Arras por Foro de Espanha/II

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Arras por Foro de Espanha por Alexandre Herculano
Capítulo II: O beguino

Quem hoje passa pela cadeia da cidade de Lisboa, edificio immundo, miseravel, insalubre, que por si só bastára a servir de castigo a grandes crimes, [1] ainda vê na extermidade delle umas ruinas, uns entulhos amontoados, que separa da rua uma parede de pouca altura, onde se abre uma janella gothica. Esta parede e esta janella são tudo o que resta dos antigos paços d’apar S. Martinho, igreja que tambem já desappareceu, sem deixar sequer por memoria um panno de muro, uma fresta, de outro tempo. O Limoeiro é um dos monumentos de Lisboa sobre que revoam mais tradições de remotas eras. Nenhuns paços dos nossos reis da primeira e segunda dynastia foram mais vezes habitados por elles. Conhecidos successivamente pelos nomes de paços d’elrei, paços dos infantes, paços da moeda, paços do limoeiro, a sua historia vae sumir-se nas trevas dos tempos. Sâo da era mourisca? Fundaram-nos os primeiros reis portugueses? Ignoramo-lo. E que muito, se a origem de Sancta Maria Maior, da veneranda cathedral de Lisboa, é um mysterio! Se, transfigurada pelos terremotos, pelos incendios e pelos conegos, nem no seu archivo queimado, nem nas suas rugas caiadas e douradas póde achar a certidão do seu nascimento e dos annos da sua vida! Como as da igreja, as ruinas da monarchia dormem em silencio á roda de nós, e, involto nos seus eternos farrapos, o povo vive eterno em cima ou ao lado dellas, e nem sequer indaga porque jazem ahi!

Na memoravel noite em que se passaram os successos narrados no capítulo antecedente, essa janella dos paços d’elrei era a unica aberta em todo o vasto edificio, mas calada e escura como todas as outras. Só, de quando em quando, quem para lá olhasse attento do meio do terreiro enxergaria o que quer que era alvacento, que ora se chegava á janella, ora se retrahia. Mas o silencio que reinava naquelles sitios não era interrompido pelo menor ruído. De repente um vulto chegou debaixo da janella e bateu de vagarinho as palmas: a figura alvacenta chegou á janella, debruçou-se, disse algumas palavras em voz baixa, retirou-se, tornou a voltar e pendurou uma escada de corda que segurou por dentro. O vulto que chegára subiu rapidamente, e ambos desappareceram através dos corredores e aposentos do paço.

Em um destes ultimos, alumiado por tochas seguras por longos braços de ferro chumbados nas paredes, passeava um homem de meia idade e gentil. Os seus passos eram rapidos e incertos, e o seu aspecto carregado. De quando em quando parava e escutava a uma porta, cujo reposteiro se meneava levemente; depois continuava a passear, parando ás vezes com os braços cruzados e como entregue a cogitações dolorosas.

Por fim o reposteiro ondeou d’alto a baixo e franziu-se no meio: mão alva de mulher o segurava. Esta entrou, após ella um homem alto e robusto, vestido de burel e cingido de cincto de esparto, d’onde pendiam umas grossas camandulas. A dama atravessou vagarosamente a sala e foi sentar-se em um estrado de altura de palmo, que corria ao longo d’uma das paredes do aposento. O homem que passeava assentou-se também no unico escabello que alli havia. Fr. Roy, que o leitor já terá conhecido, ficou ao pé da porta por onde entrara, com a cabeça baixa e em postura abeatada.

“Aproxima-te, beguino!”—­disse com voz trémula elrei; porque era elrei D. Fernando o homem que se assentára.

Fr. Roy deu uns poucos de passos para diante.

“Que ha de novo?”—­perguntou elrei.

“O povo cada vez está mais alvorotado, e jura falar rijamente ámanhan a vossa senhoria. Mas essa não é a peior nova que eu trago!”

“Fala, fala, beguino!—­acudiu elrei, estendendo a mão convulsa para o ichacorvos.

