A Primavera (José Bonifácio)

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A Primavera
por Meleagro de Gadara
Poema grego traduzido por José Bonifácio e publicado em 1816. Transcrito segundo a grafia original.
A PRIMAVERA
IDYLLIO
TRADUZIDO DO GREGO EM PORTUGUEZ


por


Escudo em A primavera.png


LISBOA:
NA IMPRESSÃO REGIA.


ANNO 1816.



Com Licença.
F

oi este lindo Idyllio composto em Grego pelo Poeta Meleagro, natural de Gadara na Syria, e que floreceo hum seculo, com pouca differença, antes do Nascimento de Christo. Pela primeira vez o imprimio em Roma no anno de 1759 em 4.º o Sr. João Baptista Zenobetti, que o tirou de hum Códice Manuscripto, que da Biblioteca Palatina de Parma passara para a do Vaticano; e o traduzio e commentou amplamente. Como porém não pudesse eu consultar esta bella edição, servi-me do texto Grego, e da versão Latina, como vem na Obra Periodica que outrora se publicava em Berne com o titulo Excerptum totius Italicae, necnon Helveticae Litteraturae, no tomo IV. do anno de 1759. Tanto mais sinto a falta da edição do Sr. Zenobetti, quanto he o texto assás corrompido em hum lugar, bem que todavia não damne a corrupção ao sentido do mesmo texto. Muito mais para sentir me he o não haver eu ainda podido alcançar a excellente edição de Meleagro que deo á luz o Sr. Graefe, Professor do Instituto Pedagogico de Petersburgo: já que de hum Hellenista tão consumado, tão habil e prático na Poesia Grega, como elle he, e como bem se mostra nas suas duas composições, estampadas ambas na dita Cidade em 1814, huma intitulada Ὕμνος εἰς Νέμεσις ἐν τῇ νίκῃ καὶ τῷ νόστώ Ἀλεξάνδρου τοῦ Σεβαστοῦ (Hymno a Nemese, por occasião do Triunfo e Regresso de Sua Magestade o Imperador Alexandro) e outra com o titulo Examen Graecan in Academia Alexandro Nevensi habendum carmine Graeco commendat D. C. F. Graefe, he de esperar que elle corrigisse e emendasse o referido lugar de huma maneira, plenamente satisfactoria aos entendidos do Grego. Nesta minha traducção procurei, quanto em mim foi, ser fiel e chegado ao texto (seguindo-o á risca sem espiritos e accentos, como achei o original) sem comtudo ser duro e inintelligivel, como não raramente tem acontecido a algumas modernas versões Portuguezas de antigos Classicos. Se esta traducção der tanto gosto aos leitores, quanto me deo a lição de seu original, ficarei por certo satisfeito; quando não, foi isso trabalho perdido e de poucas horas, de que me não arrependo.



TRADUCÇÃO.

J Á do Ether fugio ventoso Inverno,
E da florida Primavera a hora
Purpurea rio: de verde herva mimosa
A Terra denegrida se corôa.
Bebem os prados já liquido orvalho,
Com que medrão as plantas, e festejão
Os abertos botões das novas rosas.
Com os asperos sons da frauta rude
Folga o Serrano, o Pegureiro folga
Com os alvos recentes cabritinhos.
Já sulcão Nautas estendidas ondas;
E Favonio innocente as vélas boja.
As Menades, cubertas as cabeças
Da flor d'hera, tres vezes enrolada,
Do uvifero Baccho Orgias celebrão:
A geração bovina das abelhas
Seus trabalhos completa; já produzem
Formoso mel; nos favos repousadas
Candida cera multiplicão. Cantão
Por toda a parte as sonorosas Aves;
Nas ondas o Alcyão, em torno aos tectos
Canta a Andorinha; canta o branco Cysne
Na ribanceira, e o Rouxinol no bosque.
Se pois as plantas ledas reverdecem;
Florece a Terra; o Guardador a frauta
Tange, e folga co'as maçans folhudas;
Se Aves gorgeião; se as Abelhas crião;
Navegão Nautas; Baccho guia os choros:
Porque não cantará também o Vate
A risonha, a formosa Primavera?