A Cidade e as Serras/VIII

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A Cidade e as Serras
Eça de Queirós
Capítulo 8
Lello & Irmão (1901). páginas 165-226

VIII


Ao fim d’esse inverno escuro e pessimista, uma manhã que eu preguiçava na cama, sentindo através da vidraça cheia de sol ainda pallido um bafo de Primavera ainda timido — Jacintho assomou á porta do meu quarto, revestido de flanellas leves, d’uma alvura de açucena. Parou lentamente á beira dos colxões, e, com gravidade, como se annunciasse o seu casamento ou a sua morte, deixou desabar sobre mim esta declaração formidavel:

— Zé Fernandes, vou partir para Tormes.

O pulo com que me sentei abalou o rijo leito de pau preto do velho D. Galião:

— Para Tormes? Oh Jacintho, quem assassinaste?...

Deleitado com a minha emoção, o Principe da Gran Ventura tirou da algibeira uma carta, e encetou estas linhas, já decerto relidas, fundamente estudadas:.

— «Ill.mo e exc.mo snr. — Tenho grande satisfação em communicar a v. exc.a que por toda esta semana devem ficar promptas as obras da capella...»

— É do Silverio? exclamei.

— É do Silverio. «...as obras da capella nova. Os venerandos restos dos excelsos avós de v. exc.a, senhores de todo o meu respeito, podem pois ser em breve trasladados da egreja de S. José, onde têm estado depositados por bondade do nosso Abbade, que muito se recommenda a v. exc.a... Submisso, aguardo as prestantes ordens de v. exc.a a respeito d’esta magestosa e afflictiva ceremonia...»

Atirei os braços, comprehendendo:

— Ah! bem! Queres ir assistir á trasladação...

Jacintho sumiu a carta no bolso.

— Pois não te parece, Zé Fernandes? Não é por causa dos outros avós, que são ossos vagos, e que eu não conheci. É por causa do avô Galião... Tambem não o conheci. Mas este 202 está cheio d’elle; tu estás deitado na cama d’elle; eu ainda uso o relogio d’elle. Não posso abandonar ao Silverio e aos caseiros o cuidado de o installarem no seu jazigo novo. Ha aqui um escrupulo de decencia, de elegancia moral... Emfim, decidi. Apertei os punhos na cabeça, e gritei — vou a Tormes! E vou!... E tu vens!

Eu enfiara as chinellas, apertava os cordões do roupão:

— Mas tu sabes, meu bom Jacintho, que a casa de Tormes está inhabitavel...

Elle cravou em mim os olhos aterrados.

— Medonha, hein?

— Medonha, medonha, não... É uma bella casa, de bella pedra. Mas os caseiros, que lá vivem ha trinta annos, dormem em catres, comem o caldo á lareira, e usam as salas para seccar o milho. Creio que os unicos moveis de Tormes, se bem recordo, são um armario, e uma espinetta de charão, côxa, já sem teclas.

O meu pobre Principe suspirou, com um gesto rendido em que se abandonava ao Destino:

— Acabou!... Alea jact est! E como só partimos para abril, ha tempo de pintar, d’assoalhar, d’envidraçar... Mando d’aqui de Paris tapetes e camas... Um estofador de Lisboa vae depois forrar e disfarçar algum buraco... Levamos livros, uma machina para fabricar gelo... E é mesmo uma occasião de pôr emfim n’uma das minhas casas de Portugal alguma decencia e ordem. Pois não achas? E então essa! Uma casa que data de 1410... Ainda existia o Imperio Byzantino!

Eu espalhava, com o pincel, sobre a face, flocos lentos de sabão. O meu Principe accendeu muito pensativamente um cigarro; e não se arredou do toucador, considerando o meu preparo com uma attenção triste que me incommodava. Por fim, como se remoesse uma sentença minha, para lhe reter bem a moral e o succo:

— Então, definitivamente, Zé Fernandes, entendes que é um dever, um absoluto dever, ir eu a Tormes?

Afastei do espelho a cara ensaboada para encarar com divertido espanto o meu Principe:

— Oh Jacintho! foi em ti, só em ti que nasceu a ideia d’esse dever! E honra te seja, menino... Não cedas a ninguem essa honra!

Elle atirou o cigarro — e, com as mãos enterradas nas algibeiras das pantalonas, vagou pelo quarto, topando nas cadeiras, embicando contra os postes torneados do velho leito de D. Galião, n’um balanço vago, como barco já desamarrado do seu seguro ancoradouro, e sem rumo no mar incerto. Depois encalhou sobre a mesa onde eu conservava enfileirada, por gradações de sentimentos, desde o dagarreotypo do papá até á photographia do Carocho perdigueiro, a galeria da minha Familia.

E nunca o meu Principe (que eu contemplava esticando os suspensorios) me pareceu tão corcovado, tão minguado, como gasto por uma lima que desde muito o andasse fundamente limando. Assim viera findar, desfeita em Civilisação, n’aquelle super-requintado magricellas sem musculo e sem energia, a raça fortissima dos Jacinthos! Esses guedelhudos Jacinthões, que nas suas altas terras de Tormes, de volta de bater o moiro no Salado ou o castelhano em Valverde, nem mesmo despiam as fuscas armaduras para lavrar as suas chans e amarrar a vide ao olmo, edificando o Reino com a lança e com a enxada, ambas tão rudes e rijas! E agora, alli estava aquelle ultimo Jacintho, um Jacinthiculo, com a macia pelle embebida em aromas, a curta alma enrodilhada em Philosophias, travado e suspirando baixinho na miuda indecisão de viver.

— Oh Zé Fernandes, quem é esta lavradeirona tão rechonchuda?

Estendi o pescoço para a Photographia que elle erguera d’entre a minha galeria, no seu honroso caixilho de pellucia escarlate:

— Mais respeito, Snr. D. Jacintho... Um pouco mais de respeito, cavalheiro!... É minha prima Joanninha, de Sandofim, da Casa da Flôr da Malva.

— Flôr da Malva, murmurou o meu Principe. É a casa do Condestavel, de Nun’alvares.

— Flôr da Rosa, homem! A casa do Condestavel era na Flôr da Rosa, no Alemtejo... Essa tua ignorancia trapalhona das coisas de Portugal!

O meu Principe deixou escorregar mollemente a photographia da minha prima d’entre os dedos molles — que levou á face, no seu gesto horrendo de palpar atravez da face a caveira. Depois, de repente, com um soberbo esforço, em que se endireitou e cresceu:

— Bem! Alea jacta est! Partamos pois para as serras!... E agora nem reflexão, nem descanço!... Á obra! E a caminho!

Atirou a mão ao fecho dourado da porta como se fosse o negro loquete que abre os Destinos — e no corredor gritou pelo Grillo, com uma larga e açodada voz que eu nunca lhe conhecera, e me lembrou a d’um Chefe ordenando, n’alvorada, que se levante o Acampamento, e que a Hoste marche, com pendões e bagagens...

Logo n’essa manhã (com uma actividade em que eu reconheci a pressa enjoada de quem bebe oleo-de-ricino), escreveu ao Silverio mandando caiar, assoalhar, envidraçar o casarão. E depois do almoço appareceu na Bibliotheca, chamado violentamente pelo telephone, para combinar a remessa de mobilias e confortos, o director da Companhia Universal de Transportes.

Era um homem que parecia o cartaz da sua Companhia, apertado n’um jaquetão de xadrezinho escuro, com polainas de jornada sobre botas brancas, uma sacola de marroquim a tiracolo, e na botoeira uma roseta multicor resumindo as suas condecorações exoticas de Madagascar, de Nicaragua, da Persia, outras ainda, que provavam a universalidade dos seus serviços. Apenas Jacintho mencionou «Tormes, no Douro...» — elle logo, atravez d’um sorriso superior, estendeu o braço, detendo outros esclarecimentos, na sua intimidade minuciosa com essas regiões.

— Tormes... Perfeitamente! Perfeitamente!

Sobre o joelho, na carteira, escrevinhou uma fugidia nota — emquanto eu considerava, assombrado, a vastidão do seu saber Chorographico, assim familiar com os recantos d’uma serra de Portugal e com todos os seus velhos solares. Já elle atirára a carteira para o bolso... E «nós, seus caros senhores, não tinhamos senão a encaixotar as roupas, as mobilias, as preciosidades! Elle mandaria as suas carroças buscar os caixotes, a que poria, em grossa letra, com grossa tinta, o endereço...»

— Tormes, perfeitamente! Linha Norte-Hespanha-Medina-Salamanca... Perfeitamente! Tormes... Muito pittoresco! E antigo, historico! Perfeitamente, perfeitamente!

Desengonçou a cabeça n’uma venia profundissima — e sahiu da Bibliotheca, com passos que devoravam leguas, annunciavam a presteza dos seus Transportes.

— Vê tu, murmurou Jacintho muito serio. Que promptidão, que facilidade!... Em Portugal era uma tragedia. Não ha senão Paris!

