A Intrusa/II

Wikisource, a biblioteca livre
< A Intrusa
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
A Intrusa por Júlia Lopes de Almeida
Capítulo II


Era meio-dia quando um bonde das Águas Férreas parou à entrada do Cosme Velho e uma moça desceu para a rua, com ar vexado. O bonde continuou o seu caminho; ela consultou uma notazinha da carteira e entrou num prédio cor de milho, ladeado por um jardim em meio abandono.

Um rapazinho lavava o vestíbulo; a moça olhou para ele ainda embaraçada e perguntou:

– O dono da casa...?

Felizmente, o pequeno não a deixou concluir; estava prevenido e gritou logo para dentro, fazendo correr uma porta de vidro que devassou um trecho do interior:

– Ó seu Feliciano, venha cá!

E voltando-se para a recém-chegada:

– A senhora entre.

Ela levantou cuidadosamente o seu vestido de lã preta, para que se não molhasse no chão encharcado, e atravessou o vestíbulo em bicos de pés.

O rapazinho olhou e viu que ela levava as botinas esfoladas, tortas no calcanhar, e que tinha os tornozelos finos. Mal ela chegava à porta do fundo, quando apareceu um negro muito empertigado, com um arzinho desdenhoso e enfiado num dólman branco de impecável alvura.

Ela repetiu a mesma frase e ele fez-lhe um gesto para que o acompanhasse.

Seguiram por um corredor até o escritório do dr. Argemiro, que escrevia à secretária, no meio de um montão de papéis, muito atarefado, já pronto para sair.

Feliciano avisou da porta:

– Uma pessoa que vem pelo anúncio!

O advogado levantou os olhos e viu entrar na sala uma figura meio encolhida, que lhe pareceu ter um ombro mais alto que o outro e cujas feições não viu, porque vinham cobertas com um véu bordado e ficavam contra a claridade.

– Tenha a bondade de sentar-se... permita-me mais um momento e prestar-lhe-ei toda a atenção...

Ela fez um gesto de assentimento e sentou-se perto da porta. Ele, bem iluminado pela claridade de fora, apressou as últimas notas, fazendo ranger a pena no papel. Chegada a vez de ordenar as folhas esparsas pela secretária e de acamá-las na pasta, para não perder muito tempo, foi dizendo:

– Antes de mais nada, como estes anúncios reclamando senhoras para casas de viúvos são ambíguos e prestam-se a interpretações pouco airosas, digo-lhe desde já que preciso, para governanta de minha casa, de uma senhora honesta, a quem eu possa francamente confiar minha filha, que é uma menina de onze anos. Ela mora fora, mas deverá vir passar de vez em quando alguns dias em minha companhia... Sendo essa a condição essencial, não estranhará por certo que lhe peça algumas informações...

Argemiro esperou um instante, a ver se ela se decidia a falar sem ser interrogada; mas ela, coitada, encolheu-se na cadeira e ele foi forçado a perguntar:

– A senhora é viúva?

– ... Não, senhor... sou solteira...

– Ah... mas já governou alguma casa, naturalmente?

– Sim... senhor...

– Bem... desculpe-me a minuciosidade. Poderá dizer-me em que casa desempenhou o cargo a que se propõe?

Ela pareceu não entender; depois disse baixo:

– Na minha... na de meu pai...

– Ah!... O nome de seu pai é...

– Meu pai morreu... e é por isso que eu...

Houve uma pausa. Argemiro consultou o relógio. Era tarde. O diabo da mulher não serviria?!

– Que idade tem?

– Vinte e cinco anos...

– É saudável? A saúde é também uma das condições que eu exijo.

– Sou.

