A Dama do Pé-de-Cabra/III/II

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A Dama do Pé-de-Cabra por Alexandre Herculano
Trova Terceira, Capítulo 2


Trinam os rouxinóis nos balseiros; murmuram ao longe as águas dos regatos; ramalha a folhagem brandamente com a viração da manhã: vai uma linda madrugada.

E Inigo Guerra galga, manso e manso, os carris empinados, trepa de barrocal em barrocal e, apesar de seu muito esforço, sente bater-lhe o coração com ânsia desacostumada.

Onde as matas faziam alguma clareira ou as penhas alguma chapada, D. Inigo parava um pouco, tomando fôlego e pondo-se a escutar.

Muito havia que andava embrenhado: o sol ia alto, e o dia calmoso: ao canto do rouxinol seguira o rechinar da cigarra.

E encontrou uma fonte que rebentava de rochedo negro e, saltando de aresta em aresta, vinha cair em almácega tosca, onde o sol parecia dançar no bulir das ondazinhas que fazia o despenho da cascata.

D. Inigo assentou-se à sombra da rocha e, tirando a sua monteira, matou a sede que trazia, e pôs-se a lavar o rosto e a cabeça do suor e pó, que não lhe faltava.

O mastim, depois de beber, deitou-se ao pé dele e, com a língua pendente, arquejava de cansado.

De repente, o cão pôs-se em pé e arremeteu, com um grande ladro.

D. Inigo volveu os olhos: um jumento silvestre pascia na orla da clareira junto de um frondoso carvalho.

"Tárik! — gritou o mancebo. — Tárik!" — Mas Tárik ia avante e não escutava.

"Ai, deixa-o correr, meu filho! Não é para o teu mastim levar a melhor desse onagro."

Isto dizia uma voz que, lá em cima no alto da penha, começou de soar.

Olhou: linda mulher estava aí assentada e, com gesto amoroso e sorriso d'anjo, para ele se inclinava.

"Minha mãe! minha mãe! — bradou migo Guerra, alevantando-se: e lá consigo dizia: — Vade retro! Santo Hermenegildo me valha!"

E como molhara a cabeça, sentiu que os cabelos se lhe iam alçando de arrepiados.

"Filho, na boca palavras doces; no coração palavras danadas. Mas que importa, se és meu filho? Dize o que queres de mim, que será tudo feito a teu talento e vontade."

O moço cavaleiro nem acertava a falar com medo. Já a este tempo Tárik gemia uivando debaixo dos pés do onagro.

"Cativo está de mouros há anos meu pai D. Diogo Lopes — disse por fim titubeando. — Quisera me ensinásseis, senhora, o modo como hei-de salvá-lo."

"Seu mal, tão bem como tu, eu sei. Se pudesse, ter-lhe-ia acorrido, sem que viesses requerê-lo: mas o velho tirano do céu quer que ele pene tantos anos quantos viveu com a... com a que sandeus chamam Dama Pé-de-Cabra."

"Não bíasfemeis contra Deus, minha mãe, que é enorme culpa" — interrompeu o mancebo, cada vez mais horrorizado.

"Culpa?! Não há para mim inocência nem culpa" — replicou a dama, rindo às gargalhadas.

Era um rir de dormente, triste e medonho. Se o diabo ri, como aquele deve ser o rir do diabo.

O cavaleiro não pôde dizer mais palavra. "Inigo! — prosseguiu ela — falta um ano para cumprir-se o cativeiro do nobre senhor de Biscaia. Um ano passa depressa: mais depressa eu to farei passar. Vês tu aquele valente onagro? Quando uma noite, acordando, o achares ao pé de ti, manso como cordeiro, cavalga nele sem susto, que te levará a Toledo, onde livrarás teu pai. — E bradando acrescentou: — Estás por isto, Pardalo?"

O onagro fitou as orelhas e, em sinal de aprovação, começou a azurrar; começou por onde, às vezes, academias acabam [1].

Depois, a dama pôs-se a cantar uma cantiga de bruxas, acompanhando-se de um saltério, de que tirava mui estranhas toadas:

Pelo cabo da vassoura,
Pela corda da polé,
Pela víbora que vê,
Pela Sura, e pela Toura;

Pela vara do condão,
Pelo pano da peneira,
Pela velha feiticeira,
Do finado pela mão;

Pelo bode, rei da festa,
Pelo sapo inteiriçado,
Pelo infante dessangrado
Que a bruxa chupou à sesta;

Pelo crânio alvo e lustroso
Em que sangue se libou,
E do irmão que irmão matou,
Pelo arranco doloroso;

Pelo nome de mistério
Que em palavras se não diz,
Vinde lã precitos vis;
Vinde ouvir o meu saltério!

E dançai-me, aqui na terra,
Uma dança doudejante,
Que entonteça dum instante O
meu filho Inigo Guerra.

Que ele durma um ano inteiro,
Como em sono de uma hora,
Junto à fonte que ali chora,
Sobre a relva deste outeiro.

Enquanto a dama cantava estas cantigas, o mancebo sentia um quebrantamento nos membros que crescia cada vez mais e que o obrigou a assentar-se.

E logo, logo, ouviu-se um ruído abafado, como de trovões e de ventanias engolfando-se em covoadas: depois o céu começou de toldar-se, e cada vez era mais cris, até que, enfim, apenas uma luz de crepúsculo o alumiava.

E a mansa almácega refervia, e os penedos rachavam, e as árvores torciam-se, e os ares sibilavam.

E das bolhas da água da fonte, e das fendas dos rochedos, e d'entre as ramas dos robles, e da vastidão do ar via-se descer, subir, romper, saltar... o quê? — Coisa muito espantável.

Eram mil e mil braços sem corpos, negros como carvão, tendo nos cotos uma asa, e na mão cada um uma espécie de facho.

Como a palha que o tufão alevanta na eira, aquela multidão de candeias cruzava-se, revolvia-se, unia-se, separava-se, remoinhava, mas sempre com certa cadência, como que dançando a compasso.

A D. Inigo andava a cabeça à roda: as luzes pareciam-lhe azuis, verdes e vermelhas: mas corria-lhe pelos membros uma languidez tão suave, que não teve ânimo para fazer o sinal da cruz e afugentar aquele bando de Satanases.

E sentia-se esvaecer e, pouco a pouco, adormecia e, dali a pouco, roncava.

Entretanto, no castelo tinham dado pela sua falta. Esperaram-no até à noite; esperaram-no uma semana, um mês, um ano, e não o viam voltar. O pobre Brearte correu por muito tempo a serra; mas o sítio onde o cavaleiro jazia, isso é que não havia lá chegar.

Notas[editar]

  1. O Dicionário da Academia, que ficou interrompido ao fim da letra A, acaba na palavra azurrar. [N. do A.]