A Cidade e as Serras/VI

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A Cidade e as Serras
Eça de Queirós
Capítulo 6
Lello & Irmão (1901). páginas 119-138

VI


Todas as tardes, cultivando uma d’essas intimidades que entre tudo o que cança jámais cançam, Jacintho, ás quatro horas, com regularidade devota, visitava Madame d’Oriol: — por que essa flôr de Parisianismo permanecera em Paris, mesmo depois do Grand-Prix, a desbotar na calma e no cisco da Cidade. N’uma d’essas tardes, porém, o Telephone, anciosamente repicado, avisou Jacintho de que a sua dôce amiga jantava em Enghien com os Trèves. (Esses senhores gozavam o seu verão á beira do lago, n’uma casa toda branca e vestida de rosinhas brancas que pertencia a Ephrain).

Era um domingo silencioso, ennevoado e macio, convidando ás voluptuosidades da melancolia. E eu (no interesse da minha alma) suggeri a Jacintho que subissemos á Basilica do Sacré-Coeur, em construcção nos altos de Montmartre..

— É uma secca, Zé Fernandes...

— Com mil demonios! Eu nunca vi a Basilica...

— Bem, bem! Vamos á Basilica, homem fatal de Noronha e Sande!

E por fim logo que começamos a penetrar, para além de S. Vicente de Paula, em bairros estreitos e ingremes, d’uma quietação de provincia, com muros velhos fechando quintalejos rusticos, mulheres despenteadas cozendo á soleira das portas, carriolas desatreladas descançando diante das tascas, gallinhas soltas picando o lixo, cueiros molhados seccando em canas — o meu fastidioso camarada sorriu áquella liberdade e singeleza das cousas.

A vittoria parou em frente á larga rua de escadarias que trepa, cortando viellasinhas campestres, até á esplanada, onde, envolta em andaimes, se ergue a Basilica immensa. Em cada patamar barracas d’arraial devoto, forradas de panninho vermelho, transbordavam de Imagens, Bentinhos, Crucifixos, Corações de Jesus bordados a retroz, claros molhos de Rosarios. Pelos cantos, velhas agachadas resmungavam a Avè-Maria. Dois padres desciam, tomando risonhamente uma pitada. Um sino lento tilintava na doçura cinzenta da tarde. E Jacintho murmurou, com agrado:

— É curioso!.

Mas a Basilica em cima não nos interessou, abafada em tapumes e andaimes, toda branca e sêcca, de pedra muito nova, ainda sem alma. E Jacintho, por um impulso bem Jacinthico, caminhou gulosamente para a borda do terraço, a contemplar Paris. Sob o ceu cinzento, na planicie cinzenta, a Cidade jazia, toda cinzenta, como uma vasta e grossa camada de caliça e telha. E, na sua immobilidade e na sua mudez, algum rolo de fumo, mais tenue e ralo que o fumear d’um escombro mal apagado, era todo o vestigio visivel da sua vida magnifica.

Então chasqueei risonhamente o meu Principe. Ahi estava pois a Cidade, augusta creação da Humanidade! Eil-a ahi, bello Jacintho! Sobre a crosta cinzenta da Terra — uma camada de caliça, apenas mais cinzenta! No emtanto ainda momentos antes a deixaramos prodigiosamente viva, cheia d’um povo forte, com todos os seus poderosos orgãos funccionando, abarrotada de riqueza, resplandecente de sapiencia, na triumphal plenitude do seu orgulho, como Rainha do Mundo coroada de Graça. E agora eu e o bello Jacintho trepavamos a uma collina, espreitavamos, escutavamos — e de toda a estridente e radiante Civilisação da Cidade não percebiamos nem um rumor nem um lampejo! E o 202, o soberbo 202, com os seus arames, os seus apparelhos, a pompa da sua Mechanica, os seus trinta mil livros? Sumido, esvaído na confusão de telha e cinza! Para este esvaecimento pois da obra humana, mal ella se comtempla de cem metros de altura, arqueja o obreiro humano em tão angustioso esforço? Hein, Jacintho?... Onde estão os teus Armazens servidos por tres mil caixeiros? E os Bancos em que retine o ouro universal? E as Bibliothecas atulhadas com o saber dos seculos? Tudo se fundiu n’uma nodoa parda que suja a Terra. Aos olhos piscos de um Zé Fernandes, logo que elle suba, fumando o seu cigarro, a uma arredada collina — a sublime edificação dos Tempos não é mais que um silencioso monturo da espessura e da côr do pó final. O que será então aos olhos de Deus!

