A Retirada da Laguna/XIX

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Renasce a confiança. Restabelece-se a disciplina. Passagem do Miranda. Os canhões. Ainda o inimigo. Tomamos-lhe alguns bois que oferecem ótimo recurso. Marcha forçada. Vencemos sete léguas! Canindé.

Apenas assumiu o comando, publicou o major José Tomás Gonçalves uma ordem do dia em que, apelando para a coragem e os sentimentos de honra individuais para conjurar o perigo geral, assinalava, como única tábua de salvação, a marcha rápida sobre Nioac, a todo o transe. Imprimiu o tom vivaz desta proclamação um frêmito de excitação moral útil para a restauração de um estado sanitário que, dia a dia. melhorava, e fazer seguir ao abatimento dos espíritos as felizes disposições ardorosas do novo chefe. Recomeçando os clarins a dar os toques de ordem, às horas fixas tocaram a recolher. Já havia alguns dias que não os ouvíamos mais; e uma única corneta do quartel-general, tristemente, indicava a sucessão das horas. Mas o que, sobretudo, causou viva e agradável surpresa foi, da outra margem do rio, es­cutarmos as cornetas do nosso corpo de caçadores, que nos davam o troco. Velava, pois, ainda, sobre nós, a regra militar; cessara o isolamento. A distribuição de nossas forças parecia tê-las dobrado, por toda a parte, restabelecendo a confiança e o prestígio da disciplina

Desperta sempre uma mudança de chefe a atenção geral e poderosamente a agita, à espera da primeira ma­nifestação sensível. O que não dissera a ordem do dia do novo comandante exprimiram-no os atos. Tornara-se José Tomás Gonçalves a personificação da ordem e era o seu órgão. Fez sentir-lhe a força a alguns recalcitrantes que ousavam tentar desobedecer-lhe. Foi a repressão rá­pida, o que para as turbas constitui o sinal da legitimi­dade do poder.

Estávamos a 30; fora dada a ordem de se transpor o rio e tudo se determinara previamente. Regularizou-se o vaivém já colocado. soldados que, isoladamente, haviam passado sem autorização foram chamados da outra mar­gem e reincorporados às unidades a que pertenciam após severa admoestação por esta falta que, em cam­panha, e diante do inimigo, facilmente se transmuta em crime contra a segurança geral. Um sargento que, nesta ocasião, faltara ao dever foi imediatamente rebaixado.

Bastou este ato de firmeza para reparar os males que os quatro dias de moléstia do comandante haviam cau­sado à disciplina. Fizera o coronel Camisão o máximo empenho em a manter; mas ele não dispunha, como o sucessor, nosso novo chefe, do dom de tornar fácil e agradável o cumprimento do dever, graças aos modos afáveis; e embora estimado e respeitado pelas tropas, que nele viam um militar leal, vigilante, dedicado aos inte­resses da justiça e da humanidade, como o gênio con­centrado lhe desse um aspecto habitualmente sofredor, acabara como por incutir que, com efeito, a desgraça sobre ele adejava, coisa que ele próprio parecia recear. Nada há mais funesto ao crédito da autoridade: seja este o nosso último conceito sobre tão atribulada existência.

Quando, ao sinal convencionado, começou a passa­gem que, como já dissemos, fora determinada, tivemos sob os olhos um espetáculo que nada tinha de desinte­ressante.

Já se verificara, por meio de bons nadadores, a força de resistência do cabo, sob pesos assaz consideráveis. Agora, homens, em número sempre crescente, mas cal­culado, dele se suspendiam mudando as mãos, enquanto os corpos, completamente estirados pela velocidade da água à superfície, avançavam de empuxão em empuxão acabando, não sem esforço nem perigo, por atingir a margem oposta. Assim passou todo o 20.° batalhão.

Depois dele vimos coléricos tentar vencer o passo, e consegui-lo não somente, como até ainda da prova se saírem alguns completamente curados.

Alguns houve também que se afogaram; procuráva­mos no começo, por meio de boas palavras, conven­cê-los a que esperassem; mas como tivessem presenciado o abandono dos enfermos, ainda tão recente, não lhes saía da mente a previsão de igual destino. Não houve consideração que os levasse a aceitar manterem-se à re­taguarda. Teria sido preciso empregar a força para os conter; fora prudente e justo deixá-los correr os riscos de um acaso cujos perigos queriam afrontar como se alguma mercê implorassem.

