António Feijó, o que morreu de amor

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Sol de Inverno por António Feijó
António Feijó, o que morreu de amor
(Lido na Academia Brasileira, sessão de 28 de Junho de 1917)



A Morte astuciosa — ou caridosa? — antes de apoderar-se finalmente da nossa vida, enceta a sua tarefa inexoravel hospedando-se pouco a pouco nos melhores recantos d'ella. Todo o homem que dobrou os quarenta annos conhece essa primeira visita e tem de preparar-se para essa longa hospedagem. Cada coração, que só carinhos e affectos alojava, eis que um dia recebe ordem de aboletamento para a pavorosa Intrusa, de que lhe cumpre fazer companheira de casa. E o espaço, a principio exiguo, que ella reclama, nunca mais deixa de alargar-se em seu proveito. Os seres mais queridos, os mais amados, temos de perdel-os para que ella lhes ocupe o logar. Vão faltando os parentes, vão morrendo os amigos, um a um, em periodos cada vez menos espaçados. Começamos, ao romper da vida, crendo-nos donos do Universo, e com que pressa o nosso dominio se limita, se estreita, até n'elle nos sentirmos demais! Quando emfim a nossa hora chega, já não é senão um fragmento ultimo e minimo da vida que abandonamos á Morte. O coração, a que ella faz parar a fatigada corda, estava tão atravancado de cadaveres que já não podia bater livremente.

Estou experimentando o sobresalto d'esses avisos sinistros, e já não são os primeiros. Ha seis annos era o conde d'Arnoso, deixando um claro, que nada e ninguem mais preencherão, na calma felicidade dos meus dias. Em 1915 foi Ramalho Ortigão, esse ao menos depois de uma longa e bem aproveitada vida. Quasi ao mesmo tempo, em 21 de setembro do mesmo anno, morria em plena mocidade e formosura Dona Mercedes Feijó, a mulher querida de um dos meus mais fieis amigos. E agora, a 21 do mez, vinte e um mezes exactos depois da desgraça a que não conseguiu mais resignar-se, é António Feijó que morre por sua vez, que morre de amor e de saudade por aquella que era o raio de sol da sua vida.

Morreu de amor o poeta amoroso que as neves da Scandinavia e a fleugma profissional da diplomacia nunca fizeram esquecer de que era um conterraneo de Diogo Bernardes e de que a sua alma fôra tambem creada á beira da poesia e da melancholia tão lyricas do Rio Lima. Morreu de amor o loiro fidalgo minhoto, herdeiro de muitas gerações de cavalleiros e trovadores, cuja antiga formação affectiva e moral nunca se alterou no seu perpetuo exilio, nem no convivio mediocre ou mesquinho dos seus contemporaneos. Morreu de amor Antonio Feijó, tão verdadeiramente como se morria de amor em Portugal no seculo XIII, no tempo d'aquelle Dom Pedro Roiz que mandou esculpir no seu tumulo essa causa unica da sua morte. Morreu de amor, começou a morrer de amor no momento em que viu para sempre

Deitada no caixão estreito,
Pallida e loira, muito loira e fria,

aquella mulher tão amada a quem sem o saber, sem a conhecer, tantos annos antes, fizera propheticamente, num dos seus mais bellos sonetos, o commovedor necrologio.

