A Morgadinha dos Canaviais/VII

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A Morgadinha dos Canaviais por Júlio Dinis
Capítulo 7


VII


A casa do recoveiro Cancella ficava n’uma das maïs estreitas rúas da aldeia e ao lado de um pequeño quintal, objecto dos cuidados e das diversões do proprietario, que alli gastava algumas horas disponiveis da sua occupada e laboriosa vida.

Cancella era um verdadeiro Judeu errante da aldeia. A maior parte do tempo ia-se-lhe nas estradas; pernoitava hoje n’uma estalagem; viam-o ámanhã já a maïs de seis leguas de distancia; acotovelava um dia a multidão nas rúas e feiras da cidade; no outro entretinha os curiosos da sua terra, deixando-lhes entrever os thesouros da experiencia adquirida á custa de muitos annos de fadigas.

As estradas em Portugal e os novos meios de transporte, que conjunctamente vieram, não destruiram totalmente esse typo dos antigos tempos, anterior a ellas. Além da época, que parecia dever marcar-lhes limite á existencia, passaram, sustentados pela fôrça dos habitos e justificados pelas irregularidades do serviço das postas; e Deus sabe quando de vez acabarão. Mas Cancella era além d’isso um recoveiro de uma especie rara e superior. Em todas as profissões ha sempre, no meio do vulgo, que as exerce sem enthusiasmo nem consciencia dos gôsos, superiores aos interesses, que ellas podem offerecer, certo grupo de escolhidos, que as idealisam, e enxergam um raio de poesia através das sombras, uma flor entre os espinhos. Cancella era d’estes; era o poeta da sua profissão. Tinha em si o que quer que era de um touriste, e assim aproveitava todos os ensejos que se lhe offerecessem de explorar algum ponto do paiz, ainda por elle desconhecido.

Este instincto levava-o frequentemente a Lisboa. As muitas relações do conselheiro, pae de Magdalena, com as familias da aldeia, e a barateza relativa das recovagens operadas por este meio primitivo, proporcionavam-lhe algumas occasiões d’isso, as quaes o Cancella de boamente aproveitava. Era de uma d’essas expedições que elle devia voltar aquella manhã, como o dava a entender a carta de Angelo.

Quando porém Augusto lhe bateu á porta, achou-a ainda fechada; escutou á fechadura, mas não pôde verificar o menor signal de que alguem estivesse dentro.

— É cêdo ainda — pensou comsigo. — Vejamos se estará em casa do compadre.

Seguiu mais para deante pela rua por onde viera. — A poucos passos mais, e do lado opposto, deparou-se-lhe outra casa de aspecto não menos rustico do que a primeira, uma pequena casa terrea, de uma só porta e uma só janella, e com o respectivo quintal ao fundo.

Do interior vinha um sussurro de vozes, como de conversa animada; julgando que seria o Cancella, de quem o proprietario era, além de vizinho, confidente e compadre, Augusto empurrou a porta, que estava apenas cerrada e entrou.

A primeira sala achou-a deserta. Era um aposento quadrado, todo adornado á volta de cruzes de pau, para as devoções da via sacra, e de imagens de santos e santas em caixilhos de todos os tamanhos. Mais do que os outros enramalhetado e enfeitado, via-se alli o bento registo de uma confraria, havia pouco tempo instituida na terra pelos missionarios, o qual occupava o logar de honra n’aquella devota exposição.

Era recente na aldeia o estabelecimento d’esta confraria, sociedade um tanto mysteriosa, por meio da qual seus interessados instituidores só visavam a dar o reino do céo aos filiados, contentando-se apenas, em paga, com o do mundo, do qual, lembrados de antigos tempos, teem saudades já. Os missionarios, certos evangelisadores em terras onde a palavra do Evangelho não é chave que abra a porta, pela qual entraram os martyres no céo, lá andavam por aquelle tempo, na aldeia onde se passa a acção d’esta historia, plantando a vinha, que elles chamavam do Senhor; as mulheres, abandonando os lares, seguiam-os como rebanhos; o culto catholico era por elles cada vez mais arrebicado com orações absurdas e ceremonias ridiculas, e o eterno anathema da ignorancia contra o progresso da sociedade servia de thema predilecto aos seus barbaros discursos.

Ardente proselyta d’estes apostolos de fé duvidosa, a sr.a Catharina do Nascimento de S. João Baptista, a metade feminina do casal em questão, tomára por modo de vida as devoções da igreja, onde ia chorar as desgraças da humanidade, que tão fóra via andar da estrada direita.

