A Morgadinha dos Canaviais/XXV

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A Morgadinha dos Canaviais por Júlio Dinis
Capítulo 25


XXV


Era uma perspectiva profundamente melancolica a do cemiterio da aldeia por aquella tarde de inverno!

Imagine-se um campo plano e raso, onde vegetavam algumas roseiras de toda a estação, e a murta e a alfazema, vivendo a custo n’aquelle solo ingrato, que havia pouco alimentava apenas urzes, tojeiras e pinheiraes. No centro d’este espaço elevava-se, singello, mas élégante, o tumulo da familia do Mosteiro, sobre o marmore do qual pousavam tristemente os ramos flexiveis de um salgueiro chorão, e nos cantos principiavam a erguer-se, como obeliscos funerarios, quatro jovens cyprestes ponteagudos. Para além do muro, que circumdava este terreno, estendia-se um vasto pinheiral, através de cujos troncos, confusamente cruzados, se podia ainda divisar ao longe uma où outra casa da aldeia, e o verdor dos campos e pomares. A igreja parochial erguia, a pequena distancia d’alli, a grimpa do campanario, e o sussurrar dos desfolhados álamos do adro, agitados pelo vento, ainda chegava áquella estancia mortuaria.

A tarde tinha um d’estes aspectos ameaçadores, que deixam presentir a tempestade; d’estas serenidades insidiosas, interrompidas, de quando em quando, por uma subita viração, que faz revolutear na estrada as folhas sêccas como em espiraes phantasticas. O céo pintára-se do colorido melancólico e triste, que em alguns quadros de Annunciação tão fielmente se vê reproduzido. Estava quasi todo coberto; só muito para o occidente uma estreita zona se conservava limpa de nuvens, mas n’ella mesmo o azul recebia, do contraste das côres vizinhas, um cambiante quasi esverdeado. As nuvens inferiores, acima das quaes passavam os raios do sol, tinham o aspecto rôxo-livido, que o avizinhar da noite ia tornando mais carregado; no mais alto da abobada, as superiores, illuminadas ainda, apresentavam reflexos amarellados que cada vez se afogueavam mais.

Para o oriente haviam-se fundido os nimbos em uma massa unica, uniforme, cerrada, como uma abobada metallica, cujo livor imitava. De quando em quando cruzava os ares uma ave de vôo rapido, soltando pios angustiosos.

Era a esta hora que devia effectuar-se o enterro de Ermelinda.

Estava já aberto o jazigo da familia do conselheiro, aguardando a infeliz creança.

Os padres cantavam na igreja, e o sino repicava, como de festa, saudando a entrada de mais uma alma sem culpas no gremio dos anjos.

Á porta da igreja, no adro e no cemiterio estacionavam alguns ociosos; muitos acercavam-se do sepulcro, movidos pela curiosidade que a nova fórma de enterro lhes suscitava.

As murmurações, comquanto menos manifestas aqui do que na taberna do Canada, nem por isso faltavam.

Até da porta da igreja para dentro, até de joelhos, até de contas na mão e olhos fitos no altar, os murmuradores existiam. Velhas beatas clamavam assim a justiça celeste sobre os impios do seculo, que não queriam enterrar-se no chão sagrado da igreja. Junto da pia da agua benta, aspergindo-se, persignando-se sobre a bôca, para que Deus livrasse de peccar por palavras, n’essa mesma occasião, ellas entoavam os seus threnos e maldiziam dos reformadores, sobre quem chamavam as penas do inferno.

Havia tambem no grupo alguns que conferenciavam em voz baixa e se entreolhavam de maneira mysteriosa, fitando ás vezes os caminhos proximos, como se d’alli aguardassem alguma coisa.

A morgadinha viera junto ao tumulo despedir-se da filha do Cancella.

Christina ficára a fazer companhia a D. Victoria, que se achára adoentada.

