A Mandinga/XIII

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A Mandinga por João Simões Lopes Neto
Capítulo XIII


Não se soube nunca que assunto de alta relevância ocupou, por espaço de mais de duas horas, a atenção de Nham Pombinha e do Elesbão.

Que resultado teriam dado as indispensáveis exumações das cenas em casa do Caboclo, aquela prisão tão fora de propósito dentro do caixão de milho, e por último a invasão avassaladora dos gorgulhos importunos e nojentos?

Que lhe diria Nham Pombinha da mandinga ministrada ao Cirilo, e que resultado tão fatal e imprevisto lhe trouxera?

Falar-lhe-ia, por seu turno, o Elesbão, nas suas contínuas consultas ao Caboclo, a quem ainda na véspera comprara por um bom preço uma droga destinada a aproximar o seu ardor juvenil de que, indiscutivelmente, deveria ter a Nham Pombinha, e outra destinada a ativar nela os efeitos do contágio, — na hipótese de um consórcio?

Nunca se averiguou com exatidão nada disso.

O que é verdade é que já tinham dado as nove horas da noite, Nham Pombinha terminava o chiló recostada indolentemente na chaise longue, em que, por vezes, vimos o Cirilo, e o Elesbão não dava sinais de quem tinha pressa de retirar-se.

Com grande escândalo, mesmo, da mucama, uma mulatona de 18 anos a quem por várias vezes o Hilário lançara olho cobiçoso e aceso.

— Nham Pombinha mandou servir o chá mais cedo que o costume, e o Elesbão lá ficara à mesa, beatificamente, sentado à cabeceira, dando-se já uns ares de quem estava em sua casa.

Já haveria namoro, quatro meses depois da morte do primeiro?

— Irra! que mulherzinha!

E a criadinha não se conteve que não fosse à cozinha dar a taramela e comentar aquele procedimento da ama em dar tão de pronto substituto ao Cirilo... tão bom que era... coitado.

Mas o tempo voa. Os acontecimentos precipitam-se sem respeitar nem as conveniências, nem os preconceitos, nem os cálculos.

Adormece-se hoje para despertar amanhã, e nesse meio tempo, ficamos ricos ou miseráveis, transformando-nos em Júlio Cesar ou Isganarelo... às vezes mesmo em Pedro Sem.

Estamos, pois, na casa do senhor José Pereira de Moraes, precisamente na noite em que se casa o grandalhão do Hilário com a franzina Doricélia.

Todos os compartimentos do prédio novo, que a menina comprara com o auxílio da mamã Claudina e os conselhos do tabelião Lima, muito entendido nessas cousas, — resplandeciam de convidados, luzes, flores, música e mil adornos custosos.

Havia uma hora que se esperava o aparecimento da noiva, de cuja toilete se contavam maravilhas.

Nas janelas, do lado exterior, apinhavam-se os curiosos, acotovelando-se trepando uns aos ombros dos outros. As mulheres tinham até mandado vir escadas e cadeiras para apreciarem melhor a cena.

Dentro, na sala principal, havia uma expectativa solene, como se tratasse de abertura das câmaras legislativas.

A porta que dava para a alcova nupcial estava ainda fechada. Fora uma esquisitisse de D. Claudina, que gostava muito de lances teatrais.

O juiz de casamento, respirando gravidade, muito teso, abotoado na casaca preta atravessada pela faixa verde e amarela, esperava, puxando o pigarro e conversando em reserva com o velho José Pereira, com uns acenozinhos de cabeça protetores. O escrivão sobraçando o livro passava em revista a boa roda, apreciando à socapa os namoriscos, e calculoando a que soma teriam atingido os defits de certos papás para exibirem ali as filhas cobertas de diamantes e a esmagar sedas...

Um sussurro discreto enchia a sala toda a trescalar perfumes fortes, que subiam à cabeça, naquela atmosfera cálida, já saturada dos eflúvios das flores e do suor humano.

O Juiz, consultado, achou prudente abrir um bocadinho das janelas.

E o José Pereira,muito obsequiso, limpando a testa, lá foi, cheio de cerimônias — com licença — com licença, abrir um bocadinho de cada folha, enquanto pudesse entrar um novo oxigênio.

Nesse momento, porém, abriam-se de par em par as portas do quarto nupcial e o cortejo feminino entrava na sala, motivo pela qual toda a onda que aguardava fora o melhor meio de bispar a cena, atirou-se como se a um arroio tivessem de repente tirado a represa. Uns treparam descaradamente para os peitoris, outros, como se estivessem pago entrada, arregaçavam as cortinas pendentes, chegando-lhes a ponta da bengala e guarda-chuva...

E tudo isso, numa algazarra indecente, por entre ditinhos com pretensão a espirituosos, analisando tudo, com uma ponta de malícia, de que até as senhoras gostavam muito, abafando no lenço o risinho maldoso...

Quando a Doricélia, toda de branco, rendas, contas e flores de laranja, apareceu na sala, seguida de mamã Claudina, radiante, num vestido verde e rendas pretas, muito solene, da madrinha, a respeitável D. Miquelina Cidade, de grenat e toda cheia de brilhantes, e de algumas conhecidas também de branco, foi um deslumbramento...