– Pois, minha senhora, infelizmente tenho o tempo contado e não posso demorar-me. Vou procurar em poucas palavras fazer-me bem entendido; peço-lhe que me escute com a maior atenção e que me responda com absoluta franqueza. Como lhe disse, quero uma governanta para minha casa, que seja ao mesmo tempo uma companheira para minha filha nos dias em que ela vier ver-me. Para isso é preciso que essa governanta seja uma senhora séria, sobretudo educada, não digo instruída, mas que enfim não seja analfabeta e que tenha hábitos de asseio, de ordem e de economia. É absolutamente preciso pôr um dique à impetuosidade das minhas despesas domésticas. Eu não posso tratar disso. A senhora dirigirá tudo, com energia, de modo a regularizar as coisas definitivamente. Para isso lhe darei toda a força moral. Há uma cláusula, que talvez lhe pareça absurda, mas é indispensável na nossa situação, caso a senhora aceite as condições que estipulo...

Ele parou, com ar interrogativo.

Ela respondeu com um fio de voz trêmula:

– Perfeitamente...

– É esta: não nos vermos senão quando isso for absolutamente indispensável, ou melhor, não nos vermos nunca! A razão desta esquisitice, ou desta mania, não pode ser explicada por inteiro em poucas palavras; suponha, porém, que repousa só nisto: não querer eu que paire sobre quem deve velar por minha filha nem a sombra de uma suspeita! A minha casa é grande, tem dois pavimentos e eu passo o dia na cidade, só vindo jantar à noite. Na minha ausência toda a casa será sua; desde que eu entre a senhora saberá e poderá evitar-me. Acha isso possível?

– Acho...

– Concorda em que seja assim?

– Concordo.

– Pense na responsabilidade que vai assumir.

– Já pensei...

– Eu sou exigente. Quero sentir na minha casa a influência de uma pessoa moça, saudável e ordenada. Não quero ver essa pessoa, por motivos que expus e por outros particulares e que não vêm ao caso, como também já disse. Aviso-a de que sou comodista. A senhora julga-se com os predicados que apontei?

– Julgo-me.

– Tanto melhor; parece-me que nos entenderemos. Todavia, desejaria, repito, que me desse algumas informações a seu respeito. Como se chama?

– Alice Galba.

– Galba... tenho idéia de ter conhecido na minha infância um velho com esse nome... um botânico, se me não engano...

– Era meu avô...

– Então seu pai...

– Meu pai morreu há dez anos...

Argemiro puxou o relógio. Era a hora do bonde; levantou-se apressado, apanhando a pasta e o chapéu.

– A senhora veio tão tarde! E temos ainda uma coisa a combinar: o ordenado?

A moça levantou-se com timidez.

– O senhor dará o que entender...

– Ora essa! Eu não sei.

– Eu também não... É a primeira vez que me emprego...

Argemiro pressentiu sinceridade naquela confissão e olhou para a moça. Mal percebeu, através do véu, um rosto magro e pálido.

“Parece-me feia...” – pensou ele consigo, com uma pontinha de desgosto; e logo alto:

– Onde poderei mandar preveni-la?

– Eu virei, quando determinar, saber a sua resposta.

– Se quer ter esse trabalho... Venha então quinta-feira. Somente peço-lhe mais algumas informações sobre os seus antecedentes e que fixe o seu ordenado.

Ele já se mostrava impaciente, caminhando para a porta, como a despedi-la. Ela fez uma reverência tímida e saiu.

Quando Argemiro chegou à rua, com a sua pasta pejada de papéis, viu Alice subir para o bonde e notou, como o seu criado, que ela levava as botinas rotas e tinha os tornozelos delicados.

O diabo da rapariga fizera-o perder um tempo precioso, e talvez inutilmente. Quem sabe? Talvez aparecesse outra mais jeitosa. Tudo lhe desagradava nesta, desde os ombros encolhidos até as botinas esfoladas...



Quando Argemiro voltou a casa para jantar, encontrou o padre Assunção, que vinha trazer-lhe notícias de Maria da Glória.

– Tua filha pediu-me que te viesse hoje mesmo dizer que está com muitas saudades tuas. Que diabo fazes, que a não vais ver?