Segundo o costume de algumas aldeias, Ermelinda devia ser acompanhada á campa por creanças quasi da mesma idade, vestidas como para festas. Uma d’ellas era a pequena Marianna, a irmã mais nova de Christina; as outras, raparigas das vizinhanças, que as senhoras do Mosteiro tinham por suas proprias mãos vestido e enfeitado. O enterro fazia-se com extraordinario apparato, não só em honra da familia do Mosteiro, mas para desvanecer a má impressão dos animos populares por meio da pompa religiosa.

Era digno do pincel de um artista, a quem a poesia das scenas campestres ainda inspirasse, o cortejo ao mesmo tempo melancolico e risonho, que, saindo da igreja, se encaminhava lentamente para o tumulo onde Ermelinda devia ser sepultada.

O sol quasi a desapparecer sob o horisonte, entrava na estreita zona, que as nuvens não toldavam.

A paizagem inundava-se agora de luz, mas de uma luz froixa, amarellada, que dá ao verde da relva e das frondes das arvores uma maior intensidade.

A cruz de prata que arvorada por um homem de opa, abria o cortejo, reflectindo aquelles raios amortecidos, brilhava como cingida de uma verdadeira auréola. Seguiam-se alguns padres de sobrepeliz e batina, recitando as orações da occasião; entre estes havia um de aspecto venerando, curvado pelos annos, de physionomia bondosa e pensativa. Era o cura, santo e respeitavel ancião que, em vez de exacerbar os preconceitos do povo contra os enterros, no cemiterio, antes energicamente os combatia e censurava.

Depois vinha em caixão aberto, e no meio de uma numerosa companhia de creanças, Ermelinda, a quem a pallidez da morte não dissipára a formosura. Dir-se-ia apenas adormecida. Trazia nos labios o sorriso da innocencia. As mãos cruzavam-se-lhe naturalmente sobre a tunica alvissima que a cingia, a mesma com que apparecêra no auto, e a cabeça, cercada por uma singella corôa de flores, conservava a graciosa inclinação que lhe era habitual em vida.

As creanças do acompanhamento tinham sido escolhidas, por Magdalena e Christina, entre as mais gentis da aldeia.

Era uma cohorte de cherubins humanados, qual d’elles mais louro e mais formoso.

A morgadinha precedêra o cortejo e viera esperal-o junto do tumulo. Com o braço apoiado na pedra sepulcral, e a fronte encostada á mão, seguindo melancolicamente com a vista a vagarosa procissão que entrára no cemiterio, dissera-se uma estatua primorosa, cinzelada por mão de inspirado artista, para symbolisar junto do tumulo a saudade pelos que morrem.

Cada vez se ouvia mais perto o latim dos padres; o coveiro viera já occupar a posição que lhe competia; estreitou-se o circulo dos curiosos em volta da campa. A cruz parou junto dos degraus do tumulo; os padres abriram alas e as creanças encaminharam-se, por entre elles, para a borda da sepultura.

O abbade molhou o hyssope na caldeira, para aspergir a cova.

Uma imprevista occorrencia mudou, porém, o aspecto da scena.

Havia já alguns momentos que começára a ouvir-se um vago rumor, que tanto podia ser do vento na rama dos pinheiraes, como de multidão que se approximasse em tropel.

As conferencias solapadas de algumas personagens dos grupos tinham-se activado ao ouvil-o. Pouco a pouco principiou a mover-se alguma coisa por entre os troncos do pinheiros; tornaram-se distinctas uma, duas, tres e muitas figuras de homens, correndo em direcção ao cemiterio, gesticulando, berrando, soltando ameaças, algumas das quaes já a distancia a que elles vinham permittia ouvir claramente.

Não era difficil adivinhar a significação d’aquillo. A questão vital do dia era, para todos os espiritos, a dos enterros, em campo descoberto; a cada momento se falava em motim prompto a organisar-se e a rebentar. Ficava pois evidente que tinha chegado a ocasião da crise popular já antevista.

Cêdo invadia o cemiterio um bando de furiosos, desorientados, de aspecto feroz, berrando e brandindo ameaçadoramente paus, fouces, chuços, e todas as peças do extravagante arsenal, a que o homem do povo recorre sempre ao chamamento da arruaça ou da sedição.

