A Mortalha de Alzira/I/VIII

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A Mortalha de Alzira por Aluísio Azevedo
Primeira Parte, Capítulo VIII: Fulminação


No dia marcado para a missa nova de Ângelo, a catedral de Paris, onde devia ela efetuar-se, começou desde muito cedo, a encher-se de gente de todas as classes, desde a mais alta até à mais baixa camada social.

Iria o rei, e com ele lá estaria, sem dúvida, a corte em peso. A corte arrastaria o que de mais brilhante houvesse no alegre círculo das loureiras; estas, por sua vez, chamariam atrás de si um mundo de namorados, de poetas, de artistas e folgazões, aos quais acompanharia espontâneo o povo, sempre curioso e ávido de festas.

Num dos longos corredores laterais da sacristia, corredor abobadado e feito todo de pedra, o Dr. Cobalt conversava tranqüilamente com um padre velho chamado Azarias, e com um sacristão que se mostrava muito entusiasmado com a escandalosa e original fortuna do seminarista.

O médico não tinha perdido a sua calma habitual; dir-se-ia que ele estava ali mais para observar do que para se divertir. Com os seus frios lábios sempre contraídos, parecia abstrato e afagava o queixo escanhoado, cheirando de vez em quando uma pitada. O sacristão, esse não ficava quieto um só instante, ia e vinha de carreira, furando por toda a parte, e procurando saber quem estava na igreja.

— Chih! exclamava ele esfregando as mãos defronte o padre Azarias. Que furor! Que furor! Não imaginam que de gente cada vez mais chega, para assistir à missa nova do discípulo de frei Ozéas! Já vi a Sr.a marquesa de Vandenesse e a sua encantadora irmã: a Sr.a De Conti, a Sr.a condessa de Laranguais, de quem dizem que o rei. . .

E interrompeu-se para declarar, dando um salto e apontando para uma das portas por onde se via quem chegava:

— Olhem! Olhem! ali vai o poeta Bouflers!. . . vai com o conde de Saint-Malo e com o cavalheiro Artur Bouvier. Agora entrou a Sra. marquesa de Tourneles!

— Ora! disse Azarias. Pois se até a rainha, que agora pouco sai à rua, aposto que há de vir!. . .

O sacristão, depois de novas carreiras e novo esfregar de mãos, veio segredar quase ao ouvido do padre:

— E veio também, reverendo, o que há de mais espaventoso entre o mulherio parisiense!. . .

— Ó maroto! resmungou o velho sacerdote. Alguém aqui te perguntou por isso? Anda! Sai de junto de mim, tinhoso!

O sacristão voltou-se então para o médico, e disse, contando pelos dedos:

— Está aí a falada Dutê, com o seu eterno vestido cor-de-rosa e com o seu atual amante, o duque de Durfort! Está aí Sofia Arnould com o seu cãozinho— o duque de Chartres!

— Não te calarás?! bradou o padre velho, tornando-se vermelho.

O sacristão não fez caso e continuou, dirigindo-se ao médico, como se esse lhe desse atenção:

— Vieram também as Barrière, com as quais confesso que embirro solenemente, a Dervieux, de quem eu cada vez mais gosto, a Guimard, a Cleofile, e, mais bela que todas, mais sedutora e mais diabólica, a célebre condessa Alzira, a mulher mais insensível de Paris! veio com o seu amante destes últimos tempos, o marquês de Florans!

— liste sacristão é entendido no gênero!... Observou o materialista a rir-se.

O padre resmungou, em resposta, coçando a calva:

— Ah! Paris! Paris das Pompadours!...

— Também acaba de chegar! exclamou o endemoninhado sacristão. Está na primeira tribuna da esquerda, com o príncipe de Henin e o conde de Aranda.

O velho tornou a coçar a cabeça e disse com azedume.

— Não sei que tem a cheirar na casa de Deus semelhante gente!... Mas que quer? Fizeram desta missa um divertimento! O culpado é o rei. Aposto que está aí também o duque de Fronsac, esse maldito libertino, que herdou todos os vícios de seu pai, o cardeal de Richelieu, sem herdar nenhuma das virtudes! Vem ao faro das aventuras, o desavergonhado!

— E o que aí está de homens ilustres. . . observou Cobalt ao ouvido do padre. Já avistei Favart, Gentil Bernard, Condorcet, Luchot, Fréron, d'Alembert, Diderot, Beaumarchais, Mali, Lavoisier...

— Este seminarista, declarou o outro, é com efeito de uma fortuna inacreditável! Creia, meu doutor Cobalt, que nunca vi tanta gente boa reunida numa igreja para ouvir missa! E uma missa nova! É extraordinário!

Mas Ângelo nesse momento saltava do carro para entrar com Ozéas na porta lateral da sacristia, e um rumor geral se levantava provocado pela sua chegada.

O Dr. Cobalt afastou-se de carreira, a ver se arranjava um lugar na capela, em que devia ser a iniciação do adorado presbítero.

