A Falência/III

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A Falência por Júlia Lopes de Almeida
Capítulo III


Com preguiça de ir visitar as velhas tias do Castelo, Camila mandava às vezes as filhas pequenas abraçá-las em seu nome, em companhia da Noca. As senhoras Rodrigues moravam ainda na mesma casa, do alto do morro, muito antiga, com janelas de guilhotina e paredes encardidas. D. Itelvina raramente punha os pés na rua, e era tida como a criatura mais sovina do bairro. A outra, d. Joana, pouco parava ali, sempre voltada para Deus. Era viúva de um colchoeiro rico, morto de anasarca, de quem sofrera os maus tratos que, na inconsciência das bebedeiras, ele lhe ministrava.

Viviam as duas, desde crianças, na mesma casa. herança dos pais, conservando os seus hábitos de vida mesquinha, amando ideais diversos: uma concentrando-se, outra expandindo-se, consistindo para uma todo o prazer da vida em aferrolhar, esconder bens que as mãos apalpam, e para a outra só em querer bens dos céu, com que a alma sonha.

Nada sorria naquela habitação árida e velha. No quintal, nem um canteiro de flores; uma horta raquítica a um canto, algumas laranjeiras e um coradouro de grama pisada e sem viço, estendendo-se ao lado de um tanque de cimento, coberto por um telheiro de zinco. Dentro, o mesmo desconforto: salas com poucos móveis e esses antiqüíssimos, alcovas vazias e uma cozinha de tijolos desgastados pelas pancadas do machado na lenha.

D. Itelvina percebia bem que para conservação daquela casa deveria fazer-lhe grandes consertos; mas queria obter da irmã que os fizesse todos por sua conta, o que lhe parecia mais justo.

A irmã é que não olhava para os buracos dos ratos e pouco lhe importava isso, desde que a sua Senhora do Carmo e o Santo Cristo do seu oratório estivessem alumiados, a sua alma em graça, e que ela pudesse fazer todas as semanas as suas confissões aos frades capuchinhos. Esta era, para tudo mais, uma senhora apática, gorda, de uma brancura anêmica, com uns olhos castanhos muito doces e um cabelo grisalho, curto, que ela cobria com uma touca preta de folhos encrespados. A saia, redonda e muito franzida, mostrava-lhe os pés largos calçados em duraque, e nas mãos finas e cor de leite tinha, ora o livro de orações, de folhas já denegridas nos ângulos, ora um rosário de âmbar benzido pelo bispo.

D. Itelvina não parecia crente. Ninguém a vira nunca de joelhos em frente ao oratório da irmã. Nenhum traço comum lembraria a outrem o parentesco entre ambas. Esta era alta, morena, de nariz forte e lábios finos.

A voz de d. Joana tinha inflexões brandas, de alma tranqüila; a voz de d. Itelvina tinha sibilações desafinadas, rouquejava ou tinia, como se saísse de órgãos de bronze. Nem as duas sabiam se se amavam.

Os bons dias e as boas noites eram trocados sem o beijo que confraterniza as almas. Toleravam-se, talvez, apenas; apoiavam-se mutuamente, guiadas pelo hábito.

Quando Noca bateu à porta, ouviu gritos dentro: e calculou logo que haviam de ser da Sancha, a negrinha órfã que d. Itelvina explorava nos arranjos da casa.

Abriu-se uma janela com bulha impaciente e apareceu a cara de d. Itelvina, indagando de quem batia.

— Ah!... é você, Noca! espera um pouco, eu já vou.

Dentro, a mulata explicou:

— Nhâ Mila mandou fazer uma visita e saber das senhoras como estão... ela não pôde vir, porque...

— Já sei. Isto é muito alto... se fossem as escadas do Lírico, muito que bem!... casa de pobres...

— Não, senhora! não é por isso, nem as senhoras são pobres! até dizem todos o contrário...

— Dizem? mentiras! mentiras só... Como vai seu Teodoro?

— Muito bem.

— Excelente homem; aquilo é que foi sorte grande. bem Noca?

— Foi. sim. senhora; ele é bom... tem as suas impertinências... mas a gente já sabe que é do gênio...

— Qual o quê! Mila deve adorar o marido de joelhos! Neste tempo já não é fácil uma moça pobre e sem proteção encontrar um casamento assim!

— Isso é verdade... Ela também é muito boa.

— Você se lembra de quando eles moravam na Lapa, que até você levava as vezes comida da casa de pasto para dar às meninas?

A mulata sorriu com ar contrafeito e modesto, lembrando-se que não fora da Lapa que ela levava os restos dos jantares da casa de pasto do amigo, mas que subira muitas vezes a ladeira do Castelo, com a trouxinha das carnes na mão, para matar a fome de Mila e das irmãs, então hospedadas em casa de d. Itelvina.

— De quem é que você matava a fome, Noca? perguntou uma das crianças.

— De uma viúva que já morreu, emendou Noca. impelindo as duas crianças para o quintal. Vão ver a vista... vão ver os sinais dos vapores... dizia ela.

D. Itelvina olhou para as duas meninas e não pôde conter-se que não exclamasse:

— Tanta gente com fome e tanto dinheiro esperdiçado em vestidos de crianças! Mila teve sempre propensão para o desperdício... Bonitos aqueles vestidos! onde os compraram?

— Vieram de Paris...

— Uhm... não haviam de ser baratos... aquilo é seda, não é?

— É, sim, senhora. D. Joana saiu?

— Já se sabe! anda pelas igrejas... Se não fosse eu, não sei como havia de ser!...

