A Falência/X

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A Falência por Júlia Lopes de Almeida
Capítulo X


Raras vezes as tias do Castelo apareciam em Botafogo. D. Itelvina não se arredava de casa, espicaçando o serviço da Sancha, arreliada com os desperdícios e a beatice da irmã; esta é que, de longe em longe, ia sentar-se à mesa de Mila para uma palestra curta, no intervalo das suas devoções.

Nina, ainda atarantada pela advertência do tio, punha no terraço a gaiola do cacatua, quando viu d. Joana atravessar o jardim com os seus passos vagarosos, de mulher gorda e cansada.

— Que milagre! a senhora por aqui!

A velha sorriu-lhe e só depois de sentada num banco do terraço é que falou, com a blandícia costumada, desamarrando com as mãos papudinhas o nó da mantilha preta.

— Mal imagina você por onde tenho andado!

Olhe: às cinco horas já eu estava em São Bento, ouvindo a missa de N.S. da Conceição; depois dei muitas voltas pela cidade, angariando esmolas.

— Tão cedo?

— Nos bairros pobres a vida começa de madrugada. Por falar em esmolas, ontem estive em casa das Bragas, da rua dos Ourives. Conhece-as?

— Não, senhora.

— É pena; são umas almas muito tementes a Deus. Achei-as atrapalhadíssimas, preparando doces para oferecerem ao vigário Alves, que faz anos hoje. Não imagina como elas são...

— Desculpe, tia Joana, interrompeu Nina; e voltando-se para dentro:

— Ó Dionísio, leve o café ao sr. Mário, ouviu?

— Ainda estão dormindo?!

— Tio Francisco já saiu.

— Triste pecado é a preguiça... enfim, cá estou eu rezando por todos... Pois as Bragas entregaram-me dez cartões para um grande concerto que vai haver no Cassino, em beneficio da igreja do Monte Serrate... Para o fim que é, ninguém se pode negar; Camila deve levar a Ruth a essas festas de músicos... Eu pago a minha cadeira, mas lá não vou, e as outras nove espero deixá-las aqui. Vocês vão a tantos espetáculos indecentes, que não fazem nada de mais indo a este, que é para bom fim. Canta uma tal... Marcondes, ou... não sei quê...

— A senhora fale com tia Mila. Seu João! chamou ela interrompendo outra vez a conversa, voltada para o jardineiro que passava: olhe! é preciso fazer um ramo novo para a sala de jantar; como não há rosas, faça de folhagens... Já reparou para as palmeirinhas da entrada?

— A chuva escangalhou-as; desfolhou as flores, e abriu covas nos canteiros, que Deus nos acuda!

— Veja se remedeia isso hoje mesmo...

O jardineiro passou; d. Joana disse:

— É pena que não haja rosas; eu gostaria de levar algumas ao vigário Alves. Ontem a mulher e as filhas do dr. Mendes passaram lá o dia, pregando cortinas, tapetes, ajudando d. Maria a enfeitar o quarto do filho... Aquelas são também muito boas pessoas...

— Quer café, tia Joana?

— Aceito... Você é das tais que nunca vão à missa... há de se arrepender...

— Não tenho tempo... Quer mais açúcar?

— Quero... Qual não tem tempo!... pois olhe, você tem pecados atrás de si, que deve purgar, se quer merecer o nome de boa filha...

Nina franziu as sobrancelhas e, desviando a vista do rosto branco da tia, olhou para o jardim, ainda empapado dágua, muito verde, juncado de folhas arremessadas pela ventania..

D. Joana saboreava o café, sem reparar na moça, que continuava em pé, com o rosto contraído por uma expressão de raiva e de melancolia.

Ruth encontrou-as assim. Ela vinha toda fresca do banho, com o seu cabelo negro e ondeado solto sobre os ombros estreitos, e o vestido branco, de cinto largo, que lhe tornava a cintura grossa e lhe dava ao corpo um ar de anjo de catedral.

— Como está crescida! exclamou d. Joana ao vê-la.

Ruth mostrou os dentes alvos num sorriso alegre.

— Bons dias! Sabe, tia Joana? Ainda ontem pensei na senhora!

— Por que?...

— Porque ando com muita vontade de ir ao observatório do Castelo ver a lua e as estrelas.