Começou então no 202 o collossal encaixotamento de todos os confortos necessarios ao meu Principe para um mez de serra aspera — camas de penna, banheiras de nickel, lampadas Carcel, divans profundos, cortinas para vedar as gretas rudes, tapetes para amaciar os soalhos broncos. Os sotãos, onde se arrecadavam os pesados trastes do avô Galião, foram esvasiados — porque o casarão medieval de 1410 comportava os tremós romanticos de 1830. De todos os armazens de Paris chegavam cada manhã fardos, caixas, temerosos embrulhos que os emmaladores desfaziam, atulhando os corredores de montes de palha e de papel pardo, onde os nossos passos açodados se enrodilhavam. O cozinheiro, esbaforido, organisava a remessa de fornalhas, geleiras, bocaes de trufas, latas de conservas, bojudas garrafas de aguas mineraes. Jacintho, lembrando as trovoadas da serra, comprou um immenso pára-raios. Desde o amanhecer, nos pateos, no jardim, se martellava, se pregava, com vasto fragor, como na construcção d’uma cidade. E o desfilar das bagagens, através do portão, lembrava uma pagina de Herodoto contando a marcha dos Persas.

Das janellas, Jacintho com o braço estendido, saboreava aquella actividade e aquella disciplina:

— Vê tu, Zé Fernandes, que facilidade!... Sahimos do 202, chegamos á serra, encontramos o 202. Não ha senão Paris!

Recomeçára a amar a Cidade, o meu Principe, emquanto preparava o seu Exodo. Depois de ter, toda a manhã, apressado os encaixotadores, descortinado confortos novos para o abandonado solar, telephonado gordas listas de encommendas a cada loja de Paris — era com delicia que se vestia, se perfumava, se floria, se enterrava na vittoria ou saltava para a almofada do phaeton, e corria ao Bosque, e saudava a barba talmudica do Ephraim, e os bandós furiosamente negros da Verghane, e o Psychologo de fiacre, e a condessa de Trèves na sua nova caleche de oito-molas fornecida pelas operações conjunctas da Bolsa e da alcôva. Depois arrebanhava amigos para jantares de surpreza no Voisin ou no Bignon, onde desdobrava o guardanapo com a impaciencia d’uma fome alegre, vigiando fervorosamente que os Bordeus estivessem bem aquecidos e os Champagnes bem granitados. E no theatro das Nouveautés, no Palais Royal, nos Buffos, ria, batendo na côxa, com encanecidas facecias d’encanecidas farças, antiquissimos tregeitos d’antiquissimos actores, com que já rira na sua infancia, antes da guerra, sob o segundo Napoleão!

De novo, em duas semanas, se abarrotaram as paginas da sua Agenda. A magnificencia do seu trage, como imperador Frederico II de Suabia, deslumbrou, no baile mascarado da Princesa de Cravon-Rogan (onde tambem fui, de «moço de forcado».) E na Associação para o Desenvolvimento das Religiões Esotericas discursou e batalhou bravamente pela construcção d’um Templo Budhista em Montmartre!

Com espanto meu recomeçou tambem a conversar, como nos tempos de Escóla, da «famosa Civilisação nas suas maximas proporções.» Mandou encaixotar o seu velho telescopio para o usar em Tormes. Receei mesmo que no seu espirito germinasse a idéa de crear, no cimo da serra, uma Cidade com todos os seus orgãos. Pelo menos não consentia o meu Jacintho que essas semanas da silvestre Tormes interrompessem a illimitada accumulação das noções — porque uma manhã rompeu pelo meu quarto, desolado, gritando que entre tantos confortos e fórmas de Civilisação esqueceramos os livros! Assim era — e que vexame para a nossa Intellectualidade! Mas que livros escolher entre os facundos milhares sob que vergava o 202? O meu Principe decidiu logo dedicar os seus dias serranos ao estudo da Historia Natural — e nós mesmos, immediatamente, deitamos para o fundo d’um vasto caixote novo, como lastro, os vinte e cinco tomos de Plinio. Despejamos depois para dentro, ás braçadas, Geologia, Mineralogia, Botanica... Espalhamos por cima uma camada aeria de Astronomia. E, para fixar bem no caixote estas Sciencias oscillantes, entalamos em redor cunhas de Metaphysica.

Mas quando a derradeira caixa, pregada e cintada de ferro, sahiu do portão do 202 na derradeira carroça da Companhia dos Transportes, toda esta animação de Jacintho se abateu como a efervescencia n’um copo de Champagne. Era em meados já tepidos de Março. E de novo os seus desagradaveis bocejos atroaram o 202, e todos os sophás rangeram sob o peso do corpo que elle lhe atirava para cima, mortalmente vencido pela fartura e pelo tedio, n’um desejo de repouso eterno, bem envolto de solidão e silencio. Desesperei. O que! Aturaria eu ainda aquelle Principe palpando amargamente a caveira, e, quando o crepusculo entristecia a Bibliotheca, alludindo, n’um tom rouco, á doçura das mortes rapidas pela violencia misericordiosa do acido cyanhidrico? Ah não, caramba! E uma tarde em que o encontrei estirado sobre um divan, de braços em cruz, como se fosse a sua estatua de marmore sobre o seu jazigo de granito, positivamente o abanei com furor, berrando:

— Accorda, homem! Vamos para Tormes! O casarão deve estar prompto, a reluzir, a abarrotar de cousas! Os ossos de teus avós pedem repouso, em cova sua!... A caminho, a enterrar esses mortos, e a vivermos nós, os vivos!... Irra! São cinco de Abril!... É o bom tempo da serra!

O meu Principe resurgiu lentamente da inercia de pedra:

— O Silverio não me escreveu, nunca me escreveu... Mas, com effeito, deve estar tudo preparado... Já lá temos certamente creados, o cosinheiro de Lisboa... Eu só levo o Grillo, e o Anatole que envernisa bem o calçado, e tem geito como pedicuro... Hoje é Domingo.

Atirou os pés para o tapete, com heroismo:

— Bem, partimos no Sabbado!... Avisa tu o Silverio!

Começou então o laborioso e pensativo estudo dos Horarios — e o dedo magro de Jacintho, por sobre o mappa, avançando e recuando entre Paris e Tormes. Para escolher o «salão» que deviamos habitar durante a temida jornada, duas vezes percorremos o deposito da Estação d’Orleans, atolados em lama, atraz do Chefe do Trafico que entontecia. O meu Principe recusava este salão por causa da côr tristonha dos estofos; depois recusava aquelle por causa da mesquinhez afflictiva do Water-Closet! Uma das suas inquietações era o banho, nas manhãs que passariamos rolando. Suggeri uma banheira de borracha. Jacintho, indeciso, suspirava... Mas nada o aterrou como o trasbordo em Medina del Campo, de noite, nas trevas da Velha Castella. Debalde a Companhia do Norte de Hespanha e a de Salamanca, por cartas, por telegrammas, socegaram o meu camarada, affirmando que, quando elle chegasse no comboio de Irun dentro do seu salão, já outro salão ligado ao comboio de Portugal esperaria, bem aquecido, bem allumiado, com uma ceia que lhe offertava um dos Directores, D. Esteban Castillo, ruidoso e rubicundo conviva do 202! Jacintho corría os dedos anciosos pela face: — «E os saccos, as pelles, os livros, quem os transportaria do salão de Irun para o salão de Salamanca?» Eu berrava, desesperado, que os carregadores de Medina eram os mais rapidos, os mais destros de toda a Europa! Elle murmurava: — «Pois sim, mas em Hespanha, de noite!...» A noite, longe da Cidade, sem telephone, sem luz electrica, sem postos de policia, parecia ao meu Principe povoada de surprezas e assaltos. Só acalmou depois de verificar no Observatorio Astronomico, sob a garantia do sabio professor Bertrand, que a noite da nossa jornada era de lua cheia!

Emfim, na sexta-feira, findou a tremenda organisação d’aquella viagem historica! O sabbado predestinado amanheceu com generoso sol, de affagadora doçura. E eu acabava de guardar na mala, embrulhadas em papel pardo, as photographias das creaturinhas suaves que, n’esses vinte e sete mezes de Paris, me tinham chamado «mon petit chou! mon rat cheri!» — quando Jacintho rompeu pelo quarto, com um soberbo ramo de orchideas na sobrecasaca, pallido e todo nervoso.

— Vamos ao Bosque, por despedida?

