A Condessa Vésper/XLII

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A Condessa Vésper por Aluísio Azevedo
Capítulo XLII: Rapina


Em caminho da casa de Ambrosina, Gustavo ia formulando intimamente as melhores considerações sobre os seus próprios atos. Sentia esse lisonjeiro gozo que experimentamos ao fazer bem a qualquer pessoa, e ao qual, sem intenções paradoxais, se poderia chamar egoísmo da bondade ou desvanecimento do altruísmo.

Calculava de si para si que iria entestar com uma pantomimeira impertinente e orgulhosa, ele, porém, ia bem prevenido, e não desanimaria por isso, nem se daria por achado — havia de entregar-lhe a carta da pobre lavadeira, declarando francamente o deplorável estado em que viu a infeliz, e obrigando, com ríspidas razões, à famigerada Condessa, a mostrar-se menos desumana com a desgraçada que a trouxe nas entranhas.

E até, como sucedera noutro tempo com Gabriel em circunstâncias, aliás, bem diversas, punha já em ordem os seus belos raciocínios de poeta, formava em linha de batalha os esquadrões dos implacáveis e persuasivos argumentos, com que havia de vencer aquele duro coração de libertinha, e arrastá-lo à compreensão dos deveres filiais, por entre uma brilhante escolta de objetivos em brasa.

E caminhou firme para o alcácer inimigo, cuja porta atravessou impávido sendo introduzido lá em cima à voluptuosa saleta de espera por uma francesa velha e arrebicada, que lhe deu familiarmente o tratamento de "Cher mignon".

Gustavo, depois de medir desdenhosamente de alto a baixo, disse-lhe em tom de ordem que fosse prevenir à dona da casa da sua presença ali. E, fechando a cara e dilatando os lábios, soprou com força, como se atiçasse o morrão que levava aceso para lançar fogo à sua artilharia.

Mas, ao primeiro olhar da inexpugnável Ambrosina, que não levou muito a vir, todo esse arsenal de guerra se dispersou pelo ares, que nem um frouxel de paina ao sopro de inesperado tufão.

Ela, entretanto, parecia indiferente, e se alguma cousa transpirava dos seus gestos e da sua fisionomia, era uma formal amabilidade, cujo frio sorriso não passava dos dentes.

O noivo de Estela, embatucado e fulo de acanhamento, gaguejou algumas palavras de cortesia e entregou-lhe a carta de Genoveva.

A Condessa o fez passar para a mesma antecâmara em que recebera o Médico Misterioso, ofereceu-lhe uma cadeira e foi sentar-se a um canto, no divã, a romper vagarosamente o sobrescrito da carta.

Gustavo observava-a numa atitude cerimoniosa. Por mais esforços que fizesse, não conseguia pôr-se à vontade defronte daquela mulher deslumbrante, que o dominava com o seu ar de imperatriz romana. Sentia-se oprimido por uma irresistível e humilhante fascinação.

Vésper estava com efeito bela. Os braços e a garganta surgiam-lhe de uma confusão de rendas claras, como de um floco de mitológicas espumas do oceano. A cabeça, rica de contorno, destacava-se no enrodilhado artístico dos cabelos. Os olhos, mesmo quando fechados, transluziam os sutis fulgores da volúpia, e a boca o cruel segredo das paixões calculadas, das febres previstas e dos grandes delírios oficias do amor.

Ao terminar a leitura, ergueu-se altiva, e perguntou ao portador da carta se sabia quem a tinha escrito.

— Um seu criado... disse timidamente o rapaz.

— O senhor? Mas nesse caso, entre o senhor e minha mãe há velhas relações?...

— Absolutamente, minha senhora. Eu mal a conheço!...

— E ela confiou-lhe tudo o que vem escrito?!...

— Sua mãe havia pedido a uma vizinha que lhe fizesse a carta; a vizinha não pôde servi-la e encarregou-me por sua vez de...