— Que lembrança! pensei que fosse para a levar a alguma festa de igreja...

— Não; isso cansa-me, e, depois, já tenho visto tantas! Naquela da Sé, outro dia, os músicos desafinaram que foi um horror! Se ao menos cantassem bem... Quem me lembrou a ida ao observatório foi o capitão Rino. Ver bem a luz e a cor das estrelas é o que me preocupa agora. Leve-me lá, titia, sim?

— É melhor que você pense em conhecer o céu por dentro.

— Seria querer demais. Você já leu hoje a Flor de Neve, Nina?

Nina meneou com a cabeça, que não.

— Que história é essa de flor de neve? indagou D. Joana.

— É um romance do Jornal, muito bonito. Estou morta por saber se a Madalena morreu... também se tiver morrido não tornarei a pegar no Jornal!

D. Joana ia reprovar a leitura, quando Camila apareceu no terraço, bonita, de peignoir cor de rosa, toda rescendente, dando as mãos as duas filhas pequenas.

Nina tomou a bênção à tia e, para fugir à presença da velha, que naquele momento se lhe tornara odiosa, entrou logo para a sala de jantar.

— Isto aqui está muito úmido; por que não foi lá para dentro, tia Joana?

— Este banco está enxuto. A Nina estava aqui...

Camila, depois de cumprimentar a tia, tirou da gaiola o cacatua e beijou-o no penacho.

Depois, para a velha:

— O que a trouxe tão cedo?

D. Joana voltou à história das Bragas, da missa em S. Bento, e apresentou à sobrinha as dez cadeiras para o concerto em benefício da capela do Monte Serrate.

— Como é para um motivo de religião, eu fico, do contrário não; porque exatamente no domingo tenho convite para uma festa.

— Hoje faz anos o vigário Alves; você não lhe manda um bilhete?

— Posso mandar.

— Acho bom. Ele reza muito por sua intenção. É um santo padre e um perfeito homem.

— Ele é bonito, e trata-se bem. Já tomou café, titia?

— Já.. Por que é que você deixa Ruth ler jornais? Ela falou ai num folhetim; isso são obras impuras; é preciso zelar pela alma de sua filha.

— O pai não se importa, que hei de fazer?

— Ainda não fez a primeira comunhão?

— É cedo.

— Não é tal. Ela não quererá?

— Se quer! ainda que não fosse senão para pôr coroa e véu... Todas as meninas sonham com a primeira comunhão. É um ensaio para o casamento.

— Heresias... E o Mário... como vai o Mário?

— Está um moço bonito.

— E... mais ajuizado?

Camila corou levemente, roçou em um disfarce as faces pelas asas brancas do cacatua, e respondeu com um sorriso:

— Como todos os rapazes de vinte anos...

Lia e Rachel tinham-se engalfinhado a um canto por causa de um pêssego verde, derrubado pela chuva e que ambas disputavam. Mila chamou a Noca, que interviesse e levasse as contendoras para dentro. D. Joana levantou-se com um gemido e foi sentar-se a um canto da sala de jantar.

Estava alquebrada, pesavam-lhe as pernas; soube-lhe bem a flacidez da poltrona, que a envolveu logo numa carícia de sono. Cochilou gostosamente, mal ouvindo as correrias e as gargalhadas das crianças, o tinir das louças que punham na mesa, e os passos da criadagem em movimento. Através do sono tudo aquilo era sutil e bom como uma música a distância. Quando despertou, iam servir o almoço. Perto, em um vão de janela, o dr. Gervásio, com roupa clara e flores na lapela, conversava baixo com a Camila.

D. Joana tossiu para preveni-los da sua presença; não se queria aproveitar do momento para indiscrições. Por fortuna, Nina entrou na sala,, vinda da copa, carregando uma cestinha de uvas brancas.

Lá em cima Ruth atacava os graves e agudos do violino, com frenesi.

"Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, parece o zurrar de um burro!" pensou consigo a velha, espreguiçando-se disfarçadamente.

À hora do almoço, o Dionísio trouxe uma bandeja para servir Mário no quarto, visto que este só comparecia á mesa da família quando o dr. Gervásio não estava.