Noca reparou, olhando para a alcova do oratório, aberta para a sala, que a lamparina estava apagada.

D. Itelvina continuou:

— Joaninha só vem a casa para comer e dormir. Tem quem lhe faça tudo... Ela não tem aparecido por lá?

— Não, senhora...

— Ruth por que não veio?

— Ficou dando lição. Ela tocou no concerto e foi muito festejada.

— Há de lucrar muito com isso... Aposto em como não sabe ainda pregar um remendo ou fazer um vestido.

— Graças a Deus, ela não precisa disso!...

— O futuro o dirá...

— Credo!

— Pois sim. Cada vez bendigo mais a educação que minha mãe nos deu. Havia dias, que era desde manhã até de noite a fazer balas...

— Tal! e d. Joana não deu pra outras coisas?

— Ela sempre foi religiosa, mas depois de viúva refinou! E ainda se queixa de doente, que tem faltas de respiração e pernas inchadas!

— Coitada!

— Minha filha! ela vai daqui a pé a São Francisco, ao Carmo, a Penitência, a S. Bento a qualquer igreja da cidade!... As cinco horas já está nos Capuchinhos; e à tarde aqui na igreja do hospital ela canta com as Irmãs e com os soldados. E cada ladainha que Deus nos acuda!

Alguém batia à porta, e d. Itelvina, tendo espreitado pela janela, voltou-se apressada e foi reacender a lamparina do oratório.

Sancha apareceu, com os beiços inchados pelo excesso do choro, e, dependurando a chave da porta da rua, segura pela argola a um prego na sala, olhou com ar de queixa muda para a Noca.

A negrinha não teve resposta: a outra disfarçava, contemplando as paredes nuas e desbotadas da sala. Pela janela aberta via-se parte de um paredão desmoronado, e lá em baixo, em um fundo largo e fresco, um trecho de mar muito azul.

D. Joana entrou, arfando de cansaço, e sentou-se logo na primeira cadeira, ao pé da porta. Sancha tirou-lhe a touca, guardou-lhe o livro e os rosários, e sumiu-se, sem ter descerrado os lábios nem enxugado os olhos vermelhos e inundados.

— Hoje a igreja estava repleta; falou monsenhor Nuno... foi um grande sermão, de muito proveito e de muita fé! disse d. Joana, e depois de uma pausa: O Noca! Mila não vai nunca às solenidades religiosas?

— Vai todos os domingos à missa.

— Bem! que não deixe perder a sua alma! Entretanto, eu rezo por todos. A pena que eu tenho é de me custar tanto a ajoelhar... estou com as pernas cada vez mais inchadas...

— Isso é cisma, resmungou d. Itelvina, retirando-se para o interior. Noca aconselhou logo um remédio prodigioso, benzido com cinco cruzes. Ela sabia dessas coisas. Todos de casa a consultavam. A botica era a chácara, com as suas folhas, cultivadas umas, agrestes outras; conhecia-lhes os segredos, roubava-lhes os filtros mais sutis e aplicava-os acompanhando-os com orações especiais dos santos mártires. Era sempre a Noca quem avisava às pessoas da família qual o melhor dia para cortar o cabelo, para fazer uma viagem ou para tomar qualquer mezinha. Sabia as voltas da lua, e traduzia os sonhos que lhe contavam, com palavras de convicção inabaláveis. Criara todos os filhos de Mila, desde o Mário até a Biju, a pequena mais nova, já morta.

Quando ela descia o morro, as crianças queixaram-se de fome e confessaram que não queriam voltar a visitar aquelas tias, que não lhes davam nada. Nem um bocadinho de pão!

Na praça do Castelo, Noca, com pena, entrou numa quitanda, posta de nova, brilhando ainda nas tigelas lavadas e no barro das panelas e das moringas à venda, e comprou frutas para as duas meninas.

Portuguesas, de saias curtas e grandes arrecadas de ouro, iam e vinham, parando umas à porta, com pimpolhos ao colo, e outras falando alto, para dentro. A dona do negócio respondia a todos, conversando em ar de mexerico disfarçado, com a mulata, a quem via pela primeira vez.

— A senhora vem morar por aqui?

— Não; vim fazer uma visita.

— A quem, inda que mal pergunte?

— As senhoras Rodrigues; conhece?

— As duas velhotas da travessa de S. Sebastião?

— Essas mesmo.

— Não conheço outra coisa!... E depois de uma pausa, em que procurou conter-se, abalou a falar sem interrupção. As senhoras Rodrigues eram muito conhecidas no bairro. Diziam que d. Itelvina passava horas da noite escavando o quintal, à procura dos afamados tesouros guardados pelos jesuítas. Os vizinhos viam uma luz de lanterna movendo-se na sombra do pátio, rente do chão, e olhavam-na com desconfiança.

A outra era uma beata de igreja e já constava que legaria os seus haveres ao frei Ângelo, dos Capuchinhos. A quitandeira afirmava que elas haviam de passar mal da barriga: decorriam semanas sem que lhe comprassem nem um triste feixe de espinafres ou molho de cenouras!

Quando a Noca atravessava o largo. com uma criança por cada mão, para a ladeira do Seminário, sentiu que alguém, que viera correndo, lhe puxava pela saia; voltou-se e viu Sancha, com ar de medo, de quem foge.

— Ué! que é que você quer?

— Quero pedir um favor, disse a negrinha, meio engasgada, tirando do seio uma nota de quinhentos réis amarrotada e imunda.

— Que favor, gente?

— Quando voltar cá, traga isto de arsênico, disse ela apontando o dinheiro que oferecia à mulata.

