A Viuvinha/XV

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
A Viuvinha
por José de Alencar


Vou levá-la,..., à mesma casinha do morro de Santa Teresa, onde começou esta pequena história.

São 10 horas da noite. Penetremos no interior.

D. Maria acabava de recolher-se, depois de ter beijado sua filha; toda a casa estava em silêncio; apenas havia luz no aposento de Carolina.

Esse aposento era a mesma câmara nupcial, onde cinco anos antes aquela inocente menina adormecera noiva para acordar viúva, no dia seguinte ao do seu casamento.

Nada aí tinha mudado, a não ser o coração humano.

Cinco anos que passaram por esse berço de amor, transformado de repente em um retiro de saudade, não haviam alterado nem sequer a colocação de um traste ou a cor de um ornato da sala.

Apenas o tempo empalidecera as decorações, roubando-lhes a pureza e o brilho das coisas novas e virgens; e a desgraça enlutara a rola, que se carpia viúva no seu ninho solitário.

Carolina estava sentada na conversadeira, onde na primeira e última noite de seu casamento recebera seu marido, quando este, trêmulo e pálido, se animara a transpor o limiar desse aposento, sagrado para ele como um templo.

Justamente naquele momento, esse quadro se retraçava na memória da menina com uma força de reminiscência tal que fazia reviver o passado. O seu espírito, depois de saturar-se do amargo dessas recordações, desfiava rapidamente a teia de sua existência desde aquela época.

Quer saber naturalmente o segredo dessa vida, não é, minha prima?

Aqui o tem.

Nos primeiros dias que se seguiram à catástrofe, Carolina ficou sepultada nessa letargia da dor, espécie de idiotismo pungente, em que se sofre, mas sem consciência do sofrimento.

Maria e o sr. Almeida, que a desgraça tinha feito amigo dedicado da família, tentaram debalde arrancar a moça a esse torpor e sonolência moral. O golpe fora terrível; aquela alma inocente e virgem, bafejada pela felicidade, sentira tão forte comoção que perdera a sensibilidade.

O tempo dissipou esse letargo. A consciência acordou e mediu todo o alcance da perda irreparável. Sentiu então a dor em toda a sua plenitude e à profunda apatia sucedeu uma irritação violenta. O desespero penetrou muitas vezes e assolou esse coração jovem.

Mas a dor, a enfermidade da alma, como a febre, a enfermidade do corpo, quando não mata nos seus acessos, acalma-se. O sofrimento, em Carolina, depois de a ter torturado muito, passou do estado agudo ao estado crônico.

Vieram então as lágrimas, as tristes e longas meditações, em que o espírito evoca uma e mil vezes a lembrança da desgraça, como uma tenta que mede a profundeza da chaga, em que se acha um prazer acerbo no magoar das feridas que se abrem de novo.

A pouco e pouco o que havia de amargo nessas recordações se foi adoçando: as lágrimas correram mais suaves; o seio, que o soluço arquejava, arfou brandamente a suspirar. E, como no céu pardo de uma noite escura surge uma estrela que doura o azul, a saudade nasceu n'alma de Carolina e derramou a sua doce luz sobre aquela tristeza.

Tinha decorrido um ano.

Começou a viver dentro do seu coração, com as reminiscências do seu amor, como uma sombra que se sentava a seu lado, que lhe murmurava ao ouvido palavras sempre repetidas e sempre novas. Sonhava no passado; diferente nisso das outras moças, que sonham no futuro.

Mas um coração de 15 anos é um tirano a que não há resistir; e Carolina não contara com ele.

Quando uma planta delicada nasce entre a sarça, muitas vezes o fogo queima-lhe a rama e o hastil; ela desaparece, mas não morre, que a raiz vive na terra; e às primeiras águas brota e pulula com toda a força de vegetação que incubara no tempo de sua mutilação.

O coração de Carolina fez como a planta. Apenas aberto, a desgraça o cerrara; mas veio a calma e ele tornou a abrir-se. A princípio bastou-lhe a saudade para enchê-lo; depois desejou mais, desejou tudo. Tinha sede de amor; e não se ama uma sombra.

O mundo ao longe corria às vezes o pano a uma das suas brilhantes cenas e mostrava à menina refugiada no seu retiro e na sua saudade a auréola que cinge a fronte das mulheres belas; auréola que aos outros parece brilho de luz, mas que realmente é para aquelas que a trazem, chama de fogo.

Carolina resistia, envolvendo-se na branca mortalha de seu primeiro amor; mas a tela fez-se transparente e não lhe ocultou mais o que ela não queria ver. Sentiu-se arrastar e teve medo.

Teve medo de esquecer.

Não descreverei, minha prima, a luta prolongada e tenaz que travaram n'alma dessa menina a saudade e a imaginação. A senhora, se algum dia amou, deve compreender a luta e o resultado dela. O mundo venceu. Carolina tinha 15 anos e não havia libado do amor senão perfumes.

Mas, ainda vencida, ela defendeu contra a sociedade as suas recordações, que se tornaram então um culto do passado. Entrou nos salões, porém com esse vestido preto, que devia lembrar-lhe a todo o momento a fatalidade que pesara sobre a sua existência.

