A Mortalha de Alzira/II/V

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A Mortalha de Alzira por Aluísio Azevedo
Segunda Parte, Capítulo V: Entre a vida e o sonho


Depois daquele imenso temporal da noite inteira, o dia abriu formoso e resplandecente de luz. A areia dos caminhos brilhava, secando ao sol; as chaminés das cozinhas atiravam para o ar penachos cor de pérola, que se agitavam suavemente às brisas refrescadas pela chuva.

A aldeia parecia sorrir. Os pardais saltavam por toda a parte e grasnavam por entre as ripas dos telhados. As borboletas saíam do mistério dos seus casulos, e vinham peraltear à grande claridade dos vergéis alegres e floridos.

Ângelo, entretanto, continuava a dormir profundamente, como um enfermo que acabasse de escapar à morte, depois de ter atravessado muitas noites em claro. Não sonhava, não se movia no leito. Era um sono de pedra.

Quando acordou às duas horas, fez as suas orações, tomou um copo de leite, que lhe haviam posto à cabeceira da cama, e deixou-se ficar no quarto até ao momento de ir rezar às Trindades na capela.

Saiu em silêncio, em silêncio atravessou por entre os aldeões, e foi colocar-se defronte do altar, com os braços abertos, e olhos perdidos no vago, imóveis, a desfiarem lágrimas.

Já não eram lágrimas de sacerdote, era o seu ferido coração de homem que sangrava.

Por esse tempo, Jerônimo e Salomé conversavam lá fora, sob o velho parreiral que havia em frente à pobre vivenda do pároco.

Falavam em voz baixa, como se conspirassem

— Ora, segredou o hortelão, muito me conta a tia Salomé a respeito do nosso vigário!... Bem me dizia vossemecê ainda ontem que o homem às vezes parecia apatetado!...

— Não estou nada satisfeita, mestre Jerônimo. Durante o tempo do defunto padre René nunca vi cousa assim! O padre René contava-me tudo, tudo que se passava com ele ao passo que este agora, nem só nada diz, como ainda por cima o médico me proíbe de lhe fazer perguntas!. . . Tem lá jeito!

— Ah! o Dr. Cobalt proibiu de lhe falar, hein?

— É exato! Jurou-me que, se o senhor vigário ouvisse uma só palavra do que se passou de ontem à noite para hoje, ficaria doido varrido...

— E o que foi que se passou, tia Salomé?

— Sei cá o que se passou! E, ainda que o soubesse, não o diria, porque o médico proibiu!

— O médico proibiu de contar ao senhor vigário e não a mim. . . Ora essa!

— Não sei! Prometi de não contar, não conto a ninguém!

— A tia Salomé terá receio de que eu também fique com a bola virada ao ouvir a tal história?. . . Se o caso é esse perca o receio e desembuche, que eu cá respondo por mim!

— Mas é que eu de nada sei, homem de Deus!

— Não sabe?. . . Então a que vem a recomendação do doutor?. . .

— Naturalmente cuida que estou a par de tudo. . . E confesso que já agora não se me dava de saber que história é essa, que põe a gente com o juízo transtornado . . .

— O que me parece, tia Salomé, é que para o vermos doido, não é preciso que vossemecê lhe conte a tal história!.. .

— Para longe o agouro, mestre Jerônimo!

— Ora! Um homem que anda sempre como se estivesse dormindo em pé!... Suponho que nem dá pelo que se passa em redor dele. . .

— É um santo!

— É! por isso anda sempre lá pelo céu, com a lua.

— Credo, mestre Jerônimo! Isso não se diz. Você está ficando ateu!

Foram interrompidos pelo Dr. Cobalt, que surgiu por entre moitas de verbena, a olhar misteriosamente para todos os lados.

— Onde está ele?... perguntou ao ouvido de Salomé. Saiu para a rua?. . .

— Não, Sr. Doutor, está rezando às Trindades. O senhor vigário, sempre que não diz missa, reza às Trindades.

— Você nada lhe disse, hein?. . .

