A Falência/XIX

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A Falência por Júlia Lopes de Almeida
Capítulo XIX


Com um avental atado sobre as rendas do peignoir, Camila executava, com a Noca, uma receita de doce dada por d. Inácia.

Era um pudim, um famoso pudim de nozes, muito apreciado e indefectível nos jantares de aniversário das Gomes.

A mulata pisava as nozes no almofariz. Mila acabava de observar a calda e voltava a consultar o papel, em que a caligrafia desleixada da Judith confundia os a com os o, quando a Nina apareceu dizendo:

— Dr. Gervásio está ai. Entrou para a saleta. Quer falar com a senhora.

— A estas horas!... Ele não disse por que não veio almoçar?... perguntou ela alvoroçada; e continuou logo: Bem! Desamarrem-me o avental. Escuta, Noca, quando a calda estiver em ponto de espelho, despeja-lhe dentro as nozes... depois destas bem cozidas retira o tacho do fogo e mistura ao doce doze gemas de ovo... torna a pôr tudo ao lume... Anda, Nina! desamarra este avental, de uma vez!

— Deu nó, tia Mila! Tenha paciência...

— Depois? inquiriu, Noca, enquanto Mila, para não perder tempo, lavava os dedos melosos mesmo na bica da pia da cozinha.

— Depois? Espera, deixa-me ver a receita... Ah, depois da massa estar bem cozida, põe-se no forno, em uma forma untada com manteiga. Manteiga fresca, ouviu? Lembre-se que o dr. Gervásio não gosta de manteiga salgada... Pronto este avental? Até que enfim! Fica em meu lugar, Nina.

Nina ficou, e Camila, tendo enxugado as mãos ao avental, que atirou ao chão, dirigiu-se para a saleta, pondo em ordem as rendas da gola, que as mãos ágeis ajeitavam mesmo sem espelho.

Sentindo-lhe os passos, Gervásio foi-lhe ao encontro, mas com ar tão grave e desusado que ela logo o estranhou...

— Está doente?!

— Eu, não... por que?

— Você está diferente. Que modo!

— É que eu tenho uma coisa muito grave para te dizer.

— A mim?!

— Sim.

— Que é?

Ele não respondeu imediatamente: contemplava-a em silêncio, segurando-lhe nas mãos como se a estudasse, a ver se lhe podia despedir o golpe em cheio. Mila impacientou-se.

— Que será, meu Deus! E logo lhe ocorreu a idéia de que sucedera algum desastre ao filho, um naufrágio. Aterrorizada por aquele pensamento, balbuciou apenas: - Mário?

— Não se trata do Mário. É isto: vocês estão pobres... Teodoro faliu.

Camila tornou-se lívida Houve um longo silêncio cortado só pelo zumbir de uma vespa no resedá da janela. Ela não ouvia a vespa, não ouvia nada.

O seu rosto, que havia pouco refletia o fulgor das brasas, estava tão desbotado agora, que o médico, inquieto, com receio de uma síncope, amparou-a, dizendo:

— Compreendo a estupefação, mas agora, que a verdade está sabida, é preciso coragem... Camila!

Como ela continuasse imóvel, ele abalou-a brandamente, repetindo-lhe o nome: Camila... Camila!... julgava-te mais forte, muito mais forte! Olha para mim. Percebe o sentido das minhas palavras - falir não é morrer. Teu marido não morreu, - faliu.

— É impossível! murmurou ela por fim com uma voz de sonâmbula.

— Impossível por que? a quanta gente tem acontecido o mesmo? Vocês mulheres não entendem destas coisas. Só conhecem a vida pela superfície, por isso é que têm surpresas com fatos naturalíssimos. Hoje a falência é de Teodoro, amanhã será de e depois de outro... A série há de ser longa.

— Que me importam os outros!

— Importa como explicação: é uma conseqüência do tempo. Mas senta-te, estás muito fria... queres uma capa?

— Não quero nada. E, como ele quisesse retê-la, ela desprendeu-se-lhe bruscamente dos braços.

