A Mortalha de Alzira/I/XIII

Wikisource, a biblioteca livre
< A Mortalha de Alzira
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
A Mortalha de Alzira por Aluísio Azevedo
Primeira Parte, Capítulo XIII: Ah, mulheres! mulheres!


Bouflers entrou aos pulinhos. Estacou no meio do salão e fez a mais extraordinária mesura que é possível imaginar, mesmo conhecendo os complicados e genuflexórios salamaleques desse tempo galante. Os altos e empoados canudos da sua cabeleira roçaram-lhe três vezes pelos joelhos, e o rabicho, guarnecido por um laço de fita preta, três vezes se agitou no ar, como a irrequieta cauda de um cãozinho fraldiqueiro.

Vinha vestido a rigor e com extrema elegância.

Trazia uma casaca de seda cor de pérola. forrada de branco e guarnecida de botões de prata. Bofes de rendas de Veneza, nobremente salpicados de pó de tabaco espanhol, saltavam-lhe do peito por entre um colete de veludo cor de âmbar; tinha calções da mesma seda da casaca e meias bordadas a ouro, sapatos de salto vermelho, e espada, não de barba de baleia, como então alguns usavam, mas de bom e bem temperado aço de Toledo, com bainha de couro, forrada de veludo branco, e guarda coberta de vistosa pedraria multicor.

Deu alguns passos para Alzira, e, assim que se viu defronte dela, perfilou-se de novo e pôs a mão esquerda sobre o punho da espada, de modo a arrebitar com a ponta desta a grande aba da sua casaca à la Ramponeau.

E, empertigado, conservou-se um instante com o chapéu de três bicos debaixo do braço, e disse depois fazendo um passo de minuete:

"Ora graças a Cupido,

Neste empíreo da beleza

Enfim me foi permitido

Entrar, sem maior

despesa!..."

— Trazia a musa em sua companhia Bouflers?. . . Nesse caso devia ter pedido licença para dois. . . — Descanse, formosa estrela; minha musa é rapariga discreta. . . não contará ao marquês o que entre nós dois se passar aqui... — Discreta?... — Não diz mal de ninguém. . . — Informe a pobre senhora de Dufort. . . — Uma sátira inocente. . . — Oh! muito inocente! . . . — Tão inocente como o padre Ângelo. — Ah! Já o conhece?. . . — Pudera!

E, armando de novo a sua coreográfica mesura, improvisou:

"Dizem que Paris

inteira,

Após o célebre sermão

Da sagrada quinta-

feira,

Anda toda em

devoção...

Traz no peito as mãos cruzadas, Os olhos fitos no céu, Calça meias encarnadas, Põe estola e solidéu!

Até consta que a

marquesa

De Pompadour vai além;

Quer obrigar sua alteza

A tomar ordens

também..."

E, chegando-se mais para Alzira, segredou intencionalmente:

"Que certa moça galante, Ouvindo a missa, fitou Por tal modo o celebrante, Que o celebrante... corou!

E ficaria engasgado

Com o próprio corpo de

Deus,

Se não bebesse, coitado!

Duas gotas de Bordéus..."

— Isto é uma sensaboria de mau gosto!. . . declarou a condessa.

— Por que? Dar-se-á o caso de que a insensível e tirana condessa Alzira também esteja com o peito ferido pelo casto pregador de quinta-feira?...

— Como "também"?... Há então muitas que o estejam?

— Oh! oh!

"Foi o caso que o sujeito,

Tendo as damas convertido,

Tanto as fez bater no peito,

Que o peito lhes pôs ferido!.. ."

— Fale antes em prosa Bouflers! O verso fatiga muito.

— Pois seja! exclamou ele, encaminhando-se para a condessa com um belo sorriso de namorado, e disse tomando-lhe uma das mãos que levou aos lábios: Eu te amo, Alzira, flor insensível! flor dos meus sonhos! flor das minhas desventuras! e quero saber quando será o dia venturoso em que receba eu de tua formosa boquinha . . .

— Um sorriso?...

— Não! Uma palavra de animação. . .

— Bravo!

— Bravo?!

— Não conheço melhor palavra de animação. . .

— Não zombe de mim, condessa!...

— Zombar de Bouflers!. . . Oh!. . . Se o conseguisse, vingaria meia humanidade, tão ferozmente satirizada pelos seus versos maus e pelos seus maus versos!

— Conclua-se destes trocadilhos, que sairei daqui sem ouvir uma palavra de esperança. . .

— Está falando sério, meu pobre amigo?. . .

— Juro-lhe que sim, condessa. Juro-lhe pelas musas, que a minha maior felicidade seria merecer-lhe uma palavra de amor. . .

— E por que razão havia eu de amá-lo?. . .

— Ora essa! Por que razão é que os outros se amam? . . .

— Mulheres da minha espécie, caro poeta, só amam, quando as fascina qualquer cousa extraordinária, muito extraordinária! Seja o que for, mas que seja— extraordinária!

— Paciência!. . . Todavia, quero crer que o marquês de Florans nada tem em si de extraordinário, e no entanto. . .

— É meu amante... Ah! O caso é outro! O marquês é muito rico... pode dar-se a esse amado vailuxo!... Ama-me, daí porém a ser amado— vai um abismo!

— Se o marquês a ouvisse?. . .

Alzira sacudiu os ombros.

— Ele sabe disso tão bem como eu; a ninguém engano! . . .

— Nem ama, tampouco!

— Quem sabe lá?.. . Talvez...

— A condessa? Qual! Duvido! A senhora não é mulher! Não tem coração!. . .

— Então que sou eu?. . .

— E um lindo cofre de marfim rosado, com o competente orifício para receber o ouro dos papalvos.