Camila mal encobria o seu desespero, velando aquela ofensa com desculpas frouxas, só para que o médico não reparasse. E ele nem viu tal coisa; aceitou os pretextos sem desconfiança. Mário merecia-lhe pouca atenção.

Entretanto, Nina apartava para o primo o melhor bife, o pedacinho de pão mais fofo e os ovos mais perfeitos. D. Joana notou aquilo muito calada, com medo de mexer em casa de maribondos, arrancando do peito suspiros curtos, que afogava em bordeaux...

Dr. Gervásio observava a Ruth, que os exercícios que lhe ouvira não estavam no andamento justo. Deveria repassá-los, antes da lição; depois aconselhou a Camila que chamasse uma aia inglesa ou alemã para as gêmeas, que perdiam o tempo, pervertendo-se com a linguagem de criadas boçais. Ele opinava pelas alemãs; são disciplinadoras, risonhas e mais acessíveis que as outras. Depois de dirigir uns dois gracejos a Nina, o médico fixou com atenção o rosto pálido e humilde de D. Joana, muito calada ao lado de Ruth. Lembrou-se de relance do encontro que tivera com ela no alto da ladeira de João Homem, sobre as pedras gordurosas da calçada, entre magotes de moleques curiosos e paredes sujas de prédios velhos.

Ficara-lhe no ouvido toda a censura dela, e houve então nele um ímpeto de agarrar Mila e de beijá-la mesmo ali, diante dos olhos castos e pudibundos da velha.

Foi só depois do café, ao acender o charuto, que ele ouviu d. Joana, com o seu tom açucarado, queixar-se à sobrinha:

— Por que é que você não ensina ao menos as suas filhas a se persignarem quando se sentam e se levantam da mesa? Dar graças a Deus pelos bens que recebem não é vergonha nenhuma... A sua consciência, Mila, está muito perturbada por maus conselhos e exemplos de ateus sem caridade... Eu não queria falar, mas tenho-lhes muita amizade para ficar impassível; não lhe parece que está em tempo de ensinar estas meninas a respeitarem a nossa religião?

Dr. Gervásio sorriu; compreendera o remoque; Mila protestou:

— Todos em casa eram religiosos, ninguém deixaria de ouvir a sua missa ao domingo, exceto a Nina, que nunca tinha horas para coisa nenhuma, e uma ou outra criada mais sobrecarregada de serviço; à noite também ninguém adormecia sem ter rezado pelo menos um Padre Nosso. Ela não se esquecia dos seus deveres.

Isto foi dito em tom seco, que encrespou um tanto o gênio manso da tia; para vingar-se do médico, de quem supunha emanar toda a alteração dessa família tão sua, ela exclamou com ironia, voltando-se para ele:

— Aposto em como o doutor também reza todas as noites?

— Aos meus deuses, respondeu ele com toda a calma, por que não?

— Como se chamam os seus deuses?

— Camões, Dante, Shakespeare... Nunca adormeço sem ter lido algum poeta, e de alguns recito mentalmente versos divinos. E a razão por que me explico ter tão belos sonhos, visto que este feio homem que aqui esta, excelentíssima, tem sonhos que perfumariam a existência da mais formosa das mulheres. Ontem li Dante. Estive no inferno, D. Joana, e que inferno belíssimo!

— Vá trazendo para cá essas idéias...

— Descanse; esta religião não se ensina; é para os iniciados. A senhora já ouviu falar em Byron?

— Algum inimigo da nossa Igreja, como o senhor?

— Mas eu não quero mal à sua Igreja! acho-a só muito triste, toda voltada para a morte... Não lhe quero mal, porque para sua glorificação ela tem criado catedrais que são verdadeiras apoteoses da arte.

— Só por isso?

— É uma das razões, e a única fácil de explicar-lhe.

— Julga-me muito bronca.

— Ao contrário, estou-lhe falando como a um literato! Agora, se quer, discutamos religião e filosofia. Conhece Comte?

— Algum danado.

— É o termo.

— Eu sei, adoram-no numa Capelinha da rua Benjamin Constant. Que pecado!

— Ah! já tem notícias... Estamos bem adiantados.

— O senhor é um dos tais que não perdem essas sessões?

