A Condessa Vésper/XII

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A Condessa Vésper por Aluísio Azevedo
Capítulo XII: Como e onde cresceu Ambrosina


O viúvo de Ana ficou desde então conhecido pela alcunha de "Marmelada".

Gabriel, feitos alguns preparatórios na Corte seguiu para S. Paulo em companhia de Gaspar, que o destinava a matricular-se na escola de Direito.

Enquanto para esse se arrastava a existência desse modo, corria a vida petulante e fagueira para a gente do comendador.

Bem diferentes eram os dois destinos!

O comendador Moscoso, segundo os cálculos que o leitor se dará ao trabalho de fazer, era casado havia já quinze anos, pois há quatorze dera-lhe a sua Genoveva uma filha, a que batizaram os dois com o doce nome de Ambrosina.

Ambrosina era uma mocinha pálida, de cabelos negros e crespos, lábios sensuais, dentes muito brancos, mãos finas, compridas e transparentes. Um todo linfático. Tinha os ombros estreitos, levemente contraídos, como por uma constante sensação de frio, os braços longos e fracos.

Aos doze anos ainda se não lhe percebia que havia de ter seios, mas em compensação, possuía já um par de olhos retintos, bem guarnecidos e tão belos, que faziam, só por si, toda ela ficar bonita.

O comendador babava-se pela filha e não media dinheiro para lhe dar o que ele chamava uma boa educação: o belo mestre de francês, mestre de piano, mestre de canto, mestre de dança, mestre de gramática e de retórica.

Ambrosina, entretanto, logo que começou a fazer-se rapariga, dava-se com mais amor do que tudo isso à leitura dos romances franceses. Sabia de cor a Dama das Camélias, o Rafael, Olímpia de Clêves, Monsieur de Carmors e outras quejandas encantadoras vias de corrupção. Muita vez tinham que lhe guardar o jantar, porque ela não queria largar o diabo do livro!

O pai dizia-lhe:

— Olha lá, minha jóia! não vá isso fazer-te mal!... mas não se animava a contrariá-la.

Ela não lhe dava ouvidos, e aparecia às vezes visivelmente excitada, com os olhos lacrimosos, o ar cheio de fastio, de má vontade e de maus modos.

A mãe acudia-lhe com repreensões, porém o pai intervinha a favor da filha, e acabava sempre, para a esta tranqüilizar de todo, lhe prometendo trazer um vestido novo e quatro velhos romances de Alexandre Dumas.

— Você está mas é estragando a pequena com essas bobagens! dizia Genoveva ao marido, com uma voz mole, como se saísse de uma boca de manteiga. Eu nunca tive desses mimos!...

— E é justamente por isso que é quem é! replicava o comendador, pondo em sua frase uma intenção sutil e profunda. Le monde marche, minha rica senhora! e se fôssemos a ser o que foram nossos avós, você seria a estas horas... nem sei mesmo o quê!...

— Se eu fosse o que foi minha avó, seria muito boa lavadeira. Minha mãe dizia constantemente que minha avó era a melhor lavadeira do Rocio Pequeno!

— Ora, não esteja aí a dizer blasfêmias! repreendia o pai de Ambrosina a olhar para os lados. A senhora não sabe ao certo o que é, quanto mais o que foi sua avó torta! Ora; pelo amor de Deus, dona Genoveva!

A Genoveva afastava-se, sem ânimo de protestar contra os remoques do marido.

— O diacho do homem sempre tinha uns repentes! Credo!

E assim cresceu Ambrosina fez-se mocetona, entre os enervantes zelos do pai e as inércias do amor de Genoveva.

Reunia-se gente quase todas as noites em casa do comendador, e fazia-se um cavaco antes do chá. Ambrosina solfejava ao piano; as visitas fumavam ou bebiam cerveja, e o dono da casa falava de política ou de negócios.

Entre essa gente destacava-se D. Ursulina, casada com um negociante inglês, que se tornava muito notável entre os de sua raça, porque jamais ia além do primeiro copo. Tinha o casal duas filhas, uma das quais fazia as delícias dos rapazes namoradores, e a outra os cuidados da mãe, que enxergava nela, com olhos experimentados, todas as qualidades precursoras de um eterno celibato.

