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O Bispo Negro
por Alexandre Herculano


Índice[editar]

O Bispo Negro por Alexandre Herculano
Capítulo I


Houve tempo em que a sé abandonada de Coimbra era formosa; houve tempo em que essas pedras, ora tisnadas pelos annos, eram ainda pallidas, como as margens areentas do Mondego [1]. Então o luar, batendo nos lanços dos seus muros, dava um reflexo de luz suavissima, mais rica de saudade que os proprios raios daquelle planeta guardador dos segredos de tantas almas, que crêem existir nelle, e só nelle, uma intelligencia que as perceba.

Então aquellas ameias e torres não haviam sido tocadas das mãos de homens, desde que os seus edificadores as tinham collocado sobre as alturas; e todavia já então ninguém sabia se esses edificadores eram da nobre raça goda, se da dos nobres conquistadores arabes.

Mas, quer filha dos valentes do norte, quer dos pugnacissimos sarracenos, ella era formosa na sua singella grandeza entre as outras sés das Hespanhas. Ahi succedeu o que ora ouvireis contar.


  1. A sé velha de Coimbra é no todo, ou na maxima parte uma edificação dos fins do seculo duodecimo; mas acceitámos aqui a tradição que lhe attribue uma remotissima antiguidade.
O Bispo Negro por Alexandre Herculano
Capítulo II


Aproximava-se o meiado do duodecimo seculo. O principe de Portugal Affonso Henriques depois de uma revolução feliz, tinha arrancado o poder das mãos de sua mãe. Se a historia se contenta com o triste espectaculo de um filho condemnando ao exilio aquella que o gerou, a tradição carrega as tinctas do quadro, pintando-nos a desditosa viuva do conde Henrique arrastando grilhões no fundo de um calabouço. A historia conta-nos o facto; a tradição os costumes. A historia é verdadeira, a tradição verosimil; e o verosimil é o que importa ao que busca as lendas da patria.

Em uma das torres do velho alcacer de Coimbra, encostado entre duas ameias, a horas que o sol fugia do horisonte, o principe conversava com Lourenço Viegas o Espadeiro, e com elle dispunha meios e apurava traças para guerrear a mourisma.

E lançou casualmente os olhos para o caminho que guiava ao alcacer, e viu o bispo D. Bernardo, que, montado em sua nedia mula, cavalgava apressado pela encosta acima.

“Vêdes vós—­disse elle ao Espadeiro—­o nosso leal D. Bernardo, que para cá se encaminha? Negocio grave por certo o faz sair a taes deshoras da crasta da sua sé. Desçamos á sala d’armas e vejamos o que elle quer.”—­E desceram.

Grandes lampadarios ardiam já na sala d’armas do alcacer de Coimbra, pendurados de cadeias de ferro chumbadas nos fechos dos arcos de volta de ferradura, que sustentavam os tectos de grossa cantaria. Pelos feixes de columnas delgadas, entre si separadas, mas ligadas nos fustes por uma base commum, pendiam corpos de armas, que reverberavam a luz das lampadas, e pareciam cavalleiros armados, que em silencio guardavam aquelle amplo aposento. Alguns homens de mesnada faziam retumbar as abobadas, passeando de um para outro lado.

Uma portinha, que ficava em um angulo da quadra, abriu-se, e d’ella saíram o principe e Lourenço Viegas, que desciam da torre: quasi ao mesmo tempo assomou no grande portal de entrada o vulto veneravel e solemne do bispo D. Bernardo.

“Guarde-vos Deus, bispo de Coimbra! Que mui urgente negocio vos traz aqui esta noite?—­disse o principe a D. Bernardo.

“Más novas, senhor. Trazem-me aqui a mim letras do papa, que ora recebi.”

“E que quer de vós o papa?”

“Que de sua parte vos ordene solteis vossa mãe...”

“Nem pelo papa, nem por ninguem o farei.”

“E manda-me que vos declare excommungado, se não quizerdes cumprir seu mandado.”

“E vós que intentaes fazer?”

