Sol de Inverno/Prefácio VII

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Sol de Inverno por António Feijó
Prefácio VII


Mas um dia, um grande infortunio, — a viuvez inconsolavel, o seu pobre lar em ruinas, — devastou-lhe a alma, prostrou-o, roubou-lhe toda a alegria, envelheceu-o precocemente, tornou-lhe os ultimos mezes da sua vida tão negros, tão desolados, como essas interminaveis noites boreaes que tanto o torturavam e entristeciam, — a elle, filho d'estas bemditas terras do Sul!...

O que foi esse drama, em todo o desenrolar das suas mágoas e soffrimentos, dil-o o eloquente, commovido e fino commentario que, através das cartas do poeta, n'esse periodo, lhe faz Alberto d'Oliveira na communicação sobre a sua morte, dirigida á Academia Brazileira e que o leitor lerá com interesse e admiração, a seguir a este prefacio.

Ultimamente, porém, parecia querer reagir, despertar d'essa longa atonia dolorosa. Refugiado no amor dos filhos e na saudade da patria, onde ha oito annos não vinha, o seu derradeiro sonho foi revel-a, vir percorrer ainda uma vez o seu Minho querido, contemplar as aguas mansas do seu Lima, retemperar o coração n'essa magica visão de belleza e encanto, que, para todo o portuguez, ausente ou exilado, é este incomparavel torrão de Portugal!

N'este anceio, n'este volver d'olhos, sobre a Europa em guerra, para a patria distante, surprehendeu-o bruscamente a morte.

Exhausto de soffrer, o seu crucificado coração parou de subito, immobilisado para sempre!


E de novo ao sahir d'esta angustia demente,
Sinto bem que tu és, para toda a amargura,
A Euthanásia serena, em cujo olhar clemente
Arde a chamma em que toda a escoria se depura.

É pela tua mão, feito um rasgão na treva,
Que a alma se liberta e, d'esplendor vestida,
— Borboleta celeste, ebria de Deus — se eleva
Para a Luz immortal, Luz do Amor, Luz da Vida!


Assim dizia elle á Morte no seu grande hymno, já atraz citado e que ficará como uma das maiores glorias da sua lyra.

Assim deve ter sido a sua — uma transição insensivel, uma serena Euthanásia, bella como todos os seus sonhos de poeta! Assim se deve ter evolado, para a Luz immortal do Grande Mysterio, a sua alma boa e pura, sempre voltada para o Amor e para a Vida!

Luiz de Magalhães.