Fomos — á grande despedida! E que encanto! Até nas almofadas e molas da vittoria senti logo uma elasticidade mais emballadora. Depois, pela Avenida do Bosque, quasi me pezava não ficar sempiternamente rolando, ao trote rimado das eguas perfeitas, no rebrilho rico de metaes e vernizes, sobre aquelle macadam mais alisado que marmore, entre tão bem regadas flôres e relvas de tão tentadora frescura, cruzando uma Humanidade fina, de elegancia bem acabada, que almoçára o seu chocolate em porcellanas de Sevres ou de Minton, sahira d’entre sèdas e tapetes de tres mil francos, e respirava a belleza de Abril com vagar, requinte e pensamentos ligeiros! O Bosque resplandecia n’uma harmonia de verde, azul e ouro. Nenhuma cova ou terra solta desalisava as polidas alleas que a Arte traçou e enroscou na espessura — nenhum esgalho desgrenhado desmanchava as ondulações macias da folhagem que o Estado escóva e lava. O piar das aves apenas se elevava para espalhar uma graça leve de vida alada; — e mais natural parecia, entre o arvoredo sociavel, o ranger das sellas novas, onde pousavam, com balanço esbelto, as amazonas espartilhadas pelo grande Redfern. Em frente ao Pavilhão de Armenonville cruzamos Madame de Trèves, que nos envolveu ambos na caricia do seu sorriso, mais avivado áquella hora pelo vermelhão ainda humido. Logo atraz a barba talmudica de Ephraim negrejou, fresca tambem da brilhantine da manhã, no alto d’um phaeton tilintante. Outros amigos de Jacintho circulavam nas Acacias — e as mãos que lhe acenavam, lentas e affaveis, calçavam luvas frescas côr de palha, côr de perola, côr de lilaz. Todelle relampejou rente de nós sobre uma grande bycicleta. Dornan, alastrado n’uma cadeira de ferro, sob um espinheiro em flôr, mamava o seu immenso charuto, como perdido na busca de rimas sensuaes e nedias. Adeante foi o Psychologo, que nos não avistou, conversando com um requebro melancolico para dentro d’um coupé que rescendia a alcova, e a que um cocheiro obeso imprimia dignidade e decencia. E rolavamos ainda, quando o Duque de Marizac, a cavallo, ergueu a bengala, estacou a nossa vittoria para perguntar a Jacintho se apparecia á noite nos «quadros vivos» dos Verghanes. O meu Principe rosnou um — «não, parto para o sul...» — que mal lhe passou d’entre os bigodes murchos... E Marizac lamentou — porque era uma festa estupenda. Quadros vivos da Historia Sagrada e da Historia Romana!... Madame Verghane, de Magdalena, de braços nús, peitos nús, pernas núas, limpando com os cabellos os pés do Christo! — O Christo, um latagão soberbo, parente dos Trèves, empregado no Ministerio da Guerra, gemendo, derreado, sob uma cruz de papelão! Havia tambem Lucrecia na cama, e Tarquinio ao lado, de punhal, a puxar os lençoes! E depois ceia, em mezas soltas, todos nos seus trajes historicos. Elle já estava aparceirado com Madame de Malbe, que era Agrippina! Quadro portentoso esse — Agrippina morta, quando Nero a vem contemplar e lhe estuda as fórmas, admirando umas, desdenhando outras como imperfeitas. Mas, por polidez, ficára combinado que Nero admiraria sem reserva todas as fórmas de Madame de Malbe... Emfim collossal, e estupendamente instructivo!

Acenamos um longo adeus áquelle alegre Marizac. E recolhemos sem que Jacintho emergisse do silencio enrugado em que se abysmára, com os braços rigidamente cruzados, como remoendo pensamentos decisivos e fortes. Depois, em frente ao Arco de Triumpho, moveu a cabeça, murmurou:

— É muito grave, deixar a Europa!


Emfim, partimos! Sob a doçura do crepusculo que se enublára deixamos o 202. O Grillo e o Anatole seguiam n’um fiacre atulhado de livros, de estojos, de paletots, de impermeaveis, de travesseiras, de agoas mineraes, de saccos de couro, de rolos de mantas: e mais atraz um omnibus rangia sob a carga de vinte e tres malas. Na Estação, Jacintho ainda comprou todos os Jornaes, todas as Illustrações, Horarios, mais livros, e um saca-rolhas de fórma complicada e hostil. Guiados pelo Chefe do Trafico, pelo Secretario da Companhia, occupamos copiosamente o nosso salão. Eu puz o meu bonet de sêda, calcei as minhas chinellas. Um silvo varou a noite. Paris lampejou, fugiu n’um derradeiro clarão de janellas... Para o sorver, Jacintho ainda se arremessou á portinhola. Mas rolavamos já na treva da Provincia. O meu Principe então recahiu nas almofadas:

— Que aventura, Zé Fernandes!

Até Chartres, em silencio, folheamos as Illustrações. Em Orleans, o guarda veio arranjar respeitosamente as nossas camas. Derreado com aquelles quatorze mezes de Civilisação adormeci — e só acordei em Bordeus quando Grillo, zeloso, nos trouxe o nosso chocolate. Fóra, uma chuva miudinha pingava mollemente d’um espesso ceu de algodão sujo. Jacintho não se deitára, desconfiado da aspereza e da humidade dos lençoes. E, mettido n’um roupão de flanella branco, com a face arripiada e estremunhada, ensopando um bolo no chocolate, rosnava sombriamente:.

— Este horror!... E agora com chuva!

Em Biarritz, ambos observamos com uma certeza indolente:

— É Biarritz.

Depois Jacintho, que espreitava pela janella embaciada, reconheceu o lento caminhar pernalto, o nariz bicudo e triste, do Historiador Danjon. Era elle, o facundo homem, vestido de xadrezinho, ao lado d’uma dama roliça que levava pela trella uma cadellinha felpuda. Jacintho baixou a vidraça violentamente, berrou pelo Historiador, na ancia de communicar ainda, através d’elle, com a Cidade, com o 202!... Mas o comboio mergulhára na chuva e nevoa.

Sobre a ponte do Bidassoa, antevendo o termo da vida facil, os abrolhos da Incivilisação, Jacintho suspirou com desalento:

— Agora adeus, começa a Hespanha!...

Indignado, eu, que já saboreava o generoso ar da terra bemdita, saltei para diante do meu Principe, e n’um saracoteio de tremendo salero, castanholando os dedos, entoei uma «petenera» condigna:

A la puerta de mi casa Ay Soledad, Soleda... á... á... á.


Elle estendeu os braços, supplicante:.

— Zé Fernandes, tem piedade do enfermo e do triste!

Irun! Irun!...

N’essa Irun almoçamos com succulencia — por que sobre nós velava, como Deusa omnipresente, a Companhia do Norte. Depois «el jefe d’Aduana, el jefe d’Estacion», preciosamente nos installaram n’outro salão, novo, com setins côr d’azeitona, mas tão pequeno que uma rica porção dos nossos confortos em mantas, livros, saccos e impermeaveis, passou para o compartimento do Sleeping onde se repoltreavam o Grillo e o Anatole, ambos de bonets escocezes, e fumando gordos charutos. — Buen viaje! Gracias! Servidores! — E entramos silvando nos Pyreneos.

Sob a influencia da chuva embaciadora, d’aquellas serras sempre eguaes, que se desenrolavam, arripiadas, diluidas na nevoa, resvalei a uma somnolencia dôce; — e, quando descerrava as palpebras, encontrava Jacintho a um canto, esquecido do livro fechado nos joelhos, sobre que cruzára os magros dedos, considerando valles e montes com a melancolia de quem penetra nas terras do seu desterro! Um momento veio em que, arremessando o livro, enterrando mais o chapéo molle, se ergueu com tanta decisão, que receei detivesse o comboio para saltar á estrada, correr atravez das Vascongadas e da Navarra, para traz, para o 202! Sacudi o meu torpôr, exclamei: — «oh menino!...» Não! O pobre amigo ia apenas continuar o seu tedio para outro canto, enterrado n’outra almofada, com outro livro fechado. E á maneira que a escuridão da tarde crescia, e com ella a borrasca de vento e agoa, uma inquietação mais aterrada se apoderava do meu Principe, assim desgarrado da Civilisação, arrastado para a Natureza que já o cercava de brutalidade agreste. Não cessou então de me interrogar sobre Tormes:

— As noites são horriveis, hein, Zé Fernandes? Tudo negro, enorme solidão... E medico?... Ha medico?

Subitamente o comboio estacou. Mais grossa e ruidosa a chuva fustigou as vidraças. Era um descampado, todo em treva, onde rolava e lufava um grande vento solto. A machina apitava, com angustia. Uma lanterna lampejou, correndo. Jacintho batia o pé: — «É medonho! é medonho!»... Entreabri a portinhola. Da claridade incerta das vidraças surdiam cabeças esticadas, assustadas. — «Que hay? Que hay?» — A uma rajada, que me alagou, recuei: — e esperamos durante lentos, calados minutos, esfregando desesperadamente os vidros embaciados para sondar a escuridão. De repente o comboio recomeçou a rolar, muito sereno.

Em breve appareceram as luzinhas mortas d’uma estação abarracada. Um conductor, com o casacão de oleado todo a escorrer, trepou ao salão: — e por elle soubemos, emquanto carimbava apressadamente os bilhetes, que o trem, muito atrazado, talvez não alcançasse em Medina o comboio de Salamanca!

— Mas então?...

O casaco de oleado escorregára pela portinhola, fundido na noite, deixando um cheiro de humidade e azeite. E nós encetamos um novo tormento... Se o trem de Salamanca tivesse abalado? O salão, tomado até Medina, desengatava em Medina: — e eis os nossos preciosos corpos, com as nossas preciosas almas, despejados em Medina, para cima da lama, entre vinte e trez malas, n’uma rude confusão hespanhola, sob a tormenta de ventania e d’agua!

— Oh, Zé Fernandes, uma noite em Medina!

Ao meu Principe apparecia como desventura suprema essa noite em Medina, n’uma fonda sordida, fedendo a alho, com gordas filas de percevejos atravez dos lençoes d’estopa encardida!... Não cessei então de fitar, n’um desassocego, os ponteiros do relogio: — emquanto Jacintho, pela vidraça escancarada, todo fustigado da chuva clamorosa, furava a negrura, na esperança de avistar as luzes de Medina e um comboio paciente fumegando... Depois recahia no divan, limpava os bigodes e os olhos, maldizia a Hespanha. O trem arquejava, rompendo o vasto vento da planura desolada. E a cada apito era um alvoroço. Medina?... Não! Algum sumido apeadeiro, onde o trem se atardava, esfalfado, resfolgando, emquanto dormentes figuras encarapuçadas, embrulhadas em mantas, rondavam sob o telheiro do barracão, que as lanternas baças tornavam mais soturno. Jacintho esmurrava o joelho: — «Mas por que pára este infame comboio? Não ha trafico, não ha gente! Oh esta Hespanha!...» A sineta badalava, moribunda. De novo fendiamos a noite e a borrasca.

