A Morte da Águia/VI

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CANTO VI

A TEMPESTADE
 
 
 

Tempestade


Cái fogo e cinza. O Céu é turvo e baço;
Veste esse manto imenso um deus oculto,
Que dança e rodopia sobre o espaço;

Agora num alíjero tumulto,
Logo em ondulações vertijinosas,
Ora cinjindo o véu desenha o vulto,


Relampagos de fórmas vaporosas,
Que brilham para logo se apagar
Na primeira espiral das nebulosas.

O célere, invisível voltear
Dos pés divinos tam de leve pisa
Aflora, palpa, acaricia o ar,

Como uma pluma que levanta a briza;
E, apezar disso, oprime e esmaga o Mundo,
Que um siléncio de chumbo imobiliza
Num meditar extático e profundo.

O taciturno espírito dos montes,
O indizível espetro que delira
E enche de seu delírio os horizontes,


Aos mais fundos abismos se retira;
Agora pára, espera, escuta a medo
E de tam quieto e mudo nem respira.

De lonje, cada tácito arvoredo
Na inércia teatral das verdes comas,
Lembra a mulher de Loth, igneo rochedo,
A predizer o incendio das Sodomas.

O bailado divino já vem perto
E o vulto velozmente arrebatado
Mostra-se ás vezes quasi a descoberto;

O Mundo, como um peito sufocado,
Em aflitivas convulsões d'horrôr,
Respira o ar quasi petrificado.


Mas pouco a pouco um gélido terrôr
Esfria o Céu, transtorna a face á Terra,
Perturba-lhe a feição, muda-lhe a côr,

E, como alguém que um pesadelo aterra,
Ou louco, ou visionário, ou epilético,
Assim árvore, nuvem, alta serra

Tem o semblante lívido e patético,
Como se nas mais hórridas posturas
Tudo caísse em sôno cataléptico

Num hospital imenso de loucuras.
Emquanto os brutos animais ferozes,
Buscam de medo as negras espessuras,

Os alciões, gaivotas, e albatrozes,
— As aladas sibilas da tormenta,
Soltam no Mar as agoirentas vozes;



E numa extranha exaltação violenta,
Que as ergue, as arrebata, as precipita,
A pouco e pouco a sua voz aumenta

Em furiosa, halucinada grita,
Tam cheia de visões e de presájios,
Como se fôra a revoada aflita
Dos derradeiros gritos nos naufrájios.

Anjos anunciadôres,
Espíritos aládos e videntes,
Messias, Visionários, Percursôres,

Ei-los que passam lívidos, trementes,
Pisando toda a Terra a largos passos
E deixando no pó rastos ardentes;


Ei-los abrindo á frente outros espaços,
Com a furia do Mar, quando iracundo,
Rebenta os diques todos em pedaços;

Ei-los mais lonje, além, ao largo, ao fundo...
Envoltos já nas brumas do mistério,
Erguendo em pêso, arrebatando o Mundo;

E logo cheios dum esforço etéreo
Aceleram-lhe o giro até lhe dar
O primitivo resplendôr sidério.

Ei-los que pairam, vôam a cantar
Coa voz halucinada dos Profetas,
Tam forte que o seu éco é secular;

Ou dando vida e fala ás fórmas quietas
E erguendo-se ás visões originárias
No inspirado delírio dos Poetas.


Ei-los: seguem as vias solitárias...
Já lhes desponta a luz do Dia eterno
Sobre as divinas frontes visionárias,

'Spalha-se á roda o seu clarão interno
E assim iluminados, como Dante
Vão a todos os círculos do Inferno
Mostrar o Paraíso inda distante.

Ha quanto, ha quanto tempo que os herois
De noite afiam gládios e punhais,
Laminas d'aço a rir, bélicos sóis;

Lobos famintos, fúrias, canibais
Mais doidos, mais raivosos, mais crueis,
Ranjem de fome os dentes, uivam mais.


Já, sobre o peito os ríjidos broqueis,
A custo doma a hoste mais altiva
O piafar inquieto dos corceis.

Ha quanto, um mar de raiva corrosiva,
Ruje e encastela as ululantes vagas
E quasi atinje agora a maré viva.

Dos peitos retalhados por mil chagas
Ás bocas más de risos instantaneos
Afluem maldições, gritos e pragas.

Ao calôr tropical da febre, os craneos
Erguem no escuro a selva das visões;
Escancaram-se ocultos subterraneos;

E os Quasimodos, cheios de aleijões,
Desorbitando as lúcidas pupilas,
Sacodem a rebate os carrilhões.



Então retumba o canto das Sibilas
Num eco que de monte a monte vai:
«A pé, a pé, herois! cerrai as filas,

Erguei os braços válidos, cantai!
Abri vosso estandarte ao vento forte,
Agora avante, á frente, eia, abalai...!
Á Luta, á Guerra, á Tempestade, á Morte.

De súbito, deitando fóra o véu,
No auje do bailante rodopio,
O dançadôr divino larga o Céu.