A capela, suntuosamente preparada para a cerimônia, refulgia, fulgurando de luzes e de ouro, de alvas rendas preciosas, brilhantes colgaduras de damasco e riquíssimas alfaias de mil cores.

Grande esplendor! Grande riqueza! Grande deslumbramento!

O altar-mor, onde Ângelo ia celebrar, parecia sair de dentro de um imenso ramalhete, tão grande era a profusão de rosas, que as damas lançavam nos seus degraus à medida que iam chegando.

As tribunas regurgitavam de mulheres luxuosamente vestidas, e venustamente decotadas à moda caprichosa do tempo. Viam-se formidáveis penteados, em que cintilavam diamantes por entre pérolas e plumas de cristal finíssimo.

Legros, então o mais querido entre os mil e duzentos cabeleireiros do bom-tom, passara três noites em claro a aviar toucados, sem conceder mais de dez minutos a nenhuma cabeça, e ocupando sob suas ordens, naqueles últimos dias, mais de quinhentos ajudantes.

E toda aquela gamenha gente, com as suas fantasiosas roupas de sedas multicores; as mulheres de saia e panier à Pompadour; os homens de casaca à la Ramponneau, com as suas cabeleiras empoladas, de três e quatro canudos, à la Sartines, grandes bofes de cambraia, chapéu de três bicos debaixo do braço e florete à cinta; toda essa gente, aglomerada, sussurrante e irrequieta, apresentava, no interior daquela austera e formosa catedral, o folião e brilhante aspecto de um luxuoso carnaval da corte.

Conversava-se e ria-se.

Mas, de repente, calaram-se todos e todos se agitaram. Os que estavam assentados puseram-se rápido de pé.

Era o rei que chegava, acompanhado por sua pomposa comitiva.

Com um gesto frio e distraído Luís XV fez um ligeiro cumprimento de cabeça, e deixou-se cair na cadeira à frente da real tribuna, cruzando as pernas negligentemente e bocejando de tédio.

O olhar que ele lançou para os sorrisos e para as reverências, que de todos os lados 0 recebiam, foi um pálido olhar de desdém e cansaço. A ceia da véspera devia ter sido prolongada.

Ouviram-se, então, do lado do coro, as primeiras notas, severas e plangentes, do órgão.

Ia começar a missa.

Algumas pessoas preparavam-se já para a contrição. Muitos ajoelhavam, de mãos postas e cabeça baixa. O silencio estendia-se respeitoso. Vieram do alto vozes de cantores, e o vermelho cabido respondeu cá de baixo, também cantando, junto às suas estreitas cadeiras de alto espaldar de madeira negra.

Ângelo, ricamente paramentado com as vestes talares com que o presenteara o rei, tinha chegado ao altar, e, dentre uma nuvem de incenso, erguia-se no êxtase da sua oração, com os braços abertos, os olhos postos na doce imagem de Cristo crucificado. Estava belo como um jovem Deus!

Assim, nos seus suntuosos damascos bordados, parecia um anjo todo vestido de ouro. E o seu formoso rosto era bem o rosto de marfim, de que falava na Bíblia a triste e volutuosa filha de Jerusalém, decantando o seu amado.

Ozéas servia-lhe de acólito. E a sua curva figura, detrás daquele moço, lembrava, no trêmulo arrebatamento da contrição, o vulto de um velho rei louro, irmão de Lear, guardando com os olhos ansiosos o seu lindo príncipe desejado por todas as mulheres.

E, com efeito, sobre Ângelo, de todas as tribunas, desciam raios de tentação.

Alzira fitava-o como uma serpente paradisíaco.

A missa, entretanto, seguia o seu curso, inalteravelmente, por entre o vago murmúrio dos colos que arfavam, não de piedade, mas de desejo e de amor.

Mas, quando Ângelo, terminado o divino sacrifício, erguia o olhar pela derradeira vez, procurando o céu, seus olhos de repente se fecharam fulminados, e todo o seu corpo estremeceu da cabeça aos pés.

Em vez do céu, seus olhos tinham encontrado o olhar de Alzira.

Ozéas, soltando um grito, correu para ele, tomou-o violentamente nos braços, escondeu-lhe a cabeça entre as suas mãos trêmulas, tapando-lhe o rosto contra seu peito.

E ficou por longo tempo a fitar, ameaçadoramente, a linda cortesã.

A multidão precipitou-se para junto dos dois eletrizada de curiosidade. Todos queriam saber no mesmo instante o que havia acontecido.

Mas os sinos começaram a repicar alegremente; a orquestra tocava já uma música profana; nuvens de incenso ergueram-se de novo. A missa estava terminada.

E Ângelo, sem levantar a cabeça do colo de seu pai, afastou-se do altar e saiu da capela, vagarosamente, arrastando os pés como um cego.

Não se lhe ouviam os soluços, mas todo o seu corpo se agitava nas convulsões do choro.