“Obedecer ao successor de S. Pedro.”

“Quê? D. Bernardo amaldiçoaria aquelle a quem deve o bago pontifical; aquelle que o alevantou do nada? Vós, bispo de Coimbra, excommungarieis o vosso principe, porque elle não quer pôr a risco a liberdade desta terra remida das oppressões do senhor de Trava, e do jugo do rei de Leão; desta terra que é só minha e dos cavalleiros portuguezes?”

“Tudo vos devo, senhor,—­atalhou o bispo—­salvo minha alma que pertence a Deus, minha fé que devo a Christo, e a minha obediencia que guardarei ao papa.”

“D. Bernardo! D. Bernardo!—­disse o principe suffocado em colera—­lembrae-vos de que affronta que se me fizesse, nunca ficou sem paga!”

“Quereis, senhor infante, soltar vossa mãe?”

“Não! Mil vezes não!”

“Guardae-vos!”

E o bispo saíu sem dizer mais palavra. Affonso Henriques ficou pensativo por algum tempo; depois falou em voz baixa com Lourenço Viegas o Espadeiro, e encaminhou-se para a sua camara. D’ahi a pouco o alcacer de Coimbra jazia, como o resto da cidade, no mais profundo silencio.

O Bispo Negro por Alexandre Herculano
Capítulo III


Pela alvorada, muito antes de romper o sol no dia seguinte, Lourenço Viegas passeava com o principe na sala d’armas do paço mourisco.

“Se eu proprio o vi, montado na sua boa mula, ir lá muito ao longe, caminho da terra de Sancta Maria [1]! Na porta da sé estava pregado um pergaminho com larga escriptura, que, segundo me affirmou um clerigo velho que ahi chegára quando eu olhava para aquella carta, era o que elles chamam o interdicto.—­Isto dizia o Espadeiro, olhando para todos os lados, como quem receiava que alguem o ouvisse.

“Que receias, Lourenço Viegas? Dei a Coimbra um bispo que me excommunga, porque assim o quiz o papa: dar-lhe-hei outro que me absolva, porque assim o quero eu. Vem comigo á sé. Bispo D. Bernardo, tarde será o arrepender-te da tua ousadia!”

D’alli a pouco as portas da sé estavam abertas, porque o sol era nado, e o principe, acompanhado de Lourenço Viegas e de dous pagens, atravessava a igreja, e dirigia-se á crasta, onde ao som de campa tangida tinha mandado ajunctar o cabido, com pena de morte para o que ahi faltasse.

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Capítulo IV


Solemne era o espectaculo que apresentava a crasta da sé de Coimbra. O sol dava com todo o brilho de manhan purissima por entre os pilares que sustinham as abobadas dos cubertos, que cercavam o pateo interior. Ao longo desses cubertos caminhavam os conegos com passos lentos, e as largas roupas ondeavam-lhes ao bafo suave do vento matutino. No topo da crasta estava o principe em pé, encostado ao punho da espada, e um pouco atras delle Lourenço Viegas e os dous pagens. Os conegos íam chegando, e formavam um semicirculo a pouca distancia d'elrei, em cuja cervilheira de malha de ferro ferviam buliçosos os raios do sol.

Toda a clerezia da sé estava alli apinhada, e o principe, sem dar palavra e com os olhos fitos no chão, parecia involto em fundo pensar. O silencio era completo.

Por fim Affonso Henriques ergueu o rosto carrancudo e ameaçador, e disse:

"Conegos da sé de Coimbra, sabeis a que vem aqui o infante de Portugal?"

Ninguem respondeu palavra.

"Se o não sabeis, dir-vo-lo-hei eu, — proseguiu o principe: — vem assistir á eleição do bispo de Coimbra."

"Senhor, bispo havemos. Não cabe ahi nova eleição — disse o mais velho e auctorisado dos conegos que estavam presentes, e que era o adayão.

"Amen: — responderam os outros.

