A Condessa Vésper/V

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A Condessa Vésper por Aluísio Azevedo
Capítulo V: Refluxo do passado


Correu muito agradável o jantar. A mesa era pequena e punha os dois em confidêncial intimidade.

Violante mantinha a palestra com a sedutora volubilidade das mulheres que sabem esconder o pensamento com a palavra, falando para não dizer o que lhes convém calar; e ele, enquanto a caprichosa tecia e destecia as no nadas da conversação, ia reparando bem para a cor dos olhos dela, para as violetas das suas pálpebras, para a formosura da sua boca e para aquele moreno pálido e fresco, que é nas raças espanholas um luminoso e fugitivo reflexo do Oriente.

E os olhares sôfregos do rapaz insinuavam-se pelas sutilezas daquelas deliciosas formas de mulher, serpeando-lhes por entre as curvas da garganta e por entre as macias ondulações do colo, a tatear os menores acidentes da divina argila, e adormecendo embriagados de volúpia à sombra embalsamada dos cabelos negros; para logo acordarem e de novo se porem a subir de rastros pela doce curvilineação das espáduas, e deixarem-se depois rolar pela encosta dos quadris ou pelo branco despenhadeiro dos braços nus.

E sem querer, e sem poder conter-se, Gaspar imaginava como não seria o contato real de tudo aquilo! Que delírios não havia de se esconder num beijo as endiabradas covinhas daqueles cotovelos cor-de-rosa!...

— Então, o senhor não janta, nem conversa! disse-lhe Violante a rir. Há boas horas que me olha com duas brasas!...

E a formosa oriental estendeu a mão ao hóspede, pedindo-lhe que lhe passasse um pêssego.

— A mão! exclamou ele, tomando no ar a mão de Violante. Oh! como é bela!

E ficou a contemplá-la, a enluvá-la com um olhar de êxtase.

Era branca, fina, delgada, de longos dedos roliços e bem guarnecidos.

— Então! repetiu ela, fazendo um gesto de impaciência com o braço. Tenha a bondade de passar-me a fruteira.

Gaspar caiu em si e pediu-lhe mil perdões. Violante que lhe desculpasse aquela abstração — ele continuava a sonhar!...

E depois de servi-la de frutas e de vinho, encheu o próprio copo, e bebeu à gentil estrela que o conduzira ali.

Violante olhava-o com um sorriso. Terminado o jantar, ergueu-se ela e ordenou-se ao camareiro que servisse o café no fumoir.

— Dê-me o seu braço, disse a Gaspar.

E passaram-se para a sala próxima.

Violante ofereceu uma poltrona ao hóspede e assentou-se em outra. Depois tomando uma cigarrilha de tabaco turco de sobre o bufete, e cruzando negligentemente as pernas, com o cotovelo apoiado ao rebordo da cadeira e a cabeça um tanto pendida para trás, disse a soprar o primeiro hausto de fumo.

— Preste-me agora toda a atenção, porque, só depois de ouvir o que lhe vou dizer leal e francamente, é que poderá o senhor decidir se fica desde já em minha companhia, ou se se retira hoje mesmo desta casa...

Gaspar tomou o café, acendeu um charuto, reclinou-se mais na poltrona e disse, afagando a barba:

— Pode principiar. Estou às suas ordens...

— Quando eu tinha cinco anos, começou Violante, depois de fitar o teto, como quem evoca o passado, minha mãe sucumbia à miséria nesta cidade, e meu pai aos golpes do partido revolucionário em Cadiz. Ora, eu, que sempre acompanhara minha mãe em todas as suas peregrinações, achei-me de repente com ela morta nos braços, sem saber, coitada de mim! fazer outra cousa que não fosse chorar. Saí, entretanto, pedindo, à-toa, a quem encontrava pela rua, onde fosse comigo por piedade à casa para tratarmos de enterrar o cadáver. Todos me davam as costas; e eu, já desesperada, estalando de fome e de frio, cheia de terrores, atirei-me contra uma porta, a soluçar e a pedir a Deus que me levasse também para si.

Nessa conjuntura, senti no ombro uma carinhosa mão que me fez voltar a cabeça. Tinha defronte dos lhos um oficial brasileiro. A princípio, fez-me medo com o uniforme e as suas barbas; mas era tão calma e compassiva a expressão da sua fisionomia, que me animei a encará-lo; além disso, a presença de uma senhora e duas crianças de minha idade, que o acompanhavam, me restituíam logo a tranqüilidade e, sem saber por que, sorri para aquela gente.

Oh! nunca mais me esqueci da fisionomia desse oficial! "Que tens tu?!" disse-me ele em mau espanhol, passando-me a mão pela cabeça.

"Tenho minha mãe morta em casa, naquela rua, e falta-me o ânimo de voltar para lá sozinha!"

O oficial refletiu um instante e trocou algumas palavras em português com a mulher. Depois, deu-lhe o braço, e começaram a acompanhar-me com os pequenos.

(Gaspar apertou os olhos, fazendo um esforço de memória.)

— Quando chegamos à casa, continuou Violante, ficaram todos horrorizados. O espetáculo da miséria completava-se com o cadáver de minha pobre mãe, que jazia por terra. Não era só compaixão o que inspirava aquilo; era mais: era revolta e ódio contra tamanha incúria de Deus!

"Esta criança naturalmente está caindo de fome", disse a senhora ao marido.

"Muito!" afirmei eu, que compreendera essas palavras.

Então tirou aquela da sua maleta de mão alguns biscoitos, que trazia para os filhos, e deu-mos, acrescentando: "Em casa jantaremos juntos".

O marido perguntou-lhe se ela sabia ir só para o hotel.

"Perfeitamente", respondeu a senhora.