Era o bando dos influentes da taberna do Canada, de cujo proposito estavamos prevenidos; agora, porém, já engrossado, como a corrente a que no caminho se incorporam as aguas dos algares.

Entre os primeiros vinha o sr. Joãozinho das Perdizes, e ao seu lado o factotum Cosme.

Estes, enraivados, correram para o logar onde parára o enterro, bradando em confusão:

— Alto lá! alto lá! Ninguem se enterra aqui!

— Esperem! Isso não vae assim!

— Não façam a festa sem nós!

— Fóra com os do cemiterio!

— Morram os pedreiros-livres!

— Para a igreja!

— Enterre-se na igreja!

— Olá, sr. abbade, espere por nós!

— Aqui vamos para abençoar a cova!

E n’um momento o cortejo funebre viu-se rodeado de figuras avinhadas, gesticulando e vociferando pouco tranquillisadoramente.

O cruciferario e os padres, á excepção do velho que dissemos, abandonaram o posto; as creanças, pousando no chão e abandonando o esquife de Ermelinda, correram a acercar-se de Magdalena, amedrontadas e chorosas.

A morgadinha conservou-se junto do tumulo da mãe, olhando com serenidade para os revoltosos, mas intimamente sobresaltada. E no meio do grupo o cadaver de Ermelinda, com aquelle sorriso nos lábios, como de anjo que já de longe estivesse vendo o desencadear das paixões humanas, e rindo de piedade.

O velho cura foi quem interrogou com voz firme e severa os amotinados.

— Que querem d’aqui? — perguntou elle, fitando-os — com que fins vieram perturbar, com desordens da taberna, as cerimonias religiosas?

— Não queremos que ninguem se enterre no cemiterio — respondeu o sr. Joãozinho.

— É verdade! é verdade! ninguem se enterra aqui! — confirmaram differentes vozes.

— Por quê? — continuou o padre — julgam que Deus não receberá as almas, cujos corpos não estejam lá dentro, a apodrecer sob os telhados da igreja e a envenenar o ar que se respira lá?

— Não queremos saber de contos. Não queremos. Já disse!

— Eu não lhes reconheço o direito de querer.

— Ora o padre mestre tem vagares! — disse o façanhudo Cosme — e tu pachorra para escutal-o, João. Para isso não foi que viemos. Sermões para a quaresma. Vamos! cante lá os seus reponsos e latinorio, e ande-me para a igreja. Vamos nós fazer o enterro. Ó Manoel coveiro, traze a enxada e vem d’ahi.

E dizendo isto, o Cosme já se abaixava para levantar o caixão em que jazia Ermelinda.

— A justiça de Deus caia sobre o impio, que com as mãos impuras tocar n’esse cadaver, que está abençoado pela Igreja!—­exclamou o velho, indignado e com um metal de voz vibrante e terrivel.

Na aldeia os homens maïs endurecidos não são superiores á intimação religiosa. O Cosme retirou a mão, como se receiasse que a imprecação do padre se cumprisse alli mesmo.

Houve uma momentanea quebra no furor popular; um d’estes momentos de hesitação, que tão fataes são ao éxito das revoluções democraticas; ninguem se sente com coragem de erguer o novo grito, e quasi todos procuram esconder-se, como envergonhados já do primeiro impeto.