— Ó senhores, com efeito! Mas então, minha mãe não teve o menor escrúpulo de envolver um estranho nos mistérios de minha vida?

Gustavo sorriu.

— Descanse, disse ele, erguendo-se; nunca terei ocasião de falar sobre semelhante cousa!...

— Hein?! perguntou ela, virando rapidamente a cabeça.

— Digo que não terei ocasião de falar no que me confiou a senhora sua mãe...

— E o que quer dizer o senhor com isso?

— Oh, minha senhora! quero dizer que não me meto com a vida alheia.

E o rapaz acrescentou, depois de uma pausa, durante a qual Ambrosina parecia meditar:

— O acaso conduziu-me ao lado de sua mísera mãe; ao vê-la fiquei comovido, ofereci-me, não só para escrever essa carta, como para a entregar pessoalmente e exigir a resposta. Se a senhora, porém, não estiver por isso, eu direi à pobre lavadeira que se console, e veremos por outro lado... Sempre há de aparecer algum hospital que a receba por... compaixão.

— Mas, para que diabo me está o senhor a mortificar?... Minha mãe fala-me aqui a respeito da venda que fiz da casa do Engenho Novo: eu, porém, não cometi nenhuma ilegalidade com isso — a casa era minha! — nem podia eu adivinhar que um fato, aliás tão insignificante, trouxesse tais conseqüências!... Minha mãe, se não está comigo, é porque não quer... ela sabe perfeitamente que eu não lhe fecharia a porta. E para acabar com a questão, vou dar-lhe uma mesada.

E tornou-se a assentar-se.

— Mas, é o diabo! disse ela depois. Não me convinha envolver estranho algum neste negócio!...

— Bem! rematou Gustavo, tomando o chapéu; isso já não é comigo... Direi, pois, à senhora sua mãe alguma cousa a respeito da mesada, e mais tarde, então, a senhora responderá à carta por escrito...

E fez um cumprimento, despedindo-se de Ambrosina.

— Ainda não se vá!... pediu esta, com a voz suplicante e lançando sobre Gustavo um belo olhar de leoa subjugada.

— Em que lhe posso ainda ser útil?... perguntou o rapaz voltando-se.

— Em muita cousa, disse ela, tomando-lhe o chapéu e segurando-lhe uma das mãos. Venha cá... Conversemos...

E depois de novamente assentados:

— O senhor vai ser o meu procurador em todos os negócios que disserem respeito à minha mãe.

— Está bem...

— Imagine que será a única pessoa senhora desse segredo, e que deve guardar sobre o assunto a maior discrição...

— Pode ficar descansada.

— Já que o acaso o pôs ao meu lado neste triste negócio, eu só ao senhor confiarei os meus sentimentos e as minhas intenções... Não me diga que não!

E, abalando mais a voz e chegando-se intimamente de Gustavo, acrescentou, quase com a boca em seu ouvido:

— Não calcula quanto sofro!... Não calcula quanto me custou fingir a indiferença, que ainda há pouco afetei ao receber esta carta!... o modo pelo qual está ela escrita revela coração e caráter. Sei que nunca me hei de arrepender de fazê-lo solidário de minhas penas íntimas ...

O senhor será o único homem que participará dos meus segredos, mas antes disso há de prometer-me uma cousa...

— Que cousa?...

— Ser meu amigo e prová-lo prestando-me desde já um serviço...

— Qual é?...

— Prevenir minha mãe de que eu irei hoje visitá-la, e vir buscar-me à meia-noite para me levar ao cubículo em que ela mora. Está dito?...

— Pois não...

— Oh! Eu lhe serei muito grata!... Conto então com o senhor à meia-noite?

— Sem falta.

— Pois bem, à meia-noite o espero aqui mesmo. Já me encontrará pronta para o acompanhar.

— Nesse caso, até logo, disse ele.

— Adeus, meu amigo.