Resignadamente comecei a percorrer um Jornal do Commercio, antigo, trazido de Paris. Jacintho esmagava o espesso tapete do salão com passadas rancorosas, rosnando como uma fera. E ainda assim se escoou, ás gottas, uma hora cheia de eternidade. — Um silvo, outro silvo!... Luzes mais fortes, longe, palpitaram na neblina. As rodas trilharam, com rijos solavancos, os encontros de carris. Emfim, Medina!... Um muro sujo de barracão alvejou — e bruscamente, á portinhola aberta com violencia, apparece um cavalheiro barbudo, de capa á hespanhola, gritando pelo snr. D. Jacintho!... Depressa! depressa! que parte o comboio de Salamanca!

— «Que no hay un momento, caballeros! Que no hay un momento!»

Agarro estonteadamente o meu paletot, o Jornal do Commercio. Saltamos com ancia: — e, pela plataforma, por sobre os trilhos, através de charcos, tropeçando em fardos, empurrados pelo vento, pelo homem da capa á hespanhola, enfiamos outra portinhola, que se fechou com um estalo tremendo... Ambos arquejavamos. Era um salão forrado de um panno verde que comia a luz escassa. E eu estendia o braço, para receber dos carregadores açodados as nossas malas, os nossos livros, as nossas mantas — quando, em silencio, sem um apito, o trem despegou e rolou. Ambos nos atiramos ás vidraças, em brados furiosos:

— Pare! As nossas malas, as nossas mantas!... P’ra aqui!... Oh Grillo! Oh Grillo!

Uma immensa rajada levou os nossos brados. Era de novo o descampado tenebroso, sob a chuva despenhada. Jacintho ergueu os punhos, n’um furor que o engasgava:

— Oh! Que serviço! Oh que canalhas!... Só em Hespanha!... E agora? As malas perdidas!... Nem uma camisa, nem uma escova!

Calmei o meu desgraçado amigo:.

— Escuta! eu entrevi dous carregadores arrebanhando as nossas cousas... Decerto o Grillo fiscalisou. Mas na pressa, naturalmente, atirou com tudo para o seu compartimento... Foi um erro não trazer o Grillo comnosco, no salão... Até podiamos jogar a manilha!

De resto a sollicitude da Companhia, Deusa omnipresente, velava sobre o nosso conforto — pois que á porta do lavatorio branquejava o cesto da nossa ceia, mostrando na tampa um bilhete de D. Esteban com estas doces palavras a lapis — á D. Jacintho y su egregio amigo, que les dè gusto! Farejei um aroma de perdiz. E alguma tranquillidade nos penetrou no coração sentindo tambem as nossas malas sob a tutella da Deusa omnipresente.

— Tens fome Jacintho?

— Não. Tenho horror, furor, rancor!... E tenho somno.

Com effeito! depois de tão desencontradas emoções só appeteciamos as camas que esperavam, macias e abertas. Quando cahi sobre a travesseira, sem gravata, em ceroulas, já o meu Principe, que não se despira, apenas embrulhára os pés no meu paletot, nosso unico agasalho, resonava com magestade.

Depois, muito tarde e muito longe, percebi junto do meu catre, na claridadezinha da manhã, coada pelas cortinas verdes, uma fardeta, um bonet, que murmuravam baixinho com immensa doçura:

— V. exc.as não têem nada a declarar?... Não ha malinhas de mão?...

Era a minha terra! Murmurei baixinho com immensa ternura:

— Não temos aqui nada... Pergunte v. exc.a pelo Grillo... Ahi atraz, n’um compartimento... Elle tem as chaves, tem tudo... É o Grillo.

A fardeta desappareceu, sem rumor, como sombra benefica. E eu readormeci com o pensamento em Guiães, onde a tia Vicencia, atarefada, de lenço branco cruzado no peito, de certo já preparava o leitão.

Acordei envolto n’um largo e doce silencio. Era uma Estação muito socegada, muito varrida, com rosinhas brancas trepando pelas paredes — e outras rosas em moitas, n’um jardim, onde um tanquesinho abafado de limos dormia sob duas mimosas em flôr que rescendiam. Um moço pallido, de paletot côr de mel, vergando a bengalinha contra o chão, contemplava pensativamente o comboio. Agachada rente á grade da horta, uma velha, diante da sua cesta de ovos, contava moedas de cobre no regaço. Sobre o telhado seccavam aboboras. Por cima rebrilhava o profundo, rico e macio azul de que meus olhos andavam agoados.

Sacudi violentamente Jacintho:

— Acorda, homem, que estás na tua terra!

Elle desembrulhou os pés do meu paletot, cofiou o bigode, e veio sem pressa, á vidraça que eu abrira, conhecer a sua terra.

— Então é Portugal, hein?... Cheira bem.

— Está claro que cheira bem, animal!

A sineta tilintou languidamente. E o comboio deslisou, com descanço, como se passeasse para seu regalo sobre as duas fitas d’aço, assobiando e gozando a belleza da terra e do ceu.

O meu Principe alargava os braços, desolado:

— E nem uma camisa, nem uma escova, nem uma gotta d’agoa de Colonia!... Entro em Portugal, immundo!

— Na Regoa ha uma demora, temos tempo de chamar o Grillo, rehaver os nossos confortos... Olha para o rio!

Rolavamos na vertente d’uma serra, sobre penhascos que desabavam até largos socalcos cultivados de vinhedo. Em baixo, n’uma esplanada, branquejava uma casa nobre, de opulento repouso, com a capellinha muito caiada entre um laranjal maduro. Pelo rio, onde a agoa turva e tarda nem se quebrava contra as rochas, descia, com a vela cheia, um barco lento carregado de pipas. Para além, outros socalcos, d’um verde pallido de rezeda, com oliveiras apoucadas pela amplidão dos montes, subiam até outras penedias que se embebiam, todas brancas e assoalhadas, na fina abundancia do azul. Jacintho acariciava os pellos corredios do bigode:

— O Douro, hein?... É interessante, tem grandeza. Mas agora é que eu estou com uma fome, Zé Fernandes!

Tambem eu! Destapamos o cesto de D. Esteban d’onde surdiu um bodo grandioso, de presunto, anho, perdizes, outras viandas frias que o ouro de duas nobres garrafas d’Amontillado, além de duas garrafas de Rioja, aqueciam com um calor de sol Andaluz. Durante o presunto, Jacintho lamentou contrictamente o seu erro. Ter deixado Tormes, um solar historico, assim abandonado e vasio! Que delicia, por aquella manhã tão lustrosa e tepida, subir á serra, encontrar a sua casa bem apetrechada, bem civilisada... Para o animar, lembrei que com as obras do Silverio, tantos caixotes de Civilisação remettidos de Paris, Tormes estaria confortavel mesmo para Epicuro. Oh! mas Jacintho entendia um palacio perfeito, um 202 no deserto!... E, assim discorrendo, atacamos as perdizes. Eu desarrolhava uma garrafa de Amontillado — quando o comboio, muito sorrateiramente, penetrou n’uma Estação. Era a Regoa. E o meu Principe pousou logo a faca para chamar o Grillo, reclamar as malas que traziam o aceio dos nossos corpos.

— Espera, Jacintho! Temos muito tempo, O comboio pára aqui uma hora... Come com tranquillidade. Não escangalhemos este almocinho com arrumações de maletas... O Grillo não tarda a apparecer.

E corri mesmo a cortina, porque de fóra um padre muito alto, com uma ponta de cigarro collada ao beiço, parára a espreitar indiscretamente o nosso festim. Mas quando acabamos as perdizes, e Jacintho confiadamente desembrulhava um queijo manchego, sem que Grillo ou Anatole comparecessem, eu, inquieto, corri á portinhola para apressar esses servos tardios... E n’esse instante o comboio, largando, deslisou com o mesmo silencio sorrateiro. Para o meu Principe foi um desgosto:

— Ahi ficamos outra vez sem um pente, sem uma escova... E eu que queria mudar de camisa! Por culpa tua, Zé-Fernandes!

— É espantoso!... Demora sempre uma eternidade. Hoje chega e abala! Paciencia, Jacintho. Em duas horas estamos na Estação de Tormes... Tambem não valia a pena mudar de camisa para subir á serra! Em casa tomamos um banho, antes de jantar... Já deve estar installada a banheira.

Ambos nos consolamos com copinhos d’uma divina aguardente Chinchon. Depois, estendidos nos sophás, saboreando os dois charutos que nos restavam, com as vidraças abertas ao ar adoravel, conversamos de Tormes. Na estação certamente estaria o Silverio, com os cavallos...

— Que tempo leva a subir?

Uma hora. Depois de lavados sobrava tempo para um demorado passeio pelas terras com o caseiro, o excellente Melchior, para que o Senhor de Tormes, solemnemente, tomasse posse do seu Senhorio. E á noite o primeiro brodio da serra, com os piteus vernaculos do velho Portugal!

Jacintho sorria, seduzido:

— Vamos a ver que cozinheiro me arranjou esse Silverio. Eu recommendei que fosse um soberbo cozinheiro portuguez, classico. Mas que soubesse trufar um perú, afogar um bife em molho de moella, estas cousas simples da cozinha de França!... O peor é não te demorares, seguires logo para Guiães...

— Ah, menino, annos da tia Vicencia no sabbado... Dia sagrado! Mas volto. Em duas semanas estou em Tormes, para fazermos uma larga Bucolica. E, está claro, para assistir á trasladação.

Jacintho estendera o braço:

— Que casarão é aquelle, além no outeiro, com a torre?