– Bem sabes em que consumo as horas... uma estupidez! É tão longe aquilo e minha sogra fecha tão cedo a casa!... Ah, estou morto por trazer minha filha, ao menos uma vez de quinze em quinze dias, para jantar comigo, encher esta minha casa triste de riso e de alegria. Como a achaste?

– Magnífica, muito corada, forte! A avó exasperada porque ela não lhe pára no estudo. Quando eu cheguei estava ela encarapitada no muro, apanhando as amoras do vizinho; quando entrou trazia o avental manchado e a saia toda descosida. A avó mostrou-me aquilo muito queixosa, mas Gloriazinha mal a deixava falar, tantos eram os beijos que lhe dava!

Riram-se ambos, Argemiro e o padre.

– A avó tem razão; minha filha já está muito crescida para aqueles modos de rapaz...

– É uma criança... deixa-a.

– Mas, afinal, de quem é a culpa? dos avós. Se ela morasse comigo seria muito outra.

– Não estaria tão bem.

– É uma selvagem... esta é que é a verdade; mal sabe ler, rabisca umas letras em péssima caligrafia... e toca sem compasso umas intoleráveis lições do método! Já era tempo de saber muito mais. Não te parece?

– Ora! sabe em que tempo se devem plantar os repolhos e podar as roseiras, como se cora roupa e se deitam galinhas. É uma ciência rara hoje em dia e muito útil. Tua sogra pediu-me que lhe ensinasse o catecismo, para a primeira comunhão.

– E tu...

– Eu disse-lhe que deixasse a menina por enquanto adorar a Deus a seu modo. Quando eu entrei na chácara ela repartia frutas com a criançada pobre da vizinhança.

– É brutinha, mas tem bons sentimentos...

– É um anjo; o ser selvagem não é culpa sua; mudará com o tempo.

– Não basta o tempo; estou convencido de que ela precisa de mais alguma coisa... Pobre criança, terei o direito de sacrificá-la ao egoísmo da avó? Andamos errados conservando-a lá... não acoroçoes a minha negligência; esta é a verdade. Se eu pudesse organizar a minha vida de outro modo... A propósito: veio hoje uma rapariga, pelo anúncio do jornal, oferecer-se para governanta. Só uma! vês tu? E vocês a dizerem que viriam em rebanho! Antes viessem várias, poderíamos escolher. Desta gostei pouco. Pareceu-me acanhada, toda torta.

– Corcunda?

– Não... não sei. Preciso da tua intervenção. Ela voltará quinta-feira à tarde; conversa tu com ela e decide tudo. Não quero tornar a vê-la, mas desde já te digo que seja como for, direita ou torta, será preferível a coisa nenhuma.

– Vais criar uma situação embaraçosa e insustentável. Já não estás em idade de fantasias.

– Fala para aí. Que disse tua mãe?

– Contra a minha expectativa, aprova a tua resolução...

– Por força.

– Mas não acredita que se possa viver sob o mesmo teto com uma criatura sem nunca lhe pôr a vista em cima.

– Com esta, coitadinha, parece-me que isso há de ser fácil. Confesso-te até que a sua fealdade me desconcertou. Eu desejaria uma governanta bonita, ou pelo menos graciosa. A beleza sugestiona e dá a tudo que a rodeia um movimento de elegância. Imagina, se ela efetivamente for aleijada. Será escarnecida pelos criados e furtará toda a originalidade à nossa situação!

– Preferes o perigo...

– Para pôr à prova a minha impassibilidade e dar-me ares de herói – respondeu, rindo, Argemiro. – Preciso exercitar a minha vontade e o meu sangue frio.

– Tolices!