A namoradeira chamava-se Emília e acudia o chistoso nome de Nhanhã Miló; a outra era pura e simplesmente Eugênia. Uma bonita; e a outra simpática.

Miló era travessa, alegre, faceira; tinha os olhos vivos, a língua solta, o pé ligeiro e um moreninho delicioso. A outra era tristonha e pálida, de olhos azuis, os movimentos compassados, os gestos frios; entretinha-se esta em casa a ler revistas inglesas, à noite, antes do chá, enquanto Miló cantarolava uma modinha ao piano ou ia para o portão da chácara ver quem passava na rua. Emília puxara à mãe; Eugênia saíra ao pai.

Da família, a mais tola era Ursulina, cuja conservação dos seus fugitivos dotes de beleza a trazia em constante e ridículo sobressalto.

O marido nunca dera por isso. Fora sempre um verdadeiro negociante inglês — seco, áspero, sem bigode, falando português a socos, e mostrando-se sistematicamente indiferente a tudo que não fosse de interesse prático.

À noite lia o Times ou jogava O wist com Eugênia, a sua filha predileta.

Ainda convém citar dois tipos da roda fiel do comendador:

Um era o Reguinho. Rapaz de vinte e tantos anos, filho de um fazendeiro estúpido e rico, que lhe fornecia dinheiro para a pândega. Muito conhecido; todos sabiam das suas asneiras e até de uma ou outra estrangeirinha, mas ninguém lhe ia às mãos por isso.

A sua linha mais acentuada, a sua mania, a sua moléstia, era a mentira. O Reguinho mentia por hábito, mentia por índole, por gosto; mentia, porque mentia.

Não estava em suas mãos proceder de outro modo: ele às vezes, coitado! não tinha intenção de dizer senão a verdade mas era bastante que suas palavras produzissem algum efeito em quem as escutasse, para vir logo a primeira mentira, abrindo a porta a um chorrilho delas. E ei-lo a aumentar, a exagerar, a meter no assunto episódios falsos; a dizer, enfim, aquilo que não era, e a mentir.

Um dia, encontrou ele na rua o infortunado viúvo de Ana, a quem conhecia de longa data. O pobre de Cristo, desde que perdera o emprego, vivia por aí aos paus, comendo a maior parte das vezes em casa do sogro ou nas águas de alguma velha amizade de melhores tempos.

— Vem cá, homem! como vai tu? disse-lhe o intrujão, batendo-lhe no ombro.

O Marmelada queixou-se da sorte com a resignação tétrica.

— Andas apoquentando, meu... (Queria dizer-lhe o nome, mas não se lembrava dele — Como é mesmo que te chamas?...

— Já nem de meu nome te lembras!... Também o que há nisso de extraordinário? outros nem sequer me conhecem mais!...

O Reguinho deu a sua palavra de honra em como se esquecia do nome de toda a gente.

— Chamo-me Alfredo da Silva Bessa...

— É isso! é! Mas tu estás desempregado, hem, meu Bessa?

Marmelada meneou afirmativamente a cabeça num desânimo sombrio.

O outro acrescentou:

— Pois tenho um emprego às tuas ordens. É negociozinho para de pronto meteres na algibeira um bom par de notas de cem! Estou convencido de que não me recusarás!...

O rosto lívido do Marmelada iluminou-se de um clarão de esperanço.

— Um emprego?! interrogou ele, acompanhando ansioso os movimentos do Reguinho.

— Por ora, tens duzentos mil-réis por mês... disse este; não te podemos dar mais... Porém em breve ganharás o duplo e terás interesse na empresa!...

Alfredo ouvia estas palavras como se despertasse ao toque de uma alvorada celestial.

— Pois sim! pois sim! balbuciava o infeliz; mas do que se trata?

— É uma empresa que estou criando com meu pai...

O nome do pai era quase sempre o fiador das patranhas do Reguinho.