— Arsênico... pra quê?! você tá doida?!...

— Pra nada! faça esta esmola...

E como Noca não estendesse a mão, a negrinha atafulhou-lhe o dinheiro, rapidamente, pela gola aberta do vestido, e voltou como uma seta para casa.

As cabritas andavam soltas, pastando nas ervas altas; o sol, muito quente, alvejava roupas estendidas nas ruas, e na torre repintada dos Capuchinhos o sino badalava, convidando à oração.

Noca apressava-se, arrastando as duas meninas. Logo que chegaram em baixo, ao largo da Mãe do Bispo, viram Mário passar no seu phacton, que ele mesmo guiava numa posição correta. O lacaio, sem descruzar os braços, sorriu para as crianças; o moço passou sem reparar nas irmãs, que ficaram com ar despeitado, agarradas à saia da ama.

O carro de Mário rodava já pela Guarda Velha, e Noca pensou:

— Ele vai ali, vai direitinho pra casa da tal Luiza, o diabo da mulher que lhe come os olhos da cara. Uhm! eu gostava de ver só!

O Dionísio dizia-lhe que a francesa era bonita e muito chic, e ela sentia no fundo uma curiosidade doida de conhecer a amante daquele rapaz que embalara nos braços e cujo corpo redondinho e nu suspendera tantas vezes no ar para o fazer rir. E fora uma criança alegre; agora não era; pelo menos em casa mostrava-se tão arredio e tão sério... Noca suspirou e, depois de um levantar de ombros, prosseguiu nos seus pensamentos:

— Afinal de contas, faz ele muito bem: a mocidade passa e o dinheiro foi inventado para se gastar. Ele gosta dela, acabou-se! Sabe Deus o que o pai teria pintado também; agora fala e quer dar leis ao coração do filho... Está-se ninando! Aquele! pois sim! Cada um sabe de si...

Ao mesmo tempo sentia piedade pela Nina. Em casa a única pessoa que percebera aquele segredo fora ela. Sabia, mas calava-se muito bem calada; para que arranjar barulhos? Era tão boa, a pobre, tão fácil de contentar... Bastava ver os vestidos e os chapéus que ela usava: tudo restos de Mila e de Ruth, que ela fuchicava a seu jeito... Nunca pedia nada, nunca se punha em evidência, ninguém se lembrava até quando ela fazia anos! Talvez houvesse em casa um pouco de ingratidão para com a moça; mas de quem era a culpa? Mário era um rapaz rico e de bom gosto, havia de escolher mulher mais bonita, que fizesse vista numa sala.

Noca adorava o Mário; achava-o lindo, com o seu pequeno buço alourado e os seus olhos negros e pestanudos. A flor da família. Aquele saíra à mãe.

Passava um elétrico. As crianças sacudiram a mulata:

— Vamos, Noca!

— Vamos mesmo, que hoje de mais a mais é terça-feira...

A conselho do dr. Gervásio, Camila, tinha marcado as terças-feiras para as suas recepções. No começo houve relutância em casa. Francisco Teodoro gostava de porta franca em todos os dias da semana; a mulher mesmo, criada em velhos hábitos, vexava-se, porque era da vontade do dr. Gervásio, e para esse o portão da chácara estava sempre escancarado.

Ele não faltava, ia vê-la todas as manhãs, almoçar no lugar de Francisco Teodoro, que almoçava sozinho duas horas antes, a um canto da grande mesa vazia; e ali o médico ensinava àquela gente o meio de se conduzir na sociedade, polindo-lhe o espírito, alterando-lhe os gostos, fazendo-a preferir o queijo que ele preferia, o vinho de que mais gostava, as aves e as caças com molhos delicados, de fino paladar.

A docilidade dos ouvintes fazia-o abusar de frases que ele formava para si, com o pretexto de as dizer aos outros, e que eles todavia aceitavam, com agrado, num sorriso...

Nessa manhã de terça-feira estavam ainda ao almoço, quando palmas gordas estrondearam no jardim.

— É o Lélio, exclamou Ruth, arrancando o guardanapo do pescoço e correndo para fora.

Era o Lélio; viram-lhe o gordo cachaço, através dos vidros da porta, quando ele passou pelo corredor.

Com o pretexto de mostrar ao médico um anel novo, Camila estendeu-lhe a mão, luminosa de pedrarias.

Ela segurou-a, e erguendo-a um pouco, observou:

— Tal qual cinco raios de sol... Sim, senhora! é muito perfeito este brilhante... mas este outro ainda é mais límpido...

Ela sorria, e Nina excedeu-se em tratar das crianças, com o propósito de desviar a atenção.

— Ponha este anel fora... É indigno da sua mão.

— Brilha tanto!

— É do Cabo, muito amarelo.

— Mas eu estimo-o muito. Foi o primeiro presente de meu marido.

— Vá lá, que não são mal escolhidas as suas pedras, precisa ainda de um brilhante negro, para este dedinho que está muito nu. Tenho pena que não goste de pérolas; só quer pedras que fulgurem.

— Só.

— Vamos para a saleta? trouxe-lhe um livro.

— Versos?

— Não. Um romance.

— Ainda bem; eu só gosto de versos quando o senhor mos lê. Uma monotonia...

Na saleta, ela abriu a veneziana e aspirou com força o aroma dos resedás plantados junto à parede. Gostava dos aromas fortes. Que dia maravilhoso! depois, voltando-se:

— O livro?

— Está aqui.

— Já leu?

— Já. Trata-se de um amor um pouco parecido com o nosso.