E ante estes clamores, lançados com affavel malicia para espicaçar o meu Principe, elle murmurou, pensativo:

— Sim, é talvez tudo uma illusão... E a Cidade a maior illusão!

Tão facilmente victorioso redobrei de facundia. Certamente, meu Principe, uma Illusão! E a mais amarga, por que o Homem pensa ter na Cidade a base de toda a sua grandeza e só n’ella tem a fonte de toda a sua miseria. Vê, Jacintho! Na Cidade perdeu elle a força e belleza harmoniosa do corpo, e se tornou esse ser resequido e escanifrado ou obeso e afogado em unto, de ossos molles como trapos, de nervos tremulos como arames, com cangalhas, com chinós, com dentaduras de chumbo, sem sangue, sem febra, sem viço, torto, corcunda — esse ser em que Deus, espantado, mal póde reconhecer o seu esbelto e rijo e nobre Adão! Na Cidade findou a sua liberdade moral: cada manhã ella lhe impõe uma necessidade, e cada necessidade o arremessa para uma dependencia: pobre e subalterno, a sua vida é um constante sollicitar, adular, vergar, rastejar, aturar; rico e superior como um Jacintho, a Sociedade logo o enreda em tradições, preceitos, etiquetas, ceremonias, praxes, ritos, serviços mais disciplinares que os d’um carcere ou d’um quartel... A sua tranquillidade (bem tão alto que Deus com elle recompensa os Santos) onde está, meu Jacintho? Sumida para sempre, n’essa batalha desesperada pelo pão, ou pela fama, ou pelo poder, ou pelo gôzo, ou pela fugidia rodella d’ouro! Alegria como a haverá na Cidade para esses milhões de seres que tumultuam na arquejante occupação de desejar — e que, nunca fartando o desejo, incessantemente padecem de desillusão, desesperança ou derrota? Os sentimentos mais genuinamente humanos logo na Cidade se deshumanisam! Vê, meu Jacintho! São como luzes que o aspero vento do viver social não deixa arder com serenidade e limpidez; e aqui abala e faz tremer; e além brutamente apaga; e adiante obriga a flammejar com desnaturada violencia. As amizades nunca passam d’allianças que o interesse, na hora inquieta da defeza ou na hora sofrega do assalto, ata apressadamente com um cordel apressado, e que estalam ao menor embate da rivalidade ou do orgulho. E o Amor, na Cidade, meu gentil Jacintho? Considera esses vastos armazens com espelhos, onde a nobre carne d’Eva se vende, tarifada ao arratel, como a de vacca! Contempla esse velho Deus do Hymeneu, que circula trazendo em vez do ondeante facho da Paixão a apertada carteira do Dote! Espreita essa turba que foge dos largos caminhos assoalhados em que os Faunos amam as Nymphas na boa lei natural, e busca tristemente os recantos lobregos de Sodoma ou de Lesbos!... Mas o que a Cidade mais deteriora no homem é a Intelligencia, por que ou lh’a arregimenta dentro da banalidade ou lh’a empurra para a extravagancia. N’esta densa e pairante camada d’Idéas e Formulas que constitue a atmosphera mental das Cidades, o homem que a respira, n’ella envolto, só pensa todos os pensamentos já pensados, só exprime todas as expressões já exprimidas: — ou então, para se destacar na pardacente e chata Rotina e trepar ao fragil andaime da gloriola, inventa n’um gemente esforço, inchando o craneo, uma novidade disforme que espante e que detenha a multidão como um mostrengo n’uma Feira. Todos, intelectualmente, são carneiros, trilhando o mesmo trilho, balando o mesmo balido, com o focinho pendido para a poeira onde pisam, em fila, as pégadas pisadas; — e alguns são macacos, saltando no topo de mastros vistosos, com esgares e cabriolas. Assim, meu Jacintho, na Cidade, n’esta creação tão anti-natural onde o solo é de pau e feltro e alcatrão, e o carvão tapa o ceu, e a gente vive acamada nos predios como o panninho nas lojas, e a claridade vem pelos canos, e as mentiras se murmuram através d’arames — o homem apparece como uma creatura anti-humana, sem belleza, sem força, sem liberdade, sem riso, sem sentimento, e trazendo em si um espirito que é passivo como um escravo ou impudente como um histrião... E aqui tem o bello Jacintho o que é a bella Cidade!

