Alves & Cia/V

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Alves & Cia por Eça de Queirós
Capítulo V


NA MANHÃ SEGUINTE um raio de sol, entrando pela janela, despertou bruscamente Godofredo. Ergueu-se de repente sobre o cotovelo, e, batendo as pálpebras, ficou espantado de se ver num sofá, vestido, com botas. Então bruscamente a idéia toda da sua desgraça caiu-lhe sobre o coração pesadamente. E um véu de crepe pareceu envolver tudo em torno dele. Na véspera, depois que o Neto partira, estendera-se ali, morto de fadiga, e adormecera logo, dum sono fundo e pesado. Então sentou-se no sofá. Havia um grave silêncio na casa e na rua: eram apenas seis horas. Em redor o quarto conservava a desordem da véspera, com a mala ao centro, o chambre de Ludovina atirado aos pés da cama. Olhou muito tempo aquele chambre, o grande leito intacto, onde ninguém se deitara, com as duas travesseirinhas ao lado uma da outra. Depois, como na véspera, percorreu a casa: na sala de jantar, a mesa ainda tinha a toalha da véspera e em cima uma vela esquecida derretera-se e extinguira-se dentro dum castiçal. Depois diante da porta da sala de visitas tomou-o uma covardia, não se atreveu a mover o reposteiro. E voltou para o quarto, tornou a sentar-se no sofá, as mãos ao acaso, o olhar vago, sem saber o que havia de fazer àquela hora matutina, em que a cidade ainda dormia. Àquela hora Ludovina decerto dormia também. E recordava-se ds manhãs em que ele acordava cedo, se erguia de manso, abria uma fresta da janela, enquanto ela dormia, com os seus cabelos numa rede, uma renda do chambre em volta do pescoço, e as longas pestanas negras fazendo-lhe uma sombra na face... Agora o leito, ainda feito, àquela luz clara da manhã, dava-lhe uma sensação de frialdade, de desconforto... Uma tristeza invadiu-o, imensa, sem fim, que o dissolvia, lhe dava vontade de deitar a cabeça para um canto do sofá, ficar ali a morrer... E a mesma idéia da véspera voltava, a idéia da morte, entrando-lhe no espírito como a lenta suavidade duma carícia.

Mas daí a horas tudo estaria decidido, talvez ele fosse como um homem morto. Era às onze horas que devia encontrar o outro. O coração batia-lhe à idéia que o ia ver, outra vez, diante de si; e parecia-lhe, agora, impossível de o imaginar numa outra atitude, que não fosse como o vira na véspera, com o braço em torno da cinta dela. Mas agora a sua idéia da véspera, o tirar à sorte o suicídio, que parecera tão natural, espantava-o um pouco. Parecia-lhe estranho que fosse ele, ele, Alves, que, ali, naquela rua de são Bento que o sol da manhã dourava, tivesse tido semelhante idéia, uma idéia trágica, e própria dum coração violento. E tomava-o uma inquietação. Que diria o outro a semelhante proposta? Se recusasse? E outras dificuldades de detalhe surgiram. Como tirariam à sorte? Com papéis brancos? E subitamente veio-lhe o receio que, diante duma proposta tão exaltada, o outro se risse... Nesse caso esbofeteava-o. Mas não, não poderia recusar, era um homem de honra! Enfim daí a horas o saberia.

E não queria pensar mais nisso. Aquela idéia ocupava-o, quase o impedia de sofrer; pôr outro lado, dava-lhe uma espécie de consideração pôr si mesmo, encobria o ridículo - e não queria pensar em nada que diminuísse a importância desse plano.

No entanto sentiu passos na cozinha, as criadas tinham-se erguido. Na rua, um rumor ia subindo, vozes de pregoada, as carroças, a sussurração da cidade que acorda. E então pouco a pouco ele foi entrando na rotina diária, pôs os botões na camisa lavada, afiou a sua navalha de barba. Mas aquela grande mala no quarto incomodava-o.. De repente, lembrou-se que devia fazer o seu testamento. E imóvel diante do espelho, com metade da cara ensaboada, ficou revolvendo esta idéia: e um vago espanto, uma estranheza tomava-o de estar ali pensando no testamento. Porque agora todas as idéias que na febre da véspera lhe tinham parecido naturais e fáceis tomavam agora, naquela luz clara da manhã, entre a rotina da sua toillete , uma frieza pouco natural, falsa, que repugnava ao lado positivo do seu caráter,

Às oito horas a campainha retiniu. Ele foi escutar. Depois a criada andou para dentro, para fora, ele perguntou quem era? A criada do sr. Neto. E não ousou perguntar mais nada, nem o que ela queria.