— Então não leio. Sei que está cheio de injustiças e de mentiras perversas. Os senhores romancistas não perdoam às mulheres; fazem-nas responsáveis por tudo - como se não pagássemos caro a felicidade que fruímos! Nesses livros tenho sempre medo do fim; revolto-me contra os castigos que eles infligem às nossas culpas, e desespero-me por não poder gritar-lhes: hipócritas! hipócritas! Leve o seu livro; não me torne a trazer desses romances. Basta-me o nosso, para eu ter medo do fim.

— Não tenha remorsos; o nosso não acabará!

— Remorsos... remorsos de quê? Pensa, Gervásio, que, desde o primeiro ano de casado, o meu marido não me traiu também? Qual é a mulher, por mais estúpida, ou mais indiferente, que não adivinhe, que não sinta o adultério do marido no próprio dia em que ele é cometido? Há sempre um vestígio da outra, que se mostra em um gesto, em um perfume, em uma palavra, em um carinho... Eles traem-se com as compensações que nos trazem...

— Isso tudo é vago e abstrato.

— Não importa. E as denúncias? e as cartas anônimas? e os ditos das amigas? Eu soube de muitas coisas e fingi ignorá-las, todas! Não é isso que a sociedade quer de nós? As mentiras que o meu marido me pregou, deixaram sulco e eu paguei-lhas com o teu amor, e só pelo amor! E assim mesmo o enganá-lo pesa-me, pesa-me, porque, quanto mais te amo, mais o estimo. É uma tortura, que parece que foi inventada só para mim!

Gervásio não respondeu. Tinha o rosto contraído por uma expressão de ciúme. Passado um instante de silêncio, murmurou:

— É extraordinário! Nunca julguei possível essa dualidade no amor. Bem, levarei o livro. Adeus.

— Não vá... É cedo... suplicou ela, com o rosto pálido, iluminado de paixão. Fique, é tão bom! Falarei noutra coisa. Ensine-me a falar, Gervásio.

— Então, diga lá: - amo-te!

E ela ia repetir as palavras, quando as gêmeas entraram ruidosamente.

Lia queria saber se aqueles navios pretos e pequeninos espalhados no jornal eram do capitão Rino.

— São; disse a mãe abreviando explicações. Vão brincar.

— Ih! então ele é muito rico?

— É. Vão brincar.

As meninas saíram e o assunto voltou-se para o capitão Rino. O médico ridicularizava-o; queria-lhe mal, achava-o medroso, desenxabido, muito branco e muito louro, mal ajeitado nas suas roupas. Faltava-lhe linha, faltava-lhe espirito, faltava-lhe tudo.

Camila negava alguns desses defeitos. Não tivesse medo: ela só o amaria a ele, em toda a sua vida.

Havia já muito tempo que duravam aquelas conversas na saleta, com a porta escancarada para o corredor, por onde de vez em quando Lia e Rachel passavam a galope, montadas nas bengalas do pai.

Era à despedida que o médico e Camila marcavam, de vez em quando, uma entrevista, longe, em uma casa da Lagoa, conservando o respeito por aquela habitação onde as filhas dela viviam soltas, procurando-a a todos os instantes, irrompendo de trás dos reposteiros ou dos móveis quando menos se esperava.

Ruth acabara a lição. Sentiram os passos do maestro na escada. Gervásio ergueu-se.

— Pois vou-me por aí abaixo com o Lélio. São horas das moças bonitas na rua do Ouvidor...

— Quem me dera que eu fosse uma delas... A velhice aterra-me por sua causa! E ela vem perto!...

— Tontinha! e não sou eu mais velho?

— Sim... mas os homens! Quando eu tiver os cabelos brancos, você...

— Eu já não terei nenhuns; serei calvo como um ovo e viveremos ambos com as doces recordações destes dias lindos. O nosso romance não acabará nunca. Dê-me as suas ordens, minha senhora, aqui temos o Lélio.

Camila acompanhou-os ao terraço.

— Que me diz da sua discípula? perguntou o maestro.

— Muito bem. Vai muito bem! Daqui a pouco ensina-me...

— Ela é estudiosa...

Enquanto os dois conversavam, o médico passeou o olhar pelo jardim; depois disse, voltando-se indignado para Camila:

— O bandido do seu jardineiro está-lhe fazendo bordaduras de horta nos canteiros! Aqueles feitios em gramas são de péssimo gosto. Não tem instinto, o desgraçado! Hei de lhe arranjar outro, um francês acostumado a lidar com as flores de Nice. Verá a diferença.

Este errou a profissão: nasceu para tosquiador ou barbeiro. Nem faz idéia do que seja a harmonia das cores; veja aquele canteiro: o roxo ao pé do escarlate, o amarelo ao pé da cor de rosa! Tudo mais, folhagens, folhagens e folhagens! Parece que estes jardineiros fazem guerra às flores! Pois cá terá o outro amanhã. Vamos, maestro?

Eles desceram e Camila ficou encostada a um pilar, até ver sumir-se o médico; já ele tinha desaparecido e ainda ela olhava, pensativa...

Fora há anos... Gervásio morava já na mesma casa do Jardim Botânico, bem instalado, mas muito metido consigo.

Uma noite alguém lhe batera à porta com desespero: era Francisco Teodoro, que o chamava como o médico mais próximo, para ver uma filha que ardia em febre. Tinham ido provisoriamente para a sua vizinhança, mudando o Mário, que tivera a palustre. O médico não clinicava, mas cedeu à súplica e salvou Ruth de um tifo. A doença fora longa; a menina só aceitava remédios e alimento pela mão do seu amiguinho, que tratou também de fortalecer Mário.

