A ilha maldita/I

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— Não estás ouvindo, meu filho? — começou o velho pescador. — Como estão alegremente repicando os sinos da capela…? É que amanhã é dia santo, dia de Nossa Senhora do Amparo, que nos defenda do canto da sereia e de todos os malefícios diabólicos.

Em eras que já vão longe corria uma tarde serena e formosa como esta, e ali mesmo na nossa aldeia aqueles mesmos sinos repicavam, foguetes subiam ao ar, e o povo acudia de roldão a capela como para assistir a uma grande festa. Entretanto o que ali se dava não passava de um simples casamento.

Quem visse esse extraordinário alvoroço e afluência de povo, pensaria que os noivos eram alguns fidalgos ou magnatas, filhos de gente opulenta, que iam celebrar as bodas com grandes aparatos e vistos os festejos.

Não havia, porém, nada disso; eram simples e obscuros habitantes da aldeia, que iam receber na capela a bênção nupcial com a maior singeleza do mundo. É verdade que os dois contraentes formavam o mais lindo e garboso par que talvez se tenha visto nesta terra, mas também não era a formosura e galhardia deles que atraía toda aquela multidão e excitava tanto alvoroço e curiosidade.

O que haveria, pois, de extraordinário naquele simples e modesto casamento para torná-lo como uma festa popular, que arrancava de sua costumada tranquilidade toda a população em derredor…?

No correr desta história ficará patente a razão de semelhante fenômeno; desde já, porém, fica-se compreendendo que esse simples casamento era para os habitantes do lugar um acontecimento da mais subida importância.

Com o favor de Deus iam-se casar Aleixo, gentil marinheiro, vindo das terras de além-mar, e Regina, formosa donzela, filha das ondas, como costumavam apelidá-la. A noiva tinha sido batizada naquela mesma capela, e criada aqui à beira deste mar entre nossos avós, mas ninguém sabia onde nascera ela, nem quais eram seus pais. Ainda muito menina fora atirada a estas praias em uma noite de tempestade; devia ser uma pobre criança escapada milagrosamente de um terrível naufrágio; pelo menos assim pensou a boa mulher, que apanhou-a na praia, e a recolheu e criou em sua choupana. Mas o povo não quis acreditar um tal naufrágio, e tinha boas razões para isso. Não apareceu indício nem destroço algum de navio perdido em toda a extensão destas costas, e por mais que se indagasse, não houve depois notícia de embarcação alguma, que por aquele tempo pudesse ter soçobrado nestas paragens.

Assim, pois, a origem de Regina andou sempre envolvida em dúvidas e mistérios. A extraordinária formosura da menina, a pasmosa vivacidade de espírito, de que desde criança dava mostras, a voz encantadora, com que sabia entoar as mais bonitas cantigas, e enfim seu gênio trêfego, audaz e ardiloso, como nunca se viu, a fizeram passar entre o povo como filha de uma fada do mar ou de uma sereia, o que vem a ser o mesmo. Os acontecimentos que se seguiram e a vida estranha e singular que levava a menina, cada vez mais confirmaram o povo nesta sua crença.

O noivo, como já disse, era um forasteiro de além-mar, que voltara bastantemente abastado da costa da África, por onde andara em tráfico de escravatura. O navio em que vinha fundeara nestas praias para refrescar e fazer aguada. Desembarcando aqui o moço viu Regina, falou-lhe e poucos dias depois estava contratado o casamento. O navio em que viera fez-se de vela a seu destino, e ele deixou-se ficar.

O que portanto mais atiçava a curiosidade do povo não era por certo a procedência nem a riqueza desse mancebo; o que realmente o assombrava era ser ele — um forasteiro apenas ali chegado — o noivo aceito por essa mulher inconcebível; era ser ele único, que até ali e em poucos dias conseguira vencer a isenção da formosa e soberba Regina, dessa fada intratável, que tinha feito naufragarem desastrosamente as esperanças de tantos e tão guapos mancebos do lugar. De feito muitos moços do lugar se haviam arrojado loucos de amor aos pés de Regina, mas sendo por ela altiva e desdenhosamente repelidos, tiveram quase todos o mais triste e lastimoso fim.

Não faltava quem dissesse que quem conseguira domar o orgulho e ameigar o coração de Regina, era por certo algum príncipe, e príncipe encantado.

Apenas receberam a bênção matrimonial em face do altar, os novos desposados rompendo por entre a multidão, que em torno deles se apinhava sôfrega e curiosa, saíram da igreja e desceram a encosta sempre escoltados por grande número de pessoas, que quis acompanhá-los até a casa. Era esta uma pequena cabana, singela e tosca, onde Regina sempre havia morado, situada aqui à beira-mar ao pé de um rochedo. Já era noite fechada, porém noite de luar, clara e bonançosa.

A brisa apenas farfalhava de leve nos matagais do mangue, e nos leques dos coqueiros, e o mar espreguiçando-se pelas praias enchia os desertos de seus solenes e monótonos bramidos.

Posto que simples, a casa de Regina era uma cabanazinha bonita e asseada, como devia ser o asilo de uma sereia, ou de uma ondina, mas tão pequena, que nela não podia caber mais ninguém senão os donos da casa.

Como não havia banquete, bailado nem folguedo de qualidade alguma, as pessoas que os acompanhavam se despediram cordialmente à porta da cabana, e se retiraram murmurando:

— Deus os guarde e os abençoe.