A Cidade e as Serras/V

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
A Cidade e as Serras
por Eça de Queirós


No entanto Jacinto, desesperado com tantos desastres humilhadores - as torneiras que dessoldavam, os elevadores que emperravam, o Vapor que se encolhia, a Electricidade que se sumia, decidiu valorosamente vencer as resistências finais da Matéria e da Força por novas e mais poderosas acumulações de Mecanismos. E nessas semanas de Abril, enquanto as rosas desabrochavam, a nossa agitada casa, entre aquelas quietas casas dos Campos Elísios que preguiçavam ao sol, incessantemente tremeu, envolta num pó de caliça e de empreitada, com o bruto picar de pedra, o retininte martelar de ferro. Nos silenciosos corredores, onde me era doce fumar antes do almoço um pensativo cigarro, circulavam agora, desde madrugada, ranchos de operários, de blusas brancas, assobiando o Petit-Bleu, e intimidando os meus passos, quando eu atravessava em fralda e chinelas para o banho ou para ou para outros retiros. Apenas se varava com perícia algum andaime obstruindo as portas - logo se esbarrava com uma pilha de tábuas, uma seira de ferramentas ou um balde enorme de argamassa. E os pedaços de soalho levantado mostravam tristemente, como num cadáver aberto, todos interiores do 202, a ossatura, os sensíveis nervos de arame, os negros intestinos de ferro fundido.

Cada dia estacava diante do portão alguma lenta carroça, de onde os criados, em mangas de camisa, descarregavam caixotes de madeira, fardos de lona, que se despregavam e se descosiam numa sala asfaltada, ao fundo do jardim, pôr trás da sebe de lilases. E eu descia, reclamado pelo meu Príncipe, para admirar uma nova Máquina que nos tornaria a vida mais fácil, estabelecendo dum modo mais seguro o nosso domínio sobre a Substância. Durante os calores, que apertaram depois da Ascensão, ensaiamos esperançadamente, para refrescar as águas minerais, a Soda-Water e os Medocs ligeiros, três geleiras, que se amontoaram na copa sucessivamente desprestigiadas. Com os morangos novos apareceu um instrumentozinho astuto, para lhes arrancar os pés, delicadamente. Depois recebemos outro, prodigioso, de prata e cristal, para remexer freneticamente as saladas; e, na primeira vez que o experimentei, todo o vinagre esparrilhou sobre os olhos do meu Príncipe, que fugiu aos uivos! Mas ele teimava... Nos atos mais elementares, para aliviar ou apressar o esforço, se socorria Jacinto da dinâmica. E agora era pôr intervenção duma máquina que abotoava as ceroulas.

E simultaneamente, ou em obediência à sua Idéia, ou governado pelo despotismo do hábito, não cessava, ao lado de Mecânica acumulada, de acumular Erudição. Ó, a invasão dos livros no 202! Solitários, aos pares, em pacotes, dentro de caixas, franzinos, gordos e repletos de autoridade, envoltos em plebéia capa amarela ou revestidos de marroquim e ouro, perpetuamente, torrencialmente, invadiam pôr todas as largas portas a Biblioteca, onde se estiravam sobre o tapete, se repimpavam nas cadeiras macias, se entronizavam em cima das mesas robustas, e sobretudo trepavam contra as janelas, em sôfregas pilhas, como se, sufocados pela sua própria multidão, procurassem com ânsia espaço e ar! Na erudita nave, onde apenas alguns livros mais altos restavam descobertos, sem tapume de livros, perenemente se adensava um pensativo crepúsculo de Outono enquanto fora Junho refulgia. A Biblioteca transborda através de todo o 202! Não se abria um armário sem que de dentro se despenhasse, desamparada, uma pilha de livros! Não se franzia uma cortina, sem que detrás surgisse, hista, uma ruma de livros! E imensa foi a minha indignação quando uma manhã, correndo urgentemente, de mãos nas alças, encontrei, vedada pôr uma tremenda coleção de Estudos Sociais, a porta do Water-Closet!