Excitou a admiração geral pela sua beleza. Não houve talento, posição e riqueza que se não rojasse a seus pés. Sabiam vagamente a sua história; suspeitavam a virgindade sob aquela viuvez e se lhe dava um toque de romantismo que inflamava a imaginação dos moços à moda.

Chamavam-na a Viuvinha.

A senhora deve tê-la encontrado muitas vezes, minha prima, no tempo em que começou a freqüentar a sociedade. Estava ela então no brilho de sua beleza. Na menina gentil e graciosa encarnara a natureza a mulher com todo o luxo das formas elegantes, com toda a pureza das linhas harmoniosas.

A influência que o vestido preto devia exercer sobre essa organização ardente revelou-se logo. O vestido preto era o símbolo de uma decepção cruel; era a cinza de seu primeiro amor; era uma relíquia sagrada que respeitaria sempre. Enquanto ele a cobrisse parecia-lhe que nenhuma afeição penetraria o seu coração e iria profanar o santo culto que votava à imagem de seu marido.

Era uma superstição; mas que alma não as tem quando a crença ainda não a abandonou de todo! Assim, Carolina tornou-se "coquette"; ouvia todos os protestos de amor, mas para zombar deles; o seu espirito se interessava nessa comédia inocente de sala; a sua malícia representava um papel engenhoso; mas o coração foi mudo espectador.

Era quando voltava do baile, à noite, na solidão do seu quarto, que o coração vivia ainda no passado, no meio das tristes recordações que despertavam quando o mundo dormia. Ali tudo lhe retraçava a noite fatal; só havia de mais o luto e de menos um vulto de homem, porque a sua imagem, ela a tinha nos olhos e n'alma. Dizem que não se pode brincar com o fogo sem queimar-se. O amor é um fogo também e Carolina, que brincava com ele, zombando dos seus protestos, acabou por crer.

Ela se tinha preparado para combater o amor brilhante, ruidoso, fascinador, dos salões; mas não se lembrou de que ele podia vir, modesto, obscuro e misterioso, enlear-se às cismas melancólicas de sua solidão.

Esta parte da vida de Carolina é um romance.

Havia 18 meses que, um dia, sua vista, ao acordar, fitou-se na janela que a mucama acabava de abrir para despertá-la. Há um prazer indizível em embeberem-se os olhos na luz de que durante uma noite estiveram privados.

Carolina gozava desse prazer que nos faz parecer tudo novo e mais belo do que na véspera, quando descobriu entre o vidro da janela um papel dobrado como uma sobrecarta elegante. A curiosidade obrigou-a a erguer-se, levantar a vidraça e tirar o objeto que lhe despertara a atenção.

Era realmente uma sobrecarta, fechada com este endereço:

A ela.

Não creio que haja mulher no mundo que não abrisse aquela sobrecarta misteriosa. Carolina hesitou dez minutos, no que mostrou uma força de vontade admirável, porque outras no seu lugar a abririam no fim de dez segundos.

Não havia dentro nem carta, nem bilhete, nem uma frase, nem uma palavra; mas uma flor só, uma saudade.

Este pequeno acontecimento ocupou mais o espírito da moça do que os bailes, os teatros e os divertimentos que freqüentava. Pensou no enigma esse dia e os seguintes, porque todas as manhãs achava a mesma carta sem palavras e a mesma flor.

Quando isso tomou ares de uma perseguição amorosa, a moça revoltou-se e deixou de tirar as cartas, que ficaram no mesmo lugar onde as tinham posto. Parecia que o autor dessa correspondência ou não se importava com a indiferença que lhe mostrava Carolina ou contava vencê-la à força de constância.

Uma vez Carolina, não sei como, teve uma idéia extravagante: começou a sonhar acordada, e, como não há loucura que não roce as asas pelo delírio da imaginação, acabou por ver naquela flor misteriosa uma saudade que lhe enviava de além-túmulo aquele que a amara.

Abraçado assim o romance da flor com o culto do seu passado, é fácil adivinhar como ele não caminharia depressa ao desenlace: por mais absurda e impossível que a razão lhe apresentasse semelhante aliança, o coração a desejava, e ela se fez.

Uma noite resolveu conhecer quem era o seu desconhecido. Recostou-se por dentro da vidraça, na penumbra da janela. O aposento não tinha luz; era impossível vê-la de fora.

Esperou muito tempo.

Às 2 horas sentiu ranger a chave na fechadura do portão, que se abriu dando passagem a um vulto. A treva era espessa, Carolina mal distinguia; mas pôde ver o vulto parar defronte de sua janela, ficar imóvel tempo esquecido, e por fim deixar a carta e sumir-se.

Durante mais de meia hora a respiração ardente daquele homem e o hálito suave daquela menina aqueceram uma e outra face do vidro frágil que os separava. Carolina, que defendera por mais de quatro anos a memória de seu marido, que resistira a todas as seduções do mundo, sucumbiu à força poderosa desse amor puro e desinteressado.

Carolina amou.

Amava uma sombra morta; começou a amar uma sombra viva.