A Luneta Mágica/II/IX

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A Luneta Mágica por Joaquim Manuel de Macedo
Primeira Parte - Visão do Mal, Capítulo IX


Tenho na mente uma providência que me é necessário tomar em breves dias; tenho no coração um vácuo que ardentemente desejo preencher sem precipitação, mas quanto antes.

Quando retirar do mano Américo a gerência da minha fortuna: eis a providência que vou tomar; acharei um procurador zeloso, prudente e honrado que se incumba deste negócio, e o efetue sem escândalo, e sem descrédito de meu irmão, a quem não me dirigirei sobre este assunto; porque me repugna expor-me ao extremo de confundi-lo em face.

Não preciso de informações nem de recomendações para a escolha do meu procurador: a minha luneta mágica me ensinará qual dentre muitos merecerá ser preferido.

Hoje mesmo darei principio a este estudo, aos trabalhos desta descoberta ou preferência.

O preenchimento do vácuo do coração é mais difícil, e há de ser mais moroso.

Estou; mas não é admissível que eu possa viver sem família.

Estou sem família, a visão do mal rompeu os laços que me ligavam aos meus três e únicos parentes.

Essas três afeições, essas três únicas flores do jardim do meu coração marcharam para sempre, e o meu seio ficou deserto e noite.

Nasci para amar, tenho sede de amor; não posso viver assim.

A família, é na terra a beatificação da vida do homem; a família, é o mundo em festa no lar doméstico; a família, é a imensa vida de amor, em que se identificam algumas vidas que se amam, que se abraçam, que se completam; a família, é a consolação no infortúnio, o suave descanso no fim do trabalho e das lidas, é o rir de muitos pela felicidade de cada um de seus membros, é na extrema hora o colo em que se encosta a cabeça para dormir o último sono, é o pranto de amor que orvalha a sequidão da morte, a mão de amor que, religiosa, fecha os olhos do morto.

Eu quero ter família, não posso viver sem ela.

Estou como enjeitado que sai do hospício estou só, sem um parente, estou— deserto e noite, e aspiro sociedade e luz.

O enjeitado não tem; mas pode criar e cria uma família, para si, procura uma mulher, e abre-lhe o coração; a mulher o faz esquecer o deserto e a noite do passado, dando-lhe a sociedade, e acendendo-lhe a luz do presente e do futuro.

A mulher é a placenta da família, é a criação privilegiada, a última e a mais mimosa criação de Deus, que em um sorrir divino nela derramou a graça que encerra o encanto da vida do homem.

Eu quero procurar uma mulher jovem, bela e pura, que me dê família, eu estou deserto e noite; quero receber a companhia do coração e a luz dos olhos de uma mulher formosa e santa; quero um anjo, a cujas asas brancas me prenda, para sair do deserto e da noite.

Avalio bem as proporções imensas da minha aspiração; mas a luneta mágica me deixa ler os segredos de todas as almas, e, mercê desse encantado privilégio, hei de achar o botão de inocência que almejo, a noiva— anjo da terra que adorarei perpetuamente.

A mesa do almoço apareci com a minha luneta, e causei surpresa; disse que auxiliado pelo poderoso vidro, podia ver melhor do que dantes, embora menos do que desejava; mas acabando de almoçar e usando da luneta, servi-me de um palito sem pedir que mo dessem.

Diante dessa prova evidente de que já me era fácil distinguir um palito, o mano Américo abriu a boca espantado, a tia Domingas benzeu-se, e a prima Anica consertou com faceirice as dobras e o laço do seu fichu que aliás não tinham desconserto algum.

Enfim meu irmão e minha prima deram-me uns parabéns que me pareceram muito dessaboridos; minha tia disse: "Deus te abençoe para que não peques pelos olhos!" e eu despedi-me e fui para o júri.