Mais amargamente porém me lembro da noite histórica em que, no meu quarto, moído e mole dum passeio a Versalhes, com as pálpebras poeirentas e meio adormecidas, tive de desalojar do meu leito, praguejando, um pavoroso dicionário de Indústria em trinta e sete volumes! Senti então a suprema fartura do livro. Ajeitando, com murros, os travesseiros, maldisse a Imprensa, a Facúndia humana... e já me estirara, adormecia, quando topei, quase parti a preciosa rótula do joelho, contra a lombada dum tomo que velhacamente se aninhara entre a parede e os colchões. Com furor e um berro empolguei, arremessei o tomo afrontoso - que entornou o jarro, inundou um tapete rico de Daghestan. E nem sei se depois adormeci - porque os meus pés, a que não sentia nem o pisar nem o rumor, como se um vento brando me levasse, continuaram a tropeças em livros no corredor apagado, depois na areia do jardim que o luar branquejava, depois na Avenida dos Campos Elísios, povoada e ruidosa como numa festa cívica. E, ó portento! Todas as casas aos lados eram construídas com livros. Nos ramos dos castanheiros ramalhavam folhas de livros. E os homens, as finas damas, vestidos de papel impresso, com títulos nos dorsos, mostravam em vez de rosto um livro aberto, a que a brisa lenta virava docemente as folhas. Ao fundo, na Praça da Concórdia, avistei uma escarpada montanha de livros, a que tentei trepar, arquejante, ora enterrando a perna em flácidas camadas de versos, ora batendo contra a lombada, dura como calhau, de tomos de Exegese e Crítica. A tão vastas alturas subi, para além da terra, para além das nuvens, que me encontrei, maravilhado, entre os astros. Eles rolavam serenamente, enormes e mudos, recobertos pôr espessas crostas de livros, de onde surdia, aqui e além, pôr alguma fenda, entre dois volumes mal juntos, um raiozinho de luz sufocada e ansiada. E assim ascendi ao Paraíso. Decerto era o paraíso - porque com meus olhos de mortal argila avistei o Ancião da Eternidade, aquele que não tem Manhã nem Tarde. Numa claridade que dele irradiava mais clara que todas as claridades, entre fundas estantes de ouro abarrotadas de códices, sentado em vetustíssimos fólios, com os flocos das infinitas barbas espalhados pôr sobre resmas de folhetos, brochuras, gazetas e catálogos - o Altíssimo lia. A fronte super-divina que concebera o Mundo pousava sobre a mão superforte que o Mundo criara - e o Criador lia e sorria. Ousei, arrepiado de sagrado horror, espreitar pôr cima do seu ombro coruscante. O livro era brochado, de três francos... O Eterno lia Voltaire, numa edição barata, e sorria.


Uma porta faiscou e rangeu, como se alguém penetrasse no Paraíso. Pensei que um Santo novo chegara da Terra. Era Jacinto, com o charuto em brasa, um molho de cravos na lapela, sobraçando três livros amarelos que a Princesa de Carman lhe emprestara para ler!

Numa dessas ativas semanas, porém, a minha atenção subitamente se despegou deste interessante Jacinto. Hóspede do 202, conservava no 202 a minha mala e a minha roupa; e, acostado à bandeira do meu Príncipe, ainda ocasionalmente comia do seu caldeirão suntuoso. Mas a minha alma, a minha empobrecida alma, e o meu corpo, o meu embrutecido corpo, habitavam então na rua do Hélder, nº. 16, quarto andar, porta à esquerda.

Descia eu uma tarde, numa leda paz de idéias e sensações, o Boulevard da Madalena, quando avistei, diante da Estação dos ônibus, rondando no asfalto, num passo lento e felino, uma criatura seca, muito morena, quase tisnada, com dois fundos olhos taciturnos e tristes, e uma mata de cabelos amarelados, toda crespa e rebelde, sob o chapéu velho de plumas negras. Parei, como colhido pôr um repuxão nas entranhas. A criatura passou - no seu magro rondar de gata negra, sob um beiral de telhado, ao luar de Janeiro. Dois poços fundos não luzem mais negra e taciturnamente do que luziam os seus olhos taciturnos e negros. Não recordo (Deus louvado!) como rocei o seu vestido de seda, lustroso e ensebado nas pregas; nem como lhe rosnei uma súplica pôr entre os dentes que rangiam; nem como subimos ambos, morosamente e mais silenciosos que condenados, para um gabinete do Café Durand, safado e morno. Diante do espelho, a criatura, com a lentidão dum rito triste, tirou o chapéu e a romeira salpicada de vidrilhos. A seda puída do corpete esgarçava nos cotovelos agudos. E os seus cabelos eram imensos, duma dureza e espessura de juba brava, em dois tons amarelos, uns mais dourados, outros mais crestados, como a côdea de uma torta ao sair quente do forno.

