A Grande Guerra

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A Grande Guerra
por David Lloyd George
Tradução do Wikisource do discurso proferido pelo então Ministro das Finanças (em inglês Chancellor of the Exchequer), David Lloyd George sobre a Primeira Guerra Mundial na Queen's Hall, Londres. Existe uma tradução parcial datada da época (A Guerra Europea), no entanto a sua incompletude e tradução não representam fielmente o discurso em inglês.
A presente tradução pretende ser o mais literal possível sem sacrificar fluidez de discurso. Várias anotações são apresentadas para justificar escolhas de tradução. O uso da repetição em frases consecutivas, como «There is no man [...]. There is no man [...].», foi mantida na tradução, certas vezes a custo de alguma fluidez, para preservar uma possível característica estilística do próprio discurso. Esta tradução tem por base o exemplar em inglês depositado no Internet Archive, fazendo uso da tradução parcial mencionada anteriormente quando necessário.


A GRANDE GUERRA


DISCURSO
PROFERIDO PELO
Muito Honorável DAVID LLOYD GEORGE, M.P.
(Ministro das Finanças)



NA QUEEN'S HALL, LONDRES,
a 19 de Setembro de 1914


O DISCURSO DO MINISTRO DAS FINANÇAS

Meus Lordes, Damas e Senhores — Encontro-me cá esta tarde para falar aos meus compatriotas sobre esta grande guerra e o papel que nela devemos tomar. Sinto que minha tarefa está facilitada após termos ouvido a melhor música bélica a nível mundial (A Marcha dos Homens de Harlech). (Aplauso)

Porque é que Está Envolvida a Honra Nacional.

Não há um único homem nesta sala que tenha encarado a possibilidade de travar uma grande guerra com maior relutância e repugnância que eu próprio em toda a minha carreira política. (Ouçam, ouçam.) Não há um único homem, dentro ou fora desta sala, mais convencido do que eu de que não a conseguiríamos evitar sem pôr em causa a honra nacional. (Grande aplauso.) Estou bem ciente do facto que toda a nação que alguma vez praticou uma guerra invocou o sagrado nome da honra. Muitos são os crimes cometidos em seu nome: alguns estão a ser cometidos neste momento. Seja como for, a honra nacional é uma realidade e qualquer nação que a ignore está condenada. (Ouçam, ouçam.) Mas porque está a honra da nossa nação envolvida nesta guerra? Porque, em primeiro lugar, estamos comprometidos por honrosas obrigações a defender a independência, liberdade e integridade de uma pequena nação vizinha que sempre viveu em paz. (Aplauso.) Esta não nos poderia coagir a fazê-lo: era demasiado fraca;[1] mas o homem que se recusa a cumprir o seu dever porque o credor é demasiado pobre para o obrigar a fazê-lo não passa de um vilão.[2]. (Ruidoso aplauso.) Entramos num tratado[3] — um tratado solene — dois tratados — defender a Bélgica e a sua integridade. As nossas assinaturas estão afixadas aos documentos. As nossas assinaturas não se encontraram isoladas: este país não foi o único a comprometer-se defender a integridade da Bélgica. Rússia, França, Áustria, Prússia — todos estão lá. Porque é que não estão a Áustria e a Prússia a cumprir as obrigações do seu contrato? É-nos sugerido, quando nos referimos a este tratado, que este é apenas uma desculpa da nossa parte — é a nossa reles astúcia e ardil[4] para esconder a nossa inveja de uma civilização superior — (Risos) — que nós estamos a tentar destruir. A nossa resposta é a ação que tomamos em 1870. (Ouçam, ouçam.) Qual foi ela? O Sr. Gladstone[5] era então Primeiro-Ministro. (Aplauso.) Lorde Granville, penso eu, era então Secretário dos Assuntos Estrangeiros. Nunca lhes ouvi imputada a acusação de serem jingos.[6]

  1. A Bélgica é tratada diretamente como «ela» no discurso original. Os termos para a tradução foram escolhidos de forma a manter a dicotomia de género que o autor pode ter tentado sugerir.
  2. Literalmente, blackguard: nome aplicado no século XVI aos serviçais domésticos encarregues dos utensílios da cozinha, adquiriu mais tarde o carácter ofensivo de canalha ou vilão, aplicado a sujeitos desonestos.
  3. Vide Trado de Londres de 1839.
  4. Literalmente, low craft and cunning: usados aqui com o sentido de subterfúgio.
  5. Literalmente Mr., diminutivo de mister.
  6. A palavra provém precisamente do inglês, designando os patriotas ingleses com posições belígeras face à Rússia nos anos de 1870 (cf. Jingoísmo).
França e Bélgica em 1870.

Que fizeram eles em 1870? Estávamos então comprometidos pelo tratado. Intimámos as potências beligerantes a respeitá-lo. Intimámos a França e intimámos a Alemanha. Naquela época, tenham em atenção, o maior perigo para Bélgica provinha da França, não da Alemanha. Interviemos para proteger a Bélgica da França, tal como estamos agora a fazer para a proteger da Alemanha. (Aplauso.) Procedemos exatamente da mesma forma. Convidamos ambas as potências beligerantes a declarar que não tinham intenção de violar o território belga. Qual foi a resposta dada por Bismarck? Disse que era supérfluo fazer à Prússia tal questão em virtude dos tratados vigentes. A França deu uma resposta semelhante. Na altura, recebemos os agradecimentos do povo belga pela intervenção num notável documento. Foi um documento endereçado pela municipalidade de Bruxelas à Rainha Vitória após a intervenção escrito nos seguintes termos:—

"O grande e nobre povo sobre cujos destinos preside acabou de dar mais uma prova dos seus sentimentos benévolos para com o nosso país. . . . A voz da nação inglesa ouviu-se sobre o clamor das armas e asseverou os princípios de justiça e direito. Logo após a irretratável afeição do povo belga à sua independência, o sentimento mais forte que enche os seus corações é o de uma imperecível gratidão. (Grande aplauso.)