Mas a primeira onda não é a maïs temivel; os primeiros bandos populares, que sáem á rúa, soltando o grito de revolta, são ingenuos no meio da sua quasi selvagem ferocidade; entregues a si, cêdo espontaneamente se dariam por vencidos; fácil seria subjugal-os. Mas, quando esses poucos momentos, em que tumultuam sem pensamento que os dirija, não são os precisos para ficarem esmagados sob a repressão do poder; quando o grito sedicioso, em vez de sacrificar estes revolucionarios, quasi candidos, mandados por os cautos para tentar a opportunidade da occasião, apparenta sortir effeito, où porque satisfaz uma aspiração legitima das massas, où porque lisonjeia um falso preconceito d’ellas, vem então a segunda onda, maïs ordenada, mas maïs terrivel, porque não é a embriaguez do motim que a impelle, é a ideia fixa, o pensamento reservado, o plano de antemão traçado e urdido no mysterio e na sombra. Vem então reforçar-a primeira, insufflar-lhe o alento que está não tem de si, e amparar-se com ella dos golpes dos inimigos. Se a tentativa não vinga, retiram-se antes que, derrubada a vanguarda, fiquem a descoberto; mas se a sorte os favorece, deixam cair os primeiros como víctimas, e no campo da victoria adeantam-se então a colher os trophéos conquistados.

Foi assim que, no momento em que o bando capitaneado pelo morgado das Perdizes, ia ceder, um pouco subjugado pela figura solemne e a palavra severa do venerando cura, saiu da igreja uma singular procissão.

Á frente vinha o estandarte da confraria erecta pelo missionario; este seguia-o, e atraz d’elle os seus confrades e sequazes, no numéro dos quaes se encontravam padres e mulheres.

A hoste do sr. Joãozinho sentiu-se reanimar com este refôrço.

Um grito unisono saiu dos labios de todos ao ver a procissão.

—­Viva o missionario!

—­Viva o santo!

—­Abaixo os pedreiros-livres!

E os do bando do estandarte correspondiam a estás saudações, dizendo:

—­Abaixo os maçonicos!

—­Morram os jacobinos!

—­Viva a santa religião!

Mais uma vez este brado augusto, que deveria proclamar o perdão das injurias, o amor reciproco, a caridade indistincta, era profanado por o fanatismo e por a hypocrisia, e manchado pelo sophisma de seculos, o mesmo sophisma que maculou os feitos de armas dos passados guerreiros da christandade.

A embriaguez da revolução apoderou-se de novo do morgado das Perdizes. Duas influencias inebriantes lhe disputavam agora o cerebro, que não fôra nunca dotado, de grande fortaleza contra as paixões.

Palpitava-lhe o coração, quando se imaginava caudilho de um movimento popular.

Sentia a necessidade de se fazer notavel por um feito heroico.

—­Não se consentem aquí enterros, e principiemos já por deitar abaixo estás pedras—­bradou elle, apontando para o tumulo da familia do conselheiro.

—­É verdade! é verdade! Abaixo! abaixo!

—­São invenções dos pedreiros-livres!

—­É isso, é isso... Pois não vêem que são de pedra!

—­Abaixo! Abaixo!

O sr. Joãozinho, arrojando de si o chicote, tirou um machado das mãos de um homem que lhe ficava proximo, e deu alguns passos para o tumulo.

Magdalena collocou-se deante d’elle.

Já não estava pallida; tinha nas faces o rubor, nos olhos o lampejar da indignação.

—­Afaste-se, senhor!—­bradou ella, estendendo a mão para o ébrio, que parou a fital-a com olhos espantados. Nem sequer pouse os pés nos degraus d’esta sepultura. Aquí repousa minha mãe. Atraz!

A figura, o olhar, a voz, as palavras de Magdalena exprimiam uma das resoluções energicas e potentes d’aquella indole sympathica, que aos affectos e branduras de mulher sabia combinar a firmeza e energia quasi varonis.

O morgado sentiu uma vaga consciencia da sublimidade d’aquella scena, e ficou enleado.

Porém o Cosme, o seu genio mau, não sei que lhe murmurou ao ouvido, que elle desatou a rir a maïs alvar gargalhada que ainda escancarou bôca humana.

Estendendo para Magdalena a mão callosa e grosseira, disse-lhe, com um sorriso que tinha tanto de cynico como de estúpido:

—­Está dito! Toque! Gosto d’esse desengaño! Toque!

Magdalena repelliu-o com despreso e aversão.

—­Ah! ah! Faz-se fidalga!—­disse o sr. Joãozinho, despeitado.—­Pois não anda bem.