– Mas que queres que eu te diga, a ti, que me conheces de cor e salteado?! Vens com uns ares esquisitos assustar-me com um futuro que não promete coisa nenhuma! Tu bem sabes que o verdadeiro motivo desta imposição está nisto: ser-me-ia penoso ver agitar-se em torno de mim uma mulher, nesta casa, onde nenhuma outra entrou depois que morreu a minha. A minha viuvez é tão saudosa, tão viúva, que só vivo para senti-la. Não digo senão a ti estas coisas, com medo de parecer ridículo. Tu me compreenderás: foste seu amigo, seu confessor, soubeste mais da sua alma do que eu mesmo, darás razão a este aferro. Amo minha mulher através do tempo, com a mesma tenacidade dos primeiros dias. Ela preside à minha vida, soberanamente. Expliquei à outra, que aí veio, que só uma razão me obrigava a impor-lhe esta cláusula extravagante: não querer dar azo à maledicência e aos comentários dos criados... Como se isso me importasse!

– E ela?

– Aceitou.

– Enfim... acho que fazes mal. Mas isso é contigo. Preferiria que te casasses, apesar...

– Ah, isso nunca! Minha mulher, sabes bem, pediu-me que não me tornasse a casar; fez-me jurar... far-lhe-ei a vontade. Tanto mais que nenhuma mulher me interessa, a não ser...

– A não ser...

– Para essa espécie de amores que só tem um sabor – o da frivolidade. Eu não sou santo, mas sou fiel. Acredites ou não, a verdade é que não me deito nunca sem beijar o retrato de Maria, desde o dia da sua morte pendente à minha cabeceira. Tenho a sensação de que a alma dela não sai desta casa que tanto amava; como que a sinto a envolver-me todo... Lá fora sou um viúvo como outro qualquer, não me abstenho nem da corte à mulher de salão, nem do abraço à mulher do pecado; mas logo que entro em minha casa, parece-me sentir as mãos finas de Maria segurarem as minhas e a sua voz, que não esqueço, repetir-me aquela sua frase ciumenta e que era como que o seu estribilho: “Ama-me, a mim só! a mim só!”

Houve uma pausa. Padre Assunção observou:

– A nossa Maria não se parece com a mãe...

– Nada.

– Saiu a ti.

– Talvez. Mas vamos jantar, que tenho de ir ao Lírico.

À mesa, logo ao sentar-se, Argemiro viu à direita do seu prato um rasgão na toalha, do tamanho de um níquel; mostrou-o com um gesto de enfado ao padre Assunção.

– Naturalmente, uma dona de casa faz falta... – observou este.

Jantaram sem alegria; à sobremesa o criado foi buscar a caixa dos charutos e Argemiro, levantando o talher de cristofle, mostrou ao padre que o garfo tinha sinais de fogo na extremidade dos dentes, e que as lâminas das facas começavam a bailar nos cabos.

E tudo aquilo era novo!

Padre Assunção sorriu:

– Agora reparas em tudo!

Feliciano trouxe os charutos e Argemiro reconheceu que o negro se sortira abundantemente com os seus havanas. Sempre o mesmo abuso! Olhando com atenção para o criado, viu que ele ostentava cinicamente uma das suas camisas bordadas; também não estava certo de lhe haver dado já aquela bonita gravata roxa de bolinhas pardas. Como o padre Assunção era considerado de casa, Feliciano, mesmo à vista dele, apresentou ao amo as contas da semana.

– A ode do desperdício!

Era um batalhão de cifras encarreiradas, pelo almaço abaixo, atropelando-se no seu exagero que as fazia saltar aos olhos de Argemiro. Desde o fornecedor das frutas finas, até à cerzideira da roupa branca, todos tomavam vulto através da multiplicação do negro.

– Vês, Assunção? Quase um conto de réis numa quinzena, isto numa casa própria, onde há adega e que a chácara do sogro enche de perus, ovos, leitões e hortaliça! No tempo de Maria passava-se melhor, havia mais gente e gastava-se muito menos.

– Ainda tens um recurso...

– Qual?

– Uma pensão...

