A Pulseira de Ferro/X

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Padre Guilherme resolveu seguir o conselho e o exemplo do velho amigo, e não se importar com a infâmia. Tratou de fechar consigo o seu sofrimento e de continuar mostrando à humanidade de Candeias o mesmo semblante sorridente com que ela o vira até então. Ninguém mais, além de Veloso, ouviu uma queixa ao padre. O seu teor de vida não sofreu alteração sensível. Somente o seu sorriso já não tinha a transparência de outrora, e a sua serenidade era uma serenidade de máscara. Os cantos dos lábios, que ordinariamente se lhe embebiam no sulco redondo das bochechas, descaíam-lhe agora, de leve, prolongando-se para baixo em dois riscos direitos; e o lábio inferior avançava de um jeito amargo e duro. Não raro, no curso de uma conversa aparentemente despreocupada, ele pontuava as pausas e os silêncios com suspiros entrecortados e engolidos.

Tudo isso, porém, eram coisas muito sutis, que Candeias mal percebia. Dos amigos do padre, só as percebia bem o perspicaz Veloso. Por isso, Veloso não se cansava de lhe proporcionar distrações. Visitava-o mais amiúde que nunca, levava-lhe livros, inventava passeios, sugeria aos amigos comuns gentilezas inéditas e redobradas para o padre.

Quanto a passeios, o vigário poucas vezes os aceitava. Embalde Veloso tentava fazer-lhe ver que o seu ressentimento excedia a importância do agravo. Afinal, com os diachos, o padre ficava sempre acima de tais porcarias. Nem toda a gente dava crédito à infâmia. E que desse! Então para que é que servia uma consciência limpa?

- Por ter a consciência limpa é que me revolto, Veloso (bradava o padre). Não, não me posso conformar com esta idéia de que a "minha" pessoa não é afinal "minha", não me pertence, não é aquilo que eu quero que ela seja, aquilo que eu tenho o direito de querer que ela seja, aquilo que eu vivo a trabalhar toda a minha vida para que ela seja!... E essa idéia estúpida, essa idéia trágica é a realidade, a realidade objetiva, a realidade tangível! A "minha" pessoa é uma coisa como qualquer outra, é um objeto, é um traste, é um punhado de matéria desprezível que o primeiro ladrão apanha, desconjunta, torce e deforma à sua vontade, por desfastio, por malvadez, por pilhéria, sei lá!...

Veloso sorria, deixava passar a onda de exaltação, e insinuava uma nova advertência, ou repisava um conselho. Um dia, depois de ouvir os queixumes amaríssimos do amigo, disse-lhe à queima-roupa:

- Padre, você ainda dispõe de um recurso que não está ao alcance de toda a gente.

- Que recurso?

- A oração...

Padre Guilherme corou ligeiramente da lição daquele "ímpio" que era como lhe chamava. De fato, Veloso freqüentava com perfeita regularidade as missas conventuais e as grandes solenidades da igreja, mas (confessava-o ao padre) apenas para dar uma toadinha à vidoca".

- Tem razão, Veloso, mas era escusado o conselho, porque rezar, isso rezo eu todo o santo dia.

Veloso balbuciou imperceptivelmente:

- Não parece...

O padre, sentado na sua rede, ao lado do amigo encovado numa poltrona de braços em S, pôs os olhos no teto, recostou-se de banda, e imprimiu com o pé um ligeiro movimento ao assento pênsil, que gemeu nas ferragens. Depois de alguns minutos passados assim, num silêncio rendilhado apenas pelo ruído áspero e cadenciado dos ganchos da rede fricionados pelas argolas dos punhos, o padre parou, enfiou os chinelos, e pôs-se a dar passadas de um lado para outro da sala, as mãos nas costas, os sobrolhos contraídos. Veloso, calado, entretinha-se com a sua boceta de rapé, de prata velha, presa entre as unhas longas do polegar e do mínimo, a fazê-la girar com a ponta do indicador. De repente, parando diante do amigo, o vigário pôs-lhe a mão no ombro e murmurou, num tom de confidência doida:

- Veloso, não sei se lhe diga... Olhe, eu tenho sofrido tanto com este negócio, tenho sofrido tanto!...

Veloso apanhou no ar a dolorosa confissão, que ainda não descrevera o vôo completo, e esganou-a.

- Não diga mais nada.

O padre baixou a cabeça, e franziu o rosto num suspiro estrangulado, que lhe veio estremecendo a arca do peito, a garganta e a cabeça. Veloso levantou-se também e, com voz meiga, mas firme:

- Que culpa tem Deus de que você exagere a sua sensibilidade? Você é que devia ter a força de desprezar o que é desprezível; mas não desprezar de gesto e de palavra - desprezar de toda a vontade, de toda a alma, num desprezo integral e sereno... Você não tem essa força, e padece... Mas reconheça ao menos que também esse padecimento é providencial. Nós nos orgulhamos facilmente das nossas boas partes; e aquele que se compraz em reconhecê-las em si mesmo, já desmereceu um pouco, só por isso. A má língua chama-nos à realidade, força-nos a ser modestos, a juntar ainda uma qualidade, preciosa entre as mais, às qualidades que já possuímos...

- E de que servem essas qualidades todas, que têm de se alimentar do mal que dizem delas? gemeu o padre.

Veloso, meio desmontado, apenas replicou:

- De nada...


- Não servem de nada (repetia o bacharel consigo, logo depois, parado diante da janela que dava para a rua). Isto de concepções morais nada têm que ver com a vida. Eis aí a vida...

Aproximou-se da janela e escancarou-a. Entrou por ela uma caudal de luz doirada na sala escura, e um quadro maravilhoso se alargou a seus olhos estáticos. Primeiro a massa irregular dos telhados da frente, em tintas queimadas de bistre e de sépia. Sobre ela, dois corvos se disputavam uma longa fita de carniça, aos pulinhos, abaixando e erguendo desgraciosamente as asas e os pescoços, como aves empalhadas que de repente se pusessem a imitar a vida. Logo por trás, umas grandes ondas de vegetação forte, árvores ramalhudas de um velho pomar, entre cujas copas, umas densas e escuras, outras esparsas e leves, passavam e repassavam asas e entrecruzavam-se trinados, pios e chilreios, longos e trêmulos, sobressaltados e agudos, lânguidos e interrogativos...

Mais para além, uma grande superfície verde-clara arredondava-se como o esboço de um ventre colossal, e logo adiante se arremessava em arestas e em grimpas, num impulso vivo de matéria em ebulição repentinamente solidificada, uma cadeia de morros azuis, cujos contrafortes e desvãos tomavam uns tons violáceos e transparentes sob a forte claridade do céu profundo. Das vizinhanças, no silêncio da rua deserta, vinham arrulhos de pombos que andavam pelos telhados.

Veloso achegou-se mais à janela, abriu os braços de encontro aos lados, e mergulhando-se todo naquela delícia, exclamou para dentro de si mesmo:

- A brutalidade magnífica e feliz da natureza!... Porque os homens não haviam de ser assim, integrar-se nesta sinfonia, e afogar a sua consciência miserável nesta divina estupidez!

Despedindo-se do padre, Veloso saiu a percorrer lentamente os arrabaldes de beira-rio, uma guirlanda de lindos aspectos tranqüilos e harmoniosos - "a única harmonia de Candeias".