— Não trocamos palavras. Ele só saiu do quarto para ir direitinho para a capela.

E, como o sino principiasse a tocar, a criada acrescentou:— Acabou a reza! O senhor vigário vai voltar naturalmente.

— Bom! bom! disse o médico, apressando-se. Vou, antes que ele chegue. Não lhe diga que estive aqui, percebe?

— Sim, Sr. Doutor.

E Cobalt resmungou contrariado:

— E eu que tenho de partir esta noite para

Paris... Diabo!

Voltou-se para Salomé e falou-lhe de carreira:— Olhe, minha amiga, preciso afastar-me daqui, não sei por quanto tempo. . . você fica encarregada de, quando eu voltar, dar-me conta de todos os passos do nosso doente. Tenha todo o cuidado com ele, que a recompensarei. Não o contrarie nunca, ouviu?... Não o apoquente, e principalmente não lhe dê uma palavra a respeito do que se tem passado. Observe-o bem. Adeus. Saio aqui pelos fundos da casa, para me não encontrar com ele Tome para o rapé!

E fugiu, depois de atirar-lhe na mão uma nova moeda.

— Deus lhe pague, Sr. Doutor.

E acrescentou para o hortelão:

— Muito gosta este homem de dar dinheiro para rape. . .

— É um médico esquisito, observou aquele; tem medo de encontrar-se com o seu doente. . .

— Bem, mestre Jerônimo, vou lá para dentro cuidar da merenda do sr. vigário.

— Eu também me vou chegando, tia Salomé. Boas noites.

— Deus lhe dê as mesmas!

E Salomé afastou-se para recolher-se à casa.

Ângelo, nesse instante, acabava de sair da capela e atravessava o jardim.

Entrou na sala de jantar como um sonâmbulo, sem olhar para os lados, e foi assentar-se no banco ao lado da mesa, fitando inalteravelmente o teto.

Estava muito mais pálido e mais abatido que na véspera.

A criada aproximou-se para lhe dar boa noite. Ele não respondeu, nem fez com a cabeça o menor gesto.

Ela saiu da sala, demorou-se um pouco lá dentro, e voltou com o candeeiro aceso.

Ângelo durante esse tempo conservou-se na mesma imobilidade.

— O senhor vigário quer tomar já a sua sopa?. . . perguntou a boa velha.

E, como não recebesse resposta, chegou-se mais para ele, segurou-lhe o braço com brandura e repetiu a pergunta.

Ângelo tomou-lhe as mãos e fixou-a.

— Diga-me uma cousa, minha boa amiga... pediu ele. Que horas eram, quando ontem à noite vieram chamar-me aqui?...

— Aqui?... repetiu Salomé, desviando a vista. E acrescentou de si para si: — Agora é que são elas!. . .

— Sim, insistiu o pároco; refiro-me àqueles dois homens que vieram buscar-me à noite. . .

— Que homens?. . .

— Ho! Aqueles com quem eu saí a cavalo...

Salomé engoliu em seco, estalou várias vezes a língua contra o céu da boca,sonhei que e declarou afinal, tomando uma resolução:

— Vossa reverendíssima ontem à noite não saiu de casa!

— Não saí?!. ..

E Ângelo ergueu-se, abrindo muito os olhos. Como não saí?!. . .

— Não saiu, não senhor. Vossa reverendíssima recolheu-se ontem ao seu quarto e só apareceu hoje à tarde para rezar às Trindades. . .

O pároco tornou a segurar-lhe as mãos, e perguntou, deveras abismado:

— Pois eu não saí ontem com duas pessoas que vieram chamar-me?... Pois não foi a senhora, tia Salomé, quem me acordou?. . . Não me disse até que era temeridade sair com o tempo que fazia?. . .

— Eu?! Eu, não senhor!. . .

Ângelo levou as mãos à cabeça e exclamou: Ó meu Deus! eu estarei louco?. . .

Salomé abaixou os olhos, dizendo consigo mesma:

— Quanto mais se eu confessasse a verdade!. . .