— Eu nunca lá vou. Já lhe disse, detesto a filosofia. Para enfadar-me basta-me a medicina e para distrair-me as minhas roseiras. A senhora conhece algum bom remédio para matar pulgões de roseira? Tenho uma Yellow Persian quase perdida!

— A sua medicina nem para as plantas serve?

— Nem para as plantas, a miserável!

— Tia Mila! disse Nina apressada, entre as portas do corredor.

— Que é?

— Estão aí a baronesa da Lage e a irmã...

— Meu Deus! E eu de peignoir!

Dr. Gervásio voltou-se e disse:

— Pois está muito bem; quem procura uma senhora a estas horas, sujeita-se a ser recebido assim. Digo-lhe mais; para mim não há vestido tão bonito.

— Então vou assim mesmo...

D. Joana sorriu com mágoa; até nisso a opinião do diabo do homem era seguida!

— Bem, Mila, ficamos despedidas, disse ela, eu vou-me embora. O dinheiro dos bilhetes?

— É verdade! Nina! dá cem mil réis a tia Joana pelas dez cadeiras. Até outra vez, tia Joana. Lembranças.

— Adeus.

A moça saiu.

— Jesus! exclamou logo a velha, já passa de uma hora e Mila esqueceu-se de dar-me o cartão para o vigário Alves!

O médico voltou-se rapidamente, com uma curiosidade transparecendo-lhe no rosto. Que desejaria Mila dizer por escrito ao padre Alves? A velha percebeu-lhe a estranheza do gesto e voltou-lhe as costas antes que ele lhe pedisse alguma explicação, afogando o rosto flácido na juba negra de Ruth, com muitos abraços, ternuras e lembranças ao Mário.

Quando Camila entrou no seu salão, a baronesa da Lage, toda de cetim preto, estava de pé, contemplando um quadro insignificante, ricamente emoldurado.

A irmã, sentada perto do sofá, com um arzinho enfadado de loura anêmica, distraía-se brincando com os dedos enluvados nos berloques do seu cordão de ouro.

A dona da casa desculpou-se logo por se apresentar daquele modo...

— Mas está em sua casa, está muito bem. Olha, Paquita, este peignoiré é quase igual àquele que eu comprei ontem no Raunier, não é?

A Paquita meneou languidamente a cabeça, que sim.

— Adivinhe agora o motivo da minha visita! disse a baronesa através de um belo sorriso.

— É fácil. Vem participar-me o seu casamento!

— Casar-me, eu? qual!

— Por que não? É a viuvinha mais cobiçada deste Rio de Janeiro.

— Infelizmente. Imagine: tenho agora em casa uma senhora, espécie de dama de companhia, sabe? só encarregada de receber e despedir os meus pretendentes... Não se ria, saiba que é verdade. Não é verdade, Paquita?

Paquita meneou a cabeça, que sim.

— Bem vê. Mas onde ouviu dizer que eu estava noiva?

— Em um bond.

— Já me tardava. O bond é o eterno mexeriqueiro desta terra. Também vocês quando não querem comprometer os seus informantes, atribuem ao pobre bond todas as indiscrições... Por isso o abomino. Só saio de carro... Não! Eu não venho participar coisa nenhuma; venho pedir a sua Ruth para abrilhantar um concerto que nós, protetoras do Sagrado Coração, pretendemos dar no dia quinze. Se não fosse coisa de religião, eu não me meteria nisto. Já me têm pedido para organizar festas em beneficio de escolas e de hospitais para pobres, como se na nossa América houvesse pobreza... Creia, minha amiga, no Brasil não há miseráveis, há ateus. Precisamos de regenerar o povo com exemplos de fé cristã.

Camila concordou; Paquita atreveu-se a dar uma sentença.

Houve uma pausa.

— Paquita deu-me um dia destes notícias de seu filho; diz que está muito bonito moço.

Paquita atirou à irmã um olhar de reprovação; mas as palavras já tinham saído, e nenhum poder as faria voltar ao ponto de partida.

— Está... mas um pouco vadio; não gosta de trabalhar...

— Oh! nem precisa disso! É muito distinto. Eu, no caso dele, faria o mesmo.

— Sim, mas o pai é que não se resigna a isso.

Paquita esboçou um sorriso que não foi notado. A baronesa continuou:

— Já recebeu convite para o nosso baile?