Augusto pouco se demorou n’esta sala; respeitando a alcova conjugal, que era vedada aos olhares profanos por uma colcha de chita de largas e folhudas ramagens, tomou pelo corredor, que conduzia á cozinha d’onde lhe continuava a chegar aos ouvidos o som de vozes, que primeiro o attrahira.

Ao contrario do que esperava, porém, só uma pessoa encontrou na cozinha, comquanto falasse com a vivacidade que em poucos dialogos se mantem.

Esta pessoa era o dono da casa, o sr. José do Enxerto, ou vulgarmente chamado ti’ Zé P’reira — nome que lhe vinha do popular e ruidoso instrumento, o classico zabumba, que nas nossas aldeias tem ainda hoje aquelle nome. — Era muito para vêr e admirar a mestria, com que o nosso homem o sabia tocar nas festas e arraiaes, á frente das procissões e cêrcos, e finalmente em todas as solemnidades publicas.

O ti’ Zé P’reira era homem dos seus quarenta e tantos annos; tinha no rosto, principalmente no nariz, vestigios evidentes das suas sympathias pela divindade celebrada nos antigos dithyrambos. Esposo da sr.a Catharina do Nascimento de S. João Baptista, vivia em perenne sabatina com a sua cara metade, sujeitando-lhe todas as suas acções, mas salvando sempre o direito de protestar pela palavra. Ganhava a vida no officio de hortelão e, aos domingos e dias de festa, á fôrça de rufos e pancadaria na retesada pelle do seu companheiro inseparavel — o zabumba. Era aos cuidados e vigilancia d’este par conjugal que o recoveiro Cancella confiava o seu mais precioso thesouro, a pequena Ermelinda, uma mimosa creança, que lhe ficára á sua viuvez tão cheia de saudades, e a quem elle mais queria do que á menina dos olhos.

Ermelinda era afilhada da familia Zé P’reira, e a mesma a quem ouvimos referir-se Angelo no fim da carta.

Zé P’reira estava, como dissémos, só na cozinha, quando Augusto alli chegou: sentado, no meio da sala, sobre um alqueire voltado com o fundo para o ar, viradas as costas para a porta e a face para o lar apagado e vazio, falava, gesticulava e mudava de tom desde a nota mais grave e rouca da sua escala de barytono, até o mais agudo e desafinado falsete. A lingua pegava-se-lhe ao céo da bôca, difficultando-lhe suspeitosamente a articulação de algumas syllabas; era evidente que se apossára do hortelão o espirito familiar, o qual n’este caso, era um verdadeiro espirito, na accepção chimica do termo.

Ze P’reira era um homem baixo, já grisalho, sufficientemente nutrido, de olhos vesgos e que mais vesgos se faziam quando o enthusiasmo, o rapto artistico se apoderava d’elle; usava de umas suissas que pareciam tentar sumir-se-lhe pela bôca dentro; tinha longos braços, accommodados ás difficuldades e evoluções da sua arte, e pernas que, do joelho para baixo, lhe divergiam em angulo de mais de trinta graus.

Quando Augusto deu com elle, o homem monologava, gesticulando:

— Ora, senhores, que é forte desgraça a minha!... É forte desgraça!... Aqui estou eu!... Um homem casado... casado á face da igreja... que me casou em dia de S. Thiago o abbade que foi... e que Deus tenha em descanço. Não faltou nada... correram-se banhos deante de quem os quiz ouvir, e não houve quem puzesse impedimento... porque eu não devia nada a ninguem... sempre fui liso de contas... Sou casado com a Catharina do Nascimento de S. João Baptista, filha do Antonio Canhestro, do logar dos Fójos... E casado para quê? Faz favor de me dizer? Para que casei eu?... Forte desgraça a minha! Casei-me para isso!... Para vir para casa e achal-a vazia, o lume apagado e o caldo na horta... e a mulher a papar missas e novenas lá por essas igrejas... Ora, senhores, que é forte desgraça a minha! É forte desgraça!... Bem morria eu de frio e de fraqueza, se não fôsse aquelle quartilhito... o ultimo, que sempre me deu sua aquella... sim... sempre me conchegou o estomago. Não que dizem que o vinho que faz, que o vinho que acontece... Pois casem-se com uma mulher que vá de madrugada para a igreja e venha de lá quando muito bem lhe pareça, e verão depois se o vinho não serve de cobrir muita lazeira que se soffre... verão depois... Ora, senhores, que é forte desgraça a minha!... Diz que Deus que disse, que a mulher que era a carne da nossa carne e o osso do nosso osso... Deus devia de vez em quando tornar a dizer estas coisas... para não esquecerem... como se faz na escola com a taboada. A minha Cath’rina já o não sabe, aposto... e pelos modos os padres não lhe dizem isto na igreja... pois deviam dizer!... A carne da minha carne e o osso do meu osso!... mas é carne e osso que me não fazem caldo... Ora, senhores, que é forte desgraça a minha!... Como ha de um homem, se isto assim continua, pegar na enxada para dar uma cavadela, ou fazer qualquer sachada?... E tambem quero vêr como hei de no arraial e procissão de Santo Amaro, que não tarda ahi, dar sequer um rufo assim mais tal... assim mais scientifico? Eu se fôsse bispo...