“É que ámanhan, em quanto vossa senhoria estiver em S. Domingos, o paço será accommettido. Pretendem matar...”

“Mentes, beguino!—­gritou a dama, erguendo-se do estrado de um salto, semelhante a tigre descoberto pelos caçadores nos matagaes da Ásia.—­Mentes! Podem não me querer minha: mas assassinar-me! Isso é impossivel. Amo muito o povo de Lisboa; tenho-lhe feito as mercês que posso, para que elle haja de me odiar assim de morte. Os fidalgos podem persuadi-lo a oppôr-se ao nosso casamento; mas nunca a pôr mãos violentas na pobre Leonor Telles.”

“Prouvera a Deus que eu mentisse hoje! Seria a primeira vez na minha vida:—­replicou o ichacorvos com ar contrito.—­Mas ouvi com meus ouvidos a ordem para o feito e a promessa da execução, haverá tres credos, na taberna de Folco Taca.”

“Miseraveis!—­bradou erguendo-se tambem elrei, a quem o risco da sua amante restituira por um momento a energia.—­Miseraveis! Querem sobre a cerviz o jugo de ferro de meu pae? Te-lo-hão. Quem ousa ordenar tal cousa?”

“Diogo Lopes Pacheco, do vosso conselho, o disse ao alfaiate Fernão Vasques, o coudel dos revoltosos, e vosso irmão D. Diniz estava tambem com elles:”—­respondeu Fr. Roy.

O beguino era o espia mais sincero e imperturbavel de todo o mundo.

“Velho assassino!—­exclamou D. Fernando—­cubriste de luto eterno o coração do pae! Queres cubrir o do filho. E tu, Diniz, que eu amei tanto, tambem entre os meus inimigos! Leonor, que faremos para te salvar?! Aconselha-me tu, que eu quasi que enlouqueci!”

O pobre e irresoluto monarcha cobriu o rosto com as mãos, arquejando violentamente. D. Leonor, cujos olhos centelhantes, cujos labios esbranquiçados revelavam mais odio que terror, lançou-lhe um olhar de desprezo, e em tom de mofa respondeu:

“Sim, senhor rei, na falta de vossos leaes conselheiros posso eu, triste mulher, dar-vos um bom conselho. Acordae vossos pagens, que vão pregar um poste à porta destes paços, e mandae-me amarrar a elle para que o vosso bom povo de Lisboa possa despedaçar-me tranquillamente ámanhan sem profanar os vossos aposentos reaes. Será mais uma grande mercê que lhe fareis em recompensa do seu amor á vossa pessoa, da sua obediencia aos vossos mandados.”

“Leonor, Leonor, não me fales assim, que me matas!—­gritou D. Fernando, deitando-se aos pés de D. Leonor e abraçando-a pelos joelhos, com um chôro convulso.—­Que te fiz eu para me tractares tão cruelmente?”

“D. Fernando, lembra-te bem do que te vou dizer! O povo ou se rege com a espada do cavalleiro, ou elle vem collocar a ascuma do peão sobre o throno real. Quem não sabe brandir o ferro, cede; deixa-o reinar.”

“Tens razão, Leonor!—­disse D. Fernando, enxugando as lagrymas e alçando a fronte nobre e formosa, onde se pintava a indignação. —­ Serei filho de D. Pedro o cruel; serei successor de meu pae. Eu mesmo vou ao alcaçar examinar os engenhos mais valentes que cubram o terreiro de S. Martinho de pedras, de virotões e de cadaveres: os montantes e as béstas dos homens d’armas e bésteiros do meu alcaide-mór de Lisboa farão o resto. João Lourenço Bubal será fiel a seu rei. Se necessario fôr com minhas proprias mãos ajudarei a pôr fogo á cidade, para que nem um revoltoso escape. Adeus, Leonor: conta que serás vingada.”