<poem> Antes de morrer de amor, no entanto, menos desafortunado que Dom Pero Roiz, Antonio Feijó vivera de amor. Sua mulher dera-lhe, em seguida a um longo noivado, quinze annos de intima ventura e dois formosos filhos. Mas Dona Mercedes Feijó era em tal grau a imagem da Belleza e da Graça que perdel-a, depois de ter vivido longo tempo sob a sua luz e calor, tinha de ser, como foi, a maxima angustia. Feijó sabia, podia medir com dolorosa precisão o tamanho e o valor da sua perda. Creio que poucas vezes encontrei creatura feminina tão seductoramente bella. Dona Mercedes era filha de pai sueco e de mãe equatoriana. Cruzamento do Polo e do Equador, como alguem disse, não é possivel imaginal-o mais feliz, alliando a pureza quasi divina das raças do norte á exhuberancia e alegria meridionaes. Era como um raio de sol corporizado; e comprehendia-se bem que da vida d'ella, mais do que da propria, vivesse o namorado companheiro. Não o sentiam talvez em toda a verdade senão os intimos da casa, porque Antonio Feijó era pouco expansivo e resguardou sempre o sacrario do seu Lar da luz crua e por vezes grosseira em que, por dever de officio, tinha de mover-se. Para as pessoas extranhas elles eram, sobretudo, um prestigioso casal de diplomatas a quem sobravam intelligencia, elegancia, tacto e brilho mundanos para exercerem completamente a sua missão. Feijó era ha mais de 20 annos ministro de Portugal na Scandinavia e ha muito tempo tambem o decano do corpo diplomatico de Stockolmo. Falava a lingua do paiz, conhecia toda a gente, era amigo do Rei e da familia real, vivia rodeado das deferencias e sympathias devidas ao seu talento e ao seu caracter, continuando e excedendo a tradição deixada pelo seu espirituoso e lendario antecessor Sotto Mayor, a quem a Suecia considerava, tal a sua popularidade, como um sueco honorario. Madame Feijó era, uma vez ainda, como um raio do sol quatorial n'aquellas sombrias regiões polares. A alegria e a vida da sociedade de Stockolmo eram, em boa parte, obra sua. Toda a cidade a chorou, sentindo a perda irreparavel. O seu enterro foi uma homenagem imponente em que as flores mandadas pelos reis e principes das tres côrtes da Scandinavia se misturavam com as flores do povo da pequena e graciosa capital sueca.

O meu querido amigo, apesar da profundeza e intensidade da sua dôr, sentiu chegar até ella as lagrimas e os carinhos de tantos corações e não poude deixar de impressionar-se com as provas de respeitosa e terna consideração de que todo um povo estrangeiro o rodeava em tão amarga hora. Mas não tirou d'essas homenagens o mais tenue balsamo para a chaga em que se convertera o seu coração. N'ellas viu apenas que o encanto da sua querida mulher era tão amplo e universal que até aos mais indifferentes attingia. Reconheceu, com paciencia e lucidez — formas terriveis, que, algumas vezes, reveste o desespero — que o seu lucto não era qualquer lucto e que Deus lhe destinara, depois de uma ventura excepcional, uma penitencia e uma amargura da mesma especie. E nada fez para escapar-lhes.

Tenho aqui as suas cartas, escriptas entre lagrimas; releio-as agora na maior commoção, e n'ellas posso seguir, como a curva de uma ardente febre, a historia completa da sua morte de amor. A ultima chegou só hontem, como sobrenatural visita, já depois de fria e inerte a mão que a traçou. Deverei ter escrupulo em citar aqui essas cartas? Não vejo, no entanto, melhor maneira de render ao grande coração de Antonio Feijó o preito que lhe devo. Não ha n'ellas uma palavra que possa parecer indiscreta perante a dupla campa de que ellas ficarão sendo o epitaphio.

Antonio Feijó tinha o habito supersticioso de escrever aos seus amigos em papel de carta de formato e côr sempre differentes. A sua ultima carta despreocupada e alegre é de 28 de fevereiro de 1914 e está escripta, como que por estranho presentimento, em papel côr de rosa. Nunca mais tive outra do mesmo humor ou da mesma côr. A carta seguinte, datada de 20 de abril, é amarella, côr de outomno e de morte, e traz as primeiras apprehensões duradouras sobre o estado de saude de sua mulher, que, mezes antes, já lhe dera alguns passageiros cuidados. Mas desde essa data nunca mais houve paz na sua vida. Folheemos devagar essa amarga correspondencia:

18 de julho de 1914: «Tenho tardado em dar-lhe noticias minhas, porque, no estado de espirito em que ando, não queria affligir as suas primeiras horas do Rio de Janeiro com lamentações e amarguras, a que o seu coração amigo não póde dar remedio. A minha querida doente vai melhor, já póde sair, já quasi póde fazer a sua vida habitual. Mas... este mas é que é a minha tortura de todos os instantes. Qualquer que seja a natureza e gravidade da doença, as recaidas anteriores não me dão a menor garantia para o futuro. É mais que provavel que a doença se reproduza. Não sei o que ha de ser de mim. A Imitação de Christo, que eu leio assiduamente, diz que à chaque jour suffit sa peine; mas eu estou longe de ser um bom christão, e a resignação é uma virtude que Deus só concede aos eleitos.»