A caudalosa corrente d’este soliloquio foi interrompida pela apparição de nova personagem á porta do quintal.

— Deixe estar, meu padrinho, deixe estar; tenha um bocadinho de paciencia. É um instante emquanto accendo o lume e lhe faço o caldo. Verá.

A pessoa, que assim falava ao entrar para a cozinha, era uma rapariga de doze annos, alva e franzina, como a mais delicada creança da cidade, com os olhos negros e expressivos de intelligencia e de doçura, e com os mais formosos cabellos louros que ainda enfeitaram uma cabeça infantil. Não havia n’elles sombra, que desvanecesse aquella côr deslumbrante; reflectia-se-lhes a luz nas ondas, naturalmente lustrosas, como em tenuissimos fios de metal; usava-os soltos e caidos, sem vislumbre de artificio, de um e de outro lado do collo.

Condizia com a expressão angelica do semblante o suave e affectuoso timbre de voz com que falára.

O leitor prevê de certo que é Ermelinda, a filha do Cancella, ou Lindita, como geralmente na aldeia lhe chamavam, a creança que tem na sua presença.

Ermelinda sobraçava um mólho de hortaliça, que fôra colher ao quintal, e dirigia-se com ella para o lar, que o descuido e a indifferença conjugal deixavam ainda apagado áquella hora do dia.

Dando, porém, com os olhos em Augusto, parou, sorrindo-lhe.

— Ai, pois estava ahi, sr. Augusto?! E o meu padrinho talvez sem reparar.

A estas palavras o desditoso marido voltou a cabeça e fitou em Augusto um dos seus desemparelhados olhos.

— Olá, sr. Augusto! Viva! Passe muito bem! Entre; esta casa é sua... De jantar não lhe offereço... porque... porque... Forte desgraça a minha... Olhe! repare para este desaforo!... Venho para casa, morto de trabalho... e vejo o lar apagado! A minha mulher está a ouvir missa, a confessar-se, a commungar... a tomar todos os sacramentos... acho que os está a tomar todos... Louvado seja Deus! Vem ahi tão limpa de consciencia, como eu estou do estomago... Ora, senhores...

— Deixe estar, padrinho... Verá como isto se arranja depressa... Olhe; o lume já está accêso — dizia Ermelinda, accendendo effectivamente o lume no lar.

— Já o devias ter feito antes, Lindita, — disse Augusto, sentando-se junto d’ella.

— Mas se inda agora vim das prêsas, onde fui lavar a roupa?

— Pobre pequena — disse o Zé P’reira — tambem não te ha de faltar lazeira, tambem!

— A mim? Agora. Não que eu não saí de casa com as algibeiras vazias.

— Pois sim... mas é sempre preciso coisa que conforte... Inda se tu bebesses... já não digo um quartilho...

— Credo, meu padrinho! Que está a dizer?

— Que espanto!... Ora, senhores, que parece que o vinho é bebida amaldiçoada, que todos lhe teem mêdo! É vêr se o padre na missa...

— Padrinho! padrinho! que vae dizer? — interrompeu Ermelinda, quasi aterrada.

— Eu digo o que é verdade, rapariga!... Tenho minha presumpção de nunca dizer senão a verdade... Lá o pespeguei na cara do sr. juiz de direito e mais do sr. doutor delegado e mais doutores, quando fui a um juramento, por causa d’aquellas pancadas no recebedor... É que nenhum d’esses santalhões, d’esses missionarios me teem que ensinar n’esse ponto... Os missionarios!... Eu, um dia, tiro-me dos meus cuidados e dou-me ao trabalho de lhes ir perguntar, quando elles estiverem no pulpito, se Deus lhes manda que tirem as mulheres de casa, para que os maridos não tenham que comer, quando voltarem do trabalho... Um dia inda lhes vou perguntar... isso vou...

