A Mortalha de Alzira/I/VII

Wikisource, a biblioteca livre
< A Mortalha de Alzira
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
A Mortalha de Alzira por Aluísio Azevedo
Primeira Parte, Capítulo VII: Frágil como uma lágrima!


O Dr. Cobalt. com o espírito alegre de que era dotado e com a sua pitoresca e original maneira de contar as cousas, narrou às damas e cavalheiros que se achavam no palpitante salão da condessa Alzira, a curiosa e singela história de Ângelo.

Foi escutado com o máximo interesse. A formosa e fria dona da casa, essa mulher que diziam de coração surdo a todas as ternuras e de olhos secos e fechados para todas as dores, era todavia a que se mostrava presa dos lábios do narrador, e a que mais avidamente lhe bebia as palavras.

— Ozéas, disse o médico, concluindo, queria enfim fazer um padre perfeito, para poder dar alguém por si, quando, despido da traiçoeira carne, tivesse, como sacerdote, de prestar contas do que praticara nesta vida. Queria fazer um grande coração, muito forte e muito amoroso; amoroso para Deus, forte para o mundo. Queria que o seu discípulo amado fosse uma torre de cristal, invulnerável e incorruptível, mas tão alta e tão sólida que ligasse a terra ao céu e o homem a Deus!

Dito isto, calou-se por um instante; depois sorriu para o atento grupo que o cercava silencioso, e acrescentou, pondo-se de pé e abrindo os braços, na galante reverência de uma quase mesura:

— Ora aí tem, meus adoráveis amigos, tudo o que sei de fonte pura a respeito do singular moço, que tão formidável impressão deixou sobre Paris na quinta-feira santa.

Alzira quebrou o seu silencio para perguntar, com os olhos fitos no médico:

— E ele, antes de quinta-feira, nunca então havia saído à rua?. . .

— Nunca, afirmou aquele. Fez todos os seus estudos e recebeu as ordens sem arredar pé do convento, ao qual o seminário é anexo. Seus dias, desde a mais tenra idade, foram todos, dedicados de corpo e alma aos livros santos e aos misteres da igreja.

— Então é um ente perfeitamente puro? interrogou ela.

— Puro como um anjo.

— É extraordinário! exclamou Margarida, sem poder conter o seu entusiasmo.

— É inacreditável! disse Sofia, meneando a cabeça com um gesto de incredulidade.

Gabriela Vanguyon soltou um suspiro e deixou escapar esta frase, que fez rir a sociedade:

— Um homem puro em Paris! A dois passas de nós!. . .

E o Dr. Cobalt, que saboreava o efeito da notícia da castidade de Ângelo sobre aquelas mulheres, cujo olfato já de há muito se tinha esquecido do delicioso perfume da flor de laranjeira, acrescentou, para alfinetar-lhes as fibras da admiração:

— Um homem puríssimo, virginal! Imaculado como a Virgem Santíssima! Um homem completamente inocente, sem a menor idéia do que seja sociedade, nem paixões mundanas, nem sexos, nem. . .

— Nem sexos?! inquiriu Gabriela, escancarando os olhos, sinceramente pasmada.

— Nem nada! nada! nada! respondeu o médico, sorrindo e apertando os lábios. Nada, minhas adoráveis pecadoras! Mas o que se chama "nada"!

— Estudava e lia muito, não é verdade, Dr. Cobalt?. . . quis saber Margarida Duclos.

— Sim, mas só cousas sagradas. . . biografias de santos, anedotas religiosas e dissertações espirituais. . . Ora, sucedeu por acaso que essa mísera criança, que o mesmo acaso atirou às mãos do padre Ozéas. dispusesse das mais valentes faculdades mentais, e, não conhecendo ela outro meio além daquele em que vegetou, e, não tendo outro pasto para seu espírito além da doutrina cristã e da manhosa teologia, deu-se todo inteiro a estas duas estéreis e sedutores senhoras, e no fim de contas apresentou escandalosamente aquele imprevisto tipo, que fez as nossas delícias da corte na quinta-feira passada.

— Ah! disse o conde de Saint-Malô; não há dúvida, porém, de que ele tem muito talento oratório; é uma capacidade em matéria de religião. . .

— Qual! desdisse o materialista em ar de pouca importância. Acho que aquele pobre moço é mais uma inteligência aproveitável que se perde, e mais um infeliz doente que ganham os hospitais!

— E por quê?... exclamou Alzira vivamente.

— Ora! desdenhou aquele. Porque toda a sua ciência, se é que ele a tem, baseia-se nos mais falsos princípios. A sua filosofia é bonita, não há dúvida, mas completamente inútil. Não passará nunca de um metafísico. Construiu o seu edifício intelectual sobre areia movediça; e no dia em que o primeiro sopro quente de vida real cair-lhe em cima, lá se irá por terra a igrejinha! No dia em que a natureza, indefectível nas suas leis, o chamar friamente à verdade das cousas e exigir que ele cumpra com o seu destino fisiológico de homem, o seu próprio talento há de revolucionar-se com o seu sangue, e ele terá de abrir guerra aos falsos e arbitrários princípios em que o educaram. E então, o desespero e a decepção daquela pobre vítima do visionário Ozéas. serão tamanhos e tão fortes, que o desgraçado talvez não tenha forças para resistir ao golpe!