Eu não sabia. Algum solar de fidalgote do Douro... Tormes era n’esse feitio atarracado e massiço. Casa de seculos e para seculos — mas sem torre.

— E logo se vê, da estação, Tormes?...

— Não! Muito no alto, n’uma prega da serra, entre arvoredo.

No meu Principe já evidentemente nascèra uma curiosidade pela sua rude casa ancestral. Mirava o relogio, impaciente. Ainda trinta minutos! Depois, sorvendo o ar e a luz, murmurava, no primeiro encanto de iniciado:

— Que doçura, que paz...

— Trez horas e meia, estamos a chegar, Jacintho!

Guardei o meu velho Jornal do Commercio dentro do bolso do paletot, que deitei sobre o braço; — e ambos em pé, ás janellas, esperamos com alvoroço a pequenina Estação de Tormes, termo ditoso das nossas provações. Ella appareceu emfim, clara e simples, á beira do rio, entre rochas, com os seus vistosos girasoes enchendo um jardimsinho breve, as duas altas figueiras assombreando o pateo, e por traz a serra coberta de velho e denso arvoredo... Logo na plataforma avistei com gosto a immensa barriga, as bochechas menineiras do chefe da Estação, o louro Pimenta, meu condiscipulo em Rhetorica, no Lyceu de Braga. Os cavallos decerto esperavam, á sombra, sob as figueiras.

Mal o trem parou ambos saltamos alegremente. A bojuda massa do Pimenta rebolou para mim com amizade:

— Viva o amigo Zé Fernandes!

— Oh bello Pimentão!...

Apresentei o senhor de Tormes. E immediatamente:

— Ouve lá, Pimentinha... Não está ahi o Silverio?

— Não... O Silverio ha quasi dois mezes que partiu para Castello de Vide, vêr a mãe que apanhou uma cornada d’um boi!

Atirei a Jacintho um olhar inquieto:

— Ora essa! E o Melchior, o caseiro?... Pois não estão ahi os cavallos para subirmos á quinta?

O digno chefe ergueu com surpreza as sobrancelhas côr de milho:

— Não!... Nem Melchior, nem cavallos... O Melchior... Ha que tempos eu não vejo o Melchior!

O carregador badalou lentamente a sineta para o comboio rolar. Então, não avistando em torno, na lisa e despovoada Estação, nem creados nem malas, o meu Principe e eu lançamos o mesmo grito de angustia:

— E o Grillo? as bagagens?...

Corremos pela beira do comboio, berrando com desespero:

— Grillo!... Oh Grillo!... Anatole!... Oh Grillo!

Na esperança que elle e o Anatole viessem mortalmente adormecidos, trepavamos aos estribos, atirando a cabeça para dentro dos compartimentos, espavorindo a gente quieta com o mesmo berro que retumbava: — «Grillo, estás ahi, Grillo?» — Já d’uma terceira-classe, onde uma viola repenicava, um jocoso gania, troçando: — «Não ha por ahi um grillo? Andam por ahi uns senhores a pedir um grillo!» — E nem Anatole, nem Grillo!

A sineta tilintou.

— Oh Pimentinha, espera, homem, não deixes largar o comboio!... As nossas bagagens, homem!

E, afflicto, empurrei o enorme chefe para o forgão de carga, a pesquizar, descortinar as nossas vinte e trez malas! Apenas encontramos barris, cestos de vime, latas de azeite, um bahú amarrado com cordas... Jacintho mordia os beiços, livido. E o Pimentinha, esgazeado:

— Oh filhos, eu não posso atrazar o comboio!...

A sineta repicou... E com um bello fumo claro o comboio desappareceu por detraz das fragas altas. Tudo em torno pareceu mais calado e deserto. Alli ficavamos pois baldeados, perdidos na serra, sem Grillo, sem procurador, sem caseiro, sem cavallos, sem malas! Eu conservava o paletot alvadio, d’onde surdia o Jornal do Commercio. Jacintho, uma bengala. Eram todos os nossos bens!

O Pimentão arregalava para nós os olhinhos papudos e compadecidos. Contei então áquelle amigo o atarantado trasfêgo em Medina sob a borrasca, o Grillo desgarrado, encalhado com as vinte e trez malas, ou rolando talvez para Madrid sem nos deixar um lenço...

— Eu não tenho um lenço!... Tenho este Jornal do Commercio. É toda a minha roupa branca.

— Grande arrelia, caramba! murmurava o Pimenta, impressionado. E agora?

— Agora, exclamei, é trepar, para a quinta, á pata... A não ser que se arranjassem ahi uns burros.

Então o carregador lembrou que perto, no casal da Giesta, ainda pertencente a Tormes, o caseiro, seu compadre, tinha uma boa egua e um jumento... E o prestante homem enfiou n’uma carreira para a Giesta — emquanto o meu Principe e eu cahiamos para cima d’um banco, arquejantes e succumbidos, como naufragos. O vasto Pimentinha, com as mãos nas algibeiras, não cessava de nos contemplar, de murmurar: — «É de arrelia». — O rio defronte descia, preguiçoso e como adormentado sob a calma já pesada de maio, abraçando, sem um sussurro, uma larga ilhota de pedra que rebrilhava. Para além a serra crescia em corcovas doces, com uma funda prega onde se aninhava, bem junta e esquecida do mundo, uma villasinha clara. O espaço immenso repousava n’um immenso silencio. N’aquellas solidões de monte e penedia os pardaes, revoando no telhado, pareciam aves consideraveis. E a massa rotunda e rubicunda do Pimentinha dominava, atulhava a região.

— Está tudo arranjado, meu senhor! Vêm ahi os bichos!... Só o que não calhou foi um selimsinho para a jumenta!

Era o carregador, digno homem, que voltava da Giesta, sacudindo na mão duas esporas desirmanadas e ferrugentas. E não tardaram a apparecer no corrego, para nos levarem a Tormes, uma egua ruça, um jumento com albarda, um rapaz e um podengo. Apertamos a mão suada e amiga do Pimentinha. Eu cedi a egua ao senhor de Tormes. E começamos a trepar o caminho, que não se alisára nem se desbravára desde os tempos em que o trilhavam, com rudes sapatões ferrados, cortando de rio a monte, os Jacinthos do seculo XIV! Logo depois de atravessarmos uma tremula ponte de pau, sobre um riacho quebrado por pedregulhos, o meu Principe, com o olho de dono subitamente aguçado, notou a robustez e a fartura das oliveiras... — E em breve os nossos males esqueceram ante a incomparavel belleza d’aquella serra bemdita!

Com que brilho e inspiração copiosa a compozera o divino Artista que faz as serras, e que tanto as cuidou, e tão ricamente as dotou, n’este seu Portugal bem-amado! A grandeza egualava a graça. Para os valles, poderosamente cavados, desciam bandos de arvoredos, tão copados e redondos, d’um verde tão môço que eram como um musgo macio onde appetecia cahir e rolar. Dos pendores, sobranceiros ao carreiro fragoso, largas ramadas estendiam o seu toldo amavel, a que o esvoaçar leve dos passaros sacudia a fragrancia. Atravez dos muros seculares, que sustem as terras liados pelas heras, rompiam grossas raizes colleantes a que mais hera se enroscava. Em todo o torrão, de cada fenda, brotavam flôres silvestres. Brancas rochas, pelas encostas, alastravam a solida nudez do seu ventre polido pelo vento e pelo sol; outras, vestidas de lichen e de silvados floridos, avançavam como prôas de galeras enfeitadas: e, d’entre as que se apinhavam nos cimos, algum casebre que para lá galgára, todo amachucado e torto, espreitava pelos postigos negros, sob as desgrenhadas farripas de verdura, que o vento lhe semeára nas telhas. Por toda a parte a agua sussurrante, a agua fecundante... Espertos regatinhos fugiam, rindo com os seixos, d’entre as patas da egua e do burro; grossos ribeiros açodados saltavam com fragor de pedra em pedra; fios direitos e luzidios como cordas de prata vibravam e faiscavam das alturas aos barrancos; e muita fonte, posta á beira de veredas, jorrava por uma bica, beneficamente, á espera dos homens e dos gados... Todo um cabeço por vezes era uma ceára, onde um vasto carvalho ancestral, solitario, dominava como seu senhor e seu guarda. Em socalcos verdejavam laranjaes rescendentes. Caminhos de lages soltas circumdavam fartos prados com carneiros e vaccas retouçando: — ou mais estreitos, entalados em muros, penetravam sob ramadas de parra espessa, n’uma penumbra de repouso e frescura. Trepavamos então alguma ruasinha de aldeia, dez ou doze casebres, sumidos entre figueiras, onde se esgaçava, fugindo do lar pela telha vã, o fumo branco e cheiroso das pinhas. Nos cerros remotos, por cima da negrura pensativa dos pinheiraes, branquejavam ermidas. O ar fino e puro entrava na alma, e n’alma espalhava alegria e força. Um esparso tilintar de chocalhos de guizos morria pelas quebradas...

Jacintho adiante, na sua egua ruça, murmurava:

— Que belleza!

E eu atraz, no burro de Sancho, murmurava:

— Que belleza!

Frescos ramos roçavam os nossos hombros com familiaridade e carinho. Por traz das sebes, carregadas d’amoras, as macieiras estendidas offereciam as suas maçãs verdes, porque as não tinham maduras. Todos os vidros d’uma casa velha, com a sua cruz no topo, refulgiram hospitaleiramente quando nós passamos. Muito tempo um melro nos seguia, de azinheiro a olmo, assobiando os nossos louvores. Obrigado, irmão melro! Ramos de macieira, obrigado! Aqui vimos, aqui vimos! E sempre comtigo fiquemos, serra tão acolhedora, serra de fartura e de paz, serra bemdita entre as serras!