— Olhe; a agua não tarda a ferver; verá que dentro em pouco... — continuou Ermelinda.

— Bem, Lindita, bem — disse Augusto — em paga da boa vontade, com que trabalhas, vou dar-te uma alegre nova.

— A mim? Diga.

— Trago-te visitas de alguem, que em poucos dias te dará em vez de visitas, um abraço.

— De quem? Ah!... Angelo escreveu-lhe?

— Como adivinhaste depressa!

— Pois de quem mais havia de ser? Mas diz que... em poucos dias... Então?

— Tel-o-hemos cá pelo Natal.

— Fala verdade?

— Assim m’o diz n’esta carta. Queres ler?

— Para quê? — respondeu a rapariga, fitando porém o papel com os olhos cheios de curiosidade.

— Ora lê, lê... Até para vêr se ainda te recordas das lições, que eu te dei.

— Ai, lá isso... mas, o caldo do meu padrinho...

— Deixa que o lume é que o ha de aquecer e não a tua presença.

Ermelinda approximou-se; tomando a carta das mãos de Augusto, começou a lêl-a com intensa curiosidade.

Zé P’reira proseguiu no seu monologo:

— A religião, senhores — dissertava elle — não manda tal... Isso é que não manda... A religião é a palavra de Deus... e Deus disse... sim... Deus disse... Deus disse muita coisa... Disse que por este deixarás pae e mãe. Ora a santa madre igreja é mãe, é, sim, senhores; que tem lá isso? mas não é mais mãe do que a outra mãe... e então... senhores, uma mulher não deve deixar por ella o seu marido; porque o marido, senhores, é o tudo de uma casa, e o ganhapão da familia. Ora, senhores, que é forte desgraça.

O monologo do desconsolado conjuge e a leitura de Ermelinda foram interrompidos por uma voz potente, que cantava na rua.

 

O dinheiro paga tudo,
Não se fica a dever nada;
Toma, toma o limão verde,
Ó da fresca limonada.

 

E logo em seguida estalaram as taboas do soalho no corredor sob uns passos pesados e ruidosos, e no limiar da porta da cozinha desenhou-se a figura agigantada e herculea do recoveiro Cancella, pae da Ermelinda. Cancella, ou o João Herodes, que assim tambem lhe chamavam por ter creado, nos autos em que era actor applaudido e popular, o typo do sanguinario e infanticida rei da Judéa, fôra pela natureza dotado de uma estatura e robustez, dignas de Adamastor.

Encontrava-se n’elle uma d’essas felicissimas realisações dos temperamentos sanguineos que, sem ameaçarem de insultos apopleticos, dão riqueza ao sangue, vigor aos musculos e á physionomia o aberto e colorido da saude e os reflexos da satisfação interior.

A barba negra e espessa cercava-lhe as faces córadas, e o natural fulgor dos olhos parecia augmentado sob o duplo arco de bastas sobrancelhas, que, quando contrahidas, os rodeavam de sombras ameaçadoras, d’onde fuzilavam relampagos. Era formidavel então!

O riso pairava-lhe porém, nos labios, quando na presença de amigos, descobrindo-lhe duas fileiras de alvissimos e bem dispostos dentes, d’esses que os excessos e absurdos culinarios ainda não deterioraram.

Parando á porta da cozinha, o Herodes (ás vezes lhe chamaremos assim, cedendo ao geral costume na aldeia) procurou com a vista alguem, que mais que tudo trazia na memoria — a filha. — Esta, pela sua parte, mal o reconheceu, correu a lançar-se-lhe nos braços.

O pae pegou n’ella, como se fôsse uma penna, levantou-a á altura dos labios e pousou-lhe nas faces dois sôfregos e ruidosos beijos, ainda palpitantes de todo aquelle intenso amor paternal.

— Ah! — exclamou, pousando-a no chão e respirando como quem acabava de satisfazer uma intensa necessidade do coração. — Isto consola que nem o copo de agua que a gente, em dias de calma, pede á borda da estrada, quando se leva a bôca secca e queimada de poeira! Mais do que isso me sabem estes dois beijos que te dou, pequena. Que querem?... Ó sr. Augusto! tambem por cá?

— Esperava-o, Cancella.

