A queima de um bosque

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A queima de um bosque
por José da Silva Maia Ferreira
Poema publicado em Espontaneidades da minha alma.



Plus pâle que la pâle automne
Tu t’inclines vers le tombeau!

         Millevoye.


Em um bosque, onde eu outr’ora
Divaguei, — se vê queimado,
Em trevas já não namora
O rouxinol engraçado.
Já não tem inspiração!
Assim dizia com paixão,
E com dôr no coração
Um mancebo desgraçado.

Ó bosque, que tanto amei,
Vosso luto é minha sorte,
Que por elle eu divisei
O meu preságio de morte.
Os orác’los não procuro
P’ra dizerem meu futuro,
Bem sei que é immaturo,
Inabalavel e forte.

«O fado dizia,
Qu’o bosque queimado,
Eu não viveria,
Estaria enterrado!»

E nisto ao longe ardia
O resto do bosque lindo,
Quando o mancebo se ía
Para ahi triste, carpindo.
Elle foi.... mas não voltou.
Que junto aos restos qu’achou,
De subito expirou,
De rôjo ao chão cahindo!

Um tumulo ergueram
No bosque fatal;
E nelle escreveram:—
—«Fugi do meu mal!»—

Deste ermo solitario
Ninguem nunca se lembrou;
Nem bronzeo campanario
Seus echos alli soou.
Só á noite se ouvia
Rijo vento que gemia
Sobr’a campa, e que dizia—
—«Ai!—Mortal já eu não sou!»—