Camila dizia então em êxtase, ao marido:

— Devemos ao dr. Gervásio a vida de nossos filhos! A entrada fora vitoriosa; justificava o ascendente do médico na família... Nem fora no começo, que ele amara a Camila. Nesse tempo ela não sabia ataviar-se, nem fazer sentir a sua formosura. Tinha os modos de uma boa mãe tranqüila, muito banal, com discursos longos e choradeiras sobre a morte muito recente de uma filhinha, que a tornavam fastidiosa. As gêmeas, então de meses, andavam sempre pendentes do paletó branco da mãe. Gervásio odiava aqueles casacos e aquelas queixumeiras insípidas. Mas esse tempo de prostração foi passando, e ela ascendeu pouco a pouco, vagarosamente, para a formosura e para a graça. A evolução não foi rápida, mas refletida e suave, como impelida por sopros delicados. Quando o médico percebeu quanto Camila mudava, e que essa transformação lenta e visível se fazia ao influxo dos seus gostos, da sua convivência e do seu espirito, começou a observá-la com redobrada atenção, cultivando o prazer de a tornar outra, como que uma obra sua.

Camila usava agora as cores claras, que lhe iam bem, e que ele lembrara como mais propicias à sua tez, adquiria expressões novas, inflexões de voz em que nascia uma música de tons coloridos e harmoniosos, fazia outros gestos, mais graves e adequados, pisava de maneira mais ritmada e linda, deixou os perfumes misturados, sem escolha, por uma essência branca; e tudo isso o fazia sem esforço, obedecendo à sugestão. O médico via nela um reflexo perfeito da sua alma, sentia-se voltar-se, subir para ele; e absorvido nesse estudo delicado - apaixonou-se por ela.

Levada na fascinação, só tarde Camila percebeu o perigo que a solicitava; então quis fugir: fechou-se em casa, esquivava-se a ver o médico; mas, através da distância e do silêncio, ele percebia o amor dela a chamá-lo, a envolvê-lo todo com uma obsessão de loucura.

Passaram-se assim longos meses, de saudades sem remédio, de agonias mudas; até que um dia, cansados de uma resistência inútil, deixaram-se vencer.

Para ele, aquela ligação foi uma vitória; para ela como que uma lei da fatalidade. Era, porque tinha de ser, e a sua culpa salvaguardava-se nessa crença.

Havia muito tempo já que o dr. Gervásio entrara na intimidade da família: sabia-lhe os segredos, lia todas as cartas vindas de Sergipe, com repetidas súplicas de dinheiro. Conhecia a história do nascimento de Nina, filha natural do Joca, e da fugida dele, comprometido em uma casa de comércio; estava ao fato das doenças de d. Emília, das habilidades caligráficas do velho Rodrigues e da já alta soma de dotes dada por Francisco Teodoro às cunhadas.

Tudo isto soubera-o ele naturalmente, sem indagações; vinha na enxurrada dos desabafos, no desafogo da amizade.

Com o amor, ele tinha também sabido conquistar a estima. Toda a gente em casa o ouvia com atenção.

Um pouco dessas coisas vagou pelo espírito de Camila, quando, de olhar alongado, seguia ainda a sombra de Gervásio.

Dias depois ela dava os últimos retoques à sua toilette, em frente ao espelho, quando o marido entrou.

Camila viu-o no cristal e perguntou-lhe mesmo sem se voltar:

— Por que é que você veio tão cedo?

— Por duas razões...

E, como ele interrompesse a frase, ela, sobressaltada, acercou-se, indagando com interesse:

— Você está doente? Diga!

— Não tenho nada filha, descansa.

Camila sorriu e voltou tranqüila para defronte do espelho.

— Então que motivos são esses?

— O primeiro, para pedir ao Gervásio que vá ver o Mota, que quebrou hoje uma perna.

— O velho?

— Sim.

— Coitado! como foi?

— Foi no serviço da casa; descendo de um bonde. Já está medicado, mas quero que o Gervásio lhe examine o aparelho. O segundo motivo é mais sério.

Sem afastar do rosto o pompon do pó de arroz, Camila interrogou com certa indiferença:

— Que é?

— Trata-se do senhor seu filho.

— Meu só?! tem graça...

— Tem graça? Olha, eu é que lhe não acho nenhuma! Está um bilontra, o tal senhor!

— Aposto, meu velho, em como você vem por aí com recriminações?!

— Certamente; porque afinal de contas a verdadeira culpada das patifarias do rapaz és tu.

Camila voltou-se indignada, com os olhos chamejantes de cólera:

— Hem?!

— Não dou um passo na rua que não encontre um credor do senhor meu filho.

— Ora, logo vi, por causa de dinheiro! murmurou com desprezo Camila, olhando para o marido de alto.

Ele continuou:

— É preciso que tu o advirtas hoje mesmo, que isto não pode continuar assim! Ele mantém agora uma mulher: dá-lhe vestidos, carro, casa, e com toda a imprudência faz contas em meu nome! Já se viu coisa igual?!

— É a mocidade...

— Já me tardava! É a pouca vergonha. Que trabalhe.

— Trabalhar! Mário tem só dezenove anos!

— Faze mãos de veludo para o acariciar; é o costume! Mas por que não lhe fala você?

— Por que?! Ora essa! porque lhe vou à cara, se ele me retruca com um desaforo!... Esperarei mais alguns dias... fala-lhe tu primeiro. Não lhe metas caraminholas na cabeça; dize-lhe que trabalhe, que siga o meu exemplo, e que se deixe de fazer dívidas. Isto competiria a mim, bem sei, se não me tirasses toda a força moral.