— A mim? — continuou o homem, pousando no chão uma mala que trazia. — Pois aqui me tem. Mas, dizia eu, um homem quando anda lá fóra, e pensa no que lhe irá por casa, sente ás vezes uns sustos, que parece que lhe fazem tudo escuro... As desgraças, para succederem, não põem muito... De um momento para outro... E depois a gente ouve por lá conversas, vê coisas que parece que são agouros... e que nos fazem a noite no coração... Umas vezes é um enterro... outras, um desastre... um fogo... um... E as creanças sós, e os paes fóra de casa!... Ai! Isto é de ralar o coração de uma pessoa... Eu bem sei que em boa companhia me fica a pequena. Aqui o compadre, tirante lá a sua aquella pelo sumo da uva... Quantos foram já hoje, compadre, hein?... mas, tirante isso, é homem de bem: a comadre é uma santa, que só tem o defeito de querer ser santa devéras... mas emfim... tudo isso não obsta; uma coisa é uma pessoa saber o que lhe vae por casa, outra... Tremem-me as pernas sempre que entro na aldeia. A primeira alma de Christo, que encontro, estou sempre a vêr quando me vem dar alguma nova má. Salta-me cá por dentro o coração, que ninguem faz uma ideia; eu bem canto a vêr se disfarço, mas... Ai, filha da minha alma, quando me passa pelo pensamento que te posso um dia vir achar doente!... Assim me succedeu com tua mãe... Deixei-a uma vez tão satisfeita e alegre, e vae, quando voltei, a primeira pessoa que encontro, diz-me á queima-roupa: «Venha, sr. João, venha, que já não vem sem tempo. Corra a casa, se ainda quer vêr sua mulher...» Foi como se recebesse uma descarga em cheio no peito... corri, e...

A commoção impediu-o de continuar; disfarçou como envergonhado d’aquella fraqueza, beijando a filha outra vez.

Ermelinda percebeu a perturbação do pae e disse-lhe carinhosamente:

— Para que está agora a pensar n’essas coisas que o affligem, meu pae?

— Deixa-me cá, rapariga. Isto ás vezes tambem faz bem. Mas, por isso, quando entro em casa e te vejo, pequena, e te vejo com boas côres e alegre... nem eu sei o que tem mão em mim, que não me ponho a dançar. Ah!... ah!... Ninguem tem uma filha como eu! Olhe que não, sr. Augusto; mal fica a mim dizel-o, mas... Lá por Lisboa e por o Porto ha muita menina galante, isso ha; muita inglezinha loura, bonitas como anjos, mas cabellos assim dourados? — e passava com orgulho os dedos pelos bastos cabellos de Ermelinda — mas uma pelle assim delicada, — e afagava-lhe com as mãos a face, quasi a mêdo — mas olhos assim a metterem-se mesmo pelo coração á gente? — e beijava-lh’os com paixão — isso é que eu ainda não vi, nem tenho de vêr. Como o Senhor concedeu um anjo d’estes a um selvagem como eu, é que não sei... É a imagem da mãe!... Ella tambem era poucochinho de si... miudinha e... Mas não pensemos n’estas coisas. Sim, senhores; eis-me aqui outra vez, e por signal com a minha vida por arranjar e eu posto á taramela. Trago-lhe uma encommenda, sr. Augusto, e muitos recados, muitos.

— Já sei; Angelo escreveu-me.

— Escreveu? Ah, sr. Augusto, que rapaz aquelle! Aquillo é uma perola! Com tres milheiros de demonios do inferno! d’alli ha de sair coisa grande. Eu não queria morrer sem vêr o que saía d’alli. Brinca como uma creança, mas, quando quer, põe-se sério, e fala como homem. E nada de soberbas, nem de ares enfastiados, como tomam aquelles senhores da cidade, quando conversam com uma pessoa rustica... Qual historia! Elle tudo quer saber, tudo pergunta... isso é um nunca acabar, quando lá me pilha... Então como vae fulano? e sicrano? e se já se fez aquella casa, e se já acabou aquella obra, e se já casou este, e se inda vive aquelle, e mais para aqui, e mais para acolá, e tudo quer muito explicado... Ah! ah! ah!... tem diabo o pequeno... Pois cá a respeito da rapariga?... Isso é uma comedia!... Não se farta de me ouvir falar d’ella... Ah, sr. Augusto, ás vezes chego a ter pena de que isto nascesse minha filha.

Ermelinda fitou o pae com olhos espantados.