— Descansa...

— Não posso.

Gervásio calou-se, à espera: ela começou a andar com passadas irregulares, como se buscasse uma coisa, uma palavra, uma idéia. A vida, há pouco suspensa, voltava agora com ímpeto. A reação escaldava-lhe o corpo. Ela ia falando, estraçalhando frases:

— Que horror! como havemos de aparecer diante de toda esta gente... Que insensatez, naquela idade! deixar-se falir! não compreendo! Que vergonha, que vergonha! E as crianças?!... Não pode ser! não pode ser.

Subitamente parou, com um relâmpago de esperança.

— Se fosse mentira?!

— Eu seria um miserável.

— Podiam ter-te enganado. Quem te disse?

— Ele.

— Burro!

Camila deu um puxão à gola, como se o vestido a sufocasse e recomeçou logo no seu giro tonto.

O médico tentou acalmá-la:

— Escuta, Mila, tenho hoje, como direi... pudor em aludir à nossa felicidade; contudo é em nome dela que te peço que não faças a teu marido recriminações insensatas. Lembra-te que ele é o mais desgraçado.

Camila sentiu as pernas vergarem-se-lhe e murmurou ainda:

— A culpa é dele...

— A culpa é de todos.

— Isto não podia ter acontecido de repente, e ele não me disse nada! Os homens pensam que nós não nos interessamos pela sua vida. Têm-nos só para o seu prazer! Só, só, só!

— Teodoro está muito acabrunhado...

— Quando foi que ele te disse?

— Ontem à noite, em minha casa. Chorou.

— Chorou? Foi a primeira vez; eu nunca o vi chorar!

— A dor é forte.

— Já perdeu uma filha...

— Uma criança apenas nascida... Agora perde a sua honra de negociante, que ele preza acima de tudo.

— A sua honra! mas Teodoro não roubou nada!

— Não, mas empregou capitais em empresas de azar. A lei tem severidades. É preciso estar preparada para tudo.

— Quer dizer que ele pode ser preso?

— Quem sabe, não é provável, mas...

Os olhos de Camila, até então enxutos, encheram-se de lágrimas e ela disse, com os beiços trêmulos:

— Não! ele não sairá de ao pé de mim. Vá buscá-lo.

— Tu o amas, Camila!

Ela fez que sim com a cabeça e foi sentar-se junto ao médico, olhando-o de face.

Por algum tempo foi só o zumbir da abelha no resedá o único rumor que se ouviu na sala. Gervásio desviou os olhos.

Camila vergava-se agora toda para os joelhos e chorava, com o rosto escondido nas mãos.

A crise foi longa. Através da porta fechada sentiam-se passinhos indiscretos pelo corredor.

Gervásio consultou o relógio. Eram quatro horas. Que se teria passado em S. Bento? Desejava apressar a situação, acabar com aquilo; sentia-se opresso, levantou-se, foi à janela olhar para o azul macio do céu chamalotado de nuvenzinhas brancas.

Um belo dia perdido!

Camila soluçava. Ele voltou-se sem saber como cortar aquela agonia. Nunca o coração daquela mulher lhe parecera tão impenetrável, nunca a sua psicologia tão obscura. Esperava vê-la raivosa, assustada pela perspectiva da ruína, reagindo com fúria contra aquela decepção tremenda. Era evidente que ela se tinha casado por interesse não seria extraordinário que se julgasse agora roubada... Entretanto, só nos primeiros instantes Camila tinha pensado em si, no egoísmo a que a vida a acostumara; mas a dor da compaixão viera depressa e manifestava-se mais abundante.

Um pouco irritado, sem poder esconder um movimento de ciúme, dr. Gervásio perguntou baixo a Camila, fixando-lhe o rosto inundado:

— Mas sempre o amaste assim?!

— Não... eu comecei a amá-lo depois que o enganei... É amizade, é uma amizade muito grande!

O médico não respondeu; olhava para ela pensativo, e depois de um largo silêncio:

— Enxuga os olhos. é tempo de chamar o resto da família.

