Ad juvenis diem

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Ad juvenis diem
por Pedro Kilkerry


Cor de leite é a manhã. E vem envolta de ouro
Em mãos de aroma, unhas de seda!
E um ritmo feliz, doce, fresco, qual coro
Que, em voz feliz, segreda
Amor às árvores, segreda.
E oh! volúpia, aromal, como de âmbar! O dia
Que doida, esperta, corta, em fogo, a alegria
Das asas
Sobre os montes, sobre os vales, sobre as casas!
É o dia?
Dançam corolas, dançam, vagas de ouro,
Ritmos de um coro...
E a ânsia de quanto ser ergue um vôo subindo,
Luzindo, luzindo!

Há curvas quentes, linhas leves de almas
Espirituais jóias incalmas...
Insetos vão ou vêm, na altura,
Para a sede matar, na amorosa doçura
De um vinho azul, tão bom das almas!
E a ânsia de quanto ser ergue um vôo luzindo,
Subindo, subindo!
Mas bom é o Sol! Faz um banquete
No prado, na rechã, no bosque, nas montanhas,
E nos fica a vontade a um alfinete
De ouro voluptuosamente e (inda) outro alfinete...

Mas são venturas e tamanhas
Oh! vida! Oh! bem-amada!
De fina luz mais encantada
Como a criança nua, o coração nos banhas!
Rio claro...Ah! por que choras?
São dez horas!
Passos azuis do dia!
Flórea magia!

O Sol, que é muito amigo
E servo do Homem que, ora, é um Lúculo mendigo,
Pratos de luz, neste banquete
Tão largo! Tão louro!
Dá-nos a ver agora, como
Halos de um deus em cada pomo
E a vontade nos fica a um trêmulo alfinete,
A um doce alfinete, de ouro.

A Harpa do céu azul vibra como a Alegria
Em cada peito
Satisfeito
É meio dia! É meio dia!

Oh! Natureza moça em túnica esmeralda
Flavo o seio a mostrar à boca ressequida
Na hora ruiva e que escalda
Dá-nos eterno o fruto à fome.
Que não te abate ou te consome
E essa, incontida,
Chuva de ouro vital que transfigura a Vida!

Aí vem a hora viúva...
O Sol, nem sempre a fruto louro
Homens! nos levará, os alfinetes de ouro
Sobre nós e como chuva.
Cinzas serão depois dessa hora...

Mas natureza moça, a pingar, de esmeralda,
Na hora metálica, que escalda
E agoniza agora
Alonga o tempo a essa magia
Que não vai muito além da hora do meio-dia.