— Sim, filha, — proseguiu elle. — Deus não te devia dar a um homem como eu, que emfim... Com os diabos! lá alma e coração... não quero que haja ahi quem me leve a barra adeante. Eu por um amigo... e com mil demonios, até por um inimigo, se não fôr soberbo, vamos lá, dou a camisa do corpo... Mas o mundo... Bem, bem, eu cá me entendo. Vamos á minha tarefa. Mas que tem você estado para ahi a prégar, compadre, desde que eu entrei? Humh! humh! parece-me que já se cantou a gloria, hoje, visto que já se está ao sermão.

Effectivamente Zé P’reira tinha apenas concedido ao seu compadre um olhar de distracção e um aceno de mão, e voltára de novo ás suas queixas amargas contra a sorte e contra a esposa.

Interrogado pelo Herodes, Zé P’reira reproduziu uma das suas lamentações; o compadre, emquanto desenfardelava a mala, ia cortando com reflexões proprias essa longa jeremiada.

— Então com que a ti’ Zefa deixou-o sem caldo, hein? É mal feito, a falar a verdade. Lume apagado em casa de familia é coisa triste... Aqui está um livro para si, sr. Augusto... Mas deixe lá, compadre, que a minha pequena arranja-lhe n’um ai algumas berças... Tambem eu estou em jejum desde as cinco horas da manhã... mas estes missionarios! Ah! com seiscentas mil duzias de demonios, eu ainda queria um dia...

— Deus nosso Senhor seja n’esta casa — disse uma voz gemida á porta da cozinha.

— E o demo na do abbade — resmungou Herodes.

Era a sr.a Catharina do Nascimento de S. João Baptista, typo de beata, que dispensa descripção, que regressava a casa depois de completar o cyclo das suas devoções.

— Viva a comadre! — disse o João Cancella, continuando a mexer na mala.

Ermelinda foi beijar a mão á madrinha.

Augusto saudou-a affavelmente.

O marido obrigou o corpo a uma meia rotação sobre o alqueire, e, voltando-se para a mulher, disse-lhe, agitando os braços e as mãos, espalmadamente abertas:

— Mulher dos meus peccados, mulher de não sei que diga, olha que a paciencia um dia acaba-se, mulher! Isto não pode continuar assim, mulher! Eu não me casei para que tu me andes a ganhar indulgencias na igreja, mulher!... Isto são preparos, mulher?... Um homem chega a casa e acha o caldo por fazer, porque a senhora sua esposa deu em ouvir nove missas por dia e uma duzia de novenas!

— Cala-te, cala-te, — retorquiu azedamente a devota metade do Zé P’reira — cala-te para ahi, desalmado. Excommungado seja o mafarrico, que assim me quer attentar logo que entro em casa! Olha lá que não morresses de fome! Estás mal acostumado. Louvado seja Deus! Já não ha quem queira soffrer n’este mundo mortificações! cuidas que não tens de soffrer as do purgatorio? E Deus nos queira dar só o purgatorio e livrar-nos das penas do inferno. Que muito mal fazemos por lhe merecer misericordia! Ora que não ha de uma pessoa poder ter as suas devoções, que não venha encontrar lamurias em casa! Ó minha rica Mãe do céo, seja para desconto dos meus peccados! Sume-te, inimigo mau! E eu que deixei de rezar oito estações, que prometti á Senhora da Rocha, e vae... Ora digam como ha de esta gente cumprir os jejuns que manda a santa madre igreja, se, por duas horas de espera, já se choram todos! Bemdito e louvado seja o sacratissimo coração de Maria! Ó homem de Deus, e então aquelles santos eremitas, que viviam no deserto de raizes e de agua das fontes...

— Que lhes prestasse. Haviam de andar muito gordos. Eu queria-os vêr com uma enxada a trabalhar todo o dia no campo, e que lhes dessem depois raizes para roer, a vêr se gostavam. Ora, senhores, que é forte desgraça a minha! Mulher, a religião manda que olhemos pelo nosso cadaver. É má christã a mulher que deixa o seu marido na penuria. Isto é que os padres deviam ensinar. Vae-lhes lá perguntar se, quando chegam a casa, não teem a sôpa e o toucinho á espera d’elles?

— Cala-te, tentador, que me andas a tentar, cala-te, tem vergonha n’essa cara. Olha agora! Eu queria vêr-te com o trabalho do sr. padre Domingos. Coitadinho! desde as cinco horas da manhã até agora a confessar!

— Confessar é parolar; ora adeus!

