A Condessa Vésper/XV

Wikisource, a biblioteca livre
< A Condessa Vésper
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
A Condessa Vésper por Aluísio Azevedo
Capítulo XV: Em casa do comendador


Gaspar fechou-se no gabinete com o enteado.

— Senta-te, disse ele, dando volta a uma charuteira e tirando de sobre a estante uma garrafa de cristal. Fuma um charuto e toma um cálice de Málaga:

Gabriel instalou-se em uma poltrona.

Estava realmente um belo moço; e ali, contra o marroquim vermelho da cadeira, a luz do gás, caindo do alto, lhe fazia destacar bem o puro contorno da cabeça, deixando-lhe o rosto embebido em meia sombra, na qual cintilavam com um olhar ansioso as duas negras jóias, que Gabriel herdara da mãe.

Havia nele toda a graça dos vinte e um anos.

Gaspar acendeu um charuto, e assentou-se defronte do enteado.

— Chegou a época da tua emancipação, disse, e amanhã mesmo iremos tratar dela. Estás, por conseguinte, um homem, e eu tenho de substituir, junto a ti, o meu papel de tutor pelo de teu mais dedicado amigo. Vais entrar na posse de teus bens, que aliás são bastante avultados; antes disso porém, quero contar-te a história de tua mãe e desempenhar uma comissão que ela me confiou nos seus últimos momentos...

E Gaspar, muito comovido, tirou do fundo de uma gaveta da secretária um estojo, que passou ao filho de Violante.

— Um punhal?! exclamou este ao abri-lo.

Foi de tua mãe e pertenceu igualmente a teus avós. É objeto de família, que tem passado de pais a filhos. Guarde-o como sagrada relíquia daquele anjo que consigo me levou para sempre toda a minha esperança de felicidade.

Gaspar enxugou os olhos e prosseguiu, enquanto o outro examinava o punhal:

— Esse sangue que enferrujou a lâmina, é sangue de tua mãe. Violante matou-se com uma punhalada. Tinha um temperamento de leoa e uma alma de arcanjo; matou-se, porque eu lhe supliquei que não assassinasse meu cunhado Paulo Mostella...

Gabriel ficou pensativo, Gaspar foi buscar um retrato de Violante e colocou-o defronte de ambos.

Houve um grande silêncio, respeitoso e, profundo, como se os dois se preparassem para receber, com aquela visita do passado, uma visita da própria morta. Só se ouvia, além do palpitar da pêndula suspensa da parede, o zumbido das asas de uma mariposa, que gravitava freneticamente em torno do globo aceso.

Afinal, Gaspar, com a voz enfraquecida pela comoção, narrou circunstanciadamente a Gabriel tudo o que sabia a respeito de Violante.

O moço ouvia-o sereno e contrito. No seu bizarro temperamento, a história romântica de sua mãe produzia um conjunto de orgulho e mágoa. Sentia que o seu sangue era ainda o mesmo, vermelho e quente, que tingira a lâmina daquele punhal; compreendeu que em sua alma dormiam também grandes vendavais e tempestades. Ouviu falar da própria raça, sem o mais passageiro vestígio de sobressalto. A sua pálida fronte conservava-se límpida, e seus olhos dormiam no fundo do seu olhar, como dois diamantes esquecidos na areia de um lago cristalino e plácido.

Quando Gaspar terminou, ele abraçou-o com toda a calma, e guardou junto do coração o seu punhal de família.

O relógio marcava meia-noite. Já era tempo de recolherem. E os dois encaminharam-se para os aposentos do coronel.

Mas Gaspar, ao entrar no quarto do pai, estremeceu, assustado pela escuridão e pelo completo silêncio que ali reinavam. Acendeu uma vela e penetrou na alcova; estava vazio o leito.

Possuído de mil receios e cuidados, correu toda a casa. O coronel tinha desaparecido.

— Ah! Já sei! exclamou, sobressaltado por uma idéia. Meu pai foi à casa do comendador! Depressa Corramos a encontrá-lo!