Que nunca vista graça e novo brio
Lhe faz pairar, correr, zunir a prumo
O tempestuôso corpo fujidío!


É ela a Tempestade...! Ergue-se um fumo
De cúmulos, o pó que se alevanta
Á roda, á frente, a indicar-lhe o rumo...

É ela a Tempestade...! Baila e canta!
E todo o Mundo, á sua vista e voz,
Acorda de repente e se levanta;

E em febre, amôr, delírio ou medo atroz,
Formando a mais demente multidão,
Tudo vem vê-la em seu girar veloz.

Das espirais do aereo turbilhão
Já se entrevê a rápida figura,
Feita de vento, fogo e exaltação.

Matéria que o delírio transfigura
Seu corpo agora é todo espiritual,
Plásmica labareda, Esséncia pura.


Tam alta se nos mostra que afinal,
Posto que o vulto enorme esteja perto,
E quási a arrebatar-nos na espiral,

Nosso aturdido olhar não sabe ao certo,
Se alguma parte, membro ou fórma eterea
Ficará coas estrelas encoberto.

Figura anímica, espetral, aérea,
Que os olhos d'alma só podem fitar,
E nunca os olhos baços da Matéria;

Éter divino, que penetra o ar,
Hálito, fluido, emanação divina,
Assim domina a Terra, o Céu e o Mar;

Carne de fogo, e fogo de neblina,
Olhos só de relampago e clarão
E olhar que mais comove, que ilumina...;


Pé, que de mal pisar é furacão,
Braço, como o de Jupiter tonante,
ígneo feixe de raios traz na mão;

Voz, de que ouvimos só o eco distante,
E apezar disso todo o Mundo abala
Num trovejar contínuo e retumbante;

E olhai a flôr que o seu cabelo engala —
Rosa dos Ventos, rosa de delírio,
Que um perfume de espanto e Dôr exala,

Rosa de assolação e de Martírio
Cujas pétalas sam de tal altura,
Que abraçam e penetram todo o Empíreo...!

Oh! que sublime e trájica figura,
Que faz horrôr, sendo a divina Graça,
E espalha a treva, quando mais fulgura!


Ai! que horrivel deserto onde ela passa,
Onde só paira agora o fumo denso
Da Morte, da Miséria e da Desgraça...!

É que onde toca o seu bailado imenso,
Tudo ela arranca e de seguida arrasta,
Em seu aéreo turbilhão, suspenso...;

Nem mil cidades que o tufão devasta,
Nem Mar e Terra, súbito varrida...
Incéndios, Morte, horrôr... nada lhe basta;

Acossa, estuga a lívida corrida,
Té que a rocha tenaz se faz em pó,
E o pó corcel de fogo a toda a brida.

E a cada volta da terrível mó,
A cada rego do medonho arado,
A cada novo espanto e novo dó;



A cada novo círculo enroscado,
Que os olhos quasi arranca de fita-lo
E empolga o pensamento arrebatado;

A cada novo embate e novo abalo
Daquela formidavel catapulta,
Que o mesmo sangue gela de escutal-o,

Mais o delírio do bailado avulta,
Mais a espiral se alarga e rodopia
E mais o alegre deus bailando exulta.

E, no auje da frenética alegria,
Ébrio de Graça e de sublime Encanto,
Em si mesmo se afunda e se extasia,
Até que entôa este divino canto:


«Cósmico e primitivo Turbilhão,
Sou quem fecunda o Cáos, dando orijem
A toda a Creação.»

«Mundos, fórmas e vidas se diríjem
A meu seio, palpando a escuridade,
Cegos pela vertijem.»

«E Nebulosa, Génio ou Tempestade,
Minha espiral fecundadôra ondeia
E enrosca a Imensidade;»

«Vôa, delira, zune, arde e volteia
E átomos, mundos, almas, leis supremas
Meu atrito incendeia,»

«Para depois nas contorsões extremas
Lançar ao seio livre do Universo
Os Astros e os Poemas.»


«O Universo é um grande Mar disperso,
Cheio de redemoinhos menos fundos
Em meu vórtice imerso;»

«Abismos, Céus e pélagos profundos,
Onde o meu torvelinho vai gerando
O equilíbrio dos Mundos.»

«Tudo quanto ao redôr vou devastando,
Mais em meu seio lúcido concentro
E vou purificando;»

«Exalto, elevo, arrasto para dentro
Até que a Alma universal consiga,
Pois trago Deus no centro.»

«Cósmica fôrça, heriditária, antiga,
Eu sou aquele forte e eterno laço,
Que a Deus o Mundo liga!»


«Vinde a mim, vinde a mim por todo o Espaço
E atirai-vos de todo o coração
Ao meu fecundo abraço!»

«A mim, ao Fogo, á Vida, ao Turbilhão!
Só morre quem tem medo á propria Vida;
Nunca o que expira a arder de exaltação
E esperança desmedida.»