"Esse que vós dizeis; — bradou o infante, cheio de colera — esse jamais o será. Tirar-me quiz elle o nome de filho de Deus; eu lhe tirarei o nome de seu vigario. Juro que nunca em meus dias porá D. Bernardo pés em Coimbra: nunca mais da cadeira episcopal ensinará um rebelde a fé das sanctas escripturas! Elegei outro: eu approvarei vossa escolha."

"Senhor, bispo havemos. Não cabe ahi nova eleição: — repetiu o adayão.

"Amen:" — responderam os mais.

O furor de Affonso Henriques subiu de ponto com esta resistencia: — "Pois bem!" — disse elle, com a voz presa na garganta, depois de um olhar terrivel que lançou pela assembléa, e de alguns momentos de silencio. — "Pois bem! Saí d'aqui, gente orgulhosa e má! Saí, vos digo eu. Alguem por vós elegerá um bispo..."

Os conegos, fazendo profundas reverencias, encaminharam-se para as suas cellas, ao longo das arcarias da crasta.

Entre os que alli se achavam, um negro, vestido de habitos clericaes, tinha estado encostado a um dos pilares, observando aquella scena: os seus cabellos revoltos contrastavam pela alvura com a pretidão da tez. Quando o principe falava, elle sorria-se e meneava a cabeça como quem approvava o dicto. Os conegos começavam a retirar-se, e o negro ía apoz elles. Affonso Henriques fez-lhe um signal com a mão. O negro voltou para trás.

"Como has nome?" — perguntou-lhe o principe.

"Senhor, hei nome Çolleima.[2]"

"És bom clerigo?[3]"

"Na companhia não ha dous que sejam melhores."

"Bispo serás, D. Çolleima. Vae tomar teus guisamentos, que hoje me cantarás missa."

O clerigo recuou: naquella face tisnada viu-se uma contracção de susto.

"Missa não vos cantarei eu, senhor: — respondeu o negro com voz trémula; — que para tal auto não tenho as ordens requeridas."

"D. Çolleima, repara bem no que te digo! Sou eu que te mando vás vestir as vestiduras de missa. Escolhe: ou hoje tu subirás os degraus do altar-mór da sé de Coimbra, ou a cabeça te descerá de cima dos hombros, e rolará pelas lageas deste pavimento."

O clerigo curvou a fronte.

"Kirie-eleyson ... Kirie-eleyson ... Kirie-eleyson!" — garganteava d'ahi a pouco D. Çolleima, revestido dos habitos episcopaes, juncto ao altar da capella-mór. O infante Affonso Henriques, o Espadeiro e os dous pagens, de joelhos, ouviam missa com profunda devoção.

Notas[editar]

  1. Hoje Terra da Feira, proxima do Porto, na estrada de Coimbra.
  2. É notavel coincidencia a seguinte: Em 1088 um presbytero, por nome Zoleima, fez uma doação á sé de Coimbra. Desta doação se lembra Fr. Antonio Brandão M. L. P. 3.ª L. 8.º Cap. 5.º pag. 13 col. 2.ª in fine.
  3. Clerigo naquella epocha não significava só o ecclesiastico revestido do sacerdocio, mas sim qualquer individuo empregado no serviço do culto. D'ahi a frequente menção nos documentos, de clerigos casados.
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Capítulo V


Era noite. Em uma das salas mouriscas dos nobres paços de Coimbra havia grande sarau. Donas e donzellas, assentadas ao redor do aposento, ouviam os trovadores repetindo ao som da viola e em tom monotono suas magoadas endechas, ou folgavam e riam com os arremedilhos satyricos dos truões e farcistas. Os cavalleiros em pé, ou falavam de aventuras amorosas, de justas e de bofordos, ou de fossados e lides por terras de mouros fronteiros. Para um dos lados, porém, entre um labyrintho de columnas, que davam saída para uma galeria exterior, quatro personagens pareciam entretidas em negocio mais grave do que os prazeres de noite de folguedo o permittiam. Eram estas personagens Affonso Henriques, Gonçalo Mendes da Maia, Lourenço Viegas, e Gonçalo de Sousa o Bom. Os gestos dos quatro cavalleiros davam mostras de que elles estavam vivamente agitados.