O padre pôs-se a cismar, passeando ao longo da sala.— Seria um sonho?. . . pensou ele. Ela em verdade não teria morrido?.. . Estará viva?. . .

— Posso trazer a merenda, sr. vigário?. . . perguntou a criada.

E acrescentou para si, vendo que ele não dava resposta:— Coitado, se eu pudesse, dizia-lhe tudo!. . .

E saiu.

— Foi um sonho! . . . não há dúvida. . . Logo eu, de fato, não pequei!. . .

E respirou aliviado, encaminhando-se para a mesa.

— Mas, é estranho!... continuou ele a pensar; nunca sonhei assim!. . . Seria capaz de jurar que não sonhei— que vivi. . . Verdade é que nem tudo aparece claro e lúcido no meu espírito... (E procurou recordar-se). Não consigo lembrar-me do que eu fazia ontem à noite antes de adormecer. . . Recordo-me que pensava muito em Alzira, tanto que me pus a rezar defronte da Virgem, mas. . . a Virgem transformou-se em Alzira. . . Estaria já sonhando, ou tudo isto já seriam alucinações do meu delírio?.. . Depois era Alzira que tomava as feições da Virgem. . . Sim! lembro-me perfeitamente. . . Depois, sonhei que bateram lá fora e sonhei que Salomé me acordara... Surgem-me dois homens vestidos de negro e pedem-me para ir dar a extrema-unção a um moribundo... Vou... A noite era tenebrosa e só os relâmpagos nos iluminavam a estrada... Galopamos não sei quanto tempo. . . afinal paramos defronte de um velho castelo; subo... Receberam-me três cavalheiros... Aproximei-me de um cadáver... reconheci

Alzira... Apertei-a nos meus braços. . . Ela voltou à vida... pediu-me um beijo e... morreu! Depois... (E procurava recordar-se.) Depois... nada mais me lembro, senão que acordei já tarde, naquele quarto, sobre a minha cama... Foi tudo um sonho, não há dúvida! . . .

— E, no entanto... acrescentou ele, apalpando a fronte e as mãos; no entanto, dir-se-ia que ainda conservo o frio que me comunicou o cadáver!... É singular! muito singular!. . .

Despertou deste devaneio com a voz de Robino, que acabava de aparecer à janela, metendo a cabeça para dentro da sala.

— O senhor vigário deixa-me entrar por aqui?. . . exclamou ele.

— Quem é?

— Sou eu, senhor vigário. A tia Salomé, de má, fechou-me a porta! O senhor vigário consente que eu entre?. . .

— Sim.

Robino saltou a janela e foi ter com o padre, que continuava entregue à sua profunda meditação.

— Boa noite, senhor vigário, disse ele. A tia Salomé não tinha razão para me fechar hoje a porta! . . . Eu não estive na taberna do Bruxo!. . . Eu fui ver o enterro da tal moça de Paris, que estava na avenida de Blancs-Manteaux . . .

— Hein?! Que dizes tu?! exclamou o pároco, voltando-se para ele com súbito interesse.

— É verdade, senhor vigário, que lindo enterro! Parecia uma procissão!. . .

— De quem era o tal enterro?. . .

— Da tal moça que veio doente para o castelo de Aurbiny. . . Ia na frente um carro com o caixão, todo enfeitado de plumas pretas e amarelas, depois. . .

Ângelo interrompeu-o:

— Estás dizendo a verdade?. . .

— Pois se venho agora mesmo de lá, a correr, para não encontrar a porta fechada?. . . A tia Salomé disse-me que não me deixaria entrar, se eu viesse depois das Trindades!...

— Como se chamava a morta?. . .

Rabina fez um esforço para lembrar-se.

— Chamava-se... Ora! estou com o nome debaixo da língua!... Chamava-se... Ah! Condessa Alzira!

— Não era um simples sonho!... murmurou Ângelo, deixando-se cair na cadeira, a sacudir tristemente a cabeça. Não era um simples sonho!. . .