— E era para dizer-me semelhante galanteria, que o poeta há tanto tempo fazia empenho de vir à minha casa?

— Não! Era na esperança de ser correspondido no meu amor. . .

— O cavalheiro às vezes não me parece um homem de espírito...

— Em questões de amor todos os homens são igualmente estúpidos!...

— Mas, valha-me Deus, Bouflers! por que razão havia eu de amá-lo?.. . O senhor é um bonito rapaz, não há dúvida; está na flor da idade, não lhe falta talento, mas. . . é só isso!. . .

— E acha pouco?. . . moço graças mocidadebNão dois oonito e com talento. Tenho os encantos das três graças— mocidade, amor e beleza, e ainda me sobra um!

— Não— dois— o talento e a vaidade.

— Ou isso!

— Mas falta-lhe o principal. . .

— O que não falta ao marquês. . . dinheiro?. . .

— Qual! O dinheiro não se conta. . .

— Não se conta?. . .

— Gasta-se!

— Então que me falta? Juízo, talvez. ..

— Ainda menos! O juízo é a negação do espírito! . . .

— Então não sei que me falta!...

— Sei-o eu! exclamou uma voz grossa.

E o marquês surgiu defronte de Bonflers, fulo e trêmulo de raiva.

— Oh! Oh! interjeicionou este, zombeteiramente e sem se alterar. Estava escondido, senhor marquês?. . . Divertia-se a escutar-nos. . . Magnífico!

E voltando para Alzira:— Obrigado, condessa! Depois resmungou de si para si:

— Pagá-lo-ão bem caro!

O marques, sem poder domar a cólera que o sufocava, prosseguiu no tom em que começou:

— A qualidade que lhe falta, senhor poeta, não é dinheiro, nem juízo; é prudência! É grande temeridade dizer mal de quem quer que seja à própria amante dessa pessoa!

— Não é só temeridade... respondeu Bouflers, pondo a mão na cintura e empinando a cabeça: é insolência. Estou às suas ordens! Avie-se!

A condessa correra para junto de Florans.

— Lembre-se do que me prometeu!... disse-lhe ela rapidamente e em voz baixa.

— Só não me baterei. . . segredou o marquês ao ouvido da amante, se a senhora não me fechar a sua porta. . .

— Não fecharei, marquês!

— Pois não me baterei, Alzira!

Bouflers, que durante este curto diálogo, media os dois com ar de desprezo, entortando a cabeça e sacudindo a perna gritou para o marquês, como se falasse ao seu cocheiro:

— Olá, senhor pregador de prudência, é esta que o aconselha a consultar a sua amante, antes de pôr a limpo as injúrias que lhe fazem. . . Creio ter dito bem alto que estou às suas ordens!

— Não me bato com o senhor... balbuciou o outro.

— Ah! Ah! escarneceu o poeta. Já o desconfiava! . . .

E calçando de novo a luva, que ele havia principiado a despir: — Pois chega-me a vez de dar-lhe também um conselho: quando não se reconhecer com animo de assumir dignamente a responsabilidade dos seus atos, meça melhor as palavras e não se apresente como se apresentou defronte de mim!

— Insolente! bradou o marquês, avançando de punho fechado sobre Bouflers.

— Então!... interveio Alzira, metendo-se entre os dois.

— Mas este atrevido afronta-me! exclamou Florans.

— Pois é desafrontar-se! retorquiu o poeta. Para isso tem uma espada à cinta!

Alzira chegou os lábios ao ouvido do marquês.

— Se aceitar o duelo, disse-lhe; não ponha mais os pés aqui!

O fidalgo fez-se cor de cera e murmurou imperceptivelmente:

— Esta mulher despoja-me de tudo!. . .

Bouflers sorriu e acrescentou:

— Registre, condessa, mais esta qualidade a meu favor:— a coragem!

— Vale menos que as outras neste instante... desdenhou Alzira.

E tomando as mãos do marquês: — Em certos casos, o forte é aquele que resiste à provocação. Obrigado, meu amigo! Poupou-me remorsos!... Ah! já os tenho em demasia!. . . Creia que lhe estou grata!. . . Quanto ao senhor, cavalheiro. . .

E voltou-se para Bouflers, fazendo-lhe um gesto de despedida.

— Obrigado! respondeu este. Antes, porém, de sair, permita que a felicite pela bela escolha que fez para seu amante!... liste adorável palerma merece bem uma cínica da sua ordem!

E pondo o chapéu na cabeça, encaminhou-se para a saída.

— Miserável! exclamou o marquês, correndo sobre ele.

— Infame! disse Alzira acompanhando-o.

Mas foram detidos pelo conde de Saint-Malô, Artur Bouvier, Cobalt e as damas que acudiram lá de dentro em sobressalto.

— Que foi?!

— Que significa isto?!

— Bouflers!

— Um escândalo?!

— Que sucedeu?!

— Covarde! covarde! covarde! exclamou Alzira, procurando chegar até onde estava Bouflers.

— Todos os teus insultos, respondeu este. armando a carreira para fugir, não valem uma palavra, uma só, que qualquer homem tem o direito de atirar-te à cara!

E rápido, chegando a boca ao rosto dela, segredou um termo que a fulminou.

E fugiu.

— Ah! gritou a cortesã, levando as mãos ao peito e cambaleando.

E correu ao marques para bradar-lhe, segurando-lhe o braço:

— Vá! Siga-o! Alcance-o ainda que no inferno! Não me volte aqui sem o haver matado!

— Oh! Obrigado, condessa! exclamou Florans.

E, desembainhando a espada, desapareceu da sala e bateu pelas escadas, ligeiro como um raio.