Sobreveio a grande guerra, que ruge e estrondeia tão proxima, e que absorve o tempo e agita o espirito do diplomata. Mas, entre as suas occupações e responsabilidades do momento, instala-se logo a afflicção intima. Em 23 de outubro escreve-me:

«De saude vamos indo, graças a Deus; mas, sempre naquella preoccupação de que lhe tenho falado, não consigo horas de paz, já não digo perfeita, mas resignada. O futuro, de facto, na nossa idade, ou antes na minha, são apenas 24 horas, como V. diz; mas, 24 horas ou minutos que sejam, todos nós ambicionamos passal-as tranquillamente.»

A 1 de janeiro de 1915, dando-me as boas festas, accrescenta logo: «Sinto-me num estado de espirito tão desolado e abatido que nem posso conversar á vontade com os amigos mais queridos. A Mercedes anda outra vez doente e eu estou com immenso receio que seja uma nova poussée do antigo mal. Trago o coração em sobresaltos.»

Abre-se, então, um longo silencio, que as minhas cartas não conseguem quebrar e que me inquieta progressivamente. Em julho, cedendo ás minhas instancias, vêem duas palavras pelo telegrapho: «Mercedes sempre doente. Estou desolado.» E em setembro, uma carta, de 26 de agosto, com tristes noticias: «Tem razão para se queixar do meu silencio, mas não escrevo a ninguem. Vivo apenas para a minha doente e para a minha dor. Parece, de facto, injusto o martyrio que ella soffre, mas neste mundo os que padecem são sempre os melhores e ella era a melhor de todos. Ha longos mezes que a vida é para mim um suplicio, e sem esperança de lhe ver um termo. Deus sabe o que terá succedido quando esta carta lhe chegar ás mãos!»

Com effeito. A previsão não falhou. Foi a 22 de setembro, na hora em que eu embarcava para a Europa, que me chegou ás mãos um telegramma de Stockolmo, datado da vespera, com estes dizeres apenas: «Tout est fini». A censura de guerra não os deixára transmittir na nossa lingua; mas nem assim me soavam menos tragicos aos ouvidos. Fiz toda a viagem com este desgosto, não podendo crêr que uma tão luminosa e formosa mocidade se pudesse assim bruscamente extinguir, e vendo naquella morte maldita um verme hediondo que se houvesse introduzido, para o roer, na rosea polpa do mais fresco e dourado fructo. A electricidade do mar, sempre para mim tão contagiosa, não se me communicou desta vez. Fiz uma travessia melancholica; e, ao desembarcar em Lisboa, esperava-me a noticia da morte do meu venerado amigo Ramalho Ortigão, a quem eu queria como a um avô, e que, poucos dias antes, se finara entre afflictivos soffrimentos.

Não sei, nem agora me importa saber, se é monotona a descripção de uma dôr humana, para os desconhecidos de quem a soffreu. Monotona será, mas ai de quem lhe não sentir a grandeza e a belleza! Desde a morte de sua mulher, as raras cartas de Antonio Feijó são um lamento continuo, cuja leitura impressiona mais do que a mais perfeita litteratura. Percebe-se que o viver assim já não tem de viver senão o nome, e verifica-se uma vez mais que, sem o ponto de apoio do ideal, do sentimento ou da fé, a vida a que o nosso instincto animal tanto se apega por vezes, é coisa nenhuma. A primeira carta, sem data, diz assim, para não a copiar toda: «Se um dia nos encontrarmos — do que duvido — então lhe contarei o que foi o martyrio da minha pobre mulher, e o supplicio que foi a minha vida, vendo-a soffrer sem remedio, para lhe esconder a natureza do mal e alimentar-lhe a esperança da cura, que nunca, felizmente, a abandonou. Morreu subitamente, sem agonia e sem perceber que era o fim. Não tenho forças para lhe responder como desejava, nem para tomar qualquer resolução. O futuro, na minha idade, como V. costuma dizer, são 24 horas. Rapidas ou curtas, que ellas se passem como Deus quizer. Da minha parte nada farei para as tornar menos pesadas, porque tudo é inutil.»

