A Mortalha de Alzira/II/IV

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A Mortalha de Alzira por Aluísio Azevedo
Segunda Parte, Capítulo IV: Por fora de horas


O Dr. Cobalt, ajudado pelo conde e por Bouvier, tratou de remover Ângelo do fúnebre leito de Alzira, para um divã que havia na alcova.

O pároco continuava inanimado.

O médico que estivera a tentear-lhe o rosto e as mãos, disse, sem deixar de observá-lo minuciosamente:

— O cadáver comunicou-lhe o terrível frio da morte... Vejam como ele tem as faces e as mãos geladas!

— E como está hirto e pálido!. .. considerou o conde. Parece morto . . .

— Não! não está morto!... declarou Cobalt, pondo-lhe o ouvido sobre o peito.

— Sente pulsar-lhe o coração? perguntou-lhe aquele

— Não! Não se ouve absolutamente pulsar-lhe o coração mas afianço-lhe que está vivo.

— É extraordinário!... notou Artur Bouvier, apalpando a fronte do desfalecido.

— Mas, afinal, doutor, que tem esse pobre homem? indagou o conde.

— Nada mais simples, explicou o médico; tem um ataque de letargia. . . ou cousa que o valha!. . .

— Ah!

— Produto sem duvida de um profundo abalo nervoso. Vou tratar dele. Hei de curá-lo e estudar o caso, que me parece muito bonito. O que me convém saber é qual era o seu estado patológico antes desta crise, e qual o valor dos agentes estranhos que poderiam ter contribuído para ela. Como sabem, a nossa ciência neste ponto ainda está muito atrasada em toda a Europa. Quase nada se conhece desse grande mundo, extraordinário, fantástico, impalpável, quase incompreensível; esse mundo de fenômenos psíquicos fornecido pelas afecções nervosas! Basta dizer-lhes que entre nós a histeria é ainda um mistério; a sugestão magnética é um divertimento!! as suas singularíssimas manifestações escapam ao médico e são exploradas pelo clero, que as explica como obra do diabo e receita para todos os casos os milagres de Saint-Médard! Estamos mais atrasados que nas épocas empíricas de Platão; mas, tempo virá, meus amigos, em que esta mesma França, ignorante de hoje, há de dar sobre este assunto as mais belas lições de ciência. O futuro vingará minha obra, tão ferozmente amaldiçoada pela Sorbona e pelo Parlamento! Juro-lhos que a histeria, com todo o seu carnavalesco e brilhante cortejo de loucuras, não será um mistério no século XIX!

— E quanto tempo levará este homem sem dar acordo de si?. . . quis saber Artur.

— Não sei... respondeu Cobalt. Ainda não posso dizer ao certo, se o que ele tem é uma crise cataléptica, ou se caiu em letargia histérica. Se for catalepsia, pode a síncope durar pouco e pode também durar muito; pode durar apenas algumas horas, como igualmente pode durar meses...

— Meses?...

— Pois não! Há casos observados de prostração cataléptica, que duram mais de cem dias. .. Espere! Vou fazer uma experiência. . .

E foi buscar um frasquinho de éter, que levou ao nariz de Ângelo. Este conservou-se imóvel.

— Não! não pode ser simples catalepsia. . . declarou o médico. Com a ação do éter, os catalépticos põem-se em movimento e reproduzem inconscientemente, por mímica, a cena que lhes determinou a crise.

— Então é letargia?. . . disse o outro.

— Creio que sim. . . E, se for. . . oh! os senhores

.

não imaginam que sonhos extravagantes, que visões, que fantasias, pode ele experimentar durante esse estado!. . . Foi isso o que no outro tempo levou muita gente à fogueira; tais cousas viam os histéricos nos seus delírios e tais cousas juraram ter presenciado, que os santos padres resolviam queimá-los, convencidos de que os infelizes eram feiticeiros ou tinham o diabo no corpo. E, mesmo agora, todas essas convulsionárias, que infestam Paris, protegidas pelos jansenistas, e que pretendem cair às vezes em estado de inspiração divina, para conversarem com os espíritos e outros seres sobrenaturais, o que mais são do que histéricas sinceras ou fingidas?. . .

Pobre moço!... lamentou Bouvier, considerando a pálida figura de Ângelo estatelada sobre o divã. Aí está em que deu tanta pureza de corpo e alma!. . .

— Agora o que convém, tornou o médico, é afastá-lo daqui, e proibir que lhe falem no ocorrido. A presença daquele cadáver agravaria o seu estado e poderia ser-lhe fatal. É preciso poupar-lhe esse perigo. O melhor será que desperte da letargia já em casa, deitado no seu próprio leito; e, como já não sou necessário neste lugar, encarrego-me de acompanhá-lo a Monteli. Ficam os senhores para tratar do enterro.