— Eu?!

— Sim. Acodes com panos quentes sempre que o repreendo, e ai está o resultado... E viva um homem honrado para isto! Uma vergonha...

— Ora! também você exagera. Mário tem boa índole. É incapaz de uma ação má. Descanse; eu falarei com ele. Quer então que eu o aconselhe a deixar a tal mulher?...

— Por força! Uma perua velha, que o há de comer por uma perna. Não posso estar continuamente a desembolsar contos de réis para os caprichos da tal madama. Podes dizer ao Mário que, ou ele toma caminho, ou o mando para a Marinha.

— Já não está em idade disso, nem eu me separo de meu filho!

— Temos outra. Faze o que quiseres; hoje fala-lhe tu, e se ele não seguir outro caminho, terá de se haver comigo. Diabo, tenho outros filhos!

— Coitado do Mário! tu nunca o amaste muito...

— Han! Eu?! eu é que nunca o amei? Oh! senhores... está bom, está bom, falemos noutras coisas... Acalma-te... e veste-te á vontade. As Gomes já estão ai: vi-as no jardim com a Ruth.

— Que me importam a mim as Gomes!

Francisco Teodoro chegou-se à janela, afastou a cortina e olhando por entre os vidros, informou com voz amável:

— Lá está também o capitão Rino... Aí estava um bom casamento para a Nina, hem? Gosto dele, parece um excelente rapaz... apesar da procedência.

— Que procedência?

— Homem! a mãe morreu às mãos do marido, por crime de adultério... Enfim, isso já foi há tantos anos, que ninguém se lembrará do caso...

— Você lembrou-se.

— Ora, porque ainda ontem me falaram nisso.. Bom casamento para a Nina... bom casamento!...

Camila sorriu com desdém e tratou de abotoar melhor o seu broche de pérolas, sobre a escumilha cor de rosa do peitilho. Coitada da Nina... pois sim!

— Muito bem! lá chegam o Lélio e o Gervásio... Sou muito amigo do Gervásio, mas olha que ele também é um esquisitão. Não diz nada a gente da sua vida, lá dos seus princípios... Com a intimidade que lhe damos era natural que soubéssemos mais dele que toda a gente; e afinal sabemos só o que todos sabem. Aqui para nós, não simpatizam geralmente com ele por aí; dizem que ele nunca escreveu uma linha e que vive a criticar livros e autores... Realmente, ele não perdoa a ninguém. Pois vou falar-lhe. Até já.

Antes de sair, Teodoro contemplou a mulher, ajeitou-lhe os caracóis da nuca e, atraindo-a, quis beijá-la; ela porém esquivou-se com um movimento rápido. Francisco Teodoro riu-se e saiu pensando consigo:

— Todas as mães são assim! Só porque lhe falei do filho... Em baixo, Ruth colhia flores para as visitas, que se agrupavam sob as ramas abundantes da mangueira. As Gomes, a mãe e duas filhas moças, eram indefectíveis: todas as terças-feiras lá iam, houvesse mau ou bom tempo. A velha era uma senhora toda cheia de preconceitos e escrúpulos, e com a cabeça recheada de receitas, tanto medicinais como culinárias, que ela oferecia a toda a gente que lhe ficasse ao alcance da voz. As filhas eram espertas, cantavam ao piano e ao violão e vestiam-se com graça, fazendo valer panos baratos.

O capitão Rino examinava as palmeiras com a atenção de um botânico, enquanto o maestro e o dr. Gervásio cumprimentavam as senhoras.

Francisco Teodoro apareceu risonho, com as duas mãos estendidas para a querida sra. d. Inácia Gomes, que se levantou remexendo as sedas farfalhantes do seu vestido cor de pinhão. Que excelente seda aquela! já passara por três feitios diferentes, e ainda era aquilo que se via!

— Cara senhora, então, o amigo Gomes?

— Vem logo; ah! ele tem muito trabalho, não imagina.

— Sei, sei... a vida foi feita para as mulheres. E ainda elas se queixam! Só se fala por ai em emancipação e outras patranhas... A mulher nasceu para mãe de família. O lar é o seu altar; deslocada dele não vale nada!

Todos concordaram; e Francisco Teodoro passou adiante, puxando o dr. Gervásio para uma aléia mais solitária do jardim:

— Vou pedir-lhe um obséquio. Lá um dos meus empregados, um ajudante de guarda-livros, o Mota, quebrou hoje uma perna, ao descer de um bonde. O homem foi tratado na farmácia do Souto, mas... sabe que esses aparelhos feitos assim à pressa não inspiram confiança; peço agora ao amigo que amanhã vá lá vê-lo.

— Perfeitamente. Onde mora?

— Na rua Funda, tenho aqui o número...

Francisco Teodoro sacou de um bilhete escrito a lápis.

— Rua Funda? Onde é isso?

— É no outro mundo, lá para os lados da Saúde.

Enquanto Francisco Teodoro conversava com o médico, Camila desceu a escada exterior do palacete, olhando de relance para todos.

As Gomes acharam-na muito bonita e, intimamente, espantavam-se de não verem nela o menor sinal de decadência. Aquela pele alva e macia, aqueles cabelos negros sem um fio branco, aqueles dentes perfeitos e brilhantes, sem um toque sequer de ouro que atestasse a passagem dos anos e das mãos dos dentistas, faziam-na parecer sempre a mesma Camila dos tempos da Lapa, em que d. Inácia a conhecera.

Vendo-a descer tão bonita, o capitão Rino corou até à raiz dos cabelos e foi ele o último que se aproximou, tocando-lhe de leve nos dedos estrelados de anéis.