Ainda te não posso dizer abertamente qual o fim da nossa empresa, ajuntou este; mas descansa, que a cousa é decente e lucrativa. Sabes que o velho não se meteria, se o negócio me ficasse mal!... Enfim, meu Bessa, seremos três: ele, eu e tu. O velho fornece os cobres, eu agencio cá por fora os nossos interesses, e tu te encarregas do escritório e da caixa, farás férias aos empregados, serás o gerente. Hein? serve-te? Espero que me não digas não!

— Ao contrário! já te não largo! Ó meu Deus, foi uma fortuna encontrar-te! Vou daqui ao Raposo, dizer-lhe que em breve principio a dar-lhe por mês alguma cousa por conta do que lhe devo, mandarei depois fazer um fato, que este é uma vergonha!..

— Um fato! Havemos de fazer o diabo! dizia o Reguinho em ar de mistério. — Queremos dinheiro, sebo! tu entras só com o teu serviço. Quer-se é zelo e inteligência!... Quanto a considerações e escrúpulos — nada! Tudo para o fundo da gaveta! Queremos dinheiro, sebo!

Mas afastou-se, correndo atrás de um sujeito que passava na ocasião.

— Até logo! gritou para o Marmelada. Preciso falar àquele rapaz. Ó Lima! Ó Lima!

E desapareceu.

Alfredo não pôde seguir logo, tão grande comoção se havia dele apoderado.

Entretanto, tudo o que dissera o Rêgo não tinha o menor fundamento.

O outro tipo a apontar da roda do comendador Moscoso, era Melo Rosa; moço da mesma idade do Reguinho. Vivia este da esperança de umas tantas peças dramáticas que havia de escrever com muito talento, desde que tivesse de seu um bom bocado de tempo.

Falava nesses trabalhos, como se já os houvera realizado. Surgia sempre, com um rolo de papeis debaixo do braço, a singrar, muito apressado, por entre os magotes da rua do Ouvidor. Quem o não conhecesse de perto, diria que ele levava uma vida cheia de cuidados e fadigas.

À noite, chovesse ou não, encontravam-no impreterivelmente na caixa dos teatros. Tinha neles entrada franca e dava-se com todos os artistas do Rio de Janeiro.

Alguns destes o tratavam com uma liberdade grosseira, batiam-lhe no ombro e diziam-se chufas. Era entretanto, considerado pelas atrizes como tipo útil. Tinha intimidade com muitas; viam-no às vezes acompanhar alguma delas para o ensaio, prestando-lhes os mais solícitos serviços; encarregavam-no de fazer compras, confiavam-lhe dinheiro, com que ele regateava nos armarinhos, mercando luvas, fitas, rendas e chapéus. O dinheiro nas mãos do Melo chegava para tudo! Dava para comprar o objeto e ainda para um troco, que o tipo levava religiosamente à dona da encomenda.

E, por isso e outras cousas, era bem tratado pelas mulheres. Comia, bebia e fumava com elas, sem que nenhuma lhe exigisse tributos de outra espécie.

Este, como Reguinho, apresentava a melhor aparência deste mundo — fraque, chapéu alto, lunetas e bigode.

Foi o Reguinho quem o apresentou em casa do comendador Moscoso, impingindo-o como autor de várias peças literárias e colaborador de vários jornais.

O comendador afirmou que já o conhecia muito de nome, e certa noite, em que o Melo apareceu mais cedo para o cavaco, aquele o tomou pelo braço e disse-lhe ao ouvido:

— Você é quem me podia prestar um serviço...

— O que quiser, comendador!

— Você é um moço inteligente, e estou convencido que será capaz de guardar um segredo...

Meio compôs o ar e respondeu:

— O comendador já tem tempo para apreciar o meu caráter!...

— Sim, mas olhe que o negócio é muito sério!...

— Pode confiar de mim sem receio!

— Promete então guardar segredo?

— Dou-lhe a minha palavra de honra!

— Pois vamos cá ao gabinete, e você ficará sabendo do que se trata...

E os dois encerraram-se no grave escritório do comendador Moscoso.