Com um riso trêmulo, agarrei os seus dedos compridos e frios.

-E o nomezinho, hem?

Ela séria, quase grave:

-Madame Colombe, 16, rua do Hélder, quarto andar, porta à esquerda.

E eu (miserável Zé Fernandes!) também me senti muito sério, trespassado pôr uma emoção grave, como se nos envolvesse, naquela alcova de Café, a majestade dum Sacramento. À porta, empurrada levemente, o criado avançou a face nédia. Ordenei uma lagosta, pato com pimentões, e Borgonha. E foi somente ao findarmos o pato que me ergui, amarfanhando convulsamente o guardanapo, e a tremer lhe beijei a boca, todo a tremer, num beijo profundo e terrível, em que deixei a alma, entre saliva e gosto de pimentão! Depois, numa tipóia aberta, sob um bafo mole de leste e de trovoada, subimos a Avenida dos Campos Elísios. Em frente à grade do 202 murmurei, para a deslumbrar com o meu luxo: - “Moro ali, todo o ano!...” E como ao mirar o Palacete, debruçada, ela roçara a mata fulva do pêlo crespo pela minha barba - berrei desesperadamente ao cocheiro que galopasse, para a rua do Hélder, nº.16, quarto andar, pôr à esquerda!

Amei aquela criatura. Amei aquela criatura com Amor, com todos os Amores que estão no Amor, o Amor divino, o Amor humano, o Amor bestial, como Santo Antonino amava a Virgem, como Romeu amava Julieta, como um bode ama uma cabra. Era estúpida, era triste. Eu deliciosamente apagava a minha alegria na cinza da sua tristeza; e com inefável gosto afundava a minha razão na densidade da sua estupidez. Durante sete furiosas semanas perdi a consciência da minha personalidade de Zé Fernandes - Fernandes de Noronha e Sande, de Guiães! Ora se me afigurava ser um pedaço de cera que se derretia, com horrenda delícia, num forno rubro e rugidor; ora me parecia ser uma faminta fogueira onde flamejava, estalava e se consumia um molho de galhos secos. Desses dias de sublime sordidez só conservo a impressão duma alcova forrada de cretones sujos, duma bata de lã cor de lilás com sotaches negros, de vagas garrafas de cerveja no mármore dum lavatório, e dum corpo tisnado que rangia e tinha cabelos no peito. E também me resta a sensação de incessantemente e com arroubado deleite me despojar, arremessar para um regaço, que se cavava entre um ventre sumido e uns joelhos agudos, o meu relógio, os meus berloques, os meus anéis, os meus botões de safira, e as cento e noventa e sete libras de ouro que eu trouxera de Guiães numa cinta de camurça. Do sólido, decoroso, bem fornecido Zé Fernandes, só restava uma carcaça errando através dum sonho, com gâmbias moles e a barba a escorrer.

Depois, uma tarde, trepando com a costumada gula a escada da rua do Hélder, encontrei a porta fechada - e arrancado da ombreira aquele cartão de Madame Colombe que eu lia sempre tão devotamente e que era a sua tabuleta... Tudo no meu ser tremeu como se o chão de Paris tremesse! Aquela era a porta do Mundo que ante mim se fechara! Para além estavam as gentes, as cidades, a vida, Deus e Ela. E eu ficara sozinho, naquele patamar do Não-ser, fora da porta que se fechara, único ser fora do Mundo! Rolei pelos degraus, com o fragor e a incoerência duma pedra, até ao cubículo da porteira e do seu homem que jogavam as cartas em ditosa pachorra, como se tão pavoroso abalo não tivesse desmantelado o Universo!

-Madame Colombe?

A barbuda comadre recolheu lentamente a vaza:

-Já não mora... Abalou esta manhã, para outra terra com outra porca!

