A Viuvinha/XIV

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A Viuvinha
por José de Alencar


As últimas palavras do velho negociante esclareceram um mistério que já se achava quase desvanecido. Jorge era o verdadeiro nome desse moço que morrera para o mundo e que, durante cinco anos, vivera como um estranho sem família, sem parentes, sem amigos, ou como uma sombra errante condenada à expiação das suas faltas.

A página em que eu devia ter escrito as circunstâncias desse fato ficou em branco, minha prima; agora, porém, podemos lê-la claramente no espírito de Jorge, que, sentado à sua carteira, triste e pensativo, repassa na memória esses anos de sua vida, desde a noite do seu casamento.

Acompanhando o moço no seu sinistro passeio às obras da Santa Casa de Misericórdia, o vimos sumir-se por entre os cômoros de areia que se elevavam por toda essa vasta quadra em que está hoje assentado o hospital de Santa Luzia.

O vulto que o seguia de perto, embuçado em uma capa e tomando todas as precauções para não ser conhecido nem pressentido pelo moço, desapareceu como ele nas escavações do terreno.

Jorge, como todo homem que depois de longa reflexão toma uma resolução firme e inabalável, estava ansioso por chegar à peripécia desse drama terrível; por isso parou no primeiro lugar que lhe pareceu favorável ao seu desígnio.

Mas um espetáculo ainda mais horrível do que o seu pensamento apresentou-se a seus olhos; viu a realização dessa ir idéia louca que desde a véspera dominava o seu espírito.

Um infeliz, levado pela mesma vertigem, o tinha precedido; seu corpo jazia sobre a areia na mesma posição em que o surpreendera a morte instantânea, meio recostado sobre o declive do terreno.

A cabeça era uma coisa informe; o tiro fora carregado com água para tornar a explosão surda e mais violenta; as feições haviam desaparecido e não deixavam reconhecer o desgraçado.

Naturalmente quis ocultar a sua morte, para poupar à sua família o escândalo e a impressão dolorosa que sempre deixam esses atos de desespero.

Aquele espetáculo horrorizou o moço; em face da realidade seu espírito recuou; houve mesmo um instante em que se espantou da sua loucura; e voltou o rosto para não ver esse cadáver, que parecia escarnecer dele.

Mas a lembrança do que o esperava, se voltasse, triunfou; julgou-se irremissivelmente condenado; e chamou cobardia o grito extremo da razão que sucumbia.

Tirou as suas pistolas e armou-as, sorrindo tristemente; depois ajoelhou e começou uma prece.

Desvario incompreensível da criatura que, ofendendo a Deus, ora a esse mesmo Deus! Demência extravagante do homem que pede perdão para o crime que vai cometer!

Quando o moço, terminada a sua prece, erguia as duas pistolas e ia aplicar os lábios à boca da arma assassina, o vulto que o tinha acompanhado, e que se achava nesse momento de pé, atrás dele, com um movimento rápido paralisou-lhe os braços.

Jorge ergueu-se precipitadamente, e achou-se em face do homem que se opusera à sua vontade de uma maneira tão brusca.

Era o sr. Almeida.

O velho, com a sua perspicácia e com os exemplos de tantos fatos semelhantes em uma época em que dominava a vertigem do suicídio, adivinhara as intenções do moço.

Aquela pronta resignação, aquela espécie de contradição entre os nobres sentimentos de Jorge e a calma que ele afetava, deram-lhe uma quase certeza do que ele planejava.

Não quis interroga-lo, convencido de que lhe negaria. Resolveu espiá-lo durante aquela noite, até que pudesse avisar a Carolina do que se passava, a fim de que ela defendesse pelo amor uma vida ameaçada por loucos prejuízos.

Sua expectativa realizou-se; recostado no muro da chácara que ficava fronteira às janelas do quarto da noiva, acompanhou por entre as cortinas toda a cena noturna que descrevi; conheceu a agitação do moço, viu-o deitar algumas gotas de ópio no cálice de licor que deu à sua mulher; não perdeu nem um incidente, por menor que fosse.

Um instante, enquanto o moço meditava, com os olhos no mostrador do seu relógio, o sr. Almeida, receou que ele quisesse fazer do quarto da noiva um aposento mortuário; mas respirou, quando o viu saltar na rua.

Seguiu-o e, pela direção, adivinhou o desenlace da cena de que fora espectador; preparou-se, pois, para representar também o seu papel; e por isso achava-se em face de Jorge no momento supremo em que a sua intervenção se tornara necessária.

O primeiro sentimento que se apoderou do moço, vendo o sr. Almeida, foi o do pejo; teve vergonha do que praticava e pareceu-lhe fraqueza aquilo que havia pouco julgava um ato de heroísmo.

Logo depois o despeito e o orgulho sufocaram esse bom impulso.

— Que veio fazer aqui? perguntou com arrogância.

— Evitar um crime, respondeu o velho com severidade.

— Enganou-se, disse Jorge secamente.

— Não me enganei, porque estou certo de que não há homem que depois de escutar a razão cometa semelhante loucura. Qual é o benefício que lhe pode dar a morte?