"É o que affirma, senhor, o mensageiro — dizia Gonçalo de Sousa — que me enviou o abbade do mosteiro de Tibães, onde o cardeal dormiu uma noite para não entrar em Braga. Dizem que o papa o envia a vós, porque vos suppõe hereje. Em todas as partes por onde o legado passou, em França e em Hespanha, vinham a lhe beijar a mão reis, principes e senhores: a eleição de D. Çolleima não póde por certo ir ávante..."

"Irá, irá! — respondeu o principe em voz tão alta que as suas palavras reboaram pelas abobadas do vasto aposento. — Que o legado tenha tento em si! Não sei eu se haveria ahi cardeal, ou apostolico[1] que me estendesse a mão para eu lh'a beijar, que pelo cotovello lh'a não cortasse fóra a minha boa espada. Que me importam a mim vilezas dos outros reis e senhores? Vilezas, não as farei eu!"

Isto foi o que se ouviu daquella conversação: os tres cavalleiros falaram com o principe ainda por muito tempo: mas em voz tão baixa, que ninguem percebeu mais nada.

Notas[editar]

  1. Papa.
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Capítulo VI


Dous dias depois o legado do papa chegava a Coimbra: mas o bom do cardeal tremia em cima da sua nedia mula, como se maleitas o houveram tomado. As palavras do infante tinham sido ouvidas por muitos, e alguem as havia repetido ao legado.

Todavia, apenas passou a porta da cidade, revestindo-se de animo, encaminhou-se direito ao alcacer real.

O principe saíu a recebe-lo acompanhado de senhores e cavalleiros. Com modos cortezes guiou-o á sala de seu conselho, e ahi se passou o que ora ouvireis contar.

O infante estava assentado em uma cadeira de espaldas: diante delle o legado em um assento raso, posto em cima de um estrado mais elevado: os senhores e cavalleiros cercavam o filho do conde Henrique.

"Dom cardeal, — começou o principe — que viestes vós fazer a minha terra? Posto que de Roma só mal me tenha vindo, creio me trazeis agora algum ouro, que de seus grandes haveres me manda o senhor papa para estas hostes que faço, e com que guerreio noite e dia os infiéis da frontaria. Se isto trazeis, acceitar-vo-lo-hei: depois, desembaraçadamente podeis seguir vossa viagem."

No animo do legado a colera sobrepujou o temor, quando ouviu as palavras do principe, que eram de amargo escarneo.

"Não a trazer-vos riquezas, — atalhou elle — mas a ensinar-vos a fé vim eu; que della parece vos esquecestes, tractando violentamente o bispo D. Bernardo, e pondo em seu logar um bispo sagrado com vossas manoplas, victoriado só por vós com palavras blasphemas e maldictas..."

"Calae-vos, dom cardeal, — gritou Affonso Henriques — que mentís pela gorja! Ensinar-me a fé?! Tão bem em Portugal como em Roma sabemos que Christo nasceu da Virgem; tão certo como vós outros romãos cremos na sancta Trindade. Se a outra cousa vindes, ámanhan vos ouvirei: hoje podeis-vos ir."

E ergueu-se: os olhos chammejavam-lhe de furor. Toda a ousadia do legado desappareceu como fumo, e, sem atinar com resposta, saíu do alcacer.

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Capítulo VII


O gallo tinha cantado tres vezes: pelo arrebol da manhan o cardeal partia aforradamente de Coimbra, cujos habitantes dormiam ainda repousadamente.

O principe foi um dos que despertaram mais tarde. Os sinos harmoniosos da sé costumavam acorda-lo tocando ás ave-marias: mas naquelle dia ficaram mudos; e quando elle se ergueu havia mais de uma hora que o sol subia para o alto dos ceus da banda do oriente.

"Misericordia! misericordia!" — gritavam devotamente homens e mulheres á porta do alcacer, com alarido infernal. O principe ouviu aquelle ruido.

"Que vozes são estas que soam?" — perguntou elle a um pagem.

