Aqui chegou o Doutor

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Ao provedor dos ausentes, e da Santa Casa do Dezor Pedro de Unhão Castelbranco, achando-se com o poeta no seu retiro da Praya Grande.
por Gregório de Matos
Poema agrupado posteriormente e publicado em Crônica do Viver Baiano SeiscentistaOs Homens BonsJuízes de Igaraçu

1Aqui chegou o Doutor,
e basta, que o Doutor diga,
para que explicar consiga,
que chegou o Provedor:
de antinomásia o Senhor,
o nobre, o esclarecido,
já têm todos entendido,
que é aqui o Castelbranco,
a quem o Céu fez tão branco
em sangue, como em apelido.

2Chegou a estes areais,
e alegrou-se tanto o monete,
que num, e noutro horizonte
se vêem trêmulos sinais:
a alegria, que no mais
vegetável se entendia,
tanto obrava, tanto urdia,
em todo o tronco valente,
que em Letras do sol ardente
Castelo branco se lia.

3O monte escreveu na falda
"aqui chegou o Doutor"
com Letras de branca flor
sobre papel de esmeralda:
o raio do Sol, que escalda,
o ar Largo, a folha breve
tanto o natural reteve,
que por impulso, ou por rogo
em vez de raios de fogo
arrojou campos de neve.

4O Sol em seu parto Leito,
onde morre cada dia.
se escondeu de cortesia
talvez, talvez de respeito:
eu observava em meu peito,
que a boa conversação
do nosso Doutor Unhão
mui alta esfera subia:
mas não soube, se seria
de douto, ou de cortesão.

5Foi-se levando consigo
nosso gosto, vida, e agrado,
ele diz, que vai forçado,
e eu que por ser inimigo:
tão bem molesta o amigo,
quando se ausenta, e se deixa:
porém será injusta queixa,
a que eu fizer nesta parte,
pois quem forçado se parte,
de inimigo não me deixa.