Para outra terra! Com outra porca!... Vazio, negramente vazio de todo o pensar, de todo o sentir, de todo o querer - botei aos tombos, como um tonel vazio, na corrente açodada do Boulevard, até que encalhei num banco da Praça da Madalena, onde tapei com as mãos, a que não sentia a febre, os olhos a que não sentia o pranto! Tarde, muito tarde, quando já se cerravam com estrondo as cortinas de ferro das lojas, surdiu, de entre todas estas confusas ruínas do meu ser, a eterna sobrevivente de todas as ruínas - a idéia de jantar. Penetrei no Durand, com os passos entorpecidos dum ressuscitado. E, numa recordação que me escaldava a alma, encomendei a lagosta, o pato, o Borgonha! Mas ao alargar o colarinho, ensopado pelo ardor daquela tarde de Julho, entre a poeira da Madalena, pensei com desconforto: - “Santíssimo Nome de Deus! Que imensa sede me fez esta desgraça!...” De manso acenei ao moço: - “Antes do Borgonha, uma garrafa de Champanhe, com muito gelo, e um grande copo!...” Creio que aquele Champanhe se engarrafara no Céu onde corre perenemente a fresca fonte da Consolação, e que na garrafa bendita que me coube penetrara, antes de arrolhada, um jorro largo dessa fonte inefável. Jesus! que transcendente regalo, o daquele nobre copo, embaciado, nevado, a espumar, a picar, num brilho de ouro! E depois, garrafa de Borgonha! E depois, garrafa de Conhaque! E depois Hortelã-Pimenta granitada em gelo! E depois um desejo arquejante de espancar, com o meu rijo marmeleiro de Guiães, a porca que fugira com outra porca! Dentro da tipóia fechada, que me transportou num galope ao 202, não sufoquei este santo impulso, e com os meus punhos serranos atirei murros retumbantes contra as almofadas, onde via, furiosamente via a mata imensa de pêlo amarelo, em que a minha alma uma tarde se perdera, e três meses se debatera, e para sempre se emporcalhara! Quando o fiacre estacou no 202 ainda eu espancava tão desesperadamente a besta ingrata, que, aos berros do cocheiro, dois moços acudiram e me sustiveram, recebendo pelos ombros, sobre as nucas servis, os restos cansados da minha cólera.

Em cima, repeli a solicitude do Grilo que tentava impor ao siô Zé Fernandes, a Zé Fernandes de Guiães, a imensa indignidade dum chá de macela! E estirado no leito de D.Galião, com as botas sobre o travesseiro, o chapéu alto sobre os olhos, ri, num doloroso riso, deste Mundo burlesco e sórdido de Jacintos e de Colombes! E de repente senti uma angústia horrenda. Era ela! Era a Madame Colombe, que esfuziara da chama da vela, e saltara sobre o meu leito, e desabotoara o meu colete, e arrombara as minhas costelas, e toda ela, com as saias sujas, mergulhara dentro do meu peito e abocara o meu coração, e chupava a sorvos lentos, como na rua do Hélder, o sangue do meu coração! Então, certo da Morte, ganindo pela tia Vicência, pendi do leito para mergulhar na minha sepultura, que, através da névoa final, eu distinguia sobre o tapete - redondinha, vidrada, de porcelana e com asa. E, sobre a minha sepultura, que tão irreverentemente se assemelhava ao meu vaso, vomitei o Borgonha, vomitei o pato, vomitei a lagosta. Depois, num esforço ultra-humano, com um rugido, sentindo que, não somente toda a entranha, mas a alma se esvaziava toda, vomitei Madame Colombe! Recaí sobre o leito de Galião...Recarreguei o chapéu sobre os olhos para não sentir os raios do Sol... Era um sol novo, um sol espiritual, que se erguia sobre a minha vida. E adormeci, como uma criancinha docemente embalada num berço de verga pelo Anjo da guarda.