O missionario inclinou-se ao ouvido de um homem do povo que, depois de escutal-o, bradou:

—­Abaixo com o tumulo dos pedreiros-livres.

—­Abaixo!...—­repetiram muitas vozes.

—­Pois vá abaixo!—­repetiu tambem o sr. Joãozinho, adeantando-se com o machado.

—­Para traz!—­exclamou outra vez Magdalena, já trémula de exaltação.

O cura, enfiado e convulso, correu para o lado d’ella.

O sr. Joãozinho sorriu.

—­Isso é que é mandar! Socegue que não fazemos mal a sua mãe; só lhe queremos tirar essas pedras de cima d’ella. Devem-lhe pesar!—­e soltou, ao dizer isto, uma gargalhada, que echoou no grupo que o rodeava.

—­Abaixo, abaixo!—­repetiram ainda as vozes, e o morgado preparou-se para cumprir o feito. Magdalena sentiu que a razão se lhe perturbava. Era-lhe preciso defender de uma profanação as cinzas de sua mãe, ainda que fôsse á custa da propria vida.

Ia para supplicar, para ajoelhar deante d’aquelles homens; já as lágrimas lhe brilhavam nos olhos, e os labios principiavam a murmurar a palavra «piedade».

O morgado viu-a assim, e como homem em quem as lágrimas de mulher ainda achavam caminho para chegar ao coração, hesitou, resmungando:

—­Mau! se temos chôro, nada feito.

Mas já não podia hesitar; a onda impellia-o, os gritos redobravam, e outros braços se agitavam ao seu lado, preparando-se para a obra de profanação.

O sr. Joãozinho cedeu outra vez e levantou o machado.

Imitaram-n’o muitos.

Magdalena então correu a abraçar-se ao tumulo da mãe para o protéger da violencia.

Antes de o abater haviam de a férir a ella.

Os machados, que já se brandiam no ar, suspenderam-se. Alguns baixaram-n’os, como arrependidos.

O morgado formulou n’uma jura a impressão que lhe estava causando a scena.

Desviando os olhos, disse, com modo desabrido:

—­Tirem essa mulher d’ahi.

Deus sabe que scenas de violencia se seguiriam a está ordem, se um novo facto não viesse desviar as attenções e modificar diversamente o animo popular.

Um homem, que parecia chegar de longa jornada, approximára-se do cemiterio, cada vez maïs pressuroso á medida que se affirmava nos grupos alli reunidos.

Entrou justamente quando a furia popular crescia maïs impetuosa.

A figura da morgadinha, em pé sobre os degraus do tumulo, abraçada a elle, dominava toda aquella multidão.

Ao descobril-a a distancia, o homem que dissemos soltou uma exclamação, como de quem tinha comprehendido où adivinhado a significação d’aquella scena; e apressando ainda maïs os passos achou-se, dentro em pouco, no logar do motim.

Era tempo.

A populaça allucinada ia talvez exercer algumas d’essas irreflectidas violencias, que tantas vezes maculam e deshonram a causa do povo nas luctas em que elle toma parte.

—­Que é isto aquí?—­disse o homem, rompendo com os braços potentes a onda que se lhe antolhava.

Á rudeza do impulso ninguem resistiu; em pouco tempo abriu caminho até ao meio do circulo.

Uma só voz correu por as differentes pessoas do grupo dos amotinados.

—­O Herodes... É o Herodes!...—­diziam, afastando-se.

Effectivamente era o Cancella o homem que tinha chegado.

Obtendo fiança, graças á intervenção do conselheiro, voltava á terra, ancioso por ver e beijar a filha, cuja ausencia fôra a unica dor que o atormentara.

O desgraçado não sabia ainda da sorte d’ella.

Uma carta que Magdalena lhe escreveu, noticiando-lh’a, já não o encontrára na prisão, para onde fôra dirigida.

Vinha cheio de esperanças o pobre homem, porque eram para animar as ultimas noticias recebidas.

