Artigo de Euclides da Cunha de 6 de setembro de 1897

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Diário de uma expedição
por Euclides da Cunha
Publicado no Estado de São Paulo em 26 de setembro de 1897.


MONTE SANTO — Finalmente chegamos, às 9 horas da manhã, à nossa base de operações, depois de duas horas de marcha.

Ninguém pode imaginar o que é Monte-Santo a três quilómetros de distância. Ereta num ligeiro socalco, ao pé de magestosa montanha, a povoação, poucos metros a cavaleiro sobre os taboleiros extensos que se estendem ao norte, está numa situação admirável. Não conheço nenhuma de aspecto mais pitoresco que o deste arraial — humilde perdido no seio dos sertões. O viajante exausto, esmagado pelo cansaço e pelas saudades, sente um desafogo imenso ao avistá-lo, depois de galgar a ultima ondulação do solo, com as suas casas brancas e pequenas, caindo por um plano de inclinação insensível até à planice vastíssima.

Na montanha, a um lado, ressalta logo à vista um quadro interessante e novo.

Galgando-a, primeiro numa direção, depois noutra, em zig-zag, até vingar a encosta e subindo depois pelo espigão afora até a rota culminante da serra, apruman-se vinte e quatro capelas, alvíssimas, destacando-se nítidamente num fundo pardo e requeimado de terreno áspero e estéril.

Não me demorarei, porém, neste assunto, do qual tratarei com mais vagar.

Quando entramos, formavam na praça 1.900 homens sob o comando do coronel Cesar Sampaio. À frente dos batalhões paraenses avultava o coronel Sotero de Menezes — um chefe e um soldado como há poucos. Divisei logo, à frente do batalhão do Amazonas, um digno companheiro dos velhos tempos entusiastas da propaganda, Candido Mariano, contemporâneo de escola.

Houve um entusiasmo sincero e ruidoso quando num movimento uniu-se às mil e novecentas baionetas, num cintilar vivíssimo, desceram rapidas dos ombros dos soldados, aprumando-se na continência aos generais — numa ondulação luminosa imensa.

Atravessamos, a galope, pela frente das tropas e paramos afinal diante do único sobrado nobilitado com o título pomposo de Quartel-General.

Apeei-me imediatamente e achei-me entre antigos companheiros, de há muito ausentes.

Que diferença extraordinária em todos!

Domingos Leite, um belo tipo de flaneur, folgasão nos bons tempos da Escola, um devoto elegante da rua do Ouvidor — abraçou-me e não o conheci. Vi um homem estranho, de barba inculta, e crescida, rosto pálido e tostado. voz áspera, vestindo bombachas enormes, coberto de largo chapéu desabado. Está aqui desde a expedição Moreira Cesar, na faina perigosa e tremenda da engenharia militar, a traçar estradas ao deserto, correndo linhas telegráficas, dirigindo comboios por veredas difíceis nas quais o bacharel em matemática teve muitas vêzes de empunhar o ferrão e transformar-se em carreiro.

Abracei comovido o antigo colega em quem as fadigas não destruíram a jovialidade antiga.

Como se muda nestas paragens!

Gustavo Guabirú outro engenheiro militar, foi uma vez encontrado por um contingente da força policial da Bahia em tal estado que foi preso como jagunço. E não teve meios de convencer aos soldados do engano em que haviam caído.

Encontrei, perto de Quirimquinquá, na estrada, quando vínhamos, Cororiolano de Carvalho, ex-governador do Pisubi, e correspondi-lhe ao cumprimento sem o conhecer absolutamente na ocasião.

O capitão Souza Franco, um dos nossos melhores oficiais de cavalaria, transmudou-se num velho inútil e combalido.

Parece que esta natureza selvagem vai em todos imprimindo uma feição diversa.

O major Martiniano, comandante da praça, um tipo desempenado de soldado que sempre vi, desde os tempos acadêmicos, no Rio, de boné atrevidamente inclinado a três pancadas, substituiu o antigo cavaignac negro por uma barba branca. Está velho; está aqui há poucos meses.

A côr muda revestindo-se de tons ásperos de bronze velho; como que mirram as carnes e os ossos incham; rapazes elegantes transformam-se rapidamente em atletas desengonçados e rígidos...

Quase que se vai tornando indispensável a criação de um verbo para caracterisar o fenômeno. O verbo ajagunçar-se, por exemplo. Há transformações completas e rápidas.

O representante da Notícia, Alfredo Silva, assombrou-me: está num desengonçado irresistível para o tipo geral predominante — barba crescida, chapelão de palha, paletó de brim de côr inclassificável, bombachas monstruosas.

E cada um anda por aqui perfeitamente, á vontade. Monte-Santo é como uma única casa, imensa e mal dividida, com inúmeros cubículos, de uma só familia de soldados.

Nada ainda poderei adiantar sobre a situação.



As informações que hoje obtive são pouco animadoras. Falo baseado no critério seguro de colegas que lá estão há meses, que de lá voltaram ontem, e que pela educação que possuem podem ajuizar com firmeza sobre os acontecimentos que presenciaram.

Imaginem que, enquanto o exército lhes ocupa grande parte de casas e os fulmina quotidianamente, num bombardeio incessante, os fanáticos distribuem de um modo notável a atividade, revesando-se, da linha de fogo para o campo onde cultivam mandiocas, feijão e milho!

Fazem roças que devem ser colhidas no ano vindouro!

Ora esse assédio platônico que fazemos, parece que não perderá tal feição ainda quando cheguem a Canudos todas as forças com um efetivo de pouco mais de oito mil homens. Os meus colegas que ali andam, há meses, de bússola e aneróide em punho, garantem-me que o cerco regular exige um mímimo de vinte e cinco mil homens. Porque o jagunço não tem apenas três ou quatro estradas para o acesso ao povoado, tem um número incalculável delas — qualquer ponto por mais escabroso é-lhe francamente praticável.

Resta o recurso de um assalto impetuoso, rápido e firmemente sustentado; não há outro.

O ataque será fatalmente mortífero. Basta examinar-se uma planta do imenso arraial. Canudos está militarmente construído e uma estampa que por aí anda traduz, absolutamente, da sua feição característica.

As casas, aparentemente em desordem, dispõem-se umas relativamente às outras, de modo tal que de qualquer das quatro esquinas de qualquer delas, o inimigo, sem mudar de lugar, rodando apenas sobre os calcanhares, atira para os quatro pontos do horizonte. É o que me afirmou um homem inteligente e engenheiro distinto — o coronel Campello França.

E se aliarmos a essa disposição, adrede preparada, a conformação bizarra do solo, definida por ondulações ligeiras e numerosas, cruzando— se em todos os sentidos, compreenderemos bem todas as dificuldades do combate.

É absolutamente necessário, entretanto, que ele se realise, quanto antes. Eu estou firmemente convencido que as nossas tropas não podem permanecer por dois meses no máximo, nestas paragens ingratas, apezar do estoicismo e abnegação revelados pelos seus chefes.

As dificuldades de transportes de munições de guerra e de boca podem, em parte, ser debeladas. Há tropeços, porém, irremediáveis, absolutamente insanáveis — e entre estes, espantalho que aterra a todos que vêm ou seguem para Canudos, — a sêde; sêde devoradora e inextinguível que tem torturado a todos os combatentes.

Os pequenos pântanos que ainda existem nas estradas, além de quase exauridos têm no seio toda a sorte de germes de infecção. Num deles, um dos melhores, perto de Juetê, contam companheiros recémvindos, que viram, estendido horizontalmente na borda, a boca mergulhada na água esverdeada, o cadáver de um varioloso que até ali se arrastára, impelido pela sêde ardente da febre e morrera.

Outros guardam no fundo, traiçoeiramente ocultos pela perfídia assombrosa do jagunço, cadáveres de homens e cavalos, numa decomposição lenta e nefasta.

Se as chuvas sobrevierem, desaparecerão estes inconvenientes mas surgirão outros.

Imaginemos um só.

O Vasa-Barris, avolumando-se desmedidamente cortará de todo as comunicações entre o exército sitiante e a base de operações. Só por um milagre da engenharia, num lugar em que escasseiam materiais e pessoal adestrado — podem ser elas restabelecidas por uma ponte que deve ser feita no praso mínimo de oito dias com todas as condições de resistência definida pela carga perigosa da tropa em marcha — sob as balas certeiras e constantes dos fanáticos!

Não exagero perigos; mas o otimismo seria um crime nesta quadra. Além disto a maioria republicana da nossa terra precisa conhecer toda a verdade desta situação dolorosa, pela voz ao menos sincera dos que aqui estão prontos para compartirem do sacrifício nobilitador pela República.

Não sabemos ainda se o marechal Bittencourt irá até Canudos; se esta resolução for tomada revestirei a minha incapacidade física com a minha capacidade moral e não abandonarei os dedicados companheiros. Amanhã continuarei estas notas que, com certeza, aí vão chegar com grandes intervalos por que o serviço de correios aqui é péssimo e moroso.