D. Fernando voltou-se rapido para a porta do aposento. Fr. Roy estava immovel diante delle.

“João Lourenço Bubal—­disse o espia sem se alterar—­é dos revoltosos. Ouvi-o da bôca do proprio Diogo Lopes, que o certificou a Fernão Vasques. Os trons do alcacer estão desapparelhados; e a maior parte dos homens d’armas e bésteiros do alcaide-mór eram na taberna de Folco Taca os mais furiosos contra a que elles chamam....”

“Cal-te, beguino!”—­gritou elrei, empurrando-o com força e procurando tapar-lhe a bôca.

O ichacorvos parou onde o impulso recebido o deixou parar, e ficou outra vez immovel diante de D. Fernando, a quem este ultimo golpe lançava de novo na sua habitual perplexidade.

“... A adultera:—­proseguiu Fr. Roy acabando a phrase, porque ainda a devia, e era escrupuloso e pontual do desempenho do seu ministerio.

“Beguino!—­atalhou D. Leonor com voz trémula de raiva—­melhor fôra que nunca essa palavra te houvesse passado pela bôca; porque talvez um dia ella seja fatal para os que a tiverem proferido.”

“Mas que faremos!?—­murmurou elrei com gesto d’indizivel agonia.

“Havia ainda ha pouco tres expedientes,—­respondeu D. Leonor, recobrando apparente serenidade—­combater, ceder, fugir. O primeiro é já impossível; o segundo!... Porque não o acceitas, Fernando? Prestes estou para tudo. Não me verás mais, ainda que, longe de ti, por certo estalarei de dor. Cede á força: os teus vassallos o querem; que-lo o teu povo. Esquece-te para sempre de mim!”

“Esquecer-me de ti? Não te vêr mais? Nunca! Obedecer á força? Quem ha ahi que ouse dizer ao rei de Portugal:—­rei de Portugal, obedece á força?—­Os peões de Lisboa?! Porque sou manso na paz, não crêem que a minha espada no campo de batalha córte arnezes como a do melhor cavalleiro? Bons escudeiros e homens d’armas da minha hoste, por onde andaes derramados? Dormis por vossas honras e solares? O povo vos acordará como me acordou a mim; bramirá como os lobos da serra ao redor de vossas moradas; saltear-vos-ha no meio de vossos banquetes, por entre o ruído de vossos folgares. No ardor de vossos amores dir-vos-ha:—­desamae!—­Elle ousa já dize-lo a seu rei e senhor... Oh desgraçado de mim, desgraçado de mim!”

“Não queres, pois, deixar-me entregue á minha estrella?—­disse D. Leonor, com voz entre de chôro e de ternura, abraçando pelo pescoço o pobre monarcha, e chegando a sua fronte suave e pallida ás faces afogueadas de D. Fernando, que n’uma especie de delirio olhava espantado para ella.

“Não, não! Viver comtigo, ou morrer comtigo. Cahirei do throno, ou tu subirás a elle.”

Um sorriso quasi imperceptivel se espraiou pelo rosto de Leonor Telles, que, recuando e tomando uma postura resoluta e ao mesmo tempo de resignação, proseguiu com voz lenta mas firme:

“Então resta o fugir.”

“Fugir!”—­exclamou elrei. E esta palavra só era mais expressiva que narração bem extensa dos atrozes martyrios que o malaventurado curtia no coração irresoluto mas generoso, com a idéa de um feito vil e covarde em qualquer escudeiro, vilissimo e torpissimo n’um rei de Portugal, em um neto de Affonso IV.

Elrei olhou para ella um momento. Era sereno o seu rosto angelico, semelhante ao de uma dessas virgens que se encontram nas illuminuras de antigos codices, o segredo de cujos toques, perdido no fim do seculo quinze, a arte moderna a muito custo pôde fazer resurgir. O mais experto physionomista difficultosamente adivinharia a negrura d’alma que se escondia debaixo das puras e candidas feições de D. Leonor, se não fossem duas rugas que lhe desciam da fronte e se uniam entre os sobr’olhos, contrahindo-se e deslisando-se rapidamente, como as vesiculas peçonhentas das fauces d’uma vibora.