Vendo de longe o ajuntamento no cemiterio, ouvindo os gritos sediciosos, conjecturou que havia algum motim popular por causa dos enterros no adro, que elle sabia serem antipathicos aos espiritos da terra.

Quando descobriu a morgadinha, envolvida pelo tumulto, e no tumulo da mãe, previu que ella estava correndo perigo, e apressou-se logo a acudir-lhe.

Ao chegar, porém, ao meio do circulo, que conseguiu romper, e quando ia a dirigir a palavra a Magdalena, reparou para o cadaver da creança do esquife, o qual continuava ainda pousado no chão; fitou os olhos n’aquella pallida e serena physionomia, ainda animada pelo mesmo sorriso de innocencia, e, apesar da debil claridade da hora, reconheceu a filha.

Nem um só grito de dor lhe saiu dos labios, nem um só movimento de surpresa; ficou mudo, immovel, com os olhos fitos n’aquella creança morta, com as mãos juntas e com as faces extremamente pallidas.

Perante está terrivel manifestação de dor, que toda se concentra, para n’um momento gastar maïs vida do que o perpassar de muitos annos, calmaram todos os outros sentimentos que dominavam os corações.

Fez-se um profundo silencio. O Herodes, n’uma especie de recolhimento fervoroso, ajoelhou junto do caixão de Ermelinda, e trémulo, opprimido, quasi sem alento para chorar, approximou a mêdo as mãos das mãos cruzadas da creança.

Ao primeiro contacto retirou-as rapidamente por achal-as de gêlo; mas, tomando-as outra vez, murmurava:

—­Jesus, meu Deus! Está morta!... Ermelinda!... Filha!... Isto não pode ser, Senhor!... Pois minha filha está morta?

A paixão principiava emfim a manifestar-se maïs tumultuosa; mas havia no tom de voz, com que estás palavras fôram pronunciadas, não sei quê tão intimamente doloroso, que presentia-se que, no curto espaço de tempo que as precederà, se tinha operado n’aquelle peito uma revolução tremenda, como se uma intima dilaceração o tivesse destruido. Adivinhava-se lá dentro já um desalento mortal, um mal de que se não convalesce nunca. Aquelle homem estava perdido.

—­Mataram-me a minha pobre filha! A minha Ermelinda... Que mal lhes tinha eu feito para m’a matarem?... Ó anjo do Céo! viver eu para te vêr assim!

E, tirando-a do esquife, cingiu-a contra o peito, cobrindo-a de beijos, que não conseguiam aquecer o gêlo d’aquellas faces.

Raros olhos ficaram enxutos ante aquella sincera dor. Desvanecera-se a ira popular; como que uma nobre vergonha, uma vergonha de boa indole, fazia já renegar aos maïs atrevidos os seus excessos passados.

O Cancella continuava:

—­Esta frialdade da morte! está brancura das faces!... isto mata-me, despedaça-me o coração!... Não me morras assim, filha! Não me morras antes de dizer-me uma palavra de amor... de perdão. Sim, tu tinhas que me perdoar antes de morrer! Por que não esperaste ao menos?... Pensar eu que hei de vêr-te partir, sem que me dês um beijo de despedida!... que te não hei de ouvir falar! Só! só! Ficar só! Só n’este mundo, Senhor!... Em que tanto vos offendi, meu Deus, para me castigardes assim!? Em quê?

Magdalena chorava, commovida, ao ouvir estás palavras dolorosas.

O Cancella voltou para ella os olhos já marejados de lágrimas.

—­Ó menina Magdalena, pois Ermelinda morreu?... Fale, diga-me. Minha filha morreu? A que horas?... como?... Falou em mim? pensou em mim?... Perdoou-me?... Chora, e não responde... Então não me perdoou? Pois minha filha não me perdoou?

Magdalena respondeu a custo:

—­Que tinha ella a perdoar-lhe?

—­Não é verdade que eu lhe queria muito? não é verdade que eu vivia por ella? Agora... que me importa o viver? Como posso eu viver! Ai, se Deus me matasse agora, assim! abraçado a este anjo! Se Deus me matasse!