— Tu estás doido, alma perdida?!

— E cuidas que elle não leva marmelada nos bolsos?

— Ó chagas do seraphico S. Francisco, ainda mais terei de ouvir?!

— Mulher, deixemo-nos de historias; com jejuns ninguem engorda. Só os santos... de pau.

— Vamos, vamos — disse o Herodes, intervindo. — Não vale zangarem-se por causa d’isso. A minha pequena deve ter o caldo quasi feito. Comam-o em santa paz e deixem-se de testilhas, que não é bonito; e muito menos entre marido e mulher. Você, compadre, tambem tem culpas em cartorio; vamos lá. Ha por ahi umas certas capellas, onde passa tambem bastante tempo em devoção; emquanto á comadre, acredite o que lhe digo: a palavra de Deus não é tão difficil, que uma pessoa precise de estar tanto tempo a ouvil-a explicar. Eu cá penso que, fazendo a gente aquillo que lhe diz o coração, e que não sente nenhuma aquella em fazer, vae por caminho direito. E maïs vale fazer o que Deus manda, do que levar a vida a pedir perdão por o não ter feito. E tambem não é bonito estarem agora as mulheres, horas e horas, pegadas ao confessionario, como lapas nos rochedos, nem...

—­Compadre!—­atalhou escandalisada a sr.^a Catharina—­compadre! É essa a educação que dá á sua filha? São coisas que se digam deante de uma creança de doze annos? Ande lá, ande lá... Ora Deus queira que lhe não encontre ainda o pago. Era bem melhor que lhe ensinasse, où mandasse ensinar, a doutrina; que é mesmo uma vergonha o pouco que sabe d’ella.

—­Bem tenho eu tempo para isso. A minha Ermelinda não deixa passar pobre á porta, a quem não dê esmola; creança que não afague; velho où velha, que não corteje; reza todas as manhãs a oração, que a mãe lhe ensinou, o Padre-Nosso e a Ave-Maria, onde se diz tudo o que se deve dizer a Deus; de dia trabalha, como filha de pobre que é, e mulher de casa que ha de ser... O Senhor me perdôe, se maïs é preciso ainda, que maïs não sei eu ensinar-lhe.

—­Não tenha soberbas, compadre, não tenha soberbas! E cautela com o mimo que dá á pequena, que é o que perde muitas almas.

—­Que mimo, que mimo? Logo eu com este genio de repentes é que hei de dar mimo a está pobre creança, que nem o da mãe conheceu!

—­Ora diga, compadre, acha que é muito bem feito, da sua parte, deixar andar a rapariga com esses cabellos soltos? Não sabe que o demonio... cruzes! arma com elles laços ás almas das creaturas?

—­Fracas prisões são as do diabo, se as forja só de cabellos!... Então, por causa das tentações é que a comadre rapou os seus? Ah! ah! Tem coisas! É teima velha! Eu já lhe disse, comadre: Deus, que deu á pequena esses cabellos tão bonitos, é porque lh’os quiz dar. Se quizer, que lh’os tire, eu é que não.

—­Deus cerca-nos de tentações, para que nós as vençamos.

—­Forte tentação venceu a comadre! aposto que os não cortaria assim, se os tivesse como os da minha Ermelinda, hein! Cortar os cabellos á minha filha, eu?! fazer d’aquella cabeça de cherubim uma d’essas cabeças tosquiadas, que por ahi andam!

—­Talvez ainda se arrependa!

—­Deixe lá, comadre. O que eu vejo é que, junto de Deus e da Virgem, se pintam anjos, como a minha pequena, e não figuras... respeitaveis, como a da comadre; ora então...

A beata, apesar de trazer sempre na memoria o Vanitas vanitatum do Ecclesiastes, não foi inteiramente insensivel ao remoque do compadre. Azedou-se-lhe o humor, e, voltando-se para Ermelinda, disse-lhe como para descarregar sobre ella a má vontade com que estava ao pae:

—­Sae-te p’ra lá. O senhor meu homem tinha muita pressa de jantar! Deixar assim uma creança fazer uma fogueira d’estas! Nem para assar um boí! É preciso não ter consciencia.

E tirou do lume um pequeño cavaco, para justificar o dicto.

Zé P’reira monologava ainda. Augusto continuava examinando o livro recebido.