Ruth e as crianças entraram acompanhadas por Nina e pela Noca, que o dr. Gervásio quis associar a família. E sobre todos eles a porta foi fechada com precauções, para que os criados não percebessem do que se tratava.

Dr. Gervásio expôs o fato em poucas palavras, ferindo o assunto sem rodeios. Lia e Rachel não o entendiam, embasbacadas para a mãe. As palavras para elas só tinham som, mas não sentido.

Ruth ouviu tudo sem pestanejar, depois beijou a mãe, e disse:

— Não chore, que isso aumentará a aflição de papai.

O médico olhou para a menina com assombro; e depois voltando-se para Nina:

— E você, que diz?

— Nada; espero.

— E sei que há de esperar com firmeza. Muito bem.

Eram cinco horas da tarde, e ainda Francisco Teodoro expunha com voz trêmula os negócios da casa aos credores, reunidos no seu escritório.

Ouviam-no todos silenciosos, mal se atrevendo, de longe, a uma ou outra pergunta, que a delicada compaixão do momento tornava tímida. O próprio Serra, afamado pela sua gordura e pela sua bruteza, fazia-se de leve quando andava, para que o assoalho não gemesse e tinha artes de transformar, para um brando sussurro, o seu vozeirão de trovoada.

Em baixo, o armazém parecia outro. Seu Joaquim permanecia sentado ao pé da mesa, enquanto os caixeiros pasmavam, inativos, para as rumas das sacas e para as aranhas negras do teto, que se suspendiam de viga para viga em grandes bambinelas de fumo lutuoso. No chão nem um grão de café; tudo varrido como se fora um dia santificado. Só na rua havia ainda a bulha das últimas carroças e o ronco de alguns armazéns que fechavam cedo e que parecia arrotarem de fartos.

Do seu ponto, seu Joaquim não perdia de vista a casa do Gama Torres, agora a mais afortunada da rua.

Logo que recebeu o último aperto de mão dos seus credores, Francisco Teodoro refugiou-se no seu gabinete, para que o não vissem chorar; mas as lágrimas que o enchiam não chegaram aos olhos, o coração absorvia-lhas todas. Envelhecido, exausto, encostou-se a sua velha secretária, companheira de tantos anos de trabalho, e ali ficou, como um viúvo ao pé da eça em que a amada dorme o último sono.

Já os credores estavam longe quando ele, tomando vagarosamente o chapéu, entrou outra vez no escritório.

O Mota chorava, com os cotovelos fincados na escrivaninha. O guarda-livros levantou-se e disse:

— Eu esperava-o para despedir-me. Tenciono partir em breve para o Norte. Vou tentar outra vida...

— Faz mal, não devia cortar a sua carreira... seja feliz! Abraçaram-se.

Mota aproximou-se.

— E o senhor? perguntou-lhe Teodoro.

O velho fez um gesto de ignorância; depois suspirou.

— Fico pra ai à-toa...

— Recomendá-loei ao Negreiros.

— Será favor...

Os outros empregados não estavam: Francisco Teodoro agradeceu àqueles o seu concurso e desceu, olhando para os degraus carcomidos com saudade infinita de todas as vezes que por eles pisara, num longo período de trinta anos...

No armazém, apertou a mão dos caixeiros, desde o mais ínfimo, e deteve-se a falar com o Joaquim.

— O senhor que tenciona fazer agora?

— Sr. Teodoro, eu fui já há dias convidado para a casa Gama Torres... Devo entrar para lá amanhã...

— Muito bem... muito bem!... balbuciou em tom frouxo o negociante. E, relanceando o olhar triste pelo armazém, em um último adeus saudosíssimo, saiu para a rua.

Na porta vizinha a velha Terência, com a carapinha oculta no lenço branco, e os bracinhos delgados estendidos para diante, sacudia os últimos grãos de café, peneirando-os na bacia de folha furada a prego. Já a sombra se estendia pelas calçadas, e só lá em cima o sol encarapuçava de ouro as platibandas dos prédios.