O pagem respondeu-lhe chorando:

"Senhor, o cardeal excommungou esta noite a cidade, e partiu: as igrejas estão fechadas; os sinos já não ha quem os toque; os clerigos fecham-se em suas pousadas. A maldicção do sancto padre de Roma cahiu sobre nossas cabeças."

Outra vez soou á porta do alcacer: — Misericordia! Misericordia!"

"Que enfreiem e selem um cavallo de batalha. Pagem, que enfreiem e selem o meu melhor corredor!"

Isto dizia o principe, encaminhando-se para a sala d'armas. Ahi envergou á pressa um saio de malha, e pegou em um montante, que apenas dous portuguezes dos de hoje valeriam a alevantar do chão. O pagem tinha saído, e d'alli a pouco o melhor cavallo de batalha que havia em Coimbra tropeava e rinchava á porta do alcacer.

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Capítulo VIII


Um clerigo velho, montado em uma alentada mula branca, vindo de Coimbra seguia o caminho da Vimieira, e de instante a instante espicaçava os ilhaes da cavalgadura com seus acicates de prata: em duas outras mulas íam ao lado delle dous mancebos com caras e meneios de beatos, vestidos de opas e tonsurados, mostrando em seu porte e idade que aprendiam ainda as pueris ou ouviam as grammaticaes[1]. Eram o cardeal, que se ía a Roma, e dous sobrinhos seus que o haviam acompanhado.

Entretanto o principe partíra de Coimbra sósinho. Quando pela manhan Gonçalo de Sousa e Lourenço Viegas o procuraram em seus paços, souberam que era partido após o legado. Temendo o caracter violento de Affonso Henriques, os dous cavalleiros seguiram-lhe a pista á redea solta, e íam já muito longe quando viram o pó que elle levantava correndo ao longo da estrada, e o scintillar do sol batendo-lhe de chapa na cervilheira semelhante ao dorso de um crocodilo.

Os dous fidalgos esporearam com mais força os ginetes e breve alcançaram o infante.

"Senhor, senhor, aonde ides sem vossos leaes cavalleiros, tão cedo e açodadamente?"

"Vou pedir ao legado do papa que se amercêe de mim..."

A estas palavras os cavalleiros transpunham uma assomada que encobria o caminho: pela encosta abaixo ía o cardeal com os dous mancebos das opas e cabellos tonsurados.

"Oh!.. — disse o principe. Esta unica interjeição lhe fugiu da bôca; mas que discurso houvera ahi que a igualasse? Era o rugido de prazer do tigre, no momento em que salta do fojo sobre a prêa descuidada.

"Memento mei, Domine, secundùm magnam misericordiam tuam!" — resou o cardeal em voz baixa e trémula, quando ouvindo o tropear dos cavallos, voltou os olhos, e conheceu Affonso Henriques.

Em um instante este o havia alcançado. Ao perpassar por elle, travou-lhe do cabeção do vestido, e em um relance ergueu o montante: felizmente os dous cavalleiros arrancaram as espadas, e cruzaram-nas debaixo do golpe que já descia sobre a cabeça do legado: os tres ferros feriram fogo; mas a pancada deu em vão, aliás o craneo do pobre clerigo teria ido fazer mais de quatro redemoinhos nos ares.

"Senhor, que vos perdeis, e nos perdeis, ferindo o ungido de Deus:" — gritaram os dous fidalgos com vozes afflictas.

"Principe" — disse o velho chorando — "não me faças mal; que estou á tua mercê!" — Os dous mancebos tambem choravam.

Affonso Henriques deixou descahir o montante, e ficou em silencio alguns momentos.

"Estás á minha mercê: — disse elle por fim. — Pois bem! Viverás, se desfizeres o mal que causaste. Que seja alevantada a excommunhão lançada sobre Coimbra, e jura-me em nome do apostolico, que nunca mais em meus dias será posto interdicto nesta terra portugueza, conquistada aos mouros por preço de tanto sangue. Em refens deste pacto ficarão teus sobrinhos. Se no fim de quatro mezes de Roma não vierem letras de bençam, tem tu por certo que as cabeças lhes voarão de cima dos hombros. Apraz-te este contracto?"