E os dois lançaram-se para fora.

Na rua tomaram um carro e mandaram tocar à disparada para o Caminho Velho de Botafogo, que era onde Moscoso tinha a sua residência na cidade.

As janelas do palacete do comendador mostravam-se iluminadas. Defronte do portão do jardim havia urna enorme fila de carruagens.

O palacete estava em baile.

Enquanto Gaspar e Gabriel confidenciavam tristemente essa noite encerrados no gabinete do médico, fervia o prazer e reinava a alegria em casa do próspero comendador.

As suas salas, regurgitantes de convivas, fremiam ao som da orquestra e ao quente rumor das danças. Por todas elas palpitava o gozo; por todas elas riso, jogos, libações e amor.

Em breve a festa chegava ao seu momento de delírio, a esse momento apogístico do baile em que a alma parece derreter-se na saturação dos vapores do prazer, em que as luzes, os vinhos, os perfumes das toilettes e das flores, o ansioso respirar na vertigem da valsa, se vaporizam pelo ambiente, despertando os sentidos e entontecendo o espírito; instante feliz em que mais deliciosamente gemem os violinos, em que cintilam com mais luz os diamantes e os olhos das mulheres, e os colos arfam, e o corpo cede de todo à volúpia, e o sangue se embriaga e vem até aos lábios reclamando beijos.

— De repente, porém, uma voz rude e áspera, voz de batalha, retumbou pelas salas, bramindo:

Silêncio!

Todos pasmaram. A orquestra emudeceu e os pares estacaram tolhidos de surpresa.

Ao fundo do salão, no meio da inconsciência do prazer, assomara o vulto venerando do coronel.

Seu porte, alto e alquebrado, destacava-se imponente; o longo capote aumentava-lhe a estatura, dando-lhe proporções naturais. O gás mordia-lhe asperamente a aridez da fronte, que faiscava como a ponta calva de um rochedo aos raios do sol; os seus olhos fundos e ardentes, chispavam de cólera, os cabelos, brancos e assanhados, davam-lhe à cabeça um terrível aspecto de loucura.

Todos o olhavam com assombro. As mulheres empalideciam desmaiadas.

O coronel, espectral e imóvel, permanecia ao fundo do salão.

Ninguém se animava a proferir palavra.

O comendador acudiu em sobressalto; mas, ao dar com o veterano, soltou um grito e estacou petrificado defronte daquela fantástica e ameaçadora figura, que o fitava sem pestanejar.

— Eu sou o coronel Pinto Leite, vozeou o fantasma; e eis aí o autor das infames mofinas que há vinte anos me amarguram a existência! Esse miserável ex-caixeiro de taverna, covardemente me persegue desde o dia que lhe não consenti fazer parte de minha família, casando com uma de minhas filhas! Que aos dois nos julguem dentre vós os homens de bem! Quanto a mim, quero apenas apontar a hipocrisia deste monstro ao anátema social e estigmatizá-lo com o ferrete do meu ódio.

E o veterano caminhou para ele.

Era um estranho caminhar de estátuas. O chão parecia ir desabar debaixo dos seus pés de bronze. Caminhou majestosamente até à figura vulgar do comendador, que quedava estarrecido como sob o domínio de uma fascinação magnética, e soltou-lhe em cheio nas faces uma bofetada.

Houve então uma geral exclamação de protesto e de pasmo.

Moscoso voltou a si com o sangue que lhe subiu ao rosto e quis lançar-se contra o agressor, mas os amigos o agarraram e conduziram lá para dentro, consolando-o com a idéia de que ele tinha sido vitima de um louco.

O esbofeteado reclamava a prisão do insolente que o fora provocar no seu domicílio.

Mas não apareceu um braço que se erguesse contra a venerável figura do coronel. Abriram-lhe caminho. E, ao passar o seu vulto encanecido e todo trêmulo de comoção, abaixaram-se as frontes por um instintivo impulso de respeito.

Ele atravessou a sala com o passo firme e desapareceu.

Ao chegar à porta do jardim, parava na rua, urna carruagem, que vinha a toda desfilada.

Eram Gaspar e Gabriel saídos ao seu encontro.

Os dois apoderaram-se dele.

O velho, entretanto, sem poder dar uma palavra, encostou a cabeça no peito do filho, e soluçou desafrontadamente.

— Chore! chore, meu pai! Desabafe! dizia Gaspar.

E o velho soluçava.

— Sinto-me bem! exclamou este afinal. Sinto-me bem! Tirei um peso do coração! Desmascarei aquele canalha e dei-lhe uma bofetada! Ah, meus filhos! já posso morrer tranqüilo! Estou consolado!

Recolheram-se à casa. Contudo, o pobre homem não pregou olho senão pela manhã, tal era a sua excitação.

Daí a dois dias, apareceu no Jornal do Comércio um artigo, descrevendo minuciosamente o escândalo do baile do comendador. O escrito tinha frases bombásticas; elogiava ó procedimento do velho coronel e comparava o caráter do honrado militar com o tipo baixo e vil do comendador.

Esta publicação surpreendeu em extremo o coronel e os seus. Nenhum destes podia atinar quem seria o espontâneo autor de semelhante defesa.

O Moscoso, ao lê-la ficou possuído de uma cólera tremenda, e jurou vingar-se melhor do que ate aí.

Os artigos continuaram. Eram escritos pelo Melo Rosa. O esperto calculara uma engenhosa especulação para desfrutar ainda o comendador: Este, desde que encontrasse qualquer correspondência no Jornal a seu respeito, teria que responder, e havia de recorrer àquele. Assim sucedeu. O Rosa escrevia, contra e a favor, tanto do coronel, como do Moscoso.

A luta estava perfeitamente travada.

O coronel caía de surpresa em surpresa, e o Melo Rosa ia empalmando os cobres que lhe dava o comendador.

Afinal, um belo dia estando Pinto Leite em casa a conversa com o filho e Gabriel, foram interrompidos por um meirinho, que apresentou ao veterano uma citação em nome do comendador Moscoso.

O pai de Ambrosina comprara as dívidas do adversário, que montariam a uns dez contos de réis.

Foi sacrifício, mas o perverso não desdenhou arrostá-lo para dar pasto à sua vingança.

O coronel tinha de entrar com aquela quantia dentro de vinte e quatro horas.

— Onde iria ele de pronto, buscar esse dinheiro... E o pobre do coronel olhou abstratamente para o meirinho, depois para o filho, em seguida para Gabriel, e por fim escondeu o rosto nas mãos e ficou a cismar, completamente possuído pela sua perplexidade.

Gabriel, porém, apossou-se da intimação, e disse alegremente ao veterano.

— Não lhe dê isso cuidado, meu amigo. Lembre-se de que sou filho de Violante! O senhor pode perfeitamente pagar o triplo dessa importância, sem o menor constrangimento.

E, voltando-se para o meirinho, acrescentou com a voz calma e resoluta:

— Retire-se! O senhor coronel Pinto Leite entrará com o dinheiro.

E, antes de esgotado o prazo fatal, já o belo moço tinha com efeito pago as dívidas do benfeitor de sua mãe.

Mas, para liquidar a transação, foi-lhe necessário entender-se diretamente com o comendador Moscoso, que estava de cara à banda porque contava que o coronel nunca pudesse pagar as dívidas.

Gabriel, para dar caráter mais espetaculoso ao negócio, preferiu que o credor o recebesse em sua casa particular.

Moscoso marcou-lhe uma entrevista às sete horas da noite.

Gabriel apresentou-se. Veio recebê-lo Ambrosina.

— Como! pois V. Exa. é filha do comendador?

— É verdade, sou. Não sabia?

— Ignorava-o totalmente. Como tem passado?

— Bem. E o senhor?

— Eu... um pouco pior depois que sei o que acabo de saber...

— Ora, essa! por quê?...

— Ainda não lhe posso dizer a razão...

E os dois, que já se conheciam, olharam-se de um modo estranho.