Em 8 de janeiro de 1916, conta-me, mais demoradamente, o estado desesperado da sua dôr. Vive como um somnambulo, não sabendo distrair-se senão com a recordação do passado. «É só, — escreve-me, — e a remexer na minha memoria attribulada, que as horas me passam menos atormentadoramente.» Eu aconselhava-lhe uma viagem a Portugal. Elle objecta: «Ir a Portugal agora é absolutamente impossivel, e essa viagem não serviria senão para aggravar o meu soffrimento. Não ha sitio nenhum por ahi, nem casa amiga, que me não desperte recordações e saudades pungentes.» Fala-me, além disso, da educação dos filhos, que não deseja perturbar, e vê-se que procura nelles a razão de viver, que a dôr destruiu. Mas não o consegue. Conta-me com pormenores, pela primeira vez, o que foi o enterro de sua mulher e reproduz-me o telegramma que lhe dirigiu um illustre escriptor sueco, John Bettiger, velho de mais de 60 annos, casado e sem filhos, tão grande admirador de Dona Mercedes, que pensou sériamente em adoptal-a elle e a mulher, para lhe deixarem a fortuna. Feijó sabe o telegramma de cór e transcreve-m'o no original sueco e em traducção. É assim, e parece, na verdade, como elle me dizia, um epitaphio de anthologia, escripto em estylo lapidar: «Receba expressão da minha mais profunda sympathia no acerbo lucto que o feriu. Nunca se encontraram, assim reunidas no mesmo ser, bondade, candura e belleza, como na sua incomparavel Mulher. Tel-a conhecido é uma ventura que nunca ninguem poderá esquecer.»

Em 15 e 20 de janeiro, em 7 de fevereiro, novas cartas que não annunciam melhoras. Deu-lhe um minuto de prazer a sua eleição para a Academia Brasileira, «pela espontaneidade, diz-me elle, e pelo momento em que foi votada.» Feijó era muito amigo do Brasil, onde vivera alguns annos ardentes da sua mocidade, e tinha aqui amigos dedicados. Considerou a homenagem da Academia como um desejo requintadamente affectuoso de offerecer algum conforto á angustia que soffria. E esse terno pensamento commoveu-o. Mas a Dôr era sempre a sua nova companheira: «Vou vivendo, com a minha tristeza e a minha saudade. Vou vivendo não é a expressão justa. Deixo-me viver conforme Deus quer, é mais exacto.» Distrai-se relendo as cartas antigas dos seus amigos, que colleccionava cuidadosamente, e, entre as quaes, muitas vezes, se referia aos grossos pacotes das minhas. Escrevia-me, em 29 de fevereiro: «É a leitura dessas cartas, como já lhe disse, a minha unica distracção. Quando ellas acabarem, não sei o que vai ser de mim. Escrever (eu pedira-lhe que, na receita de Goethe, puzesse a sua dôr em poemas) é-me absolutamente impossivel. Estas dores não cabem dentro de moldes litterarios. Quem attende ao concerto do que diz não sente o que diz, sentenciava um velho frade gongorico. Creio que, para mim, os versos acabaram. É bem possivel que não torne a escrever mais uma linha. Pena, que póde explicar-se, perto está de não sentir-se, como diz o mesmo frade, alludindo a circumstancias identicas.»

Carta em 3 de abril: «Não tenho forças para nada. Escrever uma carta é como se tivesse de deslocar uma montanha. O tempo não me tem curado. Dá-me, por vezes, uma certa paz, mas intervalos curtos, de que saio para um recrudescimento de amargura e de saudade angustiosa. Sinto que parta. (Eu ia regressar de Lisboa ao Rio). Parece-me que tudo quanto amei e amo se vai afastando de mim, cada vez mais.»

Nova carta, em 10 de julho: «A minha cabeça, como a minha alma, andam profundamente enfermas. Sinto-me cada vez mais só, cada vez mais desconsolado e mais triste. O estio era, nesta terra, a estação em que a minha vida de familia mais se accentuava. Como todo o movimento mundano cessava, estavamos sempre juntos, ou no campo, em algum sitio isolado e pittoresco, ou em excursões pelos arrabaldes da cidade. Tudo acabou agora. Do estio septentrional ficou-me apenas a inenarravel melancolia. Não imagina como pesa no meu espirito esta paizagem, composta monotonamente de lagos, pinheiros e rochedos, sob uma luz pallida, mixto de aurora e poente, tão triste, tão triste, que parece a obra de um Deus infeliz. Para evitar recordações, a que não poderia resistir, lembrei-me de ficar na cidade. Com esse intuito, mandei os pequenos para o campo, acompanhados por uma tia; mas estou arrependido. Não posso viver só. Amanhã vou partir, não sei bem para onde, fugir de aqui, talvez para a Laponia, para alguma terra onde não encontre lembranças do passado. Perdoe este desabafo. Na verdade, não ha outra coisa a fazer senão a gente resignar-se; tenho filhos, que precisam de mim; mais do que nunca, é preciso viver. Mas, o peior, é que não encontro nada que me interesse ou me distraia. Os proprios versos, que sempre me encantaram, parecem-me ás vezes, agora, estultas frivolidades.»