"Senhor, sim! — respondeu o legado com voz sumida.

"Juras?"

"Juro."

"Mancebos, acompanhae-me,"

Dizendo isto, o infante fez um aceno aos sobrinhos do legado, que com muitas lagrymas se despediu delles, e sósinho seguiu o caminho da terra de Sancta Maria.

D'ahi a quatro mezes D. Colleima dizia missa pontifical na capella-mór da sé de Coimbra, e os sinos da cidade repicavam alegremente. Tinham chegado letras de bençam de Roma; e os sobrinhos do cardeal, montados em boas mulas, íam cantando devotamente pelo caminho da Vimieira o psalmo que começa:

In exitu Israel de Ægypto.

Conta-se, todavia, que o papa levára a mal no principio, o pacto feito pelo legado; mas que por fim tivera dó do pobre velho, que muitas vezes lhe dizia:

"Se tu, sancto padre, víras sobre ti um cavalleiro tão bravo ter-te pelo cabeção, e a espada nua para te cortar a cabeça; e seu cavallo tão feroz arranhar a terra, que já te fazia a cova para te enterrar, não sómente deras as letras, mas o papado e a cadeira apostolical."



Notas[editar]

  1. Estudos menores ou preparatorios. Assim parece se chamavam na idade média. Darin lernt ich puerilia, diz Hans Sachs no seu Lebensbeschreibung, e o bispo do Porto, D. Pedro Affonso, affirma de seu predecessor D. João Gomes: erat bonus homo, et sinè aliqua malitia, sed jura aliqua non audiverat, immò nec grammaticalia, quod est plus.
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Nota


A lenda precedente é tirada das chronicas de Acenheiro, rol de mentiras e disparates publicado pela nossa Academia, que teria procedido mais judiciosamente em deixa-las no pó das bibliothecas, onde haviam jazido em paz por quasi tres seculos. A mesma lenda tinha sido inserida pouco anteriormente na chronica de Affonso Henriques por Duarte Galvão, formando a substancia de quatro capitulos, que foram supprimidos na edição deste auctor, e que mereceram da parte do academico D. Francisco de S. Luiz uma grave refutação. Toda a narrativa da prisão de D. Theresa, das tentativas opposicionistas do bispo de Coimbra, da eleição do bispo negro, da vinda do cardeal, e da sua fuga contrastam a historia daquella epocha. A tradição é falsa a todas as luzes: mas tambem é certo que ella se originou de algum acto de violencia praticado nesse reinado contra algum cardeal legado. Um historiador coevo, e, posto que estrangeiro, bem informado geralmente ácerca dos successos do nosso paiz, o inglez Rogerio de Hoveden, narra um facto acontecido em Portugal, que, pela analogia que tem com o conto do bispo negro, mostra a origem da fabula. A narrativa do chronista está indicando que o acontecimento fizera certo ruído na Europa, e a propria confusão de datas e de individuos, que apparece no texto de Hoveden, mostra que o successo era anterior e andava já alterado na tradição. O que é certo é que o achar-se esta conservada fóra de Portugal desde o seculo duodecimo por um escriptor que Ruy de Pina e Acenheiro não leram (porque só foi publicado no seculo decimo-setimo) prova que ella remonta entre nós, por maioria de razão, tambem ao seculo duodecimo, embora desfigurada como já a vemos no chronista inglez. Eis a notavel passagem a que alludimos, e que se lê a pag. 640 da edição de Hoveden, por Savile:

"No mesmo anno (1187) o cardeal Jacintho, então legado em toda a Hespanha, depôs muitos prelados (abbates) ou por culpas delles ou por impeto proprio, e como quizesse depôr o bispo de Coimbra, o rei Affonso (Henriques) não consentiu que elle fosse deposto, e mandou ao dicto cardeal que saísse da sua terra, quando não cortar-lhe-hia um pé."