Neste ínterim haviam armas e cartuchame sido transportados, em pelota, com alguns enfermos quase agonizantes, a quem este favor não pudera ser recusado, no estado de agitação convulsiva em que os punha a ra­pidez dos nossos preparativos e, principalmente, a par­tida de outros coléricos que tinham tido forças para passar pelo cabo.

Achando o comandante que já havia bastante gente do outro lado do rio, resolveu que, no dia seguinte, se transportassem as nossas quatro peças de artilharia. No meio de todas as nossas calamidades haviam-se elas cons­tituído em motivo de viva inquietação. Abandoná-las como troféus ao inimigo era inadmissível. Já outrora, em conselho de guerra, deliberara o coronel Camisão a seu respeito, daí resultando uma ata autorizando o co­mandante a fazê-las, em caso de premente necessidade, desaparecer no leito de algum caudal, à maior profundi­dade possível, de modo que se pudesse sempre, mais tar­de, ir buscá-las, acaso por elas se interessasse o senti­mento nacional. Conhecíamos os paraguaios, porém; que precauções poderiam ocultar-lhes tal depósito? De so­bra sabiam o que tais armas lhes haviam custado para que elas pudessem escapar às pesquisas prováveis que não deixariam de fazer.

Fosse como fosse, ainda não nos havia sido imposto tal sacrifício, era, sobretudo, para salvar os canhões que o major José Tomás Gonçalves tivera a idéia da insta­lação do cabo, e, tomado de legítimo entusiasmo, assis­tira ao seu feliz ensaio.

A 31, com a mais viva animação, puseram todos mãos à obra; não houve quem se não prestasse, quer para tra­zer à ribanceira a primeira peça, quer para multiplicar os nós da amarração em torno dos troncos de árvores da margem e os consolidar, quer ainda para a fixação das polias que deviam facilitar o transporte.

Moveu-se, afinal, a boca de fogo e quando puxada, de modo a escorregar ao longo do cabo, por diversas jun­tas de bois colocadas na ribanceira oposta, pareceu se­guir regularmente, estrepitosas aclamações ergueram-se, em ambas as margens, acompanhando-a até que saísse d'água No meio da corrente tanto fizera o cabo bojar que lhe receáramos o desaparecimento completo. Menos feliz foi a segunda peça: escapou de uma das alças, ar­rancou as demais e caiu no fundo do rio. Ponco faltou para que o cabo se não rompesse. Resistindo a tão forte tensão e, de repente, liberto do peso que o sobrecarre­gava, fustigou a água com enormes jactos de espuma, deixando, contudo, o canhão no fundo d'água. Felizmen­te, a nenhuma vida comprometeu o incidente que, em ambas as margens, provocou intensa agitação.

Um soldado, cujo nome merece ser recordado, Damá­sio, ofereceu-se imediatamente para mergulhar no ponto da imersão, e, tendo conseguido reconhecer o fundo, pôde, após duas ou três emersões, para tomar fôlego, passar em torno da peça uma corda de que se provera e serviu para a puxar. Foi a lição aproveitada quanto aos cuidados tomados com a amarração das demais bo­cas de fogo e apressou o resto da operação, permitindo completar a passagem à tarde daquele dia e na manhã seguinte.

A primeiro de junho, à tarde, achamo-nos todos, afinal, reunidos em torno da casa de Lopes, no seu pomar por nós despojado dos frutos, e logo, sem mais repouso ou alimento, recomeçamos a caminhar. O inimigo, que passara para a margem direita, lançou então os seus ati­radores contra a nossa retaguarda. Comandava-o o bi­zarro Pisaflores, que, com a costumada galhardia, não tardou em repelir este novo assalto; o único inconve­niente daí resultante foi obrigar-nos a uma parada que nos deteve até a vinda da noite, que nesta estação chega cedo. Embora não tivesse havido contramandado algum, e apenas se interrompesse a marcha, não foi sem al­guma surpresa que, logo após o toque de recolher cos­tumeiro, ouvimos as cornetas dar o sinal da partida ime­diata. Tornou-se a impressão tanto mais viva e penosa quanto a escuridão se tornara mais profunda, prenun­ciando-se próximo temporal e mais violento ainda. Cada qual, no entanto, compreendeu a necessidade urgente de transpor, custasse o que custasse, o espaço que nos se­parava da Vila de Nioac, quando o menor atraso de nossa parte podia causar-nos o aniquilamento total.

