A Viuvinha/V

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A Viuvinha
por José de Alencar


Uma hora seguramente se passara depois da saída do velho.

O relógio de uma das torres da cidade dava duas horas. Jorge conservou-se na mesma posição; imóvel com a cabeça apoiada sobre o braço, apenas se lhe percebia o abalo que produzia de vez em quando um soluço que o orgulho do homem reprimia, corno que para ocultar de si mesmo a sua fraqueza.

Depois nem isto; ficou inteiramente calmo, ergueu a cabeça e começou a passear pelo aposento: a dor tinha dado lugar à reflexão; e ele podia enfim lançar um olhar sobre o passado, e medir toda a profundeza do abismo em que ia precipitar-se.

Havia apenas duas horas que a felicidade lhe sorria com todas as suas cores brilhantes, que ele via o futuro através de um prisma fascinador; e poucos instantes tinham bastado para transformar tudo isto em uma miséria cheia de vergonha e de remorsos.

As oscilações do pêndulo, que na véspera respondiam alegremente às palpitações de seu coração, a bater com a esperança da ventura, ressoavam agora tristemente, como os dobres monótonos de uma campa, tocando pelos mortos.

Mas não era o pensamento dessa desgraça irreparável, imensa, que tanto o afligia; os espíritos fortes, como o seu, têm para as grandes dores um grande remédio, a resignação.

A pobreza não o acobardava; a desonra, não a temia; o que dilacerava agora a sua alma era um pensamento cruel, uma lembrança terrível:

— Carolina!

A pobre menina, que o amava, que dormia tranqüilamente embalada por algum sonho prazenteiro, que esperava com a inocência de um anjo e a paixão de uma mulher a hora dessa ventura suprema de duas almas a confundirem-se num mesmo beijo!

Podia, ele, desgraçado, miserável, escarnecido, iludir ainda por um dia esse coração e ligar essa vida de inocência e de flores à existência de um homem perdido?

Não: seria um crime, uma infâmia, que a nobreza de sua alma repelia; sentia-se bastante desgraçado, é verdade, mas essa desgraça era o resultado de uma falta, de uma bem grave falta, mas não de um ato vergonhoso.

O seu casamento, pois, não podia mais efetuar-se; o seu dever, a sua lealdade, exigiam que confessasse a D. Maria e à sua filha as razões que tornavam impossível esta união.

Sentou-se à mesa e começou a escrever com uma espécie de delírio uma carta à mãe de Carolina; mas, apenas havia traçado algumas linhas, a pena estacou sobre o papel.

— Seria matá-la! balbuciou ele.

Outra idéia lhe viera ao espírito; lembrou-se de que no estado a que tinham chegado as coisas, essa ruptura havia de necessariamente prejudicar a reputação de sua noiva.

Ele seria causa de que se concebesse uma suspeita sobre a pureza dessa menina, que havia respeitado como sua irmã, embora a amasse com uma paixão ardente; e este só pensamento paralisara a sua mão sobre o papel.

Recordou-se de que D. Maria um dia lhe havia dito:

— Jorge, a confiança que tenho na sua lealdade é tal que entreguei minha filha antes de pertencer-lhe. Lembre-se de que se o senhor mudasse de idéia, embora ela esteja pura como um anjo, o mundo a julgaria uma moça iludida. Espero que respeite em sua noiva a sua futura mulher.

E o moço reconhecia quanto D. Maria tinha razão; lembrava-se, no tempo da sua vida brilhante, que comentários não faziam seus amigos sobre um casamento rompido às vezes por motivo o mais simples. Deixar pesar a sombra de uma suspeita sobre a pureza de Carolina, era coisa que o seu espírito nem se animava a conceber; mas iludir a pobre menina, arrastando-a a um casamento desgraçado, era uma infâmia.

Durante muito tempo o seu pensamento debateu-se nesta alternativa terrível, até que uma idéia consoladora veio restituir-lhe a calma.

Tinha achado um meio de tudo conciliar; um meio de satisfazer ao sentimento do seu coração e aos prejuízos do mundo.

Qual era este meio? Ele o guardou consigo e o concentrou no fundo d'alma; apenas um triste sorriso dizia que ele o havia achado e que sobre a dor profunda que enchia o coração, ainda pairava um sopro consolador.

Toda a noite se passou nesta luta íntima.

De manhã o moço saiu e foi ver Carolina, para receber um sorriso que lhe desse forças de resistir ao sofrimento.

A menina na sua ingênua afeição apercebeu-se da palidez do moço, mas atribuiu-a a um motivo bem diverso do que era realmente.

— Não dormiste, Jorge? perguntou ela.

— Não.

— Nem eu! disse, corando.

Ela cuidava que era só a felicidade que trazia essas noites brancas, que deviam depois dourar-se aos raios do amor.

Como se enganava!

De volta, Jorge dispôs tudo que era necessário para seu casamento e fechou-se no seu quarto até à tarde.