Escreve-me, em 6 de setembro: «Contava ir este verão a Lisboa, mas esta guerra, que ameaça de se tornar chronica, obrigou-me a pôr de parte os meus projectos. Fiquei aqui. Ausentei-me apenas durante duas semanas, numa excursão pela provincia, mas o passeio não me serviu de consolação. Era a primeira vez, após 15 annos, que viajava só. Tão angustiado me sentia nos vagões do caminho de ferro e nos quartos de hotel, que preferi voltar logo para o meu ninho meio desfeito, apesar da desolação que nelle me esperava, pela ausencia dos meus filhos, que eu tinha mandado para o campo. De maneira que estive aqui só, completamente só, desde julho até hontem, porque só hontem elles regressaram. Este mez é para mim todo cheio de terriveis recordações. Fez, no dia 4, um anno que regressei do campo com a minha querida doente. Não imagina quanto essa viagem me impressionou, no curto trajecto de automovel com Ella, o medico, a garde-malade e uma cunhada minha. Trazia já a impressão de que era o ultimo passeio que dava com Ella... E, n'esse estado de espirito, se foram passando os dias até á morte, no dia 21 do corrente. Na vespera esteve todo o dia ali, naquela chaise-longue, com o sorriso e o bom humor de sempre. E lá está, ha quasi um anno, na capela do cemiterio catholico, tambem á espera que a guerra acabe, para ser transportada para Ponte do Lima (terra natal de Feijó e que elle adorava), onde eu desejo tambem dormir o meu ultimo somno. Não me consolo, querido amigo. Toda a dôr contém, em essencia, o esquecimento. Mas eu não quero esquecer. Os mortos não morrem completamente emquanto a gente se lembra delles. E eu não quero que Ella morra emquanto eu andar neste mundo. Perdoe este desabafo. Perante estranhos, os desgraçados são sempre ridiculos. Mas V. não é para mim um estranho, e, diante dos outros ninguem é capaz de ler o que me vai na alma, através da minha serenidade e compostura. Nunca deixei ver a ninguem os recantos intimos do meu coração.»

Escreve-me de novo, em 25 de setembro, agradecendo o meu telegramma no primeiro anniversario do seu lucto. E continúa: «A 21, foi o primeiro anniversario da morte da minha querida Mercedes; a 24 o anniversario do nosso casamento em 1900; hoje, é o anniversario do enterro. Imagine o estado do meu espirito, e, por isso, perdoe-me se lhe não escrevo mais. Vivo numa angustia perpetua. O tempo passa, mas não me consola; socega-me, ás vezes, por intervallos, mas o retour da memoria é sempre inevitavel, e o soffrimento torna-se mais agudo porque, dia a dia, a sua falta se me afigura maior.» Em 1 de dezembro queixa-se de ter estado doente, com o seu velho mal da gota. Manda-me uma photographia, em que me apparece vertiginosamente envelhecido. «Contemple essa ruina, accrescenta. Não imagine, porém, que foi só a gota que me deixou assim. A gota entra por pouco no esboroamento da minha velha carcassa.» Espera ir no verão a Lisboa. Deseja encontrar-se commigo: «Parece que já estamos separados pelo outro mundo.» Dá-me as boas festas de Natal e Anno Novo: «Como para mim não ha festas, e faço tudo para não me aperceber do que este periodo do anno significa para o meu coração attribulado, ia-me esquecendo de este dever. Lembre-se de mim nessa noite de graça e de mysterio, em que um pouco de infancia parece reflorir na nossa alma, quando o infortunio a não devastou. Lembre-se de mim!» E na noite de Natal volta a escrever-me, dizendo-me que se fechou só no seu gabinete, com os seus pensamentos e a sua memoria, cheia de infinitas amarguras...