E Ambrosina estendeu a fronte, que Gustavo não beijou.

À hora predileta, já ela com efeito, entocada num carro de praça, esperava pelo rapaz defronte da porta de casa. E dentro em pouco chegavam os dois à miserável residência da viúva do comendador Moscoso.

Graças a Gustavo, a lavadeira tinha sido antecipadamente prevenida daquela misteriosa visita.

Todo o cortiço ressonava, prostrado pela grossa labutação desse dia.

Ambrosina, vestida de negro e embiocada em mantilha entrou na estalagem pelo braço do poeta.

Ia pressurosa e confusa, mas não era a mãe, coitada desta! quem a preocupava nesse instante, era o enigmático rapazola que lhe dava o braço. Apesar de toda a sua diabólica perspicácia, não tinha ainda a presumida conseguido formar seguro juízo sobre que espécie de animal vinha a ser aquele estranho escrivinhador de novelas, que a tratava por cima do ombro e com um sorriso tão irritante quão pouco amáveis eram as suas palavras.

Ah! que Gustavo lhe preocupava o espírito e a trazia intrigada desde aquele seu primeiro olhar à porta do Arnaud, disso já não havia dúvida. Ambrosina a princípio procurou, não obstante, explicar o fato por um simples fenômeno de antipatia, mas depois teve de abrir mão dessa hipótese, à vista do insólito abalo nela produzido pelo espinhoso bilhete do estouvado na noite dos seus maiores triunfos, e agora pela quase agradável impressão que lhe causara a generosa atitude do boêmio com respeito à pobre velha, de quem ela era filha e mal se lembrava.

Sim senhor! dizia consigo a loureira; podia ele gabar-se de ter maravilhosamente comovido o belo e frio mármore de que era talhada a Condessa Vésper!

— Qual mármore! Os trinta anos de uma mulher, voluptuosa e materia1ista como aquela, jamais chegam desacompanhados de fundas modificações no seu temperamento. Ambrosina galgara à curvilínea idade em que a mulher perdida faz grande questão dos seus momentos de amor ex-ofício e, como para se desforrar dos intermináveis tédios do amor profissional, escolhe detidamente, gulosamente, contemplando, estudando em concentrado silêncio de conhecedor, o tenro e apetitoso eleito dos seus dispépticos sentidos, para afinal o saborear em remancho, reservada e grave, plenitude de uma delícia cevada e egoística. E Gustavo tinha então de vinte e quatro a vinte e cinco anos, fortes, sadios e bem aparelhados.

Essa é que era a verdade. Não se vá porém supor que, por ter já trinta anos, estivesse Ambrosina menos bela; ao contrário, o que perdera em graça juvenil ganhara em femínea plástica atingindo a esse glorioso apogeu da carne, que cresce precede na sua órbita fatal ao primeiro pungir do declínio, mas que naquele brilhante e rápido fastígio atinge ao mais alto grau da perfeição da forma.

Será preciso dizer que tão inesperada resistência por parte do mocetão, excitou, naqueles zodiacais e formosos trinta anos, a flama acesa pelo sensual capricho do momento? e que, ao terminar a visita, já se sentia a caprichosa perfeitamente resolvida a capturar o revesso boêmio, custasse o que custasse?

A visita foi breve, mas em compensação muito penosa para a rapariga. Não contava esta encontrar a mãe em tão negro e repulsivo estado de miséria; as acres fezes da existência tinham de todo corroído o que porventura ainda restasse de coragem na pobre vencida, cuja derradeira aparência de energia só na aguardente encontrava, agora por último, uns vislumbres de muleta. A desgraçada, quando logo pela manhã não bebia ó seu trago de cana, desabava para o resto do dia numa tristeza que a punha cismadora e demente.

Ao ver entrar a filha no quarto, ela começou a chorar. Ambrosina correu a beijar-lhe a mão, e com um gesto pediu a Gustavo que se afastasse.