Pela porta do corredor entrava o Hilário, muito mais alto e espadoado ainda, por causa do traje de etiqueta que lhe cinzelava os contornos, pondo-os em relevo seguido de Nham Pombinha, majestosa, muito pálida, num vestido de gorgurão preto, sem o mínimo enfeite, e com uma estrela de pérola no alto do penteado, desdenhosa, olhando para toda aquela gente como para um mundo que não era o seu e não a entendera nunca.

— A madrinha mete a noiva num chinelo, casquinou a vozinha de uma rapariga assentada à janela.

— Mais carnes tem ela, observou um atrevido ao lado.

— Cale a boca, seu indecente.

E já ia saindo um desaguisado.

Depois, vinha o Elesbão, que devia casar dali a três meses, muito mesureiro, com ar de entendido, procurando sempre por o nariz a altura do degote de Nham Pombina...

Eram os padrinhos do Hilário, triunfante de força e de seiva, como Nham Pombinha, no meio daquela gente toda engelhada...

O José Pereira veio recebê-los e convergindo este para outro grupo, como ele fundiu-se, caminhando todos para a mesa onde o Juiz de Casamentos, esperava, mais teso, mais grave que ao começo.

Houve um silêncio geral. Depois começou a cerimônia civil, que concluiu sem incidentes para dar lugar à religiosa, no altar armado a um canto... tudo púrpura e dourados...

Vieram os abraços, as boquinhas, as lágrimas dissoradas ao canto do olho, as felicitações:

— Seja feliz...

— Muitos anos e bons.

Nham Pombinha abraçou Doricélia, voltando o rosto, enquanto chegou a vez do Hilário, apenas lhe pôs a mão no ombro.

D. Claudina abundava em muitas considerações sobre o casamento, atormentando o Elesbão com conselhos de velha entendedora.

— Aquilo é mulherzinha para encher uma casa, conclui ela, , apontando para Nham Pombinha.

A conversação tornou-se então mais generalizada, e pouco a pouco se foi acalorando, quando sairam o vigário e o juiz, com muitas desculpas, por não poderem aceitar nada. Estavam indispostos. Ia ficar tarde.

De repente, todos cairam numa moleza enervadora. Não tinham assunto. Que diabo! Se já estava terminada a cerimônia, por que não se despachava a gente?

Mas D. Claudina acudiu logo com a costumada exuberância palavrosa a reanimar a assembléia convidando-a passar à sala de jantar...

E foi então uma algazarra. Perdeu-se a cerimônia — Ria-se alto, de tropel, os que estavam mais perto da porta correram para o interior, os homens deram o braço às senhoras graciosas, abanando-se com os clacks, deitando flanância.

Esvaziou-se a sala, cujas janelas os criados, vieram, então cerrar por cautela.

Os espectadores é que não se conformaram com semelhante decisão, que tanto os contrariava no prosseguimento do seu exame.

E, então, zangaram-se, e vingaram-se cerzindo a pele dos noivos, dos papás e dos convidados.

Foi uma razzia.

— Muita farofa. Afinal, a noiva é um canhas.

— Mas tem dinheiro.

— Também é a única coisa que ela tem.

Felizmente não estava ali o Hilário.

A bancada feminina passava em revista a noiva, a sua toilete e o mau gosto de expor no quarto umas tantas coisas.

Aí acudiu uma velha solteirona, que a fealdade deixara na seção do refugo, mas a quem rancores não saciados insuflavam a cólera contra todos os noivos.

— Aquilo é uma imoralidade. Até os camisolões! o melhor é logo chamar um fotógrafo!

— E como se fez esse casamento? Parece coisa de bruxedo. Uma gente que nem podia se ver! Aí há coisa.

— E não viste como a espevitada da viúva do seu Cirilo estava tão enfunada? Parece que tem o rei na barriga!

— Sim. Na barriga do marido é que pôs algum rei...

— Que é que me contas, menina?

— Ao menos dizem. Foi por causa do enteado!

— Que horror! Olhe que sempre vivemos numa terra...!

E era talho de alto a baixo, sem misericórdia, como quem corta no que é seu.

Afinal, os grupos dissolveram-se.

Passamos por alto sobre o banquete... um jantar régio em que em casa de Luculo, para qual o Hilário limitara-se a olhar, por cautela, ao passo que a sua sogra cevava um apetite extraordinário.

Depois de muitos brindes, de novos cumprimentos e felicitações, veio o chá e após, começou a dispersão, aceleradamente, como quem tem pressa de sair dum lugar onde nada mais lhe resta a fazer.

Ficaram sós, a madrinha de Doricélia, os noivos e os papás.

Descei agora, oh fadas benfazejas protetoras do Amor, sobre o perfumado ninho do novo casal, e fazei-o feliz, enquanto o Elesbão vai muito nervosamente para a casa roendo as unhas, aguardando o seu dia, que não vem longe.

E Deus lhes de muito boa noite.

O famoso dente de jacaré não fora esquecido. Aquela poderosa arma do arsenal do Caboclo, a qual, ao pensar de Doricélia e de D. Claudina, tão bons resultados dela, lá fora colocado em baixo do travesseiro pela cautelosa mamã, ao passo que, por sua vez, (e para que a noite terminasse toda em mandigagens) o Elesbão ia imaginando de que meio se valeria para arranjar com que a mucama de Nham Pombinha pusesse no chá de sua ama, um pozinho branco e solúvel saído do suprádito Caboclo.

Continua...
D. Salústio
Correio Mercantil, 30 de novembro de 1893.