— Mas, doutor, observou o conde, permita que lhe lembre que a noite está horrível e que o padre Ângelo, se me não engano, não mora tão perto!

— Não importa! sei onde é. . . Levo-o na minha carruagem. Os cavalos são bons e o cocheiro conhece bem o caminho! Daqui a pouco estarei lá.

— Como quiser... Uma vez que se interesse

tanto pelo padre Ângelo. . .

— Não é o homem que me interessa, declarou o médico, enfiando o seu longo capote de jornada; é o doente. O conde não ignora que eu tenciono apresentar ainda este ano à Academia umas memórias a respeito de certas enfermidades nervosas, que não foram estudadas em França. . . Preciso deste enfermo como de pão para a boca!

E foi chamar os criados, e ordenou-lhes que levassem Ângelo para o seu carro, o que ele mesmo ajudou a fazer, com uma solicitude de namorado a raptar a amada desfalecida.

— Cuidado, hein! gritou ele a Amílcar, quando o negro se apoderou do pároco. Adeus, conde! Adeus, Bouvier!

E saiu, acompanhando de perto o seu tesouro.

Durante a viagem não tirou a mão do pulso do histérico e, por várias vezes, debruçou-se sobre ele, auscultando-lhe o peito.

Continuava a letargia.

Salomé, quando viu seu amo entrar em casa carregado a braço por dois homens, levou as mãos à cabeça, e desandou numa terrível imprecação, contra todos os que tinham contribuído para fazê-lo sair àquela noite, fora de horas e por um temporal de morte.

— Malditos sejam! exclamou ela; que me obrigaram o pobre homem a cometer tamanha loucura! Agora, está aí! Vejam como ele volta! Que digam se eu tinha ou não tinha razão!

O médico tapou-lhe a boca com uma moeda de ouro, enquanto depunham o desfalecido no quarto, sobre o leito.

— Tome lá para o seu rapé... disse aquele, e não precisa afligir-se, tiazinha! O pároco não está abandonado, nem corre o menor perigo. Sou médico e não o deixarei enquanto ele precisar dos meus socorros. Apenas desejo que a senhora me ajude naquilo que for preciso. . .

— Estou às suas ordens, senhor doutor...

— Bom! Pois então, em primeiro lagar, nada de gritaria, que isso só serve para fazer mal; em segundo: vai a senhora contar-me minuciosamente como tem vivido aqui, até hoje, o nosso vigário, o que tem feito ele, e quais os incômodos que tem sofrido.

E Cobalt, enquanto ela dava conta da existência de Ângelo, escutava-a com os olhos fitos no chão, e só a interrompia para lhe pedir novos esclarecimentos sobre algum ponto que não ficara logo bem explicado.

Depois, tirou a sua carteira, tomou algumas notas a lápis, e em seguida foi assentar-se à cabeceira do leito do doente, consultando o relógio de instante a instante.

Assim esteve até pela manhã, quando percebeu que Ângelo ia voltar a si.

Ergueu-se na ponta dos pés e foi ter com a criada, que dormia a um canto da sala de jantar, sentada num banco de pau.

— Olhe! disse-lhe em voz baixa. O vigário vai despertar... É preciso ter todo o cuidado com ele, entende?... Observe-o com atenção para me dizer depois o que se passar. Convém que ele noite nemme não veja e que não desconfie sequer que eu cá estive. . . É preciso não deixá-lo perceber que está doente, porque senão ficará pior e talvez perdido. . . A respeito de tudo que se deu aqui esta noite— nem palavra, ouviu? Isto é o principal! A menor palavra a esse respeito pô-lo-ia doido! Todo o cuidado é pouco!

Salomé, de boca aberta e olhos arregalados, ouvia-o sem pestanejar.

— Mas, disse ela, e se o senhor vigário me fizer alguma pergunta a respeito do que se passou à noite?

— Finja que de nada sabe. Assim é preciso se a senhora não o quer ver doido varrido! Adeus. Não se descuide, hein!.. . E tome lá de novo para o seu rapé! Até logo. Eu voltarei mais tarde.

Deu-lhe outra moeda e saiu, andando cautelosamente, como se receasse acordar alguém.

Ângelo, entretanto, acabava nesse momento de voltar a si.

Abriu os olhos, passeou-os estranhamente em volta da cama, depois tornou a fechá-los, deixou cair de novo a cabeça sobre o travesseiro e começou a dormir, como se continuasse um sono, apenas por um instante interrompido.

Eram duas da tarde quando se ergueu do leito.