“Seja, pois, assim! Fujamos:”—­murmurou D. Fernando com o tom e gesto com que o suppliciado daria no alto do patibulo o perdão ao algoz.

D. Leonor tirou do largo cincto, com que apertava a airosa cinctura, uma bolça de ouropel, e atirou com ella aos pés do beguino, que, de mãos cruzadas sobre o peito e os olhos semi-abertos cravados na abobada do aposento, parecia extatico e engolfado nos pensamentos sublimes do ceu.

“Vinte dobras de D. Pedro por teu soldo, beguino: vinte pelo teu silencio. O resto da recompensa te-lo-has um dia, se a adultera atravessar triumphadora o portal por onde vae saír fugitiva.”

O rir affavel de que estas palavras foram acompanhadas fizeram correr um calafrio pela medulla espinal do ichacorvos, cujas pernas vacillaram. Mas o contacto das quarenta dobras, que uniu immediatamente ao peito debaixo do escapulario, lhe restituiram o vigor natural.

Elrei havia-se assentado, quasi desfallecido, no escabello unico do aposento, e o seu aspecto demudado infundia ao mesmo tempo terror e compaixão. Quando o beguino alevantou a bolça, D. Fernando fitou nelle os olhos e estendeu a mão para o reposteiro sem dizer palavra.

Fr. Roy curvou a cabeça, cruzou de nova as mãos sobre o peito, e, recuando até a porta, desappareceu no corredor escuro por onde entrára.

Apenas os passos lentos e pesados do ichacorvos deixaram de soar, D. Leonor encaminhou-se para uma janella que dava para um vasto terrado, e affastou a cortina que servia durante o dia de mitigar a excessiva luz do sol. A noite ía em meio do seu curso, como o indicava o mortiço das tochas, que mal allumiavam o aposento, e a lua, já no minguante, começava a subir na abobada do firmamento, mergulhando no seu clarão sereno o brilho esplendido das estrellas. A janella estava aberta, e o escabello d’elrei ficava proximo e fronteiro: o luar batia de chapa no rosto bello e triste de D. Fernando, que, embebido no seu amargurado scismar, parecia alheio ao que passava á roda delle, e esquecido de que lhe restavam poucas horas para poder levar a cabo a resolução que tomára. Leonor Telles, encostada ao mainel da janella, poz-se a olhar attentamente. A cidade dormia; e apenas o ladro de algum cão cortava aquella especie de zumbido, que é como o respirar nocturno de uma grande povoação que repousa. Lá em baixo uma faixa trémula, semelhante a uma ponte de luz, cortava obliquamente o Téjo, d’onde mais largo se encurva pela margem esquerda. Os mastros de milhares de navios, emparelhados com a cidade desde Sacavem até o promontorio onde campeava fóra dos arrabaldes de S. Francisco, formavam uma especie de floresta lançada entre a cidade e a sua immensa bahia. Desde o terrado, para o qual dava a janella, até o rio, o bairro dos judeus, pendurado pela encosta ingreme e fechado com travezes e cadeias nos topos das ruas, desenhava uma especie de triangulo, cuja hase assentava sobre o lanço oriental da muralha mourisca, e cujo vertice, voltado para o occidente, se coroava com a synagoga, abrigada á sombra do vulto disforme da cathedral. Pouco distante do terrado, entre o palacio e a judearia, a claridade da lua batia de chapa em um terreiro irregular, rodeado de mesquinhas e meio-arruinadas casas, que pela maior parte pareciam deshabitadas. No meio delle o que quer que era se erguia semelhante ao arco de um portul romano. Parecia ser uma ruina, um fragmento de edíficío da antiga Olisipo, que esquecêra alli aos terremotos, ás guerras e aos incendios, e ao qual finalmente chegára a sua hora de desabar, porque uma alta escada de mão estava encostada á verga que assentava sobre os dous pilares lateraes e os unia, como se alli a tivessem posto para, em amanhecendo, os obreiros poderem subir acima e derribarem-no em terra.