De manhã, lavei a pele num banho profundo, perfumado com todos os aromas do 202, desde folhas de limonete da Índia até essência de jasmim de França; e lavei a alma com uma rica carta da tia Vicência, em letra farta, contando da nossa casa, e da linda promessa das vinhas, e da compota de ginja que nunca lhe saíra tão fina, e da alegre fogueira do pátio em noite de S. João, e da menininha muito gorda e cabeluda que viera do Céu para a minha afilhada Joaninha. Depois, à janela, bem limpo de alma e de corpo, numa quinzena de sedinha branca, tomando chá de Naïpò, respirando os rosais do jardim revividos pela chuva da madrugada, considerei, em divertido pasmo, que, durante sete semanas, me emporcalhara, na rua do Hélder, com um estardalho muito magro e muito tisnado! E concluí que padecera duma longa sezão, sezão da carne, sezão da imaginação, apanhada num charco de Paris - nesses charcos que se formam através da Cidade com as águas mortas, os limos, os lixos, os tortulhos e os vermes duma Civilização que apodrece.


Então, curado, todo o meu espírito, como uma agulha para o Norte, se virou logo para o meu complicado Príncipe, que, nas derradeiras semanas da minha infecção sentimental, eu entrevira sempre descaído pôr cima de sofás, ou vagueando através da biblioteca entre os seus trinta mil volumes, com arrastados bocejos de inércia e de vacuidade. Eu, na minha pressa indigna, só lhe lançava um distraído - “que é isso?” Ele, no seu moroso desalento, só murmurava um seco - “é calor!”

E, nessa manhã da minha libertação, ao penetrar antes de almoço no seu quarto, no sofá o encontrei enterrado, com o Fígaro aberto sobre a barriga, a Agenda caída sobre o tapete, toda a face envolta em sombra, e os pés abandonados, numa soberana tristeza, ao pedicuro que lhe polia as unhas. Decerto o meu olhar realumiado e repurificado, a brancura das minhas flanelas reproduzindo a quietação das minhas sensações, e a segura harmonia em que todo o meu ser visivelmente se movia, impressionaram o meu Príncipe - a quem a melancolia nunca embotava a agudeza. Ergueu molemente um braço mole:

-Então esse capricho?

Derramei sobre ele todo o fulgor dum riso vitorioso:

-Morto! E, como o Sr. De Marlborought, “morto e bem enterrado”. Jaz! Ou antes, rola! Com efeito deve andar agora rolando pôr dentro do cano do esgoto!

Jacinto bocejou, murmurou:

-Este Zé Fernandes de Noronha e Sande!...

E, no meu nome, no meu digno nome assim embrulhado num bocejo com desprendida ironia, se resumiu todo o interesse daquele Príncipe pela suja tormenta em que se debatera o meu coração! Mas não me melindrou esse consumado egoísmo... Claramente percebia eu que o meu jacinto atravessava uma densa névoa de tédio, tão densa, e ele tão afundado na sua mole densidade, que as glórias ou os tormentos dum camarada não o comoviam, como muito remotas, intangíveis, separadas da sua sensibilidade pôr imensas camadas de algodão. Pobre Príncipe da Grã-Ventura, tombado para o sofá de inércia, com os pés no regaço do pedicuro! Em que lodoso fastio caíra, depois de renovar tão bravamente todo o recheio mecânico e erudito do 202, na sua luta contra a Força e a Matéria! - e esse fastio não o escondeu mais do seu velho Zé Fernandes, quando recomeçou entre nós a comunhão de vida e de alma a que eu tão torpemente me arrancara, uma tarde, diante da Estação dos ônibus, no charco da Madalena!

Não eram certamente confissões enunciadas. O elegante e reservado Jacinto não torcia os braços, gemendo - “Ó vida maldita!” eram apenas expressões saciadas; um gesto de repelir com rancor a importunidade das coisas; pôr vezes uma imobilidade determinada, de protesto, no fundo dum divã, de onde se não desenterrava, como para um repouso que desejasse eterno; depois os bocejos, os ocos bocejos com que sublinhava cada passo, continuado pôr fraqueza ou pôr dever iniludível; e sobretudo aquele murmurar que se tornara perene e natural - “Para que?” - “Não vale a pena!” - “Que maçada!...”

Uma noite no meu quarto, descalçando as botas, consultei o Grilo:

-Jacinto anda tão murcho, tão corcunda... Que será, Grilo?

O venerando preto declarou com uma certeza imensa:

-S. Exª. sofre de fartura.