– Deus me livre! A casa de pensão é a vala comum da vida. Repugna-me!

E voltando-se para o negro:

– Olha cá, explica-me: por que, pagando eu tanto dinheiro a uma costureira, ela deixa buracos como este numa toalha de mesa? Que espécie de costureira é essa:

O Feliciano fazia-se de parvo quando lhe convinha.

– É uma espécie de velha...

– Ah! uma espécie abominável! Despede-a.

Acabado o jantar, padre Assunção saiu para a sua caminhada até o largo do Machado, como de costume, e Argemiro foi vestir-se para o espetáculo. Quando, já encasacado, enfiava o sobretudo, viu o Feliciano estender-lhe um papel, murmurando com a maior naturalidade:

– Mais uma conta que me esqueci de entregar; estava no fundo do bolso.

– O teu bolso não tem fundo, nunca se pode encher! Que conta é essa?

– Uma conta antiga, de um carro...

Argemiro estava de bom humor. Riu-se. E saiu pensando: “Acabou-se o teu reinado, ladrão!”



O salão do Lírico estava repleto.

O primeiro ato ia quase no fim.

Agarrados um ao outro, o tenor e a soprano esgoelavam-se em protestos de amor. O público via aquilo com respeito e certa solenidade. Argemiro levantou os olhos para o camarote da Pedrosa, que olhava exatamente para ele nesse momento. No primeiro intervalo subiu a apresentar a essa senhora os seus respeitos. Ela estendeu-lhe a mão enluvada, segurando-o com domínio, fazendo-o sentar-se ao pé de si. Pedrosa esquivou-se para o corredor, em conversa com o conselheiro Isaías e o dr. Sebrão.

O Pedrosa almejava a pasta da fazenda; andava na ocasião ostentando pelos jornais grandes artigos financeiros, coalhados de algarismos encarreirados como formigas por entre a secura sábia da fraseologia. Ah! como esses artigos espantavam uns e espicaçavam a maledicência de outros, que os atribuíam ao Benedito Lemos, um boêmio inteligente como o diabo e bêbedo como um gambá.

Ele, o Pedrosa, adulava agora o Sebrão e o conselheiro Isaías, ambos comensais e amigos do presidente da República.

Era um homem arguto.

A esposa, baixa, trêfega, de um moreno pálido sob o qual se via arder uma alma ambiciosa, instigava-o a ir ao encontro das posições aparatosas da alta política.

Vingava-se do Destino a ter feito mulher, conservando-se moça através dos quarenta anos. Não era bonita, mas a sua expressão de desafio, que agradava aos homens e irritava as mulheres, tornava-a talvez um tanto original. Gostava de impor a sua autoridade. Para o Argemiro era de tão carinhoso acolhimento, que ele trabalhava por penetrar-lhe as intenções.

Conversavam os dois, como se esperassem ambos uma palavra reveladora, quando entrou no camarote o Benjamim Ramalho, todo teso no seu alto colarinho, com uma camélia branca na lapela e o cabelo achatado sobre as orelhas pequenas e redondinhas. A Pedrosa mal disfarçou a sua contrariedade. Benjamim curvava-se diante dela numa reverência. E depois de sentado:

– Magnífico este primeiro ato. Não gostou?

A Pedrosa respondeu quase secamente:

– Muito.

Benjamim olhou para o Argemiro, que pôs o binóculo para o camarote da Vieirinha. A Pedrosa, percebendo o movimento do advogado, seguiu-lhe o exemplo. Benjamim ficou por um momento só, perplexo; hesitou, compreendeu que chegara inoportunamente e acabou também binoculando a Vieirinha!

Depois de um curto silêncio ouviu-se a voz da dona do camarote num comentário de enfado:

– Não é feia aquela senhora, mas veste-se muito mal...

Benjamim, confirmando:

– Realmente, não tem gosto... usa umas cores muito espantadas...