E ante estas encanecidas e veneraveis invectivas, retumbadas pontualmente por todos os Moralistas bucolicos, desde Hesiodo, atravez dos seculos — o meu Principe vergou a nuca docil, como se ellas brotassem, inesperadas e frescas, d’uma Revelação superior, n’aquelles cimos de Montmartre:

— Sim, com effeito, a Cidade... É talvez uma illusão perversa!

Insisti logo, com abundancia, puchando os punhos, saboreando o meu facil philosophar. E se ao menos essa illusão da Cidade tornasse feliz a totalidade dos sêres, que a manteem... Mas não! Só uma estreita e reluzente casta goza na Cidade os gozos especiaes que ella cria. O resto, a escura, immensa plebe, só n’ella soffre, e com soffrimentos especiaes que só n’ella existem! D’este terraço, junto a esta rica Basilica consagrada ao Coração que amou o Pobre e por elle sangrou, bem avistamos nós o lobrego casario onde a plebe se curva sob esse antigo opprobrio de que nem Religiões, nem Philosophias, nem Moraes, nem a sua propria força brutal a poderão jámais libertar! Ahi jaz, espalhada pela Cidade, como esterco vil que fecunda a Cidade. Os seculos rolam; e sempre immutaveis farrapos lhe cobrem o corpo, e sempre debaixo d’elles, através do longo dia, os homens labutarão e as mulheres chorarão. E com este labor e este pranto dos pobres, meu Principe, se edifica a abundancia da Cidade! Eil-a agora coberta de moradas em que elles se não abrigam; armazenada de estofos, com que elles se não agasalham; abarrotada de alimentos, com que elles se não saciam! Para elles só a neve, quando a neve cáe, e entorpece e sepulta as creancinhas aninhadas pelos bancos das praças ou sob os arcos das pontes de Paris... A neve cáe, muda e branca na treva: as creancinhas gelam nos seus trapos: e a policia, em torno, ronda attenta para que não seja perturbado o tépido somno d’aquelles que amam a neve, para patinar nos lagos do Bosque de Bolonha com pelliças de tres mil francos. Mas quê, meu Jacintho! a tua Civilisação reclama insaciavelmente regalos e pompas, que só obterá, n’esta amarga desharmonia social, se o Capital dér ao Trabalho, por cada arquejante esfôrço, uma migalha ratinhada. Irremediavel é, pois, que incessantemente a plebe sirva, a plebe péne! A sua esfalfada miseria é a condição do esplendor sereno da Cidade. Se nas suas tigellas fumegasse a justa ração de caldo — não poderia apparecer nas baixellas de prata a luxuosa porção de foie-gras e tubaras que são o orgulho da Civilisação. Ha andrajos em trapeiras — para que as bellas Madamas d’Oriol, resplandecentes de sêdas e rendas, subam, em doce ondulação, a escadaria da Opera. Ha mãos regeladas que se estendem, e beiços sumidos que agradecem o dom magnanimo d’um sou — para que os Ephrains tenham dez milhões no Banco de França, se aqueçam á chamma rica da lenha aromatica, e surtam de collares de saphiras as suas concubinas, netas dos Duques d’Athenas. E um povo chora de fome, e da fome dos seus pequeninos — para que os Jacinthos, em janeiro, debiquem, bocejando, sobre pratos de Saxe, morangos gelados em Champagne e avivados d’um fio d’ether!

— E eu comi dos teus morangos, Jacintho! Miseraveis, tu e eu!

Elle murmurou, desolado:

— É horrivel, comemos d’esses morangos... E talvez por uma illusão!