Assim, vagarosamente e maravilhados, chegamos áquella avenida de faias, que sempre me encantára pela sua fidalga gravidade. Atirando uma vergastada ao burro e á egua, o nosso rapaz, com o seu podengo sobre os calcanhares, gritou: — «Aqui é que estêmos, meus amos!» E ao fundo das faias, com effeito, apparecia o portão da quinta de Tormes, com o seu brazão de armas, de secular granito, que o musgo retocava e mais envelhecia. Dentro já os cães ladravam com furor. E quando Jacintho, na sua suada egua, e eu atraz, no burro de Sancho, transpozemos o limiar solarengo, desceu para nós, do alto do alpendre, pela escadaria de pedra gasta, um homem nedio, rapado como um padre, sem collete, sem jaleca, acalmando os cães que se encarniçavam contra o meu Principe. Era o Melchior, o caseiro... Apenas me reconheceu, toda a bocca se lhe escancarou n’um riso hospitaleiro, a que faltavam dentes. Mas apenas eu lhe revelei, d’aquelle cavalheiro de bigodes louros que descia da egua esfregando os quadris, o senhor de Tormes — o bom Melchior recuou, colhido de espanto e terror como diante d’uma avantesma.

— Ora essa!... Santissimo nome de Deus! Pois então...

E, entre o rosnar dos cães, n’um bracejar desolado, balbuciou uma historia que por seu turno apavorava Jacintho, como se o negro muro do casarão pendesse para desabar. O Melchior não esperava s. ex.a! Ninguem esperava s. ex.a!... (Elle dizia sua incellencia)... O snr. Silverio estava para Castello de Vide desde março, com a mãe, que apanhára uma cornada na virilha. E de certo houvera engano, cartas perdidas... Porque o snr. Silverio só contava com s. exc.a em setembro, para a vindima! Na casa as obras seguiam devagarinho, devagarinho... O telhado, no sul, ainda continuava sem telhas; muitas vidraças esperavam, ainda sem vidros; e, para ficar, Virgem Santa, nem uma cama arranjada!...

Jacintho cruzou os braços n’uma colera tumultuosa que o suffocava. Por fim, com um berro:

— Mas os caixotes? Os caixotes, mandados de Paris, em fevereiro, ha quatro mezes?...

O desgraçado Melchior arregalava os olhos miudos, que se embaciavam de lagrimas. Os caixotes?! Nada chegára, nada apparecera!... E na sua perturbação mirava pelas arcadas do pateo, palpava na algibeira das pantalonas. Os caixotes?... Não, não tinha os caixotes!

— E agora, Zé Fernandes?

Encolhi os hombros:

— Agora, meu filho, só vires commigo para Guiães... Mas são duas horas fartas a cavallo. E não temos cavallos! O melhor é vêr o casarão, comer a boa gallinha que o nosso amigo Melchior nos assa no espeto, dormir n’uma enxerga, e ámanha cedo, antes do calor, trotar para cima, para a tia Vicencia.

Jacintho replicou, com uma decisão furiosa:

— Ámanhã troto, mas para baixo, para a estação!... E depois, para Lisboa!

E subiu a gasta escadaria do seu solar com amargura e rancor. Em cima uma larga varanda acompanhava a fachada do casarão, sob um alpendre de negras vigas, toda ornada, por entre os pilares de granito, com caixas de pau onde floriam cravos. Colhi um cravo amarello — -e penetrei atraz de Jacintho nas salas nobres, que elle contemplava com um murmurio de horror. Eram enormes, d’uma sonoridade de casa capitular, com os grossos muros ennegrecidos pelo tempo e o abandono, e regeladas, desoladamente núas, conservando apenas aos cantos algum monte de canastras ou alguma enxada entre paus. Nos tectos remotos, de carvalho apainelado, luziam através dos rasgões manchas de céo. As janellas, sem vidraças, conservavam essas macissas portadas, com fechos para as trancas, que, quando se cerram, espalham a treva. Sob os nossos passos, aqui e além, uma taboa pôdre rangia e cedia.

— Inhabitavel! rugia Jacintho surdamente. Um horror! Uma infamia!...

Mas depois, n’outras salas, o soalho alternava com remendos de taboas novas. Os mesmos remendos claros mosqueavam os velhissimos tectos de rico carvalho sombrio. As paredes repelliam pela alvura crúa da cal fresca. E o sol mal atravessava as vidraças — embaciadas e gordurentas da massa e das mãos dos vidraceiros.

Penetramos emfim na ultima, a mais vasta, rasgada por seis janellas, mobilada com um armario e com uma enxerga parda e curta estirada a um canto: e junto d’ella paramos, e sobre ella depuzemos tristemente o que nos restava de vinte e trez malas — o meu paletot alvadio, a bengala de Jacintho, e o Jornal do Commercio que nos era commum. Através das janellas escancaradas, sem vidraças, o grande ar da serra entrava e circulava como n’um eirado, com um cheiro fresco d’horta regada. Mas o que avistavamos, da beira da enxerga, era um pinheiral cobrindo um cabeço e descendo pelo pendor suave, á maneira d’uma hoste em marcha, com pinheiros na frente, destacados, direitos, emplumados de negro; mais longe as serras d’além rio, d’uma fina e macia côr de violeta; depois a brancura do céo, todo liso, sem uma nuvem, d’uma magestade divina. E lá debaixo, dos valles, subia, desgarrada e melancolica, uma voz de pegureiro cantando.

Jacintho caminhou lentamente para o poial d’uma janella, onde cahiu esbarrondado pelo desastre, sem resistencia ante aquelle brusco desapparecimento de toda a Civilisação! Eu palpava a enxerga, dura e regelada como um granito de inverno. E pensando nos luxuosos colchões de pennas e molas, tão prodigamente encaixotados no 202, desafoguei tambem a minha indignação:

— Mas os caixotes, caramba?... Como se perdem assim trinta e tantos caixotes enormes?...

Jacintho saccudiu amargamente os hombros:

— Encalhados, por ahi, algures, n’um barracão!... Em Medina, talvez, n’essa horrenda Medina. Indifferença das Companhias, inercia do Silverio... Emfim a Peninsula, a barbarie!

Vim ajoelhar sobre o outro poial, alongando os olhos consolados por céo e monte:

— É uma belleza!

O meu principe, depois de um silencio grave, murmurou, com a face encostada á mão:.

— É uma lindeza... E que paz!

Sob a janella vicejava fartamente uma horta, com repolho, feijoal, talhões de alface, gordas folhas de abobora rastejando. Uma eira, velha e mal alisada, dominava o valle, d’onde já subia tenuemente a nevoa d’algum fundo ribeiro. Toda a esquina do casarão d’esse lado se encravava em laranjal. E d’uma fontinha rustica, meio afogada em rosas tremedeiras, corria um longo e rutilante fio d’agua.

— Estou com appetite desesperado d’aquella agoa! declarou Jacintho, muito sério.

— Tambem eu... Desçamos ao quintal, hein? E passamos pela cosinha, a saber do frango.

Voltamos á varanda. O meu Principe, mais conciliado com o destino inclemente, colheu um cravo amarello. E por outra porta baixa, de rigissimas hombreiras, mergulhamos n’uma sala, alastrada de caliça, sem tecto, coberta apenas de grossas vigas, d’onde s’ergueu uma revoada de pardaes.

— Olha para este horror! murmurava Jacintho arripiado.

E descemos por uma lobrega escada de castello, tenteando depois um corredor tenebroso de lages asperas, atravancado por profundas arcas, capazes de guardar todo o grão d’uma provincia. Ao fundo a cozinha, immensa, era uma massa de fórmas negras, madeira negra, pedra negra, densas negruras de felugem secular. E n’este negrume refulgia a um canto, sobre o chão de terra negra, a fogueira vermelha, lambendo tachos e panellas de ferro, despedindo uma fumarada que fugia pela grade aberta no muro, depois por entre a folhagem dos limoeiros. Na enorme lareira, onde se aqueciam e assavam as suas grossas peças de porco e boi os Jacinthos medievaes, agora desaproveitada pela frugalidade dos caseiros, negrejava um poeirento montão de cestas e ferramentas; e a claridade toda entrava por uma porta de castanho, escancarada sobre um quintalejo rustico em que se misturavam couves lombardas e junquilhos formosos. Em roda do lume um bando alvoroçado de mulheres depennava frangos, remexia as caçarolas, picava a cebola, com um fervor afogueado e palreiro. Todas emmudeceram quando apparecemos — e d’entre ellas o pobre Melchior, estonteado, com o sangue a espirrar na nedia face d’abbade, correu para nós, jurando «que o jantarinho de suas Incellencias não demorava um credo»...

— E a respeito de camas, oh amigo Melchior?

O digno homem ciciou uma desculpa encolhida «sobre enxergasinhas no chão...».

— É o que basta! acudi eu, para o consolar. Por uma noite, com lençoes frescos...

— Ah, lá pelos lençoesinhos respondo eu!... Mas um desgosto assim, meu senhor! A gente apanhada sem um colxãosinho de lã, sem um lombosinho de vacca... Que eu já pensei, até lembrei á minha comadre, V. Inc.as podiam ir dormir aos Ninhos, a casa do Silverio. Tinham lá camas de ferro, lavatorios... Elle sempre é uma legoasita e mau caminho...