O rapaz saiu, cerrando sobre si a porta, e, durante a abafada conversa das duas mulheres, ouvia-se o som dos passos dele, que lá fora passeava, à espera, por entre a récua de casinhas do cortiço.

Ficou resolvido que Genoveva, com um nome suposto iria para a companhia da Condessa Vésper. Não foi sem repugnância que a infeliz, apesar de seu geral desfibramento, aceitou semelhante derivativo da miséria, mas esse pobres restos de dignidade não conseguiram vir à tona do lodo em que a triste mãe se aniquilava. Iria viver das migalhas dos bródios pagos pelos amantes da filha, e bem compreendia ela, coitada! o alcance de tão extremo recurso, porém que remédio, se lhe faltava agora o ânimo para tudo, até para deixar de existir?

Já em caminho de casa, Ambrosina, fazendo-se muito íntima de Gustavo e sem largar da boca o nome da mãe, encarregou o rapaz com respeito a esta de várias delicadas incumbências.

— Não a desampare, por amor de Deus!... dizia ela, segurando-lhe as mãos; faça com que mãezinha vá para junto de mim o mais depressa possível!... Se soubesse como dói na consciência a ter deixado chegar àquele estado!... O senhor é a única pessoa envolvida nisto... Não me abandone, que eu morreria de desgostos! Mãe, só temos uma na vida! lembre-se, meu amigo, que é uma filha que intercede aflita pela salvação de sua própria mãe!

— Não me descuidarei, descanse! balbuciou ele, um pouco perturbado.

— Ela prosseguiu:

— A ninguém, a não ser ao senhor, seria eu capaz de falar deste modo... Veja como correm as lágrimas dos olhos!

E levou às suas faces as mãos de Gustavo, demorando-as depois contra os lábios, como para lhe dar, com um ósculo de gratidão, humilde cópia de quanto a penhoravam aqueles serviços.

— Mas que profunda confiança me inspira a sua pessoa!... segredou ela, acarinhando-lhe as mãos com os lábios. Nunca fui assim, creia, com mais ninguém, nem mesmo com, meu marido! Oh! se o senhor me abandonasse neste transe, nem sei o que seria de mim!

— Não tenha receio

— Se for preciso gastar, não meça despesas... olhe! o melhor será levar já algum dinheiro... Eu vim prevenida!

— Não, não! Dir-lhe-ei ao depois o que gastar...

— Obrigada! obrigada! Sei que o senhor vai ter incômodos e infinitos aborrecimentos, mas neste mundo devemos socorrer-nos uns aos outros, não é verdade? Oh! como seria eu feliz se algum dia lhe pudesse ser útil em qualquer cousa! Socorra minha mãe, e pode dispor de tudo que possuo! Disponha de mim! toda eu estou sua da ponta dos pés à ponta dos cabelos!

— Muito agradecido, mas que exagero! Não vejo motivo para tanto!

E Gustavo, sentindo agitar-se-lhe o sangue, afastou-se discretamente do corpo de Ambrosina, que ao dele se havia ligado inteiramente.

— Ah! chegamos! exclamou o perseguido com um suspiro de desabafo.

O carro havia com efeito parado à porta da Condessa.

— Não se vá... disse esta ao moço, despedindo o cocheiro. Sinto-me tão abalada pela comoção, que receio ficar sozinha... Faça-me um pouco de companhia à ceia... É um favor que lhe peço. Juro que não o deterei por muito tempo!...

Gustavo esquivava-se com desculpas e agradecimentos, sentindo-se quase ridículo.

Ela o prendeu pelos braços, puxando-o para dentro do corredor. E, tomando-lhe a cabeça entre as mãos, disse-lhe com o rosto encostado ao dele:

— Não sejas tolo, meu amor!

E com violento beijo, em que os dentes dos dois se chocaram, Ambrosina injetou-lhe no sangue o alucinante morbus da sua venérica luxúria.