Recomeçamos, pois, a marcha, indo à vanguarda o capitão José Rufino, que conhecia bem o caminho. Por mais sombria e tempestuosa que estivesse a noite não nos ocultava a estrada que diante de nós se abria, larga e plana. Caminhávamos a passo dobrado. Restavam-nos poucos doentes, havendo vários falecido nos dias antece­dentes, e entre eles o alferes Muniz. No entanto, os sol­dados que se revezavam em carregar as padiolas come­çavam a murmurar ameaçando desvencilhar-se da carga

Este princípio de insubordinação que tudo poderia arruinar, não teve, contudo, tempo para progredir. Avi­sado, caiu o comandante, a todo galope e de espada desembainhada, sobre os rebeldes, encontrando-os a im­plorar perdão.

Desde este momento reinou o silêncio na coluna, em obediência às ordens dadas. Subitamente, no meio da es­trada, surgiu uma patrulha paraguaia, a quem o zunir do vento e o ribombo do trovão haviam encoberto qual­quer suspeita de nossa aproximação; e, ainda, sem que os seus cães, a ladrar, ou o gado, a mugir, houvessem dado o alarma. Caminhando à frente da coluna, man­dou nosso comandante que estacássemos e deu ordem que nos preparássemos a carregar à baioneta sobre o acampamento inimigo.

Mas já este a toda a pressa se retirava, deixando-nos o passo livre; nem tempo teve de reunir todo o gado que tangia; estremalharam-se alguns bois que apresamos; circunstância para nós de inestimável valor; era a pró­pria vida. Apesar da urgência que nos impelia a avan­çar, não foi possível recusar aos soldados o tempo ne­cessário para carnear algumas das reses apanhadas e comer um pouco da carne, às pressas assada.

Carregou-se o resto para as necessidades futuras. Atravessando o posto abandonado, tomaram os soldados o que ainda ali havia de víveres e até couros, que a penú­ria de dias precedentes lhes fazia considerar como último e precioso recurso contra a inanição.

Recomeçando a caminhar acompanhou-nos a chuva ainda, sem que a nossa marcha por isto se atrasasse, em­bora, de tempos a tempos, nos víssemos forçados a esta­car à espera da artilharia. Nos lugares piores retarda­va-se e, com ela, o batalhão da retaguarda, encarregado de a escoltar. Daí, freqüentemente, resultava, para a nossa marcha, perturbação tanto maior quando as or­dens eram transmitidas ao longo da coluna, por meio de agudos gritos, sujeitos a interpretações diversas. Avançamos, apesar de tudo, até às quatro da madruga­da Dado, então, o sinal de alto, estrompados, e quase sonâmbulos deixamo-nos cair no chão enrolados nos pon­chos encharcados como o capim e que nos servia de colchão.

Duas horas mais tarde, às seis, estávamos de pé e graças ao que havíamos ingerido, sentindo-nos mais for­tes prosseguimos, sob um céu sereno e uma atmosfera tépida, a nossa intérmina caminhada para Nioac, por toda a parte percebendo, sobre a estrada, onde os para­guaios nos precediam, o rasto de seus cavalos.

Desde a última parada atravessávamos cerrado ma­tagal, onde os soldados, já não mais temendo o ataque da cavalaria, marchavam com segurança, mais afastados uns dos outros. Sabíamos que o campo raso só o vería­mos depois de Canindé. Foi às duas da tarde que avista­mos a mata desse nome, que é o do rio que a corta. A ele chegamos às três, tendo vencido sete léguas, motivo de espanto geral, dada a fraqueza em que nos achávamos.

Ao atravessarmos o rio deparou-se-nos o cadáver de um capataz de carretas, chamado Apolinário, a quem os paraguaios acabavam de matar. Pertencia ao comboio daqueles mascates parados na Machorra, à espera de no­tícias e que, com os boatos dos combates de 8 e 9 de maio, segundo os quais passáramos como perdidos, cui­daram de retroceder. Vinte dias tinham gasto para atin­gir o Canindé, onde encontraram os boiadeiros que ali nos deviam entregar uma boiada, mas, antes de nossa chegada, haviam uns e outros caído às mãos do inimigo[1].

Notas[editar]

  1. Apolinário Pereira de Sampaio chamava-se o carreteiro a que se refere o Autor.