Pensativamente deixou a borda do terraço, como se a presença da Cidade, estendida na planicie, fosse escandalosa. E caminhamos devagar, sob a molleza cinzenta da tarde, philosophando — considerando que para esta iniquidade não havia cura humana, trazida pelo esforço humano. Ah, os Ephrains, os Trèves, os vorazes e sombrios tubarões do mar humano, só abandonarão ou affrouxarão a exploração das Plebes, se uma influencia celeste, por milagre novo, mais alto que os milagres velhos, lhes converter as almas! O burguez triumpha, muito forte, todo endurecido no peccado — e contra elle são impotentes os prantos dos Humanitarios, os raciocinios dos Logicos, as bombas dos Anarchistas. Para amollecer tão duro granito só uma doçura divina. Eis pois esperança da terra novamente posta n’um Messias!... Um decerto desceu outrora dos grandes Ceus; e, para mostrar bem que mandado trazia, penetrou mansamente no mundo pela porta d’um curral. Mas a sua passagem entre os homens foi tão curta! Um meigo sermão n’uma montanha, ao fim d’uma tarde meiga; uma reprehensão moderada aos Phariseus que então redigiam o Boulevard; algumas vergastadas nos Ephrains vendilhões; e logo, através da porta da morte, a fuga radiosa para o Paraiso! Esse adoravel filho de Deus teve demasiada pressa em recolher a casa de seu Pae! E os homens a quem elle incumbira a continuação da sua obra, envolvidos logo pelas influencias dos Ephrains, dos Trèves, da gente do Boulevard, bem depressa esqueceram a lição da Montanha e do lago de Tiberiade — e eis que por seu turno revestem a purpura, e são Bispos, e são Papas, e se alliam á oppressão, e reinam com ella, e edificam a duração do seu Reino sobre a miseria dos sem-pão e dos sem-lar! Assim tem de ser recomeçada a obra da Redempção. Jesus, ou Guatama, ou Christna, ou outro d’esses filhos que Deus por vezes escolhe no seio d’uma Virgem, nos quietos vergeis da Asia, deverá novamente descer á terra de servidão. Virá elle, o desejado? Porventura já algum grave rei d’Oriente despertou, e olhou a estrella, e tomou a myrrha nas suas mãos reaes, e montou pensativamente sobre o seu dromedario? Já por esses arredores da dura Cidade, de noute, emquanto Caiphaz e Magdalena ceam lagosta no Paillard, andou um Anjo, attento, n’um vôo lento, escolhendo um curral? Já de longe, sem moço que os tanja, na gostosa pressa d’um divino encontro, vem trotando a vacca, trotando o burrinho?

— Tu sabes, Jacintho?

Não, Jacintho não sabia — e queria accender o charuto. Forneci um phosphoro ao meu Principe. Ainda rondamos no terraço, espalhando pelo ar outras idéas solidas que no ar se desfaziam. Depois penetravamos na Basilica — quando um Sachristão nedio, de barrete de velludo, cerrou fortemente a porta, e um Padre passou, enterrando na algibeira, com um cançado gesto final e como para sempre, o seu velho Breviario.

— Estou com uma sêde, Jacintho... Foi esta tremenda Philosophia!

Descemos a escadaria, armada em arraial devoto. O meu pensativo camarada comprou uma imagem da Basilica. E saltavamos para a vittoria, quando alguem gritou rijamente, n’uma surpreza:

— Eh Jacintho!

O meu Principe abriu os braços, tambem espantado:

— Eh Mauricio!

E, n’um alvoroço, atravessou a rua, para um café, onde, sob o toldo de riscadinho, um robusto homem, de barba em bico, remexia o seu absintho, com o chapéo de palha descahido na nuca, a quinzena solta sobre a camisa de sêda, sem gravata, como se descançasse n’um banco, entre as sombras do seu jardim.

E ambos, apertando as mãos, se admiravam d’aquelle encontro, n’um domingo de verão, sobre as alturas de Montmartre.

— Oh! eu estou aqui no meu bairro! exclamava alegremente Mauricio. Em familia, em chinellos... Ha tres mezes que subi para estes cimos da Verdade... Mas tu na Santa Colina, homem profano da planicie e das ruas d’Israel!

O meu Principe mostrou o seu Zé Fernandes:

— Com este amigo, em peregrinação á Basilica... O meu amigo Fernandes Lorena... Mauricio de Mayolle, velho camarada.

Mr. de Mayolle (que, pela face larga e nariz nobremente grosso, lembrava Francisco de Valois, Rei de França) ergueu o seu chapeu de palha. E empurrava uma cadeira, insistia que nos accommodassemos para um absintho ou para um bock.

