As Minas de Prata/I/II

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As Minas de Prata por José de Alencar
Como outrora rezavam na missa duas beatinhas baianas


Apenas a cadeirinha parou no adro da igreja, as cortinas de damasco verde franjadas abriram-se, e a ponta do escarpim de veludo que escondia um pé de menina pousou de leve na calçada, como a asa de uma gaivota quando roça a flor d’água no voo rápido.

Um homem de meia idade e compleição robusta, que acompanhava a cadeirinha, estendeu o braço para receber a mão afilada e transparente, que apenas tocou o veludo da manga, como se receasse magoar-se ao contato da macia pelúcia.

Logo assomou o vulto delicado de uma moça vestida com o faceiro e gracioso traje das andaluzas; vasquinha de seda azul bastante curta para mostrar a nascente da perna divina, e véu bastante longo para ocultar o rosto e seio, deixando apenas ver a cor de leite e a luz de dois olhos, que brilhavam mais que os diamantes do colar.

O cavalheiro que trajava vestes pretas tirou o gorro e corando inclinou-se, quando a moça passava diante dele para entrar na igreja. Recebeu em troca um olhar rápido e profundo, dos que vêm do íntimo e se desprendem, como chispas d'alma.

— Bem certo é o anexim, que o mal e o bem à face vêm; disse Cristóvão gracejando.

— Nem sempre!

— Segredos são escravos rebeldes, que mais amiúde se tornam senhores; por mais fundos que os tragas, eles sobem à tona quando mal pensas; se lhes cerras os lábios, falam pelos olhos.

— Aos olhos de um amigo.

— De todos. Mais val não os ter; e com isso dou-me às maravilhas.

— Se tivesses de lutar com a fortuna que é inconstante e com os homens que são maus, respondeu o moço gravemente, terias outro falar, Cristóvão.

— Digo-te que não.

— Tu vês o mundo como bom e jovial companheiro, de quem não hás mister ocultar teus sonhos de prazer; aqueles que têm nele um inimigo, esses nunca lhe esconderão demais sua alma.

Nisto, um mancebo que trazia com certo garbo vaidoso as luzidas galas de suas roupas de veludo e seda carmesim, aproximou-se e cortejou risonho os dois mancebos.

— Trajais de negro em dia como estes, Senhor Estácio Correia? disse ele com volubilidade.

— Trago luto por meu pai e por minha mãe, respondeu o cavalheiro com certo vexame.

— Vai para quatro anos que morreu uma, e o outro deixou-vos no berço. Não cuidei que levásseis a piedade tão longe.

— Desavisado fui, Senhor D. Fernando de Ataíde, em não consultar vosso calendário para saber que tempo duraria meu sentimento; quando vier à estampa vossa pragmática, regularei por ela meu traje. Até lá a cada um seu gosto e modo de viver.

Estácio acompanhou o dito com um sorriso de ironia.

— Pesa-me que vos enfadasse tão inocente reparo; não foi mais que simples curiosidade. Ouvi dizer algures que pretendíeis abraçar a vida eclesiástica e entrar na Companhia de Jesus, razão por que conjeturei que a gravidade do futuro estado vos obrigava já a trazer vestes sombrias.

Uma faísca cintilou no olhar de Estácio; pareceu-lhe que a desculpa de Fernando ocultava um motejo; mas a expressão de bonomia que viu no semblante do moço conteve a palavra provocadora que os lábios iam soltar.

— Enganou-vos quem tal disse, respondeu friamente.

— Oh! Aí chega D. Elvira de Paiva e sua mãe! Já me não admira ver-vos tão apurado, Senhor D. Cristóvão d’Ávila!

Esta exclamação jovial partiu dos lábios de um cavalheiro que se acercara do grupo; era homem que orçava pelos vinte e cinco anos, de mediana estatura e com certo desplante militar no porte arrogante; o rosto, cuja alvura primitiva desaparecera sob os raios do sol tropical que lhe queimara a tez, apresentava fisionomia espanhola, a que dava realce o bigode retorcido e a pera afilada.

O gibão e as calças de tufos eram amarelos golpeados sobre veludo preto; uma capa negra forrada de seda da mesma cor das roupas caía-lhe sobre o ombro esquerdo, mostrando no canto as armas de Portugal bordadas a retrós, o que indicava que o cavalheiro pertencia à milícia; tinha um chapéu de feltro branco, e meias botas de couro alourado com rendas no canhão.

Cristóvão durante a conversa distraíra-se em seguir com os olhos uma liteira que passava pela frente da Santa Casa da Misericórdia; ao ouvir a exclamação voltou-se para o cavalheiro sorrindo:

— Achais que mal empregue meu cuidado, senhor alferes? perguntou o moço com afabilidade.

— Por Deus, que não! Tão formosa dama não pisou ainda esta terra de gentio. Aposto cinquenta cruzados em um lanço de dados, que não me mostram, nem mais airosa, nem mais prendada.

— Esqueceis vossa irmã, D. José! retrucou Fernando de Ataíde.

— Oh! não vos tinha visto, Dom Paladino! exclamou o alferes rindo; mas se com isso vos ofendi, estou pronto a aceitar-vos a requesta.

Dizendo estas palavras, D. José apertou amistosamente a mão de Fernando; e cortejou com um modo frio e soberbo a Estácio. Este empalidecera ouvindo as últimas frases e desviou-se do grupo.

Um quinto mancebo, que trajava também à milícia, batera familiarmente no ombro do alferes.

— Aceito a aposta, contanto que sejais vós mesmo o árbitro, D. José!

— Oh! Padilha!... Por quem parais então, amigo?

— Por uns maganos d'olhos negros que luzem através de certa rótula de sobrado na Rua da Palma!

— Olhem o taful!...

— Ah! ah!... Então o nosso alferes também adora as sotas de carne e osso! exclamou Cristóvão rindo.

— Caluda, senhores! acudiu D. José com um sério-cômico; isto por enquanto está em segredo. Não espantemos a caça, que é arisca!

E os mancebos a rir, como se ri nessa idade feliz.

A liteira tinha parado; vinham nela duas senhoras.

Uma teria quarenta anos de idade; bela ruína em que o tempo, deixando impressa a sua passagem, respeitara a obra primitiva da natureza. Os cabelos haviam embranquecido, a tez perdera os toques rosados e murchara ao fogo do sangue que a escaldava outrora; o frescor dos traços desaparecera com o sopro ardente dos prazeres; mas aquele busto descorado debuxava ainda sob a máscara da velhice prematura as formas de um belo tipo da raça hebraica – Judite ou Madalena.

A boca, embora crestada na flor dos lábios, dizia quanta paixão e quanto amor devia ter ela desfolhado nas carícias lascivas, nos sorrisos sedutores e nas palavras ardentes, que semeara pelo caminho da vida; o seio branco, como o mármore de um túmulo, frio como ele, servia de urna às cinzas do coração que outrora o fizera arfar com os ímpetos de desejos irresistíveis; os olhos, esses brilhavam como nos dias da juventude, e pareciam o clarão da chama interna que consumira lentamente a seiva daquele corpo, como o óleo de uma lâmpada.

Ao seu aspecto adivinhava-se que essa mulher devia ter amado muito na sua vida e abandonado ao prazer uma alma ardente e insaciável. Agora, que a beleza fugira e os sentidos se acalmavam, tinha ela necessidade ainda de algum sentimento profundo e veemente que desse expansão às energias da natureza criada para a paixão.

Esse sentimento era a religião; todas as faculdades que outrora o amor absorvera, voltavam-se para a nova preocupação, e se entregavam a ela com igual ardor e afã: a mulher apaixonada e voluptuosa transformara-se na devota fanática; em face de Deus, como diante dos homens, foi sempre a mesma: foi o verbo das almas cujo destino na terra se resume em uma só palavra – amar – sublime encarnação do anjo feito mulher.

A moça que a acompanhava era sua imagem, mas perfumada pela mocidade, iluminada pelos raios da vida que desponta, colorida pelos reflexos de sangue tépido e puro que circula sob a cútis transparente, animada pela doce confiança que naquela idade abre os límpidos horizontes da existência e solta o voo à imaginação ávida.

O mesmo fogo da paixão, a mesma voluptuosidade do prazer, que deixara uma sombra de suas erupções no rosto envelhecido da mãe, brilhava nos olhos pretos e fúlgidos, no sorriso lânguido e no requebro gracioso da filha; mas a inocência e pureza d'alma vendavam ainda essas irradiações com a expressão modesta e ingênua, que as tornava mais perigosas.

D. Luísa de Paiva e sua filha desceram do palanquim, e recebendo as saudações dos cavalheiros que estavam parados no adro, dirigiram-se à capela-mor onde já estavam as almofadas de veludo roxo, que então as damas faziam conduzir à igreja por pajens escravos.

Chegada à porta que abria da sacristia para a capela, Elvira lançou um olhar em volta do pavimento já quase inteiramente ocupado pelas damas, e viu a sua almofada colocada no centro ao pé de uma menina que tinha o véu descido, a mesma que poucos antes tanto havia excitado a atenção de Estácio Correia.

Imediatamente a moça, roçagando a vasquinha curta, deu um passo para tomar o seu lugar.

— Fiquemos ali, disse D. Luísa mostrando o estrado.

— Tenho a minha almofada perto de Inesita, respondeu Elvira voltando-se.

— Bem; não te esqueças!...

— Oh! não; tenho-a de cor, disse a moça com um sorriso malicioso.

E atravessando por entre as outras damas, foi ajoelhar-se ao lado de Inesita, que embebida na sua oração tinha os olhos baixos e as pálpebras descidas.

— Por quem roga a minha santinha com tanta devoção? perguntou Elvira baixinho.

A menina sobressaltando-se corou através do véu; depois sorriu à sua amiga.

— Vieste tão tarde! disse ela em tom de queixa.

— É que não tinha alguém que me esperasse com seu olhar todo melancólico.

— Cala-te; estão nos olhando, balbuciou a moça.

— Se nos olham, menina, é que nos querem, respondeu a amiga sorrindo.

Estácio e Cristóvão tinham entrado pouco havia; colocados junto à grade que dividia a capela do corpo da igreja, não perdiam nenhum dos movimentos das duas meninas.

— Tua mãe?... perguntou Inesita.

— Não a vês na frente, bem próxima ao altar? Dela não há susto, continuou a moça gracejando; enquanto não desfiar a última conta do rosário e não recitar todas as orações do livro dominical, não dá por coisa alguma.

— Pois desce o véu, não te voltes, e podemos conversar enquanto não principia a missa; pensarão, vendo-nos falar, que dizemos nossas rezas.

— Sonsinha que és!... exclamou Elvira com um sorriso. Não queres que me volte para não ver onde vão presos esses olhos.

— Vão a Deus.

— A Deus no céu, e a ele na terra.

— Minha tentação, queres sossegar?

— Não me deixeis cair em tentação!... continuou Elvira com ar de malícia e fingindo que orava.

— Com as palavras sagradas não se brinca!... É pecado! disse Inesita séria.

— A quem o dizes? A mim que sei todas as rