma grande árvore - só porque em torno havia quietação, doce aragem, um fino piar de ave na ramaria, um murmúrio de regato entre as canas verdes, e pôr sobre a sebe, ao lado, um perfume, muito fino e muito fresco, de flores escondidas.

Depois, quando eu, velho familiar das serras, me não abandonava aos mesmos êxtases que a ele lhe enchiam a alma ainda noviça - o meu Príncipe rugia, com a indignação dum poeta que descobre um merceeiro bocejando sobre Shakespeare ou Musset. Eu ria.

-Meu filho, olha que eu não passo dum pequeno proprietário. Para mim não se trata de saber se a terra é linda, mas se a terra é boa. Olha o que diz a Bíblia! “Trabalharás a Quinta com o suor do teu rosto!” E não diz “contemplarás a Quinta com o enlevo da tua imaginação!”

-Pudera! - exclamava o meu Príncipe. - Um velho livro escrito pôr Judeus, pôr ásperos semitas, sempre com o turvo olho posto no lucro! Repara, homem, para aquele bocadinho de vale, e consegue não pensar, pôr um momento, nos trinta mil-réis que ele rende! Verás que pela sua beleza e graça ele te dá mais contentamento à alma que os trinta mil-réis ao corpo. E na vida só a alma importa.

Recolhendo ao casarão, já o encontrávamos com as janelas meio cerradas, os soalhos borrifados para aquelas quentes réstias de Sol de Junho, que depois do almoço docemente nos retinham na livraria, preguiçando.

Mas realmente a alegre atividade do meu Príncipe não cessava, nem amolecia, sob o peso da sesta. A essa hora, enquanto pelo arvoredo mudo os mais agitados pardais dormiam, e o Sol mesmo parecia repousar, imóvel na rutilância da sua luz, Jacinto com o espírito acordado - ávido de sempre gozar, agora que reconquistara essa faculdade - tomava com delícia o seu livro. Porque o dono de trinta mil volumes era agora, na sua casa de Tormes, depois de ressuscitado, o homem que só tem um livro. Essa mesma Natureza, que o desligara das ligaduras amortalhadoras do tédio, e lhe gritara o seu belo Ambula, caminha! - também certamente lhe gritara et lege, e lê. E libertado enfim do invólucro sufocante da sua Biblioteca imensa, o meu ditoso amigo compreendia enfim a incomparável delícia de ler um livro. Quando eu correra a Tormes (depois das revelações do severo na venda do Torto), ele findava o D.Quixote, e ainda eu lhe escutara as derradeiras risadas com as coisas deliciosas, e decerto profundas, que o gordo Sancho lhe murmurava, escarranchado no seu burro. Mas agora o meu Príncipe mergulhara na Odisséia - e todo ele vivia no espanto e no deslumbramento de assim Ter encontrado no meio do caminho da sua vida o velho errante, o velho Homero!

-Ó Zé Fernandes, como sucedeu que eu chegasse a esta idade sem Ter lido Homero?...

-Outras leituras, mais urgentes... o Fígaro, George Ohnet...

-Tu leste a Ilíada?

-Menino, sinceramente me gabo de nunca Ter lido a Ilíada.

Os olhos do meu Príncipe fuzilavam.

-Tu sabes o que fez Alcibíades, uma tarde, no Pórtico, a um sofista, um desavergonhado dum sofista, que se gabava de não Ter lido a Ilíada?

-Não.

-Ergueu a mão e atirou-lhe uma bofetada tremida.

-Para lá, Alcibíades! Olha que eu li a Odisséia!

Ó! mas decerto eu a lera, corridamente, com a alma desatenta! E insistia em me iniciar, ele, e me conduzir, através do Livro sem igual. Eu ria. E rindo, pesado do almoço, terminava pôr consentir, e me estirava no canapé de verga. Ele, diante da mesa, direito na cadeira, abria o livro gravemente, pontificalmente, como um missal, e começava numa lenta ode sentida. Aquele grande mar da Odisséia - resplandecente e sonoro, sempre azul, sob o vôo branco das gaivotas, rolando, e mansamente quebrando sobre a areia fina ou contra as rochas de mármore das Ilhas divinas - exalava logo uma frescura salina, bem-vinda e consoladora naquela calma de Junho, em que a serra entorpecia. Depois as estupendas manhas do sutil Ulisses e os seus perigos sobre-humanos, tantas lamúrias sublimes e um anseio tão espalhado da Pátria perdida, e toda aquela intriga, em que embrulhava os heróis, lograva as Deusas, iludia o Fado, tinham um delicioso sabor ali, nos campos de Tormes, onde nunca se necessitava de sutileza ou de engenho, e a vida se desenrolava com a segurança imutável com que cada manhã sempre o Sol igual nascia, e sempre centeios e milhos, regados pôr águas iguais, seguramente medravam, espigavam, amadureciam... Embalado pela recitação grave e monótona do meu Príncipe, eu cerrava as pálpebras docemente. Em breve um vasto tumulto, pôr Terra e Céu, me alvoroçava... E eram os rugidos de Polifemo, ou a grita dos companheiros de Ulisses roubando as vacas de Apolo. Com os olhos logo esbugalhados para Jacinto, eu murmurava: Sublime! E sempre nesse momento o engenhoso Ulisses, de carapuço vermelho e o longo remo ao ombro, surpreendia com a sua facúndia a clemência dos Príncipes, ou reclamava presentes devidos ao Hóspede, ou surripiava astutamente algum favor aos deuses. E Tormes dormia, no esplendor de Junho. Novamente, eu cerrava as pálpebras consoladas, sob a carícia inefável do largo dizer homérico... E meio adormecido, encantado, incessantemente avistava, longe, na divina Hélade, entre o mar muito azul e o céu muito azul, a branca vela, hesitante, procurando Ítaca...


Depois da sesta o meu Príncipe de novo se soltava para os campos. E a essa hora, sempre mais ativa, voltava com ardor aos “seus planos”, a essas culturas de luxo e elegantes oficinas que cobririam a serra de magnificências rurais. Agora andava todo no esplêndido apetite duma horta que ele concebera, imensa horta ajardinada, em que todos os legumes, clássicos ou exóticos, cresceriam, soberbamente, em vistosos talhões, fechados pôr sebes de rosas, de cravos, de alfazemas, de dálias. A água das regas desceria pôr lindos córregos de louça esmaltada. Nas ruas, a sombra cairia de densas latadas de moscatel, pousando em esteios revestidos de azulejo. E o meu Príncipe desenhara o plano desta espantosa horta, a lápis vermelho, num papel imenso, que o Melchior e o Silvério, consultados, longamente contemplaram - um coçando risonhamente a nuca, o outro com os braços duramente cruzados, e o sobrolho trágico.

Mas este plano, o da queijaria, o da capoeira, e outro, suntuoso, dum pombal tão povoado que todo o céu de Tormes às tardes se tornaria branco e todo fremente de asas - não saíam das nossas gostosas palestras, ou dos papéis em que Jacinto os debuxava, e que se amontoavam sobre a mesa, platônicos, imóveis, entre o tinteiro de latão e o vaso com flores.

Nem enxadada fendera terra, nem alavanca deslocara pedra, nem serra serrara madeira, para encetar estas maravilhas. Contra a resistência reboluda e escorregadia do Melchior, contra a respeitosa inércia do Silvério se quedavam, encalhados, os planos do meu Príncipe, como galeras vistosas em rochas ou em lodo.

Não convinha bulir em nada (clamava o Silvério) antes das colheitas e da vindima! E depois (acrescentava o Melchior com um sorriso de grande promessa) “para boas obras mês de Janeiro” porque lá ensina o ditado:

Em Janeiro - mete obreiro

Mês meante - que não ante

E, de resto, o gozo de conceber as suas obras e de indicar, estendendo a bengala pôr cima de vale e monte, os sítios privilegiados que elas aformoseariam, bastava pôr ora ao meu Príncipe, ainda mais imaginativo que operante. E, enquanto meditava estas transformações da terra, muito progressivamente e com um amável esforço, se ia familiarizando com os homens simples que a trabalhavam. Na sua chegada a Tormes, o meu Príncipe sofria duma estranha timidez diante dos caseiros, dos jornaleiros, e até de qualquer rapazinho que passasse, tangendo uma vaca para o pasto. Nunca ele então se demoraria a conversar com os moços, quando à borda dum caminho ou num campo em monda eles se endireitavam de chapéu na mão, num respeito de velha vassalagem. Decerto o empecia a preguiça, e talvez ainda o pudico recato de transpor toda a imensa distância que se alargava desde a sua complicada supercivilização até a rude simplicidade daquelas almas naturais: - mas sobretudo o retinha o medo de mostrar a sua ignorância da lavoura e da terra, ou de parecer talvez desdenhoso de ocupações e de interesses, que para os outros eram supremos e quase religiosos. Remia então esta reserva com uma profusão de sorrisos, de doces acenos, tirando também o chapéu em cortesias profundas, com uma tal ênfase de polidez que eu pôr vezes receava que ele murmurasse aos jornaleiros. “Tenha V. Exª muito boas-tardes... Criado de V. Exª!”

Mas agora, depois daquelas semanas de serra, e de já saber (com um saber ainda frágil) a época das sementeiras e das ceifas, e que as árvores de fruta se semeiam no Inverno, já se aprazia em parar junto dos trabalhadores, contemplar descansadamente o trabalho, dizer coisas afáveis e vagas.

-Então, isso vai andando?... Ora ainda bem!... este bocado de terrão aqui é rico... O talude ali adiante está precisando conserto...

E cada um destes tão simples dizeres lhe era doce, como se pôr meio deles penetrasse mais fundamente na intimidade da terra, e consolidasse a sua encarnação em “homem do campo”, deixando de ser uma mera sombra circulando entre realidades. Já pôr isso não cruzava no caminho o mocinho atrás das vacas, que não o detivesse, o não interrogasse: “Para onde vais tu? De quem é o gado? Como te chamas?” E, contente consigo, sempre gabava gratamente o desembaraço do rapaz, ou a esperteza dos seus olhos. Outra satisfação do meu Príncipe era conhecer os nomes de todos os campos, as nascentes de água, e as delimitações da sua Quinta.

-Vês acolá, para além do ribeiro, o pinheiral. Já não é meu, é dos Albuquerques.

E com perene alegria de Jacinto as noites da serra, no vasto casarão, eram fáceis e curtas. O meu Príncipe era então uma alma que se simplificava: - e qualquer pequenino gozo lhe bastava, desde que nele entrasse paz ou doçura. Com verdadeira delícia ficava, depois do café, estendido numa cadeira, sentindo através das janelas abertas a noturna tranqüilidade da serra, sob a mudez estrelada do céu.

As histórias, muito simples e muito caseiras, que eu lhe contava, de Guiães, do abade, da tia Vicência, dos nossos parentes da Flor da Malva, tão sinceramente o interessavam que eu encetara, para seu regalo, a crônica completa de Guiães, com todos os namoricos, e as façanhas de forças, e as desavenças pôr causa de servidões ou de águas. Também pôr vezes nos enfronhávamos com aferro numa partida de gamão, sobre um belo tabuleiro de pau-preto, com pedras de velho marfim, que nos emprestara o Silvério. Mas nada decerto o encantava tanto como atravessar as casas, pé ante pé, até uma saleta que dava para o pomar, e aí ficar encostado à janela, sem luz, num enlevado sossego, a escutar longamente, languidamente, os rouxinóis que cantavam no laranjal.