Era para esse vulto que D. Leonor se pozera a olhar attentamente.

Depois voltou o rosto para elrei, que, com a cabeça baixa, os braços estendidos, e as mãos encurvadas sobre os joelhos, parecia vergar sob o peso da sua amargura: contemplou-o com um gesto de compaixão por alguns momentos, e, estendendo para elle os braços, exclamou:

“Fernando!”

Havia no tom com que foi proferida esta unica palavra um mundo de amor e voluptuosidade; mas no meio da brandura da voz de Leonor Telles havia tambem uma corda aspera; a lguma cousa do rugir do tigre.

Elrei deu um estremeção, como se pelos membros lhe houvera coado uma faisca electrica; ergueu-se e atirou-se a chorar aos braços de Leonor Telles.

“Ámanhan—­disse elle com voz affogada,—­o rei mais deshonrado da christandade serei eu: o cavalleiro mais vil das Hespanhas será D. Fernando de Portugal. Que me resta? Só o teu amor; mais nada. Porque não me pedem antes a corôa real, que para mim tem sido corôa de espinhos? Dera-a de boa vontade. Oh Leonor, Leonor! serias a mulher mais perversa se um dia me atraiçoasses.”

Um beijo da adultera cortou as lastimas d’elrei. A formosura desta mulher tinha um toque divino á claridade da lua. D. Fernando, embriagado d’amor, esqueceu-se de que poucas horas lhe restavam para fugir do seu povo enganado e ludibriado por elle.

“Fernando!”—­proseguiu D. Leonor—­“jura-me ainda uma vez que serás sempre meu, como eu serei sempre tua.”

Dizendo isto, affastou-o brandamente de si.

“Juro-t’o uma e mil vezes pela fé de leal cavalleiro que até hoje fui. Juro-t’o pelo ceu que nos cobre. Juro-t’o pelos ossos de meu nobre e valente avo, que àlli dorme juncto ao altar-mór da sé, debaixo das bandeiras infiéis que conquistou no Salado. Juro-t’o por mais que tudo isso: juro-t’o pelo meu amor!”

“Bem está, rei de Portugal!—­atalhou D. Leonor.—­Agora só uma cousa me resta para te pedir. Não é favor; é justiça.”

“Não me peças Lisboa, que essa sabe Deus se tornará a ser minha, rica, povoada e feliz como eu a tornei, ou se repousarei ainda a cabeça nestes paços de meus antepassados, passando por cima das ruinas dela! Não me peças Lisboa, que talvez ámanhan deixe de me chamar seu rei: do resto de Portugal pede-me o que quizeres.”

“Quero que me dês as minhas arrhas: quero o preço do meu corpo, segundo foro de Hespanha.”

“Villa-viçosa é alegre como um horto de flores, e Villa-viçosa dar-t’a-hei eu. O casteilo d’Obidos é forte e roqueiro: são numerosos e prestes para a defesa os seus engenhos, e o castello d’Obidos será teu. Cintra pendura-se pela montanha entre lençoes d’aguas vivas, e respira o cheiro das hervas e flores que crescem á sombra das penedias: pódes ter por tua a Cintra. Alemquer é rica no meio de suas vinhas e pomares, e Alemquer te chamará senhora.”

“Guarda as tuas villas, D. Fernando, que eu não t’as peço em dote: quero apenas uma promessa de cousa de bem pouca valia.”

“De muita ou de pouca, não me importa! Dar-te-hei o que me pedires.”

D. Leonor estendeu a mão para a especie de portada romana, que se erguia solitaria no meio do terreiro deserto:

“É alli que tu me darás o preço do meu corpo, se um dia a cerviz da orgulhosa Lisboa se curvar debaixo de teu jugo real.”

