A partida que me aparta

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A partida que me aparta
por Anónimo
Cantiga renascentista portuguesa do Cancioneiro de Paris.


A partida que me aparta,
De quem me sustém a vida,
Morte é que não partida.

O mal de meu pensamento,
Eu o passo, eu o sei,
Mas eu triste, que farei,
A um tão grave tormento.
Faço castelos de vento,
Pera sustentar a vida,
Morte é que não partida.

Não é nada o partir,
Se fosse com esperança,
Mas nunca se fez mudança,
Sem maior pena sentir.
Não posso deixar de m'ir,
Inda que me custe a vida,
Morte é que não partida.

Vida tão triste é tal,
Como é a que padeço,
E sim dela é começo,
De bem que não tem igual.
Pois a morte só me val,
Para remédio da vida,
Já a quisera perdida.

É tamanho o sentimento,
Que tenho de me apartar,
Que me acrescenta o pesar,
E me dobra meu tormento.
Morrer senhora não sento,
Mas folgo perder a vida,
Pois que vai tão bem perdida.