E outra vez a estreitava nos braços.

Depois, voltando-se para o povo que se conservava alli, perguntou com voz alterada:

—­Que procuram?... Que querem?... o que fazem ahi armados, ao pé de minha filha morta?

—­Queremos que elles a enterrem na igreja—­responderam, já tibiamente, algumas vozes.

—­Na igreja?... Isso é que não! Sabem quem me matou a filha? Foram elles... Esses que m’a tolheram de mêdos, que lhe roubaram as alegrías... que fizeram d’ella isto que ahi vêdes... Pois não a conheciam? Não a tinham visto ahi nos campos, nas novenas e nas festas?... Viram-n’a nunca com estás côres desmaiadas? viram-n’a sem aquelles cabellos louros, que tão bem lhe ficavam? e que elles cortaram sem piedade? E querem-te ainda guardar, desgraçadinha! Não, não te entregarei. Não, não irás lá para dentro. Quero-te aquí, minha filha; aquí, debaixo dos olhares de Deus... Eu mesmo te vou deitar como tantas vezes o fiz quando dormias no berço, que ficará sempre vazio! Ó meu Deus, que vida vae ser a minha, se te não compadeces de mim, Senhor!...

E suffocado de pranto, que rompia agora abundante , o desesperado pae ajoelhou junto do esquife, onde depoz com cautela o corpo da filha.

—­Obrigado, menina Magdalena, por dar á minha pequena um logar ao pé de sua mãe; obrigado. Junto d’aquella santa parece-me que dormirá em socêgo... A minha pobre filha!

E pousando nos labios frios da creança um beijo prolongado, cheio de paixão e saudade, levantou o esquife nos braços para, por suas proprias mãos, o descer ao jazigo. Antes, porém, de fazel-o, beijou ainda uma vez aquella de que mal podia separar-se.

Cêdo baixou sobre o pequeño esquife a pedra tumular.

Nem um só movimento, nem uma só voz tentou oppôr-se áquelle acto, contra o qual momentos antes se erguia irreprimivel a resistencia popular.

Os influentes maïs insoffridos tinham abandonado o campo.

O primeiro que o fizera fôra o missionario. Desde que vira assomar a figura do Cancella, vieram-lhe ao espirito umas memorias pouco agradaveis, e julgou avisado retirar a tempo.

Ao terminar está scena o proprio morgado e o inseparavel Cosme já não estavam presentes. Sairam desde que viram os animos pouco dispostos a secundal-os.

Os circumstantes quasi faziam já côro com as arguições do Cancella contra os excessos do fanatismo e do beaterio.

—­A falar verdade—­dizia um—­este pobre homem tem alguma razão. Isto de metter scismas ás creanças!...

—­E a Rosita do Gaudencio olha que vae por a mesma.

—­Tambem é de maïs.

—­Eu por mim se fôsse a elle... Não sei o que faria.

N’estes e n’outros dizeres se iam retirando do cemiterio.

Não seria difficil a um especulador aproveitar aquelles mesmos braços e armas para organisar uma sedição sobre uma divisa opposta á que primeiro os convocára.

Ao vêr cerrar-se a campa sobre o corpo da filha, o Cancella caiu de joelhos, suffocado em pranto.

As creancas presentes, por contagio da commoção, a que é tão sujeita aquella idade, choraram tambem.

Magdalena ia a consolal-o, mas o sentimento proprio não a deixou falar.

Só pôde pousar-lhe em silencio a mão no hombro.

O Cancella apoderou-se d’ella e, levando-a aos labios, rompeu em maïs desafogado pranto do que nunca.

A noite crescia; cada vez era maïs cerrado de nuvens o firmamento.

Os sons das Avé-Marias vibraram nos ares, prolongados e tristes.

O padre velho pronunciou em voz alta a saudação angelica. Responderam-lhe as creancas!

Tudo concorria para augmentar a extrema melancolía do quadro.

O Cancella a muito custo se resignou a arrancar-se d’alli.

A morgadinha voltou a casa com o coração oppresso de tristeza.