Depois foi o almoço. Ele devorou. Estranhou mesmo de não ver o fiambre na mesa - e a criada, depois de o trazer, disse que a senhora ia mandar buscar as malas à noite. Ele não disse nada, detestando cada vez mais a Margarida, que parecia continuar a zelar os interesses da senhora, receber os recados dela, ser ainda a sua confidente. E, como faltava o açucareiro, Godofredo foi áspero, exagerou aquela falta, ameaçou-a de a pôr na rua.

A criada destro no corredor resmungou. Ele gritou:

— Pouco barulho!

E a cada momento o coração dava-lhe pulos à idéia de se ir encontrar com o outro. Com um terror de atravessas a rua, onde talvez se pudesse já falar na sua desgraça, mandou buscar uma tipóia. A criada tardou. O relógio caminhava. E ele nervoso, quase com febre, ia da janela à cancela, calçando as luvas, e parecendo-lhe que o solho que pisava era mole, e que lhe cedia sob os pés. Enfim o coupé chegou. E ele desceu, com a garganta apertada numa angústia horrível. A voz sumia-se-lhe quase ao dar a adresse do seu escritório ao cocheiro. Pareceu-lhe que o trem voava; e naquela emoção ia-se-lhe embrulhando o estômago, o almoço subia-lhe à garganta. Enfim chegou. E era uma atarantação, mal podia achar na algibeira uma placa para pagar ao cocheiro.

O escritório dormia no grande silêncio do dia feriado. - e quando ele empurrou o batente de baetão verde o relógio dava onze horas, com o seu tom que soava cavo e triste, sob aqueles tetos baixos. Correu ao seu gabinete, e pareceu-lhe que não tinha entrado ali havia séculos, e que havia alguma coisa de diferente nos móveis e na ordem das coisas. No seu vaso o ramo acabava de secar.

E então, bruscamente, uma reação fez-se no seu ser, Diante daqueles móveis, daquelas duas carteiras de sócios, postas uma junto da outra, lembrando-lhe uma intimidade, uma confiança de anos, veio-lhe uma cólera furiosa contra o Machado. As coisas mesmas o acompanhavam nesta cólera. Sim, o Machado era um infame que merecia a morte. E cada cadeira, as paredes mesmas, como embebidas da honra comercial que ali habitava, eram uma acusação muda contra a traição do Machado.

De repente um passo leve soou fora: era o Machado.

Godofredo, instintivamente, refugiara-se pôr trás da sua carteira, remexendo ao acaso papéis, com a mão trêmula, sem ousar erguer os olhos.

O batente abriu-se, era o Machado, pálido como um morto, com o chapéu e a bengala numa das mãos, a outra no bolso das calças, fazendo uma saliência.

Mas Godofredo não via isto, não ousava fixá-lo: os seus olhares erravam aqui e além, procurando uma palavra, uma coisa profunda e digna a dizer. Pôr fim, com um esforço, encarou-o: e aquela mão no bolso feriu-o logo, teve um gesto, receando uma arma, um ataque. O Machado compreendeu, lentamente retirou a mão do bolso, foi colocar o chapéu, a bengala, sobre a sua carteira. Então godofredo, trêmulo, com a pressa, a ansiedade de dizer alguma coisa, balbuciou isto:

— Depois do que se passou ontem, não podemos continuar a ser amigos.

Machado, que tinha a face contraída, com uma expressão de ansiedade, cerrou os olhos, respirou livremente. Esperava uma violência, alguma coisa terrível, e aquela moderação, aquele gemido triste, duma amizade traída, espantou-o, quase o impressionou... Nesse momento desejava poder lançar-se nos braços do seu sócio. E respondeu, com uma emoção sincera, um soluço na garganta:

— Infelizmente, infelizmente...

Então Godofredo fez-lhe sinal que se sentasse. Machado, com a cabeça baixa, foi pousar-se à borda do sofá de reps. Godofredo deixou-se cair, como uma massa inerte, sobre o mocho, junto à carteira. E durante um momento um silêncio profundo reinou, tornado maior ainda pôr aquela rua de negócio adormecida ao Domingo, sob a calma. Godofredo passava a mão trêmula pela face, pelo rosto, procurando uma palavra.