Era fartura! O meu Príncipe sentia abafadamente a fartura de Paris: - e na Cidade, na simbólica Cidade, fora de cuja vida culta e forte (como ele outrora gritava, iluminado) o homem do século XIX nunca poderia saborear plenamente a “delícia de viver”, ele não encontrava agora forma de vida, espiritual ou social, que o interessasse, lhe valesse o esforço duma corrida curta numa tipóia fácil. Pobre Jacinto! Um jornal velho, setenta vezes relido desde a Crônica até aos Anúncios, com a tinta delida, as dobras roídas, não enfastiaria mais o Solitário, que só possuísse na sua Solidão esse alimento intelectual, do que o Parisianismo enfastiava o meu doce camarada! Se eu nesse Verão capciosamente o arrastava a um Café-Concerto, ou ao festivo Pavilhão de Armenonville, o meu bom Jacinto, colado pesadamente à cadeira, com um maravilhoso ramo de orquídeas na casaca, as finas mãos abatidas sobre o castão da bengala, conservava toda a noite uma gravidade tão estafada, que eu, compadecido, me erguia, o libertava, gozando a sua pressa em abalar, a sua fuga de ave solta... Raramente (e então com veemente arranque como quem salta um fosso) descia a um dos seus clubes, ao fundo dos Campos Elísios. Não se ocupara mais das suas Sociedades e Companhias, nem dos Telefones de Constantinopla, nem das Religiões Esotéricas, nem do Bazar Espiritualista, cujas cartas fechadas se amontoavam sobre a mesa de ébano, de onde o Grilo as varria tristemente como o lixo duma vida finda. Também lentamente se despegava de todas as suas convivências. As páginas da Agenda cor-de-rosa murcha andavam desafogadas e brancas. E se ainda cedia a um passeio de Mail-coach, ou a um convite para algum Castelo amigo dos arredores de Paris, era tão arrastadamente, com um esforço tão saturado ao enfiar o paletó leve, que me lembrava sempre um homem, depois de um gordo jantar de província, a estalar, que, pôr polidez ou em obediência a um dogma, devesse ainda comer uma lampreia de ovos!

Jazer, jazer, em casa, na segurança das portas bem cerradas e bem defendidas contra toda a intrusão do mundo, seria uma doçura para o meu Príncipe se o seu próprio 202, com todo aquele tremendo recheio de Civilização, não lhe desse uma sensação dolorosa de abafamento, de atulhamento! Julho escaldava: e os brocados, as alcatifas, tantos móveis roliços e fofos, todos os seus metais e todos os seus livros tão espessamente o oprimiam, que escancarava sem cessar as janelas para prolongar o espaço, a claridade, a frescura. Mas era então a poeira, suja e acre, rolada em bafos mornos, que o enfurecia:

-Ó, este pó da Cidade!

-Mas, ó Jacinto, pôr que não vamos para Fontainebleau, ou para Montmorency, ou...

-Para o campo? O quê! Para o campo?!

E na sua face enrugada, através deste berro, lampejava sempre tanta indignação, que eu curvava os ombros, humilde, no arrependimento de Ter afrontosamente ultrajado o Príncipe que tanto amava. Desventurado Príncipe! Com o seu dourado cigarro de Yaka a fumegar, errava então pelas salas, lenta e murchamente, como quem vaga em terra alheia sem afeições e sem ocupações. Esses desafeiçoados e desocupados passos monotonamente o traziam ao seu centro, ao gabinete verde, à Biblioteca de ébano, onde acumulara Civilização nas máximas proporções, para gozar nas máximas proporções a delícia de viver. Espalhava em torno um olhar farto. Nenhuma curiosidade ou interesse lhe solicitavam as mãos, enterradas nas algibeiras das pantalonas de seda, numa inércia de derrota. Anulado, bocejava com descoroçoada moleza. E nada mais intrusivo e doloroso do que este supremo homem do século XIX, no meio de todos os aparelhos reforçadores dos seus órgãos, e de todos os fios que disciplinavam ao seu serviço as forças Universais, e dos seus trinta mil volumes repletos de saber dos séculos - estacando, com as mãos derrotadas no fundo das algibeiras, e exprimindo, na face e na indecisão mole dum bocejo, o embaraço de viver!