Alzira estremeceu.

— Infeliz. . . balbuciou ela.

Artur Bouvier tinha-se aproximado do Dr. Cobalt, e disse-lhe pousando-lhe a mão no ombro:

— Pode ficar tranqüilo, meu amigo, que o inocente Ângelo não conservará por muito tempo as suas penugens de anjo. A questão foi pôr o nariz à primeira vez fora do convento, ainda que para pregar sermão; respirou este ar de Paris, está pronto! Um átomo desta complicada atmosfera, composta da exalação de todos os luxos e de todas as misérias, de todas as febres e de todas as paixões, é o bastante para revolucionar-lhe o espírito e corromper-lhe o corpo até à medula. Além de que, o rei, com certeza, já o tem de olho, e não deixara escapar uma jóia tão rara; é natural que a cobice para a sua corte. Não dou muito tempo para vermos o tal santinho de olhos bonitos entrando para o quadro da capela real, com uma boa sinecura e um bom ordenado que lhe chegue para ter carruagem e para pagar uma gentil preceptora, encarregada de completar-lhe a educação. E juro-lhe que essa terá tanta paciência e tanta solicitude, quanta teve o santarrão do velho Ozéas. mas para lhe ensinar aquilo justamente que este lhe não quis velar. . .

— E não será difícil encontrar quem se queira encarregar de completar-lhe a educação.. observou Sofia; porque, segundo a opinião geral, o tal anjo de pureza é notavelmente simpático. . .

— Sim, tornou Cobalt, mas para isso era preciso que o "Santarrão", como disse aqui o nosso Bouvier, não estivesse de olhos bem abertos.

— Ora! opôs Margarida por detrás do seu leque; o velho Ozéas tem mais de setenta anos! Já deve estar com a vista curta. . .

— E as pernas trôpegas. . . acrescentou Gabriela.

— E não viverá eternamente. . . completou Sofia. Se o santinho não tiver por si outra guarda, pode ir desde já rezando por alma da sua virginal capela!. . .

— Sim! apoiou o conde. Não há dúvida que está aí, está cantando a primeira missa e entrando logo em seguida para a capela real. E há de fazer carreira!

— Pois engana-se, caro conde, acudiu o doutor; engana-se redondamente. Ângelo não entrará para o quadro da capela real, posto que o rei já o convidasse. O velho Ozéas. tenciona carregar com ele para Roma, depois para Jerusalém, com o fim de alargar-lhe quanto possível o cabedal das suas luzes; e, quando o rapaz estiver bem homem, bem forte, completamente desenvolvido, então o velho Ozéas o atirará sobre Paris, opondo o discípulo como um terrível protesto vivo contra a grande e desenfreada decadência moral dos nossos tempos. Conta que a luta se travará um dia afinal, tremenda e sem tréguas. De um lado, o invencível apóstolo, fechado na armadura da sua virtude e armado até aos dentes com a sua sabedoria divina; do outro lado, Paris, Paris friamente inabalável nos seus vícios e na sua libertinagem, Paris crápula, Paris abjeção, Paris lodo!

— Ah! essa luta há de ser fatal! disse Artur Bouvier no meio do silencio dos outros.

— Não! acrescentou o materialista, perdendo por um instante a sua fleuma natural e deixando escapar dos olhos uma estranha cintilação, que lhe transformou o ar bondoso da fisionomia. Não há de ser com súplicas e sermões que a França se resgatará, mas a metralha, a canhão e a ponta de baionetas!

— A sangue?! exclamou o conde.

— Sim, a sangue. . . confirmou o médico, sacudindo a cabeça.

E calaram-se.

O sorriso havia desaparecido de todos os lábios; as mulheres tinham desmaiado de cor ligeiramente. Cobalt acrescentou em voz cava, como se falasse consigo mesmo:

— O que talvez não esteja longe!. . .

E um indeciso sobressalto agitou-lhes o sangue e oprimiu-lhes vagamente o coração, nem que naquele momento entrasse ali, como um sopro pressagioso, agitando as cortinas da sala e empalidecendo a luz das velas, um clarão vermelho vindo das bandas setentrionais da América.

Era o anélito da revolução que se aproximava lentamente da França.

Se prestassem ouvidos, quem sabe? talvez escutassem um surdo ruído subterrâneo: Diderot e d'Alembert abriram já a sua mina por debaixo da terra, para depois Voltaire lançar-lhe fogo.

Só Alzira não parecia sobressaltada. Encaminhando-se para o Dr. Cobalt, tomou-o pelo braço, afastou-o para um canto da sala e perguntou-lhe, reclinando no ombro dele a sua formosa cabeça:

— Já sabe qual é o dia marcado para a missa nova do padre Ângelo?. . .

— Segunda-feira.

— Onde?

— Em Notre-Dame.

— Quer ir comigo?

— Com mil desejos, minha encantadora amiga.

— Obrigada. Iremos juntos.