Ermelinda afastou-se do lar com timidez. No animo d’aquella creança, que era de uma organisação nervosa, excepcional na aldeia, exercia a beata uma especie de fascinação, um mixto de respeito e de terror, capaz de dissipar todos os risos dos seus labios infantis. Era outra na presença da madrinha, fitava-lhe nas faces descarnadas e macilentas os bellos olhos negros; seguia-lhe, quasi assustada, o movimento dos labios austeramente contrahidos; tremia ao escutar-lhe a voz aguda e penetrante, falando nas peñas do inferno; chorava á menor reprehensão que d’ella recebia, e comtudo amava-a, amava-a, porque Ermelinda na sua candura de creança, suppunha a madrinha uma santa; avultavam-lhe, como virtudes beatificantes, os defeitos da devota velha; a innocente julgava-se uma grande peccadora quando, depois de ter na mente aquelle perfeito typo, voltava a olhar para si, para o fundo da sua consciencia; e que negros e hediondos peccados lá encontrava! Uma pequena mentirà que dissera; um domingo em que faltou á missa; um juramento que, sem o sentir, lhe saira da bôca; um jejum que não guardára, e outros crimes da mesma fôrça. A amedrontada creança chegava a receiar pela salvação da alma.

É sempre funesta a influencia que exercem sobre a infancia os caractères como os da beata.

O Herodes percebeu a impressão sob a qual estava a filha e acudiu-lhe.

—­Toma lá, Ermelinda—­disse elle, tirando da mala uma pequena medalha com um retrato.—­É um présente do nosso amigo Angelo para nós, où antes, para ti...

Ermelinda pegou no retrato com não reprimido alvoroço. Era outra vez a creança.

A madrinha lançou para a medalha um olhar obliquo e reconheceu o retrato.

—­Em nome do Padre e do Filho e do Espirito Santo!—­rompeu ella, com um espanto exaggerado.—­Este homem não tem a cabeça no seu logar, por maïs que me digam! Elle quer perder a filha de certo! A fazer a cabeça doida a uma creança!

O Herodes, ouvindo estás palavras, pousou com impeto a mala no chão, e com os olhos chammejantes e as faces injectadas, vociferou, cedendo o campo á cólera, que se lhe accumulou no seio:

—­Com seiscentos milhões de diabos! Você que está ahi a dizer, mulher? São os sermões dos missionarios, que lhe teem assim afiado a lingua e deitado peçonha na baba? Com effeito! Saiba que dou maïs pela creança, de quem é aquelle retrato, do que por quantos sotainas lhe ouvem os seus peccados todas as semanas e por quantas beatas andam comsigo a dar marradas no lagêdo da igreja. Fazer a cabeça doida á minha filha! Tenha mão na lingua, comadre, que lhe não soffro tanto. Doida lh’a trazem a vossemecê os missionarios e os sermões. Seu marido fôra eu, que a mania lhe tirava.

O Zé P’reira, apesar dos seus desgostos domesticos, zelava a dignidade do casal; e não levava á paciencia que outro, além d’elle, dissesse d’aquellas verdades á mulher; por isso, ouvindo-as, através dos sonidos que lhe chiavam nos ouvidos, levantou-se, e sustentando-se nas pernas vacillantes, e bracejando sempre, bradou:

—­Compadre! Eu sei quaes são os meus deveres! Compadre, prudencia!... Compadre, eu não consinto... Ora, senhores, que é forte coisa! Compadre!... veja que eu é que sou aquí o chefe da familia e está é minha mulher! Pschiu... Basta... Compadre... basta. Então? Ora, senhores.

Mas o Herodes já nada attendia; cada vez maïs lhe crescia a vermelhidão nas faces; a irritação romperà os diques da cordura e ameaçava engrossar cada vez maïs. Ás exclamações de Zé P’reira respondia já azedamente.

—­Ora adeus, temos conversado... Seja homem, que bem precisa... Não basta dar á lingua... Na taberna não é que se governa a casa...

A sr.ª Catharina abstinha-se agora prudentemente.

Ermelinda, pallida, a tremer, abraçou o pae, quasi chorando.

Augusto, que fôra alheio ao principio da contenda, conheceu emfim que precisava de intervir. Saiu-lhe difficil a empreza.

Ensurdeciam os ouvidos dos contendores, a um o sangue, a outro o vinho.

Depois de muito custo, conseguiu emfim apazigual-os. Deram-se mutuas satisfações, e separaram-se apertando as mãos.

Augusto retirou-se com João Cancella e Ermelinda.

O par conjugal ficou, renovando-se cêdo entre elles a interminavel contenda em que viviam.