"Pois leva os nossos pequenos e esta infelizinha; eu fico para provindenciar sobre o enterro."

Quis eu então atirar-me aos pés do meu benfeitor; mas a idéia de que nunca mais veria minha mãe, fez-me abrir em soluços e precipitar-me sobre o seu cadáver, para lhe dar o último beijo.

A senhora do oficial arrancou-me dali, e levou-me para sua casa pela mão.

Só no dia seguinte, quando acordei, na melhor cama da minha vida, soube que minha mãe fora dignamente sepultada, e que eu ficaria morando ali onde me achava.

O oficial, de que lhe acabo de falar, chamava-se Pinto Leite, e seus dois filhinhos eram: um Gaspar e o outro Ana.

— É exato! e! Bem me recordo da pequenita que brincou comigo em outro tempo! confirmou Gaspar com muito interesse. Mas se me não engano, essa pequenita fora para um colégio, quando...

— Já lá vamos! Já lá vamos! respondeu Violante; ouça o resto.

E continuou:

— Passei um ano em casa de seu pai. Aí aprendi a ler, rezar e cozer com sua mãe. Foi nessa época que nasceu sua irmã mais moça; a Virgínia. O senhor não calcula que boas recordações tenho eu desse tempo! Também não podia ser por menos: até aí só conhecera sofrimentos e privações, e lá fui encontrar a paz, o conforto e até o amor. Sua mãe, a quem Deus haja, era uma santa!

Gaspar ouvia cada vez com mais interesse, as palavras de Violante.

— Entretanto, prosseguiu ela fazendo um ar triste, seu pai foi constrangido a mudar-se para o Rio de Janeiro, e como eu na minha qualidade de órfã, não podia ser carregada da pátria, assim sem mais nem menos, resolveu ele meter-me como pensionista em um colégio aqui, onde nada me faltaria.

E dando piparotes na cinza do cigarro, a oriental acrescentou, mudando de tom:

— No colégio levei até aos dezesseis anos, quando tive o meu primeiro namoro foi com o filho da diretora, Paulo Mostella; um mocetão vivo, forte e velhaco. Por duas vezes furtou-me beijos, de uma quis ir mais longe; eu, porém, tinha felizmente algum juízo e cortei-lhe o arrojo com uma tremenda bofetada. Paulo declarou-me então, cheio de raiva, que nunca tencionava casar comigo, porque sua família não consentiria em tal loucura — eu afinal era uma rapariga sem eira, nem beira! Todavia, fui, pouco depois, pedida por um negociante muito rico e sumamente estimado da sociedade de Montevidéu; chamava-se D. Tomás de los Rios. Era um homenzarrão, ainda fresco, muito amável, muito bom e com muito caráter. Casei-me e fui feliz durante esse tempo. Meu marido adorava-me, fazia-me todas as vontades. Levou-me a correr a Europa, mostrando-se ser agradável. Quando voltamos do nosso longo passeio, trazíamos um filhinho — Gabriel. Tomás principiava, entretanto, a sofrer da moléstia que o havia de matar. Tornamos a sair daqui em busca de ares mais favoráveis. Meu filho ficou. Tínhamos-nos dirigido para a Espanha; cheguei viúva a Madrid.

Fiquei bastante contrariada com a situação, e resolvi esperar que alguém de cá me quisesse ir buscar. Estava nestas circunstâncias, quando fui surpreendida um dia por um rapaz, que se atirou a meus pés, chorando e rindo com grande contentamento. Era Paulo Mostella.

Olhei-o sobressaltada, e certo é que então o diabo do homem me pareceu melhor do que dantes. Cheguei a calcular que o tempo e o traquejo do mundo lhe tivessem modificado o espírito, como lhe modificaram a fisionomia. Propôs imediatamente a casar comigo, e eu lhe declarei que não pensava ainda em preencher a vaga de meu marido, e que, se mais tarde me viesse semelhante idéia, só a realizaria um ano depois da morte de Tomás. Paulo falou-me com entusiasmo de uma grande paixão que por mim o devorava, e jurou que me amara sempre, e que aquele mesmo fato de se ter humilhado a procurar-me ainda, provava de sobra o muito que me queria. Enfim, tanto disse e tanto chorou, que acabou por me comover e persuadir. Fiz-lhe ver que, em todo caso, eu não me casaria aquele ano. Ele esperaria. Só o que desejava era possuir uma promessa. Prometi. E desde então o demônio do rapaz não me largou mais a porta. Passeios, teatros, bailes, touradas; tudo inventava para me agradar. Parecia viver unicamente para mim; dir-se-ia que todo o seu ideal era fazer com que o tempo corresse o mais depressa possível e que chegasse afinal o dia feliz da nossa união.

"Só voltaremos a Montevidéu casadinhos!" dizia-me ele, a beijar-me as mãos. E eu, em verdade, nem só já o suportava perfeitamente, como até sentia já por ele certa inclinação.

— Nós, as mulheres, somos muito fracas! explicou Violante com um olhar lastimoso. Se soubessem os homens o esforço que às vezes fazemos para sustentar o que a sociedade exige como tributo da nossa honestidade, dariam eles muito mais importância às nossas virtudes! Houve ocasiões, confesso, em que se me afigurou que Paulo tinha direito de ser mais atrevido do que realmente era.

E, voltando-se na cadeira, a oriental continuou:

— Uma vez propus-me um passeio ao campo. Aceitei e fomos.

A manhã era esplêndida. Uma bela manhã cheia de luz e temperada por um calor comunicativo e doce. Às seis horas metemo-nos em um carrinho de vime, leve como uma cesta, rasteiro como um divã e cômodo como um leito.

Paulo deu rédeas ao animal, e o carro nos conduziu para fora da cidade.