Jacintho, bondoso, accudiu:

— Não, tudo se arranja, Melchior. Por uma noite!... Até gósto mais de dormir em Tormes, na minha casa da serra!

Sahimos ao terreiro, retalho de horta fechado por grossas rochas encabelladas de verdura, entestando com os socalcos da serra onde lourejava o centeio. O meu principe bebeu da agua nevada e lusidia da fonte, regaladamente, com os beiços na bica; appeteceu a alface rechonchuda e crespa; e atirou pulos aos ramos altos d’uma copada cerejeira, toda carregada de cereja. Depois, costeando o velho lagar, a que um bando de pombas branqueava o telhado, deslisámos até ao carreiro, cortado no costado do monte. E andando, pensativamente, o meu Principe pasmava para os milheiraes, para os vetustos carvalhos plantados por vetustos Jacinthos, para os casebres espalhados sobre os cabeços á orla negra dos pinheiraes.

De novo penetramos na avenida de faias e transpozemos o portão senhorial entre o latir dos cães, mais mansos, farejando um dono. Jacintho reconheceu «certa nobreza» na frontaria do seu lar. Mas sobretudo lhe agradava a longa alameda, assim direita e larga, como traçada para n’ella se desenrolar uma cavalgada de Senhores com plumas e pagens. Depois, de cima da varanda, reparando na telha nova da capella, louvou o Silverio, «esse ralaço», por cuidar ao menos da morada do Bom-Deus.

— E esta varanda tambem é agradavel, murmurou elle mergulhando a face no aroma dos cravos. Precisa grandes poltronas, grandes divans de verga...

Dentro, na «nossa sala», ambos nos sentamos nos poiaes da janella, contemplando o doce socego crepuscular que lentamente se estabelecia sobre valle e monte. No alto tremeluzia uma estrellinha, a Venus diamantina, languida annunciadora da noite e dos seus contentamentos. Jacintho nunca considerára demoradamente aquella estrella, de amorosa refulgencia, que perpetua no nosso Céo catholico a memoria da Deusa incomparavel: — nem assistira jámais, com a alma attenta, ao magestoso adormecer da Natureza. E este ennegrecimento dos montes que se embuçam em sombra; os arvoredos emmudecendo, cançados de susurrar; o rebrilho dos casaes mansamente apagado; o cobertor de nevoa, sob que se acama e agasalha a frialdade dos valles; um toque somnolento de sino que rola pelas quebradas; o segredado cochichar das aguas e das relvas escuras — eram para elle como iniciações. D’aquella janella, aberta sobre as serras, entrevia uma outra vida, que não anda sómente cheia do Homem e do tumulto da sua obra. E senti o meu amigo suspirar como quem emfim descança.

D’este enlevo nos arrancou o Melchior com o doce aviso do «jantarinho de suas Incellencias». Era n’outra sala, mais núa, mais abandonada: — e ahi logo á porta o meu super-civilisado Principe estacou, estarrecido pelo desconforto, escassez e rudeza das coisas. Na mesa, encostada ao muro denegrido, sulcado pelo fumo das candeias, sobre uma toalha de estopa, duas velas de sêbo em castiçaes de lata alumiavam grossos pratos de louça amarella, ladeados por colheres de estanho e por garfos de ferro. Os copos, d’um vidro espesso, conservavam a sombra roxa do vinho que n’elles passára em fartos annos de fartas vindimas. A malga de barro, atestada de azeitonas pretas, contentaria Diogenes. Espetado na côdea d’um immenso pão reluzia um immenso facalhão. E na cadeira senhoreal reservada ao meu Principe, derradeira alfaia dos velhos Jacinthos, de hirto espaldar de couro, com a madeira roída de caruncho, a clina fugia em melenas pelos rasgões do assento poido.

Uma formidavel moça, de enormes peitos que lhe tremiam dentro das ramagens do lenço cruzado, ainda suada e esbrazeada do calor da lareira, entrou esmagando o soalho, com uma terrina a fumegar. E o Melchior, que seguia erguendo a infusa do vinho, esperava que suas Incellencias lhe perdoassem porque faltára tempo para o caldinho apurar... Jacintho occupou a séde ancestral — e, durante momentos (de esgazeada anciedade para o caseiro excellente) esfregou energicamente, com a ponta da toalha, o garfo negro, a fusca colhér de estanho. Depois, desconfiado, provou o caldo, que era de gallinha e rescendia. Provou — e levantou para mim, seu camarada de miserias, uns olhos que brilharam, surprehendidos. Tornou a sorver uma colherada mais cheia, mais considerada. E sorriu, com espanto: — «Está bom!»

Estava precioso: tinha figado e tinha moela: o seu perfume enternecia: tres vezes, fervorosamente, ataquei aquelle caldo..

— Tambem lá volto! exclamava Jacintho com uma convicção immensa. É que estou com uma fome... Santo Deus! Ha annos que não sinto esta fome.

Foi elle que rapou avaramente a sopeira. E já espreitava a porta, esperando a portadora dos piteus, a rija moça de peitos trementes, que emfim surgiu, mais esbrazeada, abalando o sobrado — e pousou sobre a mesa uma travessa a trasbordar de arroz com favas. Que desconsolo! Jacintho, em Paris, sempre abominára favas!... Tentou todavia uma garfada timida — e de novo aquelles seus olhos, que o pessimismo ennovoára, luziram, procurando os meus. Outra larga garfada, concentrada, com uma lentidão de frade que se regala. Depois um brado:

— Optimo!... Ah, d’estas favas, sim! Oh que fava! Que delicia!

E por esta santa gula louvava a serra, a arte perfeita das mulheres palreiras que em baixo remexiam as panellas, o Melchior que presidia ao brodio...

— D’este arroz com fava nem em Paris, Melchior amigo!

O homem optimo sorria, inteiramente desannuviado:

— Pois é cá a comidinha dos moços da quinta! E cada pratada, que até suas Incellencias se riam... Mas agora, aqui, o Snr. D. Jacintho, tambem vae engordar e enrijar!

O bom caseiro sinceramente cria que, perdido n’esses remotos Parizes, o Senhor de Tormes, longe da fartura de Tormes, padecia fome e mingava... E o meu Principe, na verdade, parecia saciar uma velhissima fome e uma longa saudade da abundancia, rompendo assim, a cada travessa, em louvores mais copiosos. Diante do louro frango assado no espeto e da salada que elle appetecera na horta, agora temperada com um azeite da serra digno dos labios de Platão, terminou por bradar: — «É divino!» Mas nada o enthusiasmava como o vinho de Tormes, cahindo d’alto, da bojuda infusa verde — um vinho fresco, esperto, seivoso, e tendo mais alma, entrando mais na alma, que muito poema ou livro santo. Mirando, á vela de sèbo, o copo grosso que elle orlava de leve espuma rosea, o meu Principe, com um resplendôr d’optimismo na face, citou Virgilio:

Quo te carmina dicam, Rethica? Quem dignamente te cantará, vinho amavel d’estas serras?

Eu, que não gosto que me avantagem em saber classico, espanejei logo tambem o meu Virgilio, louvando as doçuras da vida rural:

Hanc olim veteres vitam coluere Sabini... Assim viveram os velhos Sabinos. Assim Romolo e Remo... Assim cresceu a valente Etruria. Assim Roma se tornou a maravilha do mundo!

E immovel, com a mão agarrada á infusa, o Melchior arregalava para nós os olhos em infinito assombro e religiosa reverencia.


Ah! Jantamos deliciosissimamente, sob os auspicios do Melchior — que ainda depois, próvido e tutelar, nos forneceu o tabaco. E, como ante nós se alongava uma noite de monte, voltamos para as janellas desvidraçadas, na sala immensa, a contemplar o sumptuoso céo de verão. Philosophámos então com pachorra e facundia.

Na Cidade (como notou Jacintho) nunca se olham, nem lembram os astros — por causa dos candieiros de gaz ou dos globos de electricidade que os offuscam. Por isso (como eu notei) nunca se entra n’essa communhão com o Universo que é a unica gloria e unica consolação da Vida. Mas na serra, sem predios disformes de seis andares, sem a fumaraça que tapa Deus, sem os cuidados que como pedaços de chumbo puxam a alma para o pó rasteiro — um Jacintho, um Zé Fernandes, livres, bem jantados, fumando nos poiaes d’uma janella, olham para os astros e os astros olham para elles. Uns, certamente, com olhos de sublime immobilidade ou de subllime indifferença. Mas outros curiosamente, anciosamente, com uma luz que acena, uma luz que chama, como se tentassem, de tão longe, revelar os seus segredos, ou de tão longe comprehender os nossos...

— Oh Jacintho, que estrella é esta, aqui, tão viva, sobre o beiral do telhado?

— Não sei... E aquella, Zé Fernandes, além, por cima do pinheiral?

— Não sei.