— Já...

— Esperamos que seja Mário quem nos marque o cotillon. Papai gosta muito do Mário.

O pai da baronesa e da Paquita era um velho português, antigo cavouqueiro, que boas auras de fortuna tinham tornado capitalista. Toda a cidade conhecia as suas anedotas e simplicidades. Demais, ele gabava-se dos seus princípios rudes e pesados.

— Nós também preparamos um baile; somente a data é ainda incerta, disse Camila.

— Já se fala nisso.

A baronesa conversava com volubilidade, mal tocando nos assuntos. Falou muito e falaria ainda mais se a Paquita não a interrompesse de repente com uma frase seca:

— Vamo-nos embora.

— Sim, vamo-nos embora.

Quando elas se despediram, com a promessa de que Ruth tocaria no concerto, Camila ficou com as mãos cheias de bilhetes para a matinée.

A baronesa, no meio da vidrilhada do seu vestido de cetim, caminhava como se levasse música consigo; tinha os passos cadenciados, o busto bem erguido, um calor doce nos seus formosos olhos acastanhados de morena.

Paquita seguia-a, com o seu modo vago, em que tudo parecia escapar à observação. Camila notou, ao apertar-lhe a mão, a magreza do pulso, um pulso alvo, fino, de criança doente, entrevisto entre a luva e a manga.

Em baixo, no vestíbulo, as moças esbarraram com o dr. Gervásio, que saía também, cansado de esperar por Camila.

Houve então uma troca de olhares significativos entre a baronesa e a silenciosa Paquita, que fez ao médico um quase imperceptível sinal de cabeça. A irmã, muito expansiva, reteve-o, falou-lhe com alegria, achando jeito de lhe encher os bolsos com os bilhetes do seu concerto de religião.

Nessa tarde o capitão apareceu em Botafogo. Começavam a notar-lhe a ausência; Lia e Rachel, quando o viram, saltaram-lhe para os joelhos.

Ruth veio em alvoroço, chamando-o de ingrato, pedindo notícias do Netuno. Nina acolhia-o sempre com simpatia, achando nele um ar de bom amigo, a quem num lance de perigo ou de angústia o coração de uma mulher pode vasar uma confidência e pedir um conforto; Francisco Teodoro abriu-lhe os braços: Por que não aparecia, havia tanto? Só Camila sorriu com esforço e reserva, estendendo-lhe a ponta dos dedos frios.

E era por isso que ele fugia agora daquela casa, onde o seu pensamento vivia encurralado, como um animal teimoso. O seu amor por Camila crescia à proporção que ele se abstinha de a procurar, ou que se via maltratado por ela. Não achava explicação para aquela mudança; não a recebera ele no seu navio como a uma princesa?

As crianças abraçavam-no com entusiasmo.

— Meninas! que é isso? então! exclamava Francisco Teodoro, rindo, muito fraco pelas denguices das gêmeas.

Camila olhou e teve pena. O capitão Rino estava mais magro; toda a sua roupa, escura e desajeitada, parecia dançar-lhe no corpo; havia uma tristeza resignada nos seus olhos garços. Ela levantou-se, pretextando dor de cabeça e subiu para o seu quarto.

Rino pensou: "Ela foge-me... talvez seja melhor assim".

Ouvia-lhe desesperado o rumor dos passos pela escada acima e ninguém percebeu que ele estava com o ouvido à escuta e os lábios franzidos por um sorriso amargo.

Lia e Rachel balançavam-lhe os braços rindo muito, comparando as suas grandes mãos às delas, tão mimosas...

— Capitão Rino, por que não nos traz nunca sua irmã? perguntou-lhe Ruth.

Com toda a calma, como se nenhum desgosto o abalasse, ele respondeu:

— Catarina é uma esquisita; ela sai todos os dias, mas para andar lá pelo morro colhendo plantas... Raras vezes vai à cidade ou faz visitas. Somos uns insociáveis, nós dois. Meu pai era marítimo, minha madrasta foi sempre muito doente, e está nisso, julgo eu, a origem do nosso mal... ou do nosso bem, quem nos dirá?

Fazendo uma carinha cômica, e apontando para o céu, Ruth respondeu com ar solene: - Só Deus!