Elrei lançou um rapido volver d’olhos para onde Leonor Telles tinha o braço estendido, mas recuou horrorisado. O vulto que negrejava no meio do terreiro, era o patibulo popular e peão: era a forca, tétrica, temerosa, maldicta!

“Leonor, Leonor!—­disse elrei com um som de voz cavo e debil—­porque vens tu misturar pensamentos de sangue com pensamentos d’amor? Porque interpões um instrumento de morte e de affronta entre mim e ti? Porque preferes o fructo do cadafalso ás villas e castellos de que te faço senhora? Porque trocas a estola do clerigo que ha-de unir-nos pelo baraço aspero do algoz?”

“Rei de Portugal!—­respondeu a mulher de João Lourenço da Cunha com um brado de furor—­ainda me perguntas porque o faço? Tu nunca serás digno do sceptro de teu pae! Queres saber porque ajuncto pensamentos de sangue a pensamentos d’amor? É porque esses de quem eu o peço pediram tambem o meu sangue. Queres saber porque interponho entre mim e ti um instrumento de morte e d’affronta? É porque o teu bom povo de Lisboa quiz também interpôr entre nós a morte, e saciar-me de affrontas. Queres que te diga porque prefiro o fructo do cadafalso ás villas e castellos que me offereces? É porque para os animos generosos não ha vender vinganças por ouro. Vingança, rei de Portugal, te pede em dote a tua noiva! Jura-me que um dia os teus vassallos que me perseguem serão tambem perseguidos, e que essa vil plebe, que cobre de injurias e pragas o meu nome, porque te amo, o amaldiçoem, porque levo os seus caudilhos ao patibulo. Este é o preço do meu corpo. Sem esse preço a neta de D. Ordonho de Leão [2] nunca será mulher de D. Fernando de Portugal.”

E com um braço estendido para o logar sem nome [3] do supplicio, e com o outro curvado como quem affastava de si elrei, esta mulher vingativa era sublime de atrocidade.

“Tens razão, Leonor:—­disse por fim D. Fernando, depois de largo silencio, em que os affectos inconstantes do seu caracter voluvel mudaram gradualmente.—­Tens razão. A futura rainha de Portugal terá o seu desaggravo: as linguas que te offenderam calar-se-hão para sempre: os corações que te desejaram a morte deixarão de bater. No meu throno, até aqui de mansidão e bondade, assentar-se-ha a crueza. Com Judas o traidor seja eu sepultado no inferno se faltar ao juramento que te faço de lavar em sangue a tua e a minha injuria.”

A estas palavras o aspecto severo de Leonor Telles mudou-se em um sorrir de inexplicavel doçura.

“Oh, como te hei-de amar sempre!”—­murmurou ella. E estas palavras cahiam de seus labios meigos e suaves como o arrulhar de pomba amorosa.

Um beijo ardente, que sussurrou levado nas asas da brisa fresca da noite, assellou este pacto de odio e d’exterminio.


  1. Isto era escrípto em 1844.
  2. A familia de Leonor Telles suppunha-se descender de D. Ordonho II, rei de Leão.
  3. Logar sem nome. Nós pelo menos não nos atrevemos a pôr-lh’o. Sabemos só que em tempos remotos a forca esteve perto da igreja de S. João da Praça, freguezia cuja existencia data pelo menos do tempo de D. Affonso III. (Mem. para as Inquir. Doc. 2.º) Talvez o terreiro ou praça em que ella estava désse o cognome á parochia. Desconfiâmos, todavia, de que este terreiro se estendesse para o lado oriental da sé, e que nesse caso o nome fosse Aljami. D. João I fez mercê em 1392 ao bispo de Lisboa D. Martinho (Chancel. de D. João I, L. 2.°) de uns pardieiros no chão d’Aljami, que partem com os paços do dito bispo, para fazer umas casas e torre. Os paços dos bispos ficavam para o lado oriental da sé. Além d’isso Aljami parece derivar-se do arabico aljamea, que significa o laço com que se amarram o pescoço e as mãos.