Nina, que espreitava de cima, achou a ocasião oportuna para mandar pelo criado a bandeja de prata com o vermute.

— Por que não subiram?

— Estamos bem. A sua Ruth tem feito as honras da casa. E como ela está crescida; já não lhe ficam bem os vestidos curtos...

— Não diga isso ao pé dela; apesar de que estou certa de que não toleraria as caudas; é muito criança e tem modos de rapaz. Não imagina, d. Inácia, que fantasia a desta menina! Não sei como se arranja, mas a verdade é que se encarrapita nas árvores com o seu violino; e faz gosto ouvi-la tocar lá em cima. Diz que é para fazer concertos com os passarinhos. Veja se eu a posso por de vestidos compridos. Que horror!

— Ah! mas é preciso perder este costume; ela já tem os seus treze anos...

— Quatorze... quase quinze! mas não parece.

— Isso de trepar nas árvores é para rapazes; uma menina de educação tem deveres...

Ruth interrompeu o discurso da velha, trazendo-lhe uma manga-rosa muito perfumada.

— Não fale mal de mim, d. Inácia; aqui tem a senhora uma fruta colhida por mim lá nos cocurutos da árvore. Se eu não tivesse ido buscá-la a senhora não a teria agora...

— Ai está...

D. Inácia cheirou a fruta, com força, cerrando os olhos papudos; e depois, voltando-se:

— Camila, você já comeu geléia de manga?

— Não me lembra...

— Pois é gostosa e fácil de fazer; olhe...

Enquanto d. Inácia desfiava a receita do doce, Camila olhava para ela, ouvindo o murmúro de outras vozes, querendo distinguir as palavras do médico e do capitão, sorrindo imbecilmente, destacando de longe em longe uma ou outra coisa, um elogio ao Netuno, da esquerda, ou um - espreme-se e põe na peneira - da direita.

Nesse dia Mário não apareceu ao jantar e Francisco Teodoro queixou-se dele ao dr. Gervásio, em um vão de janela, num desabafo de sentimento.

Gervásio ouvia-o calado, mordendo o charuto, dando-lhe razão, sem dizer contudo uma única palavra. Teodoro assegurava:

— A mãe tem um coração de pomba, incapaz de fazer nem pensar no mal. A bondade excessiva leva aos desatinos... aquele filho é o mais velho e ela encontrou nele toda a sua ternura... não lhe levo a mal, - é mãe. Repare que para com as meninas ela é mais severa!

O dr. já observara isso mesmo; nessa mesma noite ele aconselhou Camila a que fizesse a vontade ao marido, reprimindo o filho. Ele conhecia a amante de Mário: era uma francesa gananciosa, podre de rica, de cabelos pintados e carne mole. Não valia nada e arruinara muita gente boa.

Camila prometeu que faria valer a sua autoridade materna e envolveu-se na conversação geral, fugindo daquele assunto irritante.

A noite foram outras visitas, dois negociantes solteiros e duas moças da vizinhança, as Bragas.

Francisco Teodoro acoroçava os jogos e as músicas, acolhendo entre os joelhos gordos, ora a filha Rachel, ora a Lia, que se a tiravam para ele estonteadas, amarrotando os bordados dos seus vestidos brancos, interrompendo com as suas corridas e risadas a conversa dos grandes. E foi no meio daquele barulho, que um dos negociantes, o Negreiros, da rua das Violas, se lembrou de falar das operações comerciais do Gama Torres, com elogio e assombro.

Uma das Gomes, a Carlotinha, cantava modinhas ao piano com uma graça picante, que a mãe tolerava a custo e que fazia rir muito as outras.

O capitão refugiou-se em uma janela. Ruth foi ter com ele: o moço ao princípio não lhe prestou atenção; seguia, através das cortinas, os olhares trocados entre Camila e Gervásio.

Seriam todos cegos, só a ele caberia descortinar aquele amor, tão evidente?

Ruth, derreando a cabeça para trás, olhava para o céu tranqüilo. Houve um largo espaço de silêncio entre ambos. Ruth disse por fim, sem abaixar os olhos:

— Que parecerá a terra, vista de lá...?

— Uma gota de luz...

— Ainda bem; alegra-me saber que vivo em uma estrela. E como elas hoje estão bonitas! Se Deus me desse a escolher uma, eu ficaria embaraçada. Olhe, repare para aquela, como é grande e suave!

— É Vésper...

— Linda, linda, linda!

— Levanta mais os olhos, para acolá; repare para o Cruzeiro, como está límpido hoje! Maravilhosa noite!

— Sim... estou vendo... cinco estrelas brilhantes em um lago negro. Por que é tão escuro aquele pedaço do céu ao lado do Cruzeiro?

— Porque não tem astros.

— Deveria ter sido por ali que Lúcifer caiu.

— Por que?

— Fez um rasgão no filó dourado. Por isso Deus pôs ali a cruz, para que o diabo não tornasse a passar pelo buraco.

O capitão sorriu.

— Se eu fosse pássaro, continuou ela, gostaria de voar à noite....

— Como as corujas.

— Não. As corujas são feias, metem medo, e eu só gosto do que é bonito. Quereria ser uma ave branca e com asas tão fortes que me levassem até acima das nuvens. Desde pequenina que eu gosto de olhar para o céu e que me desespero por não poder voar... Às vezes sonho que estou voando... e é tão bom!

O capitão Rino lembrou-lhe que fosse ao Observatório do Castelo, o que lhe seria fácil, visto ter lá família na vizinhança. Assim veria bem a lua e a cor das estrelas.