— Toma um bock, Zé Fernandes! lembrou Jacintho. Tu estavas a ganir com sêde!

Corri lentamente a lingua sobre os beiços, mais sêcos que pergaminhos:

— Estou a guardar esta sêdesinha para logo, para o jantar, com um vinhosinho gelado!

Mauricio saudou, com silenciosa admiração, esta minha avisada malicia. E immediatamente, para o meu Principe:

— Ha tres annos que te não vejo, Jacintho... Como tem sido possivel, n’este Paris que é uma aldeola e que tu atravancas?

— A vida, Mauricio, a espalhada vida... Com effeito! Ha tres annos, desde a casa dos Lamotte-Orcel. Tu ainda visitas esse santuario?

Mauricio atirou um gesto desdenhoso e largo, que sacudia um mundo:

— Oh! Ha mais d’um anno que me separei d’essa bicharia heretica... Uma turba indisciplinada, meu Jacintho! Nenhuma fixidez, um dilletantismo estonteado, carencia completa e comica de toda a base experimental... Quando tu ias aos Lamotte-Orcel, e á Parola do 37, e á Cerveja ideal, o que reinava?...

Jacintho catou lentamente as suas recordações por entre os pêllos do bigode:

— Eu sei!... Reinava Wagner e a Mithologia Eddica, e o Raganarock, e as Nornas... Muito Pre-Raphaelismo tambem, e Montagna, e Fra-Angelico... Em moral, o Renanismo.

Mauricio sacudia os hombros. Oh, tudo isso pertencia a um passado archaico, quasi lacustre! Quando Madame de Lamotte-Orcel remobilára a sala com velludos Morris, grossas alcachofras sobre tons d’açafrão, já o Renanismo passára, tão esquecido como o Cartesianismo...

— Tu ainda és do tempo do culto do Eu?

O meu Principe suspirou risonhamente:

— Ainda o cultivei.

— Pois bem! Logo depois foi o Hartmanismo, o Inconsciente. Depois o Nietzismo, o Feudalismo espiritual... Depois grassou o Tolstoïsmo, um furor immenso de renunciamento neo-cenobitico. Ainda me lembro d’um jantar em que appareceu um mostrengo d’um slavo, de guedelha sordida, que atirava olhos medonhos para o decote da pobre condessa d’Arche, e que grunhia com o dedo espetado: — «Busquemos a luz, muito por baixo, no pó da terra!» — E á sobremeza bebemos á delicia da humildade e do trabalho servil, com aquelle Champagne Marceaux granitado que a Mathilde dava nos grandes dias em copos da fórma do San-Gral! Depois veio Emersonismo... Mas a praga cruel foi Ibsenismo! Emfim, meu filho, uma Babel de Ethicas e Estheticas. Paris parecia demente. Já havia uns desgarrados que tendiam para o Luciferismo. E amiguinhas nossas, coitadas, iam descambando para o Phallismo, uma moxinifada mystico-brejeira, prégada por aquelle pobre La Carte que depois se fez Monge Branco, e que anda no Deserto... Um horror! E uma tarde, de repente, toda esta massa se precipita com ancia para o Ruskinismo!

Eu, agarrado á bengala, bem fincada no chão, sentia como um vendaval que redemoinhava, me torcia o craneo! E até Jacintho balbuciou, esgazeado:

— O Ruskinismo?

— Sim, o velho Ruskin,... John Ruskin!

O meu ditoso Principe comprehendeu:

— Ah, Ruskin!... As sete lampadas da Architectura, A Corôa de Oliveira Brava... É o culto da Belleza.

— Sim! O culto da Belleza, confirmou Mauricio. Mas a esse tempo eu, enojado, já descera de todas essas nuvens vãs... Pisava um chão mais seguro, mais fertil.

Deu um sorvo lento ao absintho, cerrando as palpebras. Jacintho esperava, com o seu fino nariz dilatado, como para respirar a Flôr de Novidade que ia desabrochar:

— E então? então?...

Mas o outro murmurou, dispersamente, por entre reticencias em que se velava:

— Vim para Montmartre... Tenho aqui um amigo, um homem de genio, que percorreu toda a India... Viveu com os Toddas, esteve nos mosteiros de Garma-Khian e de Dashi-Lumbo, e estudou com Gegen-Chutu no retiro santo de Urga... Gegen-Chutu foi a decima-sexta encarnação de Guatama, e era portanto um Boddi-sattva... Trabalhamos, procuramos... Não são visões. Mas factos, experiencias bem antigas, que vem talvez desde os tempos de Christna...