— Salvar-me da desonra.

— Uma desonra não lava outra desonra. O homem que atenta contra sua vida, é fraco e cobarde...

— Sr. Almeida!

— É cobarde, sim! Porque a verdadeira coragem não sucumbe com um revés; ao contrário luta e acaba por vencer. Matando-se, o senhor rouba os seus credores, porque lhes tira a última garantia que eles ainda possuem, a vida de um homem.

— E que vale esta vida?

— Vale o trabalho.

— E o sofrimento!

— É verdade; mas não temos direito de sacrificar a um pensamento egoísta aquilo que não nos pertence. Se a sua existência está condenada ao sofrimento, deve aceitar essa punição que Deus lhe impõe, e não revoltar-se contra ela.

Jorge abaixou a cabeça; não sabia o que responder àquela lógica inflexível.

— Escute, disse o velho depois de um momento de reflexão, o que teme o senhor dessa desonra que vai recair sobre a sua vida? Teme ver-se condenado a sofrer o desprezo do mundo, e sentir o escárnio e o insulto sem poder erguer a fronte e repeli-lo; teme, enfim, que a sua existência se torne um suplício de vergonha, de remorso e de humilhação! não é isto?

— Sim! balbuciou o moço.

— Pois não é preciso cometer um crime para livrar-se dessa tortura; morra para o mundo, morra para todos; porém viva para Deus, e para salvar a sua honra e expiar o seu passado.

— Que quer dizer? perguntou o moço admirado.

— Ali está o corpo de um infeliz; é um cadáver sem nome, sem sinais que digam o que ele foi; deite sobre ele uma carta, desapareça, e, daqui a uma hora, o senhor terá deixado de existir.

— E depois?

— Depois, como um desconhecido, como um estranho que entra no mundo, tendo a lição da experiência e a alma provada pela desgraça, procure remir as suas culpas. Um dia talvez possa reviver e encontrar a felicidade.

Jorge refletiu :

— Tem razão, disse ele.

Pouco depois ouviu-se um tiro; os trabalhadores das obras que iam chegando encontraram um cadáver mutilado e a carta de Jorge; ao mesmo tempo o moço e o sr. Almeida ganhavam pelo lado oposto a praia de Santa Luzia.

Passava um bote a pouca distância de terra; o velho acenou-lhe que se aproximasse.

— O acaso nos favorece, disse ao moço; sai amanhã para os Estados Unidos um navio que me foi consignado; é melhor embarcar agora, para não excitar desconfianças; hoje mesmo lhe tirarei um passaporte.

O bote aproximou-se; o embarque nestas paragens é incômodo; mas a situação não admitia que se atendesse a isto.

Eram 9 horas quando o sr. Almeida, tendo deixado Jorge na barca americana e tendo tomado um carro na primeira cocheira, chegou à casa de D. Maria.

A boa senhora recebeu-o com um sorriso; estava sentada na sala próxima ao quarto de sua filha e esperava tranqüilamente que seus filhos acordassem.

O velho, vendo aquela serena felicidade, hesitou; não teve ânimo de enlutar esse coração de mãe.

Nisto a porta do quarto abriu-se e Carolina, branca como a cambraia que vestia, apareceu na porta, tendo na mão a carta de Jorge.

A mãe soltou um grito; a filha não podia falar; e assim passou um momento de tortura, em que uma dessas dores procurava debalde adivinhar a desgraça e a outra se esforçava por achar uma palavra que a revelasse.

No dia seguinte, Jorge partia para os Estados Unidos e Carolina trocava, suas vestes de noiva por esse vestido preto que nunca mais deixou.

Seria longo descrever a vida desse moço, morto para o mundo e existindo, contudo, para sofrer; durante cinco anos, alimentou-se de recordações e de uma esperança que lhe dava forças e coragem para lutar.

O amor de Carolina, talvez mais do que o sentimento da honra, o animava; trabalhou com uma constância e um ardor infatigáveis e ganhou para pagar todas as dívidas de seu pai.

Logo que se achou possuidor de uma soma avultada, Jorge preferiu vir acabar a sua expiação no seu país, onde ao menos se sentiria perto daqueles que amava.

De fato chegou ao Rio de Janeiro com o nome de Carlos Freeland; dava-se por estrangeiro; alguns, porém, julgavam que nascera no Brasil e que aí vivera muito tempo mas não se recordavam de o ter visto. A desgraça tinha mudado completamente a sua fisionomia; do moço tinha feito um homem grave; além disso, a barba crescida ocultava a beleza dos seus traços.

O seu primeiro cuidado foi procurar o sr Almeida e pedir-lhe que o auxiliasse no resgate das letras, que devia ser feito de modo que ninguém o suspeitasse. O que fez o velho negociante, já o sabe.

Como disse, Jorge ocultava sua vida de todos e do próprio velho; sofria corajosamente a miséria a que se condenara, mas não queria que ela tivesse uma testemunha.

O sr. Almeida, porém, surpreendera o segredo.