Foi isto em 1870. Reparem no que se seguiu. Três ou quatro dias após esta mensagem de agradecimento, estava um exército francês acostado contra a fronteira belga, todos os meios de evasão bloqueados por um anel de chamas criado pelos canhões prussos. Havia uma única fuga possível. Qual era ela? Violação da neutralidade belga. Que fizeram eles? Nessa ocasião, os franceses preferiram a ruína e humilhação à quebra do seu contrato. (Ruidoso aplauso.) O Imperador francês, os Marechais franceses, 100,000 valentes homens armados franceses preferiram ser levados em cativeiro para a estranha terra dos seus inimigos à desonra do nome do seu país. (Aplauso.) Era o último exército francês em campo. Tivesse ele violado a neutralidade belga que toda a história daquela guerra teria sido alterada e no entanto, quando era nesse altura do interesse da França em quebrar o tratado, ela escolheu não o fazer.

Um Pedaço de Papel.

É hoje do interesse da Prússia em quebrar o tratado, e acabou de o fazer. (Assobios de desaprovação.) Confessa-o com um cínico desdém por todos os princípios de justiça. Diz ela: «Os tratados só nos vincam, quando é do nosso interesse mantê-los.» (Risos.) «O que é um tratado?», diz o Chanceler alemão, «Um pedaço de papel.» Têm alguma nota de £5 convosco? (Risos e aplausos.) Não as peço para mim. (Risos.) Têm alguma daquelas pequenas e elegantes notas de £1 do Tesouro[1]? (Risos.) Pois se as tiverem, queimem-nas; são apenas pedaços de papel. (Risos e aplausos.) De que são feitas? De trapos (Risos.) Qual o seu valor? O crédito[1] do Império Inglês. (Ruidoso aplauso.) Pedaços de papel! Com pedaços de papel tenho estado eu a lidar com no último mês. Um informava que o comércio mundial paralizara. A máquina parara. Porquê? Eu digo-vos. Descobrimos — muitos de nós pela primeira vez, pois eu não pretende que não sei muito mais hoje que sabia há seis semanas atrás, e que há muitos outros como eu — descobrimos que a maquinaria do comércio era movida por letras de câmbio — (Risos.) — miseráveis, amarrotados, rabiscados, manchados, desmazelados e, no entanto, esses miseráveis pedacinhos de papel movem grandes navios carregados de preciosas mercadorias de uma ponta do mundo à outra. (Aplauso.) Qual é a força motriz por trás deles? A honra dos homens de comércio. (Aplauso.) Os tratados são a moeda da governação[2] internacional. Sejamos justos: os mercadores alemães, os comerciantes alemães, têm a reputação de serem tão íntegros e francos como qualquer outro comerciante neste mundo — (Ouçam, ouçam.) — mas se a moeda do comércio alemão for desvalorizada ao nível da sua governação, não há um único comerciante, desde Xangai a Valparaíso, que volte a olhar para uma assinatura alemã. (Ruidoso aplauso.) Esta doutrina do pedaço de papel, esta doutrina proclamada por Bernhardi de que os os tratados apenas comprometem uma nação enquanto estes forem do seu interesse, leva ao colapso[3] das bases que suportam todo o direito público. É um caminho direto para o barbarismo. (Ouçam, ouçam.) É como se vós fósseis remover o Polo Magnético porque se encontrava no caminho de um cruzador alemão. (Risos.) Toda a navegação marítima tornar-se-ia perigosa, difícil e impossível: e toda a maquinaria civilizacional colapsará se esta doutrina ganhar esta guerra. (Ouçam, ouçam.) Estamos a lutar contra o barbarismo — (Aplauso.) — e há apenas uma forma do o corrigir. Se há nações que dizem que apenas vão respeitar tratados for do seu interesse fazê-lo, então devemos fazer com que seja do seu interesse fazê-lo no futuro. (Aplauso.)

Perjúrio da Alemanha.

Que diz em sua defesa? Considerem a entrevista que teve lugar entre nosso embaixador e o grandes oficiais alemães. Quando chamados à atenção para este tratado do qual são partidários, disseram: «Não o podemos evitar. Rapidez de ação é o grande recurso alemão.» Há um recurso de maior valor para uma nação que rapidez de ação e este é a negociação honesta. (Ruidoso aplauso.) Quais são as desculpas da Alemanha? Ela diz que a Bélgica estava a conspirar contra ela;


  1. 1,0 1,1 Tradicionalmente, as notas são emitidas pelo Banco de Inglaterra e uns quantos outros bancos comerciais, mas no dia seguinte à declaração de guerra à Alemanha na Primeira Guerra Mundial, o Tesouro de Sua Majestade iniciou a emissão de notas de £1 e de 10 xelins, com o objetivo de suspender o padrão-ouro e permitir ao governo britânico cobrir as suas obrigações de guerra. (vide HM Treasury e Volume II, The Heyday of the Gold Standard, 1820-1930). Desta forma o uso da palavra crédito poderá ter o duplo sentido de honra e solvência.
  2. Literalmente, statemanship: estadística ou a arte de ser um homem de estado/estadista.
  3. Literalmente go under: expressão idiomática que tem por base a metáfora de um barco a afundar, com o sentido de colapsar ou falhar.