Através d’estes nomes, que exhalavam um perfume triste de vetustos ritos, arredára a cadeira. E de pé, deixando cair sobre a mesa, distrahidamente, para pagar o absintho, moedas de prata e moedas de cobre, murmurava com os olhos descançados em Jacintho, mas perdidos n’outra visão:

— Por fim tudo se reduz ao supremo desenvolvimento da Vontade dentro da suprema pureza da Vida. É toda a sciencia e força dos grandes mestres Hindus... Mas a pureza absoluta da vida, eis a lucta, eis o obstaculo! Não basta mesmo o Deserto, nem o bosque do mais velho templo no alto Thibet... Ainda assim, meu Jacintho, já obtivemos resultados bem extranhos. Sabes as experiencias de Tyndall, com as chammas sensitivas... O pobre chimico, para demonstrar as vibrações do som, tocou quasi ás portas da verdade isoterica. Mas què! homem de sciencia, portanto homem d’estupidez, ficou áquem, entre as suas placas e as suas retortas! Nós fômos além. Verificámos as ondulações da Vontade! Deante de nós, pela expansão da energia do meu companheiro, e em cadencia com o seu mandado, uma chamma, a tres metros, ondulou, rastejou, despediu linguas ardentes, lambeu uma alta parede, rugiu furiosa e negra, resplandeceu direita e silenciosa, e bruscamente abatida em cinza morreu!

E o extranho homem, com o chapeu para a nuca, ficou immovel, de braços abertos e os olhares esgazeados, como no renovado assombro e no transe d’aquelle prodigio. Depois, recahindo no seu modo facil e sereno, accendendo de vagar um cigarro:

— Uma d’estas manhãs, Jacintho, appareço no 202, para almoçar comtigo, e levo o meu amigo. Elle só come arrôz, uma pouca de salada, e fructa. E conversamos... Tu tinhas um exemplar do Sepher-Zerijah e outro do Targum d’Onkelus. Preciso folhear esses livros.

Apertou a mão do meu Principe, saudou este assombrado Zé Fernandes, e serenamente seguiu pela quieta rua, com o chapeu de palha para a nuca, as mãos enterradas nas algibeiras, como um homem natural entre cousas naturaes.

— Oh Jacintho! Quem é este bruxo? Conta!... Quem é elle, santissimo nome de Deus?

Recostado na vittoria, ageitando o vinco das calças, o meu Principe contou, concisamente. Era um nobre e leal rapaz, muito rico, muito intelligente, da antiga casa soberana de Mayolle, descendente dos Duques de Septimania... E murmurou, através do costumado bocejo:

— O desenvolvimento supremo da vontade!... Theosophia, Buddhismo isoterico... Aspirações, decepções... Já experimentei... Uma massada!

Atravessamos, callados, o rumôr de Paris, sob a molleza abafada do crepusculo de verão, para jantar no Bosque, no Pavilhão d’Armenonville, onde os Tziganes, avistando Jacintho, tocaram o Hymno da Carta com paixão, com langor, n’uma cadencia de czarda dolorosa e aspera.

E eu, desdobrando regaladamente o guardanapo:

— Pois venha agora para a minha rica sêde esse vinhosinho gelado! Grandemente o mereço, caramba, que superiormente philosophei!... E creio que estabeleci definitivamente no espirito do Snr. D. Jacintho o salutar horror da cidade!

O meu Principe percorria, catando o bigode, a Lista-dos-Vinhos, em quanto o Copeiro, esperava com pensativa reverencia:

— Mande gelar duas garrafas de champagne S.t Marceaux... Mas antes, um Barsac velho, apenas refrescado... Agoa de Evian... Não, de Bussang! Bem, d’Evian e de Bussang! E, para começar, um bock.

Depois, bocejando, desabotoando lentamente a sobrecasaca cinzenta:

— Pois estou com vontade de construir uma casa nos cimos de Montmartre, com um miradouro no alto, todo de vidro e ferro, para descançar de tarde e dominar a Cidade...