Argemiro sorriu por dentro. A pobre da Vieirinha tinha um pecado: ser casada com um ministro, cuja pasta apanhara no ar quando vinha atirada às mãos do Pedrosa!

Argemiro, sem retirar o binóculo:

– Então, Benjamim, você gostou muito do primeiro ato?

– Absolutamente!

– Homem feliz...

– Por quê?!

– Porque pode gostar absolutamente de alguma coisa... quando para toda a gente tudo no mundo tem restrições...

– Pois olhe, – acudiu a Pedrosa sem poder disfarçar uma pontinha de inveja; – pela sua insistência em olhar para a Vieirinha, dir-se-ia que ela, ao menos para o senhor, não tem restrições.

A Pedrosa tinha jeito para dizer as coisas mais duras como se as tivesse fervido em mel. Falou rindo. Benjamim riu-se também e o advogado respondeu com um suspiro:

– É que aquela senhora não permite com facilidade que a gente a veja de perto...

– Sim?! Deve ser para que não lhe vejam os defeitos... ou talvez tivesse estado num convento. A propósito, minha filha deixa amanhã definitivamente o colégio das Irmãs de Sião. Vou buscá-la a Petrópolis. Estou velha, com uma filha já moça!... Sábado quero apresentá-la aos meus amigos. Ela tem grande predileção pelo sr. dr. Argemiro!

Notou então o advogado que a Pedrosa o olhava com uma expressão diferente, como se lhe visse na cara pela primeira vez qualquer coisa desconhecida...

Intrigava-o aquilo, mas não achou a explicação até ao fim da visita; Benjamim atrapalhava-o. Em que pensaria a Pedrosa?...

Ao sair do camarote, sentiu-se agarrado no corredor pela mão do marido, que o reteve, apresentando-o ao conselheiro Isaías e ao dr. Sebrão, a quem alcunhou de Demóstenes brasileiro.

Argemiro ouvira já o colega, num dos seus mais famosos discursos no Senado.

O conselheiro Isaías aprovou o cognome de Demóstenes dado ao Sebrão, lamentando que o Rio de Janeiro não tivesse, como a formosa Atenas, o gosto fino pela palavra, tão desbaratada aqui, e não considerasse a política como uma das artes superiores... Também eles conheciam o dr. Argemiro Cláudio e sabiam que ele escrevia atualmente um livro jurídico de extraordinário interesse...

Pedrosa, ufano da amizade dos três, resplandecia de orgulho.

Argemiro cumprimentou-o pelo seu artigo dessa manhã. Bons argumentos, excelentes demonstrações!

Pedrosa esfregou as mãos: sim, ele era sincero e estudara a questão a fundo. Fora impelido à publicidade por uma série de circunstâncias muito especiais; do contrário nunca sairia do seu retiro, onde queimava as pestanas a ler os mestres e a estudar as mais graves questões financeiras do país...

O conselheiro Isaías afirmou:

– Ainda não pude ler o seu artigo; mas o presidente leu-o e ficou bem impressionado.

Pedrosa deu um saltinho involuntário:

– O presidente leu o meu artigo? Gostou? Ah, mas naturalmente! Ele há de, forçosamente, ver que eu não aponto ali senão erros da administração passada e que lhe têm acarretado a ele enormes embaraços...

– Difíceis de vencer...

– Facílimos, senhor, facílimos!

– A verdade é que o presidente não está bem rodeado e deixa-se influenciar pelos ministros, mais do que convém... objetou Sebrão.

– Isso! – aprovou Pedrosa, estendendo a mão em forma de juramento.

Os outros olhavam para ele com certa admiração. Pedrosa continuou um tanto confidencial:

– Eu é que não quero dizer a última palavra...

Nesse instante rompeu a música e Argemiro achou mais interessante ir ouvir o segundo ato da Tosca, do que a última palavra do Pedrosa. Cumprimentou-os à pressa e caminhou para a escada.