Não sabiamos. Eu, por causa da espessa crosta de ignorancia com que sahi do ventre de Coimbra, minha Mãe espiritual. Elle, porque na sua Bibliotheca possuia trezentos e oito tratados sobre Astronomia, e o Saber, assim accumulado, fórma um monte que nunca se transpõe nem se desbasta. Mas que nos importava que aquelle astro além se chamasse Syrius e aquelle outro Aldebaran? Que lhes importava a elles que um de nós fosse Jacintho, outro Zé? Elles tão immensos, nós tão pequeninos, somos a obra da mesma Vontade. E todos, Uranos ou Lorenas de Noronha e Sande, constituimos modos diversos d’um Sêr unico, e as nossas diversidades esparsas sommam na mesma compacta Unidade. Molleculas do mesmo Todo, governadas pela mesma Lei, rolando para o mesmo Fim... Do astro ao homem, do homem á flôr do trevo, da flôr do trevo ao mar sonoro — tudo é o mesmo Corpo, onde circula, como um sangue, o mesmo Deus. E nenhum fremito de vida, por menor, passa n’uma fibra d’esse sublime Corpo, que se não repercuta em todas, até ás mais humildes, até ás que parecem inertes e invitaes. Quando um Sol que não avisto, nunca avistarei, morre de inanição nas profundidades, esse esguio galho de limoeiro, em baixo na horta, sente um secreto arrepio de morte: — e, quando eu bato uma patada no soalho de Tormes, além o monstruoso Saturno estremece, e esse estremecimento percorre o inteiro Universo! Jacintho abateu rijamente a mão no rebordo da janella. Eu gritei:

— Acredita!... O sol tremeu.

E depois (como eu notei) deviamos considerar que, sobre cada um d’esses grãos de pó luminoso, existia uma creação, que incessantemente nasce, perece, renasce. N’este instante, outros Jacinthos, outros Zés Fernandes, sentados ás janellas d’outras Tormes, contemplam o céo nocturno, e n’elle um pequenininho ponto de luz, que é a nossa possante Terra por nós tanto sublimada. Não terão todos esta nossa fórma, bem fragil, bem desconfortavel, e (a não ser no Apollo do Vaticano, na Venus de Milo e talvez na Princeza, de Carman) singularmente feia e burlesca. Mas, horrendos ou de ineffavel belleza; collossaes e d’uma carne mais dura que o granito, ou leves como gazes e ondulando na luz, todos elles são sêres pensantes e teem consciencia da Vida — porque decerto cada Mundo possue o seu Descartes, ou já o nosso Descartes os percorreu a todos com o seu Methodo, a sua escura capa, a sua agudeza elegante, formulando a unica certeza talvez certa, o grande Penso logo existo. Portanto todos nós, Habitantes dos Mundos, ás janellas dos nossos casarões, além nos Saturnos, ou aqui na nossa Terricula, constantemente perfazemos um acto sacrosanto que nos penetra e nos funde — que é sentirmos no Pensamento o nucleo commum das nossas modalidades, e portanto realisarmos um momento, dentro da Consciencia, a Unidade do Universo! — Hein, Jacintho?...

O meu amigo rosnou:

— Talvez... Estou a cahir com somno.

> — Tambem eu. «Remontamos muito, Ex.mo Snr.!» como dizia o Pestaninha em Coimbra. Mas nada mais bello, e mais vão, que uma cavaqueira, no alto das serras, a olhar para as estrellas!... Tu sempre vaes amanhã?.

— Com certeza, Zé Fernandes! Com a certeza de Descartes. «Penso logo fujo!» Como queres tu, n’este pardieiro, sem uma cama, sem uma poltrona, sem um livro?... Nem só de arroz com fava vive o Homem! Mas demoro em Lisboa, para conversar com o Cesimbra, o meu Administrador. E tambem á espera que estas obras acabem, os caixotes surjam, e eu possa voltar decentemente, com roupa lavada, para a trasladação...

— É verdade, os ossos...

— Mas resta ainda o Grillo... Que animal! Por onde andará esse perdido?

Então, passeando lentamente na sala enorme, onde a vela de sêbo já derretida no castiçal de lata era como um lume de cigarro n’um descampado, meditámos na sorte do Grillo. O estimado negro ou fôra despejado nas lamas de Medina, com as vinte e sete malas, aos gritos — ou, regaladamente adormecido, rolára com o Anatole no comboio para Madrid. Mas ambos os casos appareciam ao meu Principe como irremediavelmente destruidores do seu conforto...

— Não, escuta, Jacintho... Se o Grillo encalhou em Medina, dormiu na Fonda, catou os percevejos, e esta madrugada correu para Tormes. Quando ámanhã desceres á Estação, ás quatro horas, encontras o teu precioso homem, com as tuas preciosas malas, mettido n’esse comboio que te leva ao Porto e á Capital...

Jacintho saccudiu os braços como quem se debate nas malhas d’uma rede:

— E se seguiu para Madrid?

— Então, por esta semana, cá apparece em Tormes, onde encontra ordem para regressar a Lisboa e reentrar no teu sequito... Resta o interessante caso das minhas bagagens. Se ámanhã encontrares na Estação o Grillo, separa a minha mala negra, e o sacco de lona, e a chapelleira. O Grillo conhece. E pede ao Pimenta, ao gordalhufo, que me avise para Guiães. Se o Grillo aportar Tormes, esfogueteado de Madrid, com toda essa malaria, deixa as minhas cousas aqui, ao Melchior... Eu ámanhã fallo ao Melchior.

Jacintho sacudiu furiosamente o collarinho:

— Mas como posso eu partir para Lisboa, ámanhã, com esta camisa de dous dias, que já me faz uma comichão horrenda? E sem um lenço... Nem ao menos uma escova de dentes!

Fertil em idéas, estendi as mãos, n’um bello gesto tutelar:

— Tudo se arranja, meu Jacintho, tudo se arranja! Eu, largando d’aqui cedo, pelas seis horas, chego a Guiães ás dez, ainda sem calor. E, mesmo antes do almoço e da cavaqueira com a tia Vicencia, immediatamente te mando por um moço um sacco de roupa branca. As minhas camisas e as minhas ceroulas talvez te estejam largas. Mas um mendigo como tu não tem direito a elegancias e a roupas bem cortadas. O moço, n’um bom trote, entra aqui ás duas horas; tens tempo de mudar antes de desceres para a Estação... Posso metter na mala uma escova de dentes.

— Oh Zé Fernandes! Então mette tambem uma esponja... E um frasco d’agoa de colonia!

— Agoa d’alfazema, excellente, feita pela tia Vicencia...

O meu Principe suspirou, impressionado com a sua miseria esqualida, e esta dadiva de roupas:

— Bem, então vamos dormir, que estou esfalfado de emoções e d’astros...

Justamente Melchior entreabria a pesada porta, com timidez, a avisar que «estavam preparadinhas as camas de suas Incellencias.» E seguindo o bom caseiro, que erguia uma candeia, que avistamos nós, o meu Principe e eu, ainda ha pouco irmanados com os astros? Em duas saletas, que uma abertura em arco, lobrego arco de pedra, separava — duas enxergas sobre o soalho. Junto á cabeceira da mais larga, que pertencia ao senhor de Tormes, um castiçal de latão sobre um alqueire; aos pés, como lavatorio, um alguidar vidrado em cima duma tripeça. Para mim, serrano d’aquellas serras, nem alguidar nem alqueire.

Lentamente, com o pé, o meu super-civilisado amigo palpou a enxerga. E decerto lhe sentiu uma dureza intransigente, porque ficou pendido sobre ella, a correr desoladamente os dedos pela face desmaiada.

— E o peior não é ainda a enxerga, murmurou emfim com um suspiro. É que não tenho camisa de dormir, nem chinelas!... E não me posso deitar de camisa engommada.

Por inspiração minha reccorremos ao Melchior. De novo, esse benemerito providenciou, trazendo a Jacintho, para elle desafogar os pés, uns tamancos — e para embrulhar o corpo uma camisa da comadre, enorme, de estopa, áspera como uma estamenha de penitente, com folhos mais crespos e duros do que lavores de madeira. Para consolar o meu Principe lembrei que Platão quando compunha o Banquete, Vasco da Gama quando dobrava o Cabo, não dormiam em melhores catres! As enxergas rijas fazem as almas fortes, oh Jacintho!... E é só vestido de estamenha que se penetra no Paraiso..

— Tens tu, volveu o meu amigo seccamente, alguma coisa que eu leia? Não posso adormecer sem um livro.

Eu? Um livro? Possuia apenas o velho numero do Jornal do Commercio, que escapára á dispersão dos nossos bens. Rasguei a copiosa folha pelo meio, partilhei com Jacintho fraternalmente. Elle tomou a sua metade, que era a dos annuncios... E quem não viu então Jacintho, senhor de Tormes, acaçapado á borda da enxerga, rente da vela de sêbo que se derretia no alqueire, com os pés encafuados nos sócos, perdido dentro das ásperas pregas e dos rijos folhos da camisa serrana, percorrendo n’um pedaço velho de Gazeta, pensativamente, as partidas dos Paquetes — não póde saber o que é uma intensa e veridica imagem do Desalento.

Recolhido á minha alcova espartana, desabotoava o collete, n’um delicioso cansaço, quando o meu Principe ainda me reclamou:

— Zé Fernandes...

— Dize.

— Manda tambem no sacco um abotoador de botas.

Estirado commodamente na rija enxerga murmurei, como sempre murmuro ao penetrar no Somno, que é um primo da Morte, «Deus seja louvado!» Depois tomei a metade do Jornal do Commercio que me pertencia.

— Zé Fernandes...

— Que é?

— Tambem podias metter no sacco pós dos dentes... E uma lima das unhas... E um romance!

Já a meia Gazeta me escapava das mãos dormentes. Mas da sua alcova, depois de soprar a vela, Jacintho murmurou entre um bocejo:

— Zé Fernandes...

— Hein?

— Escreve para Lisboa, para o Hotel Bragança... Os lençoes ao menos são frescos, cheiram bem, a sadio!