Interessado por aquela imaginação ardente, o capitão Rino explicava à menina os nomes das estrelas, sentindo roçar-lhe pelo ombro o cabelo dela, vendo-lhe na transparência luminosa do olhar a chama de uma curiosidade insatisfeita.

Ele tinha uma linguagem clara, mas interrompia as frases de vez em quando, com sobressalto, voltando-se para a sala atraído pela voz de Camila.

Ruth nem percebia a causa nem reparava mesmo naqueles movimentos e continuava a interrogá-lo, com o olhar aceso para o grande céu iluminado.

Rebentaram palmas, lá dentro. Carlotinha acabara uma modinha requebrada, e andava muito faceira pela sala, desafiando as Bragas para uma valsa.

— Quem toca?

Judith foi para o piano, que atacou com força e pedal.

Apesar do barulho, Francisco Teodoro discutia com o Negreiros o arrojo do Gama Torres, atribuindo ao acaso o êxito da famosa empresa, o que o amigo negava, afirmando o tino especial do outro.

Estava calor, os leques de papel adejavam como borboletas nas mãos das moças. Carlotinha, não logrando dançar com o Rino nem com o Negreiros, atirou-se aos braços da Terezinha, a mais moça das Bragas. E as duas rodopiaram pela sala.

Duas horas depois o negociante acompanhava as visitas até ao portão. D. Inácia ia desde a porta de braço com o marido, o Gomes, um velhote gordo, de grandes lunetas de tartaruga. As Bragas, muito faladoras, prometeram à Carlotinha e à Judith moldes de casaquinhas modernas, como as que traziam vestidas. Camila acompanhava-as também, retardando o passo, entre o dr. Gervásio e o capitão Rino, que não dizia nada, recebendo em cheio o eflúvio daquela noite sem par! Um bonde passou e as Gomes partiram. Nina ficara em cima, acomodando a casa, vendo fechar as janelas da sala.

O médico chegou-se então para Francisco Teodoro, perto do gradil, à espera de outro bonde para o Jardim. Camila sentou-se, olhando-lhe para o perfil doce, ensaiando uma confissão que não lhe saía nunca dos lábios trêmulos. Camila abandonava-se, parecia provocar essa grande palavra, como se não bastassem a sua vaidade de mulher os amores do amante e do marido.

Assim imaginou o capitão Rino, todo penetrado do aroma e do encanto dela. A mão de Camila pousara no banco, e ele então, com o mesmo gesto esquivo e assustado, apertou-a de leve; ela levantou-se, com modo brusco, sacudida por um arrependimento, culpando-se da sua leviandade, e partiu logo para a luz clara do luar, deixando o capitão na sombra da árvore. O olhar do Gervásio indagou logo de tudo, enquanto o marido falava em coisas indiferentes. Foi nesse instante que lá em cima, no terraço, toda voltada para a lua branca, Ruth tocou no seu violino uma sonata harmoniosa e larga.

Embaixo fizeram pausa na conversa, com as almas suspensas naquela música e naquela noite.

Sentado no mesmo banco, o capitão Rino olhava com desespero para o vulto claro de Camila, que lhe fugia e se chegava para o seu amor feliz, toda embebida na poesia daqueles sons. Fechou os olhos para não ver...

A doçura da música enchia tudo de um sentimento ignoto, prolongado... Uma estrela cadente riscou o espaço com um fugitivo fio luminoso. Camila apontou-a com o dedo.

A sonata abria-se numa harmonia ampla e intensa, quando de repente Teodoro gritou para cima:

— Não são horas de música. Para a cama!

Depois, em um murmúrio satisfeito:

— O diabo da pequena tem sentimento, hem?

— Tem mais do que isso, afirmou Gervásio: tem talento, tem inspiração!

— Tanto esta é aplicada, quanto o irmão... Bem! lá vem o seu bonde, doutor!

O médico, despediu-se à pressa e correu; o capitão Rino vencia a custo a sua comoção e saiu também, descendo a pé pela rua abaixo, apesar dos pedidos de Teodoro, que esperasse ali mesmo outro bonde para a cidade.

Camila entrou em casa antes do marido e procurou imediatamente a Noca, que vigiava o sono de Rachel e de Lia.

— Mário já entrou, Noca?

— Não senhora. Dionísio já veio há que tempos e disse que seu Mário ficava lá...

— Lá?... Em casa da tal Luiza?!

— É...

— Se meu marido sabe! Olhe... se ele perguntar, você responda que Mário entrou com exaqueca, e que por isso não foi à sala. Ouviu? Diga que ele está dormindo.

— E se ele amanhã perguntar a Dionísio?

— Você previna primeiro o rapaz.

— Também não sei pra que seu Mário faz assim; só pra meter a gente em embrulhos.. -

— Tem paciência, Noca... ele é criança... Amanhã eu lhe darei conselhos...

— Hum... Lia entornou o óleo da lamparina no chão, e eu já fico esperando aborrecimentos. É sabido: azeite entornado, desgosto em casa!

— Cala a boca; lá vem seu Teodoro. Boa noite, Noca!

Francisco Teodoro girou pela casa, verificou se estava tudo bem fechado e fez à mulata as perguntas previstas pela mulher. Depois, já a caminho do dormitório, voltou-se e foi dizer-lhe:

— Olhe, Noca, se a enxaqueca do Mário aumentar, sempre será bom dar-lhe uma pastilha de antipirina...

— Sim, senhor, eu vou ver...

Francisco Teodoro saiu, e a criada suspirou, vexada, abaixando a cabeça.