Emfim, tem a data de 21 de março de 1917, dezoito mezes justos depois da morte de sua mulher, tres mezes justos antes da sua propria morte, a ultima carta que recebi deste querido amigo, antes de perdel-o: «Estamos tão longe um do outro, sinto-o tão distante de mim, que parece que já estamos separados pelo outro mundo», repete elle, como quem adivinha. Continua a queixar-se da gota e mostra-se resolvido a ir fazer uma cura de aguas em Portugal de ali a mezes. Fala-me da guerra e da politica sueca, dando-me informações interessantissimas. Recomeçou a fazer versos, mas não os que desejava. Só lhe saem da penna bailatas, versos de zombaria, nos quaes transforma a tristeza em riso. Não o consolam. E a doença de alma, a verdadeira, não cessa de minal-o: «Faz hoje anno e meio que deixou esta vida de lagrimas a minha querida Mercedes. Parece que foi hontem. Não ha esforços que consigam afastar o meu pensamento dessa hora terrivel. Não é o desespero dos primeiros tempos; mas é uma saudade, uma tristeza de que nem mesmo o trabalho consegue distrair-me. Precisava de sair de aqui; precisava de ir passar algum tempo em Portugal, ver os amigos, ver a minha terra; mas ao mesmo tempo tenho receio dessa viagem. Quantas pessoas queridas mortas! Quantas coisas mudadas!»

Alguns dias depois de receber esta carta foi um telegramma dos jornaes que me deu o golpe, apesar de tudo não esperado, da morte de Antonio Feijó. Elle era um homem robusto e ainda são, tinha apenas 55 annos, e eu, tomando os meus desejos pela realidade, acreditava que a educação dos filhos e o desabafo dos versos iriam devagar transformando em doce saudade a sua dôr dilacerante. Feijó não se estava deixando viver, como elle dizia; estava-se deixando morrer, sem dar por isso. E o amor incuravel, o amor de perdição tão caracterisadamente portuguez, o amor da nossa raça e tradição matou-o como a mais fatal das doenças physicas. Esta carta postuma, que elle me escreveu em 27 de abril e que só recebi hontem, como que me chega de além-tumulo. E como me doe o coração e se me orvalham os olhos ao lel-a! Bom e fiel amigo, que ainda te affligias com o meu silencio, de que só a falta de communicações era culpada, e te inquietavas com a minha saude, quando era a tua que devia absorver todos os teus cuidados! Que feliz me sinto ao ver-me rodeado no mundo de tantas almas que se affeiçoaram á minha, mas quanto me pesam, e me desterram pouco a pouco da vida, estas mortes que começam a povoal-a! Feijó, ao menos, foi para onde queria, reuniu-se emfim Áquella sem cuja companhia desaprendera de viver. Deus lhe haverá concedido todas as bem-aventuranças, promettidas aos que muito soffreram e choraram n'este valle de lagrimas.

Não peço perdão a quem me haja lido ou ouvido, do espaço que consagrei a este romance vivido e sincero, tão digno de ser sentido e meditado por cabeças e corações ao seu nivel. Perdoa-me, estou certissimo, a memoria do alto poeta do Cancioneiro chinez e da Ilha dos Amores, que eu me haja occupado, nesta hora afflicta, muito mais do seu amor que dos seus versos, e que a sua vida me pareça, como a de todos os seres de eleição, mais bella ainda que a sua obra. Mas não me despeço de versar um dia esse capitulo da historia literaria portugueza, onde Antonio Feijó figurará sempre como um dos nossos poetas ao mesmo tempo mais subjectivos de temperamento e mais perfeitos e cultos de expressão. O nome de um Feijó illustrou já a historia do Brasil na pessoa do Padre-Regente, que era porventura da familia do poeta e até se parecia com elle no porte da cabeça profundamente encravada entre os hombros. Hoje então são as nossas Letras irmãs que registram, em caracteres indeleveis, esse mesmo velho e illustre nome.

Ainda uma justificação para esta longa pagina de memorias. Ha muitas pessoas, enthusiastas da Vida e da Arte livres, que julgam os transportes do Amor e da Paixão incompativeis com a regra e o pacto do casamento, e que não são capazes de exprimir a poesia, de que as suas almas transbordam, senão em versos errados. Longe de mim o intuito de contradizel-as. Mas não ha mal em que aqui lhes offereça este espelho de casados, no qual poderá remirar-se, ao menos uma vez por outra, a sua perfeição.


Alberto d'Oliveira.