O outro esperava, olhando a esteira.

— Um duelo entre nós é impossível - disse enfim Godofredo com esforço.

O outro balbuciou:

— Estou às suas ordens, disponha...

É impossível! - o Godofredo. - Riam-se de nós... Sobretudo esses duelos que para aí há... Era cair no ridículo... Não podemos, na nossa posição. Toda a praça se ria dum duelo entre dois sócios...

E um momento ficou trabalhando pôr esta idéia de serem sócios. Então todo aquele passado que os ligava pareceu erguer-se diante de Godofredo; e nunca sentira tanto a infâmia do Machado como vendo-o ali, naquele gabinete, onde três anos tinham trabalhado juntos. E disse-lho.

— A sua infâmia não tem nome...

Tinha-se erguido, a sua voz fortalecia-se, e o seu sentimento de amigo traído dava-lhe ao tom agora uma dignidade, uma solenidade que esmagava o outro. Então falou baixo, atirando-lhe as palavras, como punhaladas. Conhecera-o de pequeno; fora ele que o protegera no seu começo da vida; tinha-o feito seu sócio, seu amigo, quase seu irmão. Abria-lhe as portas de sua casa, recebia-o lá, como um irmão.

— E pelas minhas costas, o senhor que faz, desonra-me!

O outro erguer-se, com a face angustiosa, querendo acabar aquela tortura.

— Sei tudo isso - balbuciou, estou pronto a dar-lhe todas as reparações, todas, quaisquer que sejam.

Então Godofredo, exaltado, atirou a sua idéia:

— A reparação é só esta! Um de nós tem de morrer... Um duelo é absurdo.... Tiramos à sorte qual de nós se há-de-matar.

Aquelas palavras patéticas, apenas as soltara, tinham-lhe aparecido como sons estranhos e desconexos: os mesmos móveis as pareciam repelir... mas soltara-as, essas palavras; sentia um alívio, tendo enfim desembaraçado a alma daquilo que desde a véspera lha enchia de perturbação e de tormento.

Machado ficara a olhar para ele com os olhos esgazeados.

— Tirar à sorte! Como tirar à sorte?

Parecia não compreender. Aquele suicídio, tirado à sorte, parecia alguma coisa de grotesco e de doido.

Como Godofredo continuasse de pé, junto da carteira, sem dizer nada, mexendo no bigode, impacientou-se, exclamou:

— Isso é sério? Isso é dito a sério?

Foi então Godofredo que o olhou interdito. O que ele receara realizava-se. Machado achava aquilo absurdo, recusava. Então a sua cólera cresceu, como se visse fugir-lhe a vingança.

— Já ontem o senhor fugiu, quando o apanhei, fugiu covardemente. Agora quer fugir disto também.

O outro gritou, lívido:

— Fugir a quê?

Uma cólera surda invadia-o, acendia-lhe o olho. Todas as acusações do outro o tinham exasperado. Depois vinha aquela proposta absurda dum suicídio à sorte. Agora insultava-o. Não, isso não toleraria. Balbuciou, já excitado:

— Fugir de quê - repetiu -, fugir de que? Eu não fujo de nada...

— Então - disse Godofredo, batendo com a mão na secretária -, já aqui, tiramos à sorte quem de nós há-de desaparecer!

O outro encarou-o um momento, como se o fosse esganar. Depois agarrou vivamente o chapéu e a bengala. E numa voz mordente, decidida, que vibrava:

— Eu estou pronto a dar-lhe todas as reparações, e com todo o meu sangue... Mas há-de ser dum modo sensato, regular, com quatro testemunhas, à espada ou à pistola, como quiser, a que distância quiser, um duelo de morte, tudo o que quiser. Estou às sua ordens. Hoje todo o dia, amanhã todo o dia, lá espero, em minha casa. Mas com idéias de doido não me entendo. E não temos mais que conversar...

Atirou o batente, os seus passos furiosos soaram um momento fora, e tudo recaiu num grande silêncio. Godofredo ficava só, com as lamentáveis ruínas daquela sua grande idéia, humilhado, confuso, encavacado, com as fontes a latejarem-lhe, sem saber o que havia de fazer.