As Capelas de Araçariguama e seus Fundadores

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As Capellas de Araçariguâma e seus Fundadores
por Dom Duarte Leopoldo e Silva
Um texto de 72 páginas escrito por Dom Duarte Leopoldo e Silva, Arcebispo de São Paulo, um dos visitadores da igreja da Araçariguama. Parte de uma série, sobre a fundação de diversas paróquias do estado, compilada por D. Duarte com o nome de "Notas de História Ecclesiástica", publicada em 1916. O livreto chama-se "As Capellas de Araçariguâma e seus Fundadores"


A Capela de Nossa Senhora da Piedade

É a mais antiga povoação dêsse nome, de que existem apenas vestigios, a uns dois kilómetros da villa, onde hoje é a chácara de Vicente José de Araújo, na estrada de Pirapóra.

A capella de N. Senhora da Piedade, cuja fundação remonta a 1653, ainda existia em 1768, porém já decadente e arruinada, sem embargo das providências do visitador António José de Abrêu. Em provimento de fevereiro dêsse anno, dispôs elle o seguinte:

"A administradora da Capella de N. S. da Piedade Cuidará no tr.° de Seis mezes em fazer Concertar, e Caso não possa Ser isso ao menos derribar a torre, q. por Ser de madeyra e estar exposta a injuria do Tempo, por falta de reboque ameaça ruina, e o mais he q. pode damnificar a Capella e Cahir sobre ella : Consta q. a def.ta D. Maria Rybr.ª Leyte deyxou trezentos mil reis p.ª Concerto e reparo da mesma Capella: dos juros deste dr.° Se pode fazer o pred.º Concerto."

Era então vigário o Padre Manuel de Barros, que parece não ter dado cumprimento ás providências do visitador, sendo a imágem de N. S. da Piedade trasladada para a villa, onde ainda hoje se venera.

Da fundação de Araçariguâma, menos acertadamente escreve Azevedo Marques, aliás paciente e criterioso investigador:

"Pequena povoação que deve a sua origem á influência dos notáveis paulistas capitão-mór Guilherme Pompêu de Almeida, seu filho o Padre Dr. Guilherme Pompêu de Almeida e Francisco Rodrigues Penteado, que ahi edifcaram a capella, depois matriz da paróchia, por esforços do Padre Belchiór de Pontes. Do liv. 1.° de Registro de Provisões da Câmara Episcopal consta que, em 1653, foi a paróchia desmembrada de Parnahyba, com a invocação de N. Senhora da Penha."

Ha engano. Só muito mais tarde - informa o vigário collado de Parnahyba, Padre João Gonsalves de Lima - "em o anno de mil sette centos e hum foi desmembrada desta Matriz (de Parnahyba) a Capella de Nossa Senhora da Penha de Araçariguâma, e Creada em Freguezia, hoje Collada..."

Azevedo Marques não viu o termo ou decreto de erecção da paróchia, que só se poderia encontrar na Cúria do Rio de Janeiro; más tão sómente uma provisão de vigário ou de capella, passada na Cúria de S. Paulo, após a creação desta Diocese em 1745. A provisão de vigário seria em favôr da capella da Penha, elevada á categoria de paróchia em 1701, mas a capella a que se relere o primeiro livro de registros da Cúria de São Paulo, só póde sêr a de N. Senhora da Piedade, instituida em 1653, onde, segundo o costume, é possivel tivessem os missionários jurisdicção quasi parochial.

Continúa o engano quanto aos fundadôres das capellas de Araçariguâma, confundidas sob a mesma denominação.

Em 1653, não podia o Padre Belchiór de Pontes, que então contava apenas dez annos de idade, contribuir pâra a fundação de nenhuma das capellas. A sua residência em Araçariguâma, de 1717 a 1719, foi de dous annos incompletos, não lhe consentindo o afanoso ministério mais tempo que o necessário pâra dispôr e preparar o alargamento da capella de N. Senhora da Conceição, fundada pelo Padre Guilherme.

Nem este, nem seu pae, e muito menos o Padre Belchiór, tiveram ingerência na fundação da capella e povoação, onde hoje é a paróchia de N. Senhora da Penha, na villa de Araçariguâma, instituida, paramentada e dotada pelo capitão-mór Rodrigo Bicudo Chassim.

Provém a confusão de se não haverem distinguido as três povoaçöes vizinhas, a cada uma das quaes está ligado o nome de um dos fundadores, com absoluta exclusão do capitão Guilherme Pompêu.

Cabe a primazia da fundação de Araçariguâma a Francisco Rodrigues Penteado, o velho, natural de Pernambuco, exímio no tanger da vióla e destro na arte da música, em que pese aos que, na esteira de Azevedo Marques, attribuem o primeiro povoamento a um seu filho de igual nome e appellido.

De facto. Tendo fallecido em Parnahyba, em 1737, não poderia Rodrigues Penteado, o môço, marido de D. Anna Ribeiro Leite, ter fundado a povoação e capella em 1653, ou seja a 84 annos de distância.

Estabelecendo-se em Parnahyba, após o seu casamento com D. Clara de Miranda, filha de Antônio Rodrigues de Miranda e de D. Potência Leite, teve ahi grandes culturas que se estendiam á sua fazenda de Araçariguâma.

Falleceu a 13 de novembro de 1678, deixando do seu consórcio, além de outros, um filho de igual nome, notável sertanista, enriquecido na exploração de ouro em Minas Geraes, casado com sua Prima, D. Anna Ribeiro Leite.

No citado provimento de fevereiro de 1768, refere-se o visitador Antônio José de Abrêu, a uma D. Maria Ribeiro Leite, que havia legado a importância de trezentos mil réis á capella de N. Senhora da Piedade. Si é que houve erro do visitador, trocando-lhe o nome de Anna por Maria, seria essa senhora a própria mulhér de Rodrigues Penteado, o môço, nora portanto do fundador. Essa hypóthese é, aliás, perfeitamente admissível, considerando-se que a administração das capellas e igrêjas costumava transmittir-se aos descendentes dos seus fundadôres.

Como quer que seja, a julgar pelo avultado da doação, Anna ou Maria Ribeiro Leite devêra ter sido pessôa de qualidade e abastança, intimamente ligada á família de Rodrigues Penteado.

A Rodrigues Penteado, o môço, succedeu na administração da capella seu filho mais velho, o Padre Lourenço Leite Penteado, mestre em artes pelo collégio dos jesuitas, cônego da Sé de S. Paulo, vigário capitular, séde vacante, pelo fallecimento de D. Bernardo Rodrigues Nogueira, primeiro Bispo de S. Paulo, fallecido em 1752. Frequentava assiduamente a paróchia, onde celebrou diversos baptisados e casamentos de amigos ou parentes.

Vindo a fallecer o Cônego Lourenço Leite em 1752, veiu de Cuyaba seu irmão, Francisco Xaviér de Sales, a "tomar conta da casa e capella de N. Senhora da Piedade, mâs durou tão pouco tempo - informa Pedro Taques - que serviu a sua vinda pâra fazer mais sentida a sua morte aos parentes de S. Paulo."

Favorecido com excellentes predicados de intelligência e coração, chegou a receber no collégio dos jesuitas, o capêllo de mestre em artes. Abandonou, porém, a carreira ecclesiástica por seguir o natural pendôr daquelles tempos que o chamava, de preferência, pâra a vida aventureira do sertão. Passou-se pâra as minas de Cuyabá, onde, com ser pródigo e desperdiçado, conquistou grandes cabedaes e não menor reputação de homem honrado, cabendo-lhe o primeiro voto nas assembléas da república e, mais tarde, o pôsto de sargento-mór do regimento alli creado por Rodrigo César de Menêzes.

Por morte de Francisco Xaviér de Sales em 1759, passou a capella de N. Senhora da Piedade a uma administradôra, cujo nome se ignora, porém, com tão má fortuna que, já em 1768, reclamava as inúteis providências do visitador Abrêu. Assim é de suppôr que, por então, se fizesse a trasladação da imágem pâra a capella de N. Senhora da Penha, onde hoje tem assento a villa de Araçariguâma, vindo a cahir a primitiva povoiação em completa ruína e total esquecimento.


A Capela de Nossa Senhora da Penha Matriz de Araçariguama


Está situada a capella de N. Senhora da Penha onde hoje é a villa e paróchia de Araçariguâma, cuja fundaçâo tem sido erradamente attribuida a Rodrigues Penteado e aos dois Pompêus, com o problemático concurso do Padre Belchiór de Pontes.

Em uma das suas fazendas, nas proximidades da villa, teve o capitão-mór Guilherme Pompêu uma capella que já não existia em 1701, ao tempo da instituição da paróchia, a qual, diz o Padre Manuel da Fonsêca, "conservando-de com o seu mesmo lustre todo o tempo que êlle a administrou, tanto que por sua morte passou a terceiro administrador da mesma familia, acabou com tanta pressa, que não chegou a durar seis annos, podendo dizer-se della o que de Tróia disse o poeta : campus, ubi Troia fuit".

Ora tendo fallecido o capitão-mór em 1691, já em 1697 estaria em ruinas a sua capella, - quatro annos antes da fundação da paróchia. Entretanto, o arrazamento total da capella talvez fôsse encarecimento do autor da vida do Padre Belchiór, pois que o provimento do visitador Abrêu, em fevereiro de 1768, parece referir-se a essa mesma capella, cuja telha e madeiramento mandou se acautelasse:

"P.ª q. Se não perca a telha q. se acha na Igr.ª Velha o fabriq.ro e o R .do Parocho a mandará Logo tirar e pôr em Lugar Seguro e da mesma telha e madeyra Se não usará Se não pª Igr.ª e não Servindo p.ª ella observará o R .do Parocho o q. a este resp.to determina a Const.".

O capitão-mór Guilherme Pompêu de Almeida era natural de S. Paulo, filho de Pedro Taques, natural de Setúbal, e de D. Anna Proença natural de S. Paulo, casado em 1639 com D. Maria de Lima Pedrôso, filha do destemido paulista denominado o terror dos índios, João Pedrôso de Moraes e de D. Maria de Lima.

Falleceu o capitão Guilherme em Parnahyba, a 12 de novembro de 1691, onde jaz sepultado na capella mór da matriz. Do seu testamento constam diversos legados á matriz e á capella de Voturúna, dos quaes em seu lugar se dará conta.

Da sua immensa abastança restam apenas quatro castiçaes de prata, na capella do SS. Sacramento em Parnahyba, trazidos da arruinada e velha capella de Voturúna.

Nem Pedro Taques, nem o Padre Manuel da Fonsêca, nem mesmo o Padre Guilherme em seu testamento, attribuem ao capitão-môr Guilherme Pompêu a fundação da capella de N. Senhora da Penha, onde hoje se acha a villa de Araçariguâma, mas tão sómente a de Voturúrna em Parnahyba, que, por ser da mesma invocação, se tem confundido com a do Padre Guilherme no bairro do collégio, em Araçariguâma.

Nem por isso, fica menos ennobrecida a sympáthica ainda que modesta villa de Araçariguâma, cujo verdadeiro fundador - o capitão-mór Rodrigo Bicudo Chassim - foi dos mais nobres e opulentos do seu tempo.

A paróchia de Araçariguâma foi visitada, a 18 de fevereiro de 1728, por D. Fr. Antônio de Guadalupe, Bispo do Rio de Janeiro, á cuja jurisdicção pertençia o território de S. Paulo.

A 12 de maio de 1772, visitou-a o Sr. D. Fr. Manuel da Resurreição, Bispo de São Paulo, que encontrou a matriz em péssimas condições, a paróchia mal curada, como se vê do seu provimento:

"Com grande mágua nossa, nascida sem dúvida de um paternal affecto, achámos não se conservar no Sacrário o Santissimo Sacramento, senão no tempo da Quaresma, vindo por esta causa a perecer a mayor parte do povo desta freg. privada daquelle espiritual viatico, com que se podiam fortalecer as suas almas contra o combate do inimigo, e querendo remediar tão grande damno, ordenamos que daqui em deante se conserve sempre o Santissimo Sacram.to no Sacrário, e que o Fabriqueiro dos juros que annualmente deve cobrar dos duzentos e cincoenta mil reis, que deixou em Legado Maria Pires de Camargo, p.ª Se fazer a Semana Santa assista com azeite p,ª a Lampada, pois p.ª isso applicamos os d.os juros.
"Como a Igreja necessite de algumas obras mais precisas Como São o corredor da parte em que esta a escada, que vai p.ª o Coro, o assoalhar a Igreja, e o Concerto do forro da Capella-mor, advertimos ao R.do Parocho que cuide Com toda brevid.de em tudo isto p.ª o que applicamos os juros todos, que athé agora tem rendido os duzentos mil reis, acima declarados, p.ª as ditas Obras, e Concerto, e ordenamos ao Fabriq.ro que no termo de trez mezes Cuide em Cobrar tudo q.to se está devendo a Fabrica, e assim mais os quatrocentos mil reis que deixou em Legado Rodrigo Bicudo Chassim p.ª dos seus Juros Se fazer todos os annos a festa de N. S.ª da Penha Padroeyra desta freg.ª Com pena de haver de seus bens todo e qualquer prejuizo que por sua omijsâo tiver a igreja e Fabrica ."

Era então vigário o Padre Antônio Ferreira Meirelles que, si fez os reparos ordenados com tanta urgência e obrigação, não lhes deu tanta importância que aturassem por largo tempo. A 19 de outubro de 1814, o visitador, Antônio Joaquim de Abrêu, ordenava "novos reparos e concertos em toda a igrêja, á vista do estado ruinoso em que se encontrava". Em 1833, 0utro visitador, Antônio Paes de Camargo, insistia ainda pela reconstrucção da matriz, cujas obras só tiveram impulso no parochiato do Padre Manuel Zeferino de Oliveira, por alcunha , o Padre Araçá, cujo ministério se prolongou de 1856 a 1888.

O Padre Pêdro Gravina, Vigário de S. Roque, á cuja estola se achava annaxa a de Araçariguâma, continuou, de algum modo, os trabalhos do Padre Zeferino, deixando ainda por concluir a parte posterior da igrêja e suas dependências, desprovidas de fôrro, soalho e janellas.

Sufficientemente vasta e de construcção sólida, porém de estylo chão e commum, não recorda a nova igrêja absolutamente nada dos tempos primitivos, a não ser por um bello sacrário de talha dourada e algumas imagens não profanadas pela ignorância dos reincarnadôres.

A decadência da povoação, elevada á categoria de villa por lei provincial de 16 de abril de 1874, data do fallecimento do Padre Manuel Zeferino de Oliveira.

O estado moral da paróchia, principalmente da villa, é o que se póde esperar de uma população ha uns trinta annos abandonada. Desde a morte do Padre Zeferino, salvo pequenos intervallos, tem estado successivamente annexa ás estolas de Parnahyba, S. Roque e Pirapóra.

Os cônegos regulares de S. Norberto, professôres do Seminário Menór de Pirapóra, lhe têm prestado, ultimamente, bons serviços, salvando-a da inanição religiosa a que parecia fatalmente condemnada. Nestes últimos annos estabeleçêram-se, na vizinhança, umas cem familias procedentes de Santo Amaro, contribuindo efficazmente pâra uma quasi ressureição do municipio.

A população é pobre e indolente, composta de modestos sitiantes, rotineiros, apáthicos, sem ambiçöes, sem ideáes. Accrescentem-se a isto os disparates de uma politicágem de aldeia, verdadeiramente inopportuna, e estará completo o quadro de uma população que se vai deixando morrer, a pouco e pouco, na mais lamentável das inconsciências.

Diga-se, todavia, que, conhecida a bôa indole da nossa gente, um bom padre, desprendido bastante pâra sujeitar-se ao insulamento e monotonia da villa, colheria, com algum esforço, farta messe de bençams e consolações.

É tradicção que a velha matriz de Araçariguâma era senhora e possuidôra de um pesadissimo ostensório de ouro, procedente das minas de Voturúna. Viéra do collégio dos jesuitas - diziam uns; fôra do Padre Pompêu - afirmavam outros.

Guardado sempre em segrêdo por um dos habitantes da villa, cujo nome só de poucos era sabido, - as precauções de que o cercavam crearam-lhe em torno uma atmosphera sugestiva, a que não escaparam sacerdotes cultos e intelligentes. Nas grandes festas e procissões solemnes, era trazido, não se sabe donde, pâra a igrêja matriz, sempre escoltado e vigiado de perto pelos moradôres da villa. Assiin o tinham visto muitos padre; muitos visitantes o tinham examinado.

Verificado o nenhum valor da fabulosa alfaia, desfez-se a lenda... mas ainda há quem lhe dê curso, no falso presupposto de uma substituição impossivel.

Como quer que sêja, serviu a lenda de evidenciar o carácter do cabôclo paulista, simples, leal e homesto. O último depositário do famoso legado do Padre Pompêu, teve-o, por mais de 25 annos, occulto na mata, no desvão de uma pedreira, só dêlle conhecido, donde segretamente o retirava para as grandes solemnidades.

Homem simples e rude, pobre, rodeado de numerosa prole, curtindo privaçõs, apertado de angústias e temôres, jamáis o desamparou o sentimento de que devia á confiança dos seus conterrâneos, e entretanto... suppunha êlle ter, nas mãos, um thesouro que se avaliava em mais de quarenta contos de réis.

Descoberto o engano em 1908, premiaram-lhe a fidelidade de 25 longos annos, com um donativo de quinhentos mil réis, cinco vezes mais que o valor real do celebre depósito. Benedito António de Athayde era o thesouro de Araçariguâma, era um ostensório do caracter paulista, cujo nome bem é que recordemos a uma geração que já não sente o orgulho da sua raça, nem mais possúe o sentimento da própria nacionalidade.


A Capela de Nossa Senhora da Conceição


Esta é a capella do Padre Guilherme Pompêu, a uns três kilómetros da villa, no bairro do Collégio, onde tiveram os jesuitas pequena e modesta residência, que imaginosos chronistas transformaram em grande e próspero collégio, á similhança da casa de S. Paulo.

Receberam-na os jesuitas por herança do Padre Guilherme, dando-lhe por primeiro superior ao Padre Belchiór de Pontes que, já então, havia terminado a construcção da bella igrêja de M'Boy.

Ahi funccionou o celebre thaumaturgo de 1717 a 1719, mâs de seus successôres só vagas notícias se podem rastrear, pesquizando os livros da paróchia.

Não se póde determinar a época em que os Padres da Companhia deixaram definitivamente a residência de Araçariguâma. Sabe-se, porém, que, em 1741, ainda o Padre Domingos Machado se encontrava por superior da residência. Seguiu-se-lhe o Padre Antônio Bacellar, que, tendo ahi residido de 1731 - 1736, reapparece como superior em 1746 - 1747.

Como quer que sêja, já em 1790 tinha o Collégio nôvo capellão, que então era Frei João de Sant'Anna Costa, religioso da Ordem de N. Senhora do Carmo.

Ao invés de reconstruirem a capella que, em 1904, ainda se poderia salvar, tiveram os moradôres do bairro a infeliz idéa de a subtistituir por uma ermida de beira de estrada, sem aproveitar siquer o altar que, facilmente, podia ser reconstruido. Ahi está, nessa capella horrivel, na márgem oposta do ribeirão, a imágem de N. S. da Conceição, vestigio único de aventurosas empresas e galhardias de enthusiasmo religioso.

Invadida pela mata, na sua pujança profanadôra de vetustos e phantasticos solares, da modesta residência restam apenas apagados alicerces, que os suôres do administrado não endureçeram, de todo, contra as injulrias do tempo. Não passaria ella de um casarão de taipa, grave e sevéro, ainda assim, magnifico naquellas brenhas e naquelles tempos, refúgio permanente de três ou quatro missionários e... não mais.

Pendurada na encosta de suave collina, á pouca distância do ribeirão, inconsciente de tanta fama e tão fabullada grandeza, não se vê onde pudesse haver alli capacidade para essa "área murada que servia de páteo á capella da fazenda, e que mediria mais de dous hectares".

No terreno circunjacente, irregular, montuoso, não lograria a phantasia de um oriental desdobrar "essa planície que se estendia em frente ao pórtico do páteo da sumptuosa vivenda, onde renques de cabãnas, levantadas ás pressas, serviam de abrigo á basta chusma de criados indigenas e estranjeiros, de todas as raças, de todas as condições, que poa ahi estanceavam".

Onde estariam ahi "em quartos dispostos em galeria, sôb cúpulas custosas, cem camas de alto, de jacarandá envernizado, convidando corpos lassos ao repouso, ostentando colchões estofados e travesseiros macios, dignos do mais requintado sybarita".

Quanta tristeza, que indizivel amargura há de sentir o pobre cabôclo, que hoje têm alli assento mesquinho e desconsolado, ao ouvir phantasiadas narrativas que, sem inspirar-lhe saudades de um passado problemático, não lhe estimúlam siquér a vontade de viver!

Si lhe falais das colchas de velludo brosladas de ouro, da bretãnha deslumbrante dos lençóes arrendados e das fronhas crivadas, das bacias de prata, dos gomis e dos candelabros em que vagarosamente se consumiam bugias perfumadas... si lhe descreveis, com enthusiasmos de erudito e ingenuidades de patriota, as varandas espaçosas e os opiparos banquetes do Creso Americano, - o cabôclo olha em tôrno de si e... ri-se desconfiado e triste.

Que importa? A enorme abastança do Padre Guilherme Pompêu posta em voga por Pedro Taques - ainda que não verificada em seu testamento - bem pudera abrir caminho pâra uma lenda que, lisongeando vaidades de família, não era de todo inverosimil em terra de sertanistas e bandeirantes.

Letrado e opulento, o Padre Guilherme confessára, em seu testamento, uma fraqueza que lhe deslustrava o caracter sacerdotal, e era preciso que á lenda accrescêsse também o romance histórico, tanto mais histórico quanto mais hostil e calumnioso á Companhia de Jesus.

Devotissimo de N. Senhora da Conceição, cujo culto nos veiu para S. Paulo com Martim Affonso e propagado, ao depois, pelo zêlo ardente do venerável Padre Anchiêta, fundou o Padre Guilherme, em sua fazenda de Araçariguâma, pequena e mimosa capella que foi, mais tarde, a capella-mór da pequena igrêja construida pelos successôres do Padre Belchiór de Pontes.

Essa capella-mór - a capella primitiva do Padre Guilherme - ainda hôje se pôde vêr, arruinada, mâs ainda de pé, fazendo fundo a umas ruinas de taipa, onde se divisa claramente a nave accrescida pelos jesuitas. "Ainda, que era pequena na fábrica - diz Manuel da Fonsêca - enriqueceu-a o Padre Guilherme com retábulo de talha dourada", cujos restos jazem esparsos em um recanto da que devêra ser a acanhada sacristia.

"Tanto que nella se viu o Padre Pontes - continúa o chronista do Padre Belchiór - attendendo á pequenez do lugar, ao populoso da vizinhança, e aos grandes concursos, que de várias partes se ajuntavam não só nas festas annuais mas ainda na Quaresma e outros dias mais solennes, pâra receberem dos obreiros, que alli pôe a Companhia, o fructo dos sacramentos, e pregações; intentou nova fabrica, na qual se achasse capacidade pâra receber tanta multidão: mas ainda que pôs alguns meios para o conseguir, comtudo quis Deus premiar-lhe sómente os bons desejos, reservando a glória de a conseguir para outros sujeitos, os quaes formando na parêde antiga da primeira Capella hum formoso arco, a deixaram pâra Capella-mór da nova lgrêja, na qual se vê já não sómente a capacidade, que para os concursos desejava o Padre Pontes, mas também se admira conservada sempre a memória, e devoção do seu primeiro autor ".

Qual fosse "o populoso da vizinhança e a grandeza dos concursos, que de várias partes se ajuntavam nas festas annuáis", bem se póde vêr da estreiteza da arruinada nave, onde mal e apenas se poderiam reunir umas oitenta ou cem pessôas.

E esta foi a explendida basílica onde se celebravam, com desusada pompa e festas de arraial, oitavários magnifiços de missas cantadas, com Sacramento exposto e sermão, aos quaes accudia toda a nobreza e clerezia paulistana! ...

Não é, pois, de extranhar que, attrahidos do nome e opulência do grande Pompêu, ahi estanceassem, deslumbrando o selvágem, offuscando a elegância sertanêja do bandeirante, bispos gregos e patriarcas da Ethiópia - cousa tão extraordinâria e inaudita, que até passou despercebida aos padres, da Companhia!

Não fôssem os jesuitas tão empenhados na converção do gentio, e não lhes passaria a azada oportunidade de conciliar sympathias com o prestígio dos illustres visitantes. O apagar, tão por completo, os vestigios prelatícios de seus hóspedes, foi, de certo, amarga ironia do padre sybarita, que dêlles só deixou notícia nas chrónicas genealógicas de Pedro Taques.

Generozo e lauto hospedeiro dos exóticos prelados, bem era que ao sumptioso sacerdote não faltasse o curioso título de bispo missionário, pôsto só lhe servisse de tratatmento decorativo em pomposo necrológio. Não passaria aquella honorificência do título plelaticio de protonotário; mâs, ainda assim, não se comprehende por que os padres da Companhia lhe deram no epitáphio, a simples qualidade de presbytero.

Houve, de certo, quem pensasse em constituí-lo "em Prelado maiór, pôsto fôsee êlle sujeito por demais amante do seu socêgo e quietação." Não passava o pensamento do governador do Rio de Janeiro, Arthur Sá de Menezes, em carta ao rei de Portugal, da creaçâo de uma prelazia com que se attendessem ás necessidades espirituaes da capitania de S. Paulo, e ainda isso não mereceu as atenções da cathólica magestade portuguêsa.

Si, pois, foi ingenuidade ou fraqueza de Pedro Taques o dar vulto e encarecimento a uma figura que, por illustre, o dispensava, mal se tolera hoje em chronísta de tanto mérito. Não é que lhe neguemos reaes serviços prestados á história paulista, mâs... Pedro Taques excedeu-se, e não é razão por que lhe conservemos, no caso vertente, autoridade incontestada.

Como quer que seja, deixemos espaço pâra a lenda que, sem embargo, não é pequena moldura pâra o caracter paulista, aventureiro, nobre, generoso e profundamente crente: O Padre Guilherme Pompêu de Almeida.


Os Vigários de Araçariguama


Ainda que a paróchia foi certamente instituida em 1701, não se encontram lançamentos regulares anteriôres a 1720. No primeiro livro de baptisados, que aliás é um simples caderno, onde os lançamentos se acham dispostos por ordem alphabética, encontram-se dois termos de baptisados feitos em 1718, e mais dois feitos em 1719 pelo Padre Ignácio de Almeida Lara, "ao tempo - diz o baptizante - em que eu não era collado nesta igrêja, que então se achava vaga".

É pois, evidente que, anteriormente a 1720, a paróchia fôra provida de vigários, não se sabendo quaes fossem ao certo, por não terem feito lançamentos. Entretanto, do exame dos livros abertos e escripturados pelo Padre Almeida Lara, se deprehende que tiveram primeiramente a estóla de Araçariguâma os seguintes sacerdotes:

  1. - Frei João Soares, religioso de N. Senhora das Mercês. Estaria então secularizado êsse religioso, pois não consta que a Ordem das Mercês tivesse no sul algum convento ou residência. A 21 de outubro de 1708, no caracter de vigário de Araçariguâma, fez o casamento de Paschoal ribeiro Caldas, Filho legitimo de Jacintho Ribeiro Gimarães e de Maria Francisca, Coam Archangela da Almeida, filha legitima de Diogo de Almeida Lara com Isabél de Godoy.
  2. - Frei Francisco da Victória, "frade monge", isto é, dos monges de São Bento. A 4 de Maio de 1710, deu licença ao Padre Alexandre de Gusmão, da Companhia de Jesus, para baptisar a um filho de Paschoal Ribeiro Caldas, e de sua mulher Archangela de Almeida Lara. No anno de 1712 (não se diz o mês), ainda baptisou a uma filha de João Dantas de Brito.
  3. - Padre João da Silva Cavacco. A 7 de fevereiro de 1719, o Padre Almeida Lara fez um casamento como seu substituto.
  4. - Padre Pedro de Godoy, Sendo vigário de Araçariguâma, anteriormente a 1719, fez um baptisado a que se refere o padre Almeida Lara, sem dizer quando.
  5. - Padre António de Lima. Diz o Padre Almeida Lara que foi seu antecessor, mas não declara em que época.
  6. - Padre Ignácio de Almeida Lara, 1720-1750, com pequena interrupção de nov. de 1725 a agosto de 1726, em que a parócha ficou annexa á estola de Parnahyba. Foi também vigário de Jundiahy de 1750 a 1751. Bem que o apellido, das mais nobres famílias de S. Paulo, o esteja claramente designando por próximo parente dos Taques e Pompêus, não lográmos descobrir a seu respeito apontamentos mais completos e positivos. Em 1734 fez diversos casamentos e baptisados o Padre José de Almeida Lara, que parece ser irmão ou parente muito próximo do vigário.
  7. - Padre Francisco José Guedes, 1750.
  8. - Padre António Gil (ou Gonçalves) de Godoy, 1750-1751. Devia ser já de idade avançada, pois residia na paróchia desde 1720, tendo feito então diversos baptisados e casamentos. Por época ser encontrava no sítio de Camapuan, em Cuyabá, na leva dos célebres irmãos João e Lourenço Lême, um Padre António Gil que pode bem ser o mesmo.
  9. - Padre Marcello de Almeida Ramos, 1751-1758. Era natural de Mogy das Cruzes, filhos legitimo de Domingos de Almeida Ramos e de Bárbara Corrêa de Alvarenga.
  10. - Padre Dr. Manuel da Costa Aranha, 1748-1764. Filho de João da Costa Aranha, cap.-mór das ordenanças de Itú, e de Maria Francisca Vieira. Foi mais tarde vigário da vara da comarca de Itú.
  11. - Padre Manoel de Barros, 1764-70.
  12. - Padre António Ferreira Meirelles, 1770-84.
  13. - Padre Joaquim Floriano de Lara, 1784-85.
  14. - Padre Domingos José Coelho, 1785-87.
  15. - Frei António de S. Theresa Xaviér, 1787-89.
  16. - Padre Fernando Lopes de Camargo, 1790. Filho do cap. Ignácio Soares de Barros e de Martha de Camargo Lima. Foi tambem vigário de Parnahyba.
  17. - Padre José Rodrigues de Oliveira, 1791-95. Natural de Parnahyba, filhos do alferes Bathazar Rodrigues Fam e de Isabel da Rocha do Canto. Falleceu em Jundiahy, em 1803.
  18. - Padre José de Barros Camargo Lima, 1795-96.
  19. - Padre Manoel José Gomes Teixeira, 1797-99.
  20. - Frei António de S. Theresa Xaviér, Segunda vez, em 1799-1806. Parece que nesta época estava secularizado.
  21. - Padre Joaquim de Almeida Leite, 1806-10.
  22. - Padre Manoel Francisco de Camargo, 1810-27. Foi vigário collado, mas parece ter deixado o cargo, conservando, porém, o título, com residência em Parnahyba, onde falleceu em 1832.
  23. - Padre Francisco Metello Homem, 1827-31.
  24. - Padre José Maria de Sousa Ribeiro, 1832-54.
  25. - Padre Francisco José de Moraes, 1855.
  26. - Padre Manoel Zeferino de Oliveira, vulgarmente conhecido por Padre Araçá, 1856-1888.
  27. - Padre Vito Grassano, natural da Italia, dezembro de 1888-março de 1889.

De então pâra cá não tem tido a paróchia vigário próprio excepto nos primeiros mêzes de 1914, em que esteve a cargo do Padre António Maria Vieira, natural de Portugal.