A Dama do Pé-de-Cabra/I/II

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A Dama do Pé-de-Cabra por Alexandre Herculano
Trova Primeira, Capítulo 2


D. Diogo Lopes era um infatigável monteiro: neves da serra no inverno, sóis dos estevais no verão, noites e madrugadas, disso se ria ele.

Pela manhã cedo de um dia sereno, estava D. Diogo em sua armada, em monte selvoso e agreste, esperando um porco montês, que, batido pelos caçadores, devia dar naquela assomada. Eis senão quando começa a ouvir cantar ao longe: era um lindo, lindo cantar.

Levantou os olhos para uma penha que lhe ficava fronteira: sobre ela estava assentada uma formosa dama: era a dama quem cantava.

O porco fica desta vez livre e quite; porque D. Diogo Lopes não corre, voa para o penhasco.

"Quem sois vós, senhora tão gentil; quem sois, que logo me cativastes?

"Sou de tão alta linhagem como tu; porque venho do semel de reis, como tu senhor de Biscaia."

"Se já sabeis quem eu seja, ofereço-vos a minha mão, e com ela as minhas terras e vassalos."

"Guarda as tuas terras, D. Diogo Lopes, que poucas são para seguires tuas montarias; para o desporto e folgança de bom cavaleiro que és. Guarda os teus vassalos, senhor de Biscaia, que poucos são eles para te baterem a caça."

"Que dote, pois, gentil dama, vos posso eu oferecer digno de vós e de mim; que se a vossa beleza é divina, eu sou em toda a Espanha o rico-homem mais abastado?"

"Rico-homem, rico-homem, o que eu te aceitaria em arras coisa é de pouca valia; mas, apesar disso, não creio que mo concedas; porque é um legado de tua mãe, a rica-dona de Biscaia."

"E se eu te amasse mais que a minha mãe, por que não te cederia qualquer dos seus muitos legados?"

"Então, se queres ver-me sempre ao pé de ti, não jures que farás o que dizes, mas dá-me disso a tua palavra."

"A la fé de cavaleiro, não darei uma; darei milhentas palavras."

"Pois sabe que para eu ser tua é preciso esqueceres-te de uma coisa que a boa rica-dona te ensinava em pequenino e que, estando para morrer, ainda te recordava."

"De que, de que, donzela? acudiu o cavaleiro com os olhos chamejantes. — De nunca dar tréguas à mourisca, nem perdoar aos cães de Mafamede? Sou bom cristão. Guai de ti e de mim, se és dessa raça danada!"

"Não é isso, dom cavaleiro — interrompeu a donzela a rir. — O de que eu quero que te esqueças é o sinal da cruz: o que eu quero que me prometas é que nunca mais hás-de persignar-te."

"Jsso agora é outra coisa" — respondeu D. Diogo, que nos folgares e devassidões perdera o caminho do céu. E pôs-se um pouco a cismar.

E, cismando, dizia consigo: — De que servem benzeduras? Matarei mais duzentos mouros e darei uma herdade a Santiago. Ela por ela. Um presente ao apóstolo e duzentas cabeças de cães de Mafamede valem bem um grosso pecado.

E, erguendo os olhos para a dama, que sorria com ternura, exclamou: — "Seja assim: está dito. Vá, com seiscentos diabos."

E, levando a bela dama nos braços, cavalgou na mula em que viera montado.

Só quando, à noite, no seu castelo, pôde considerar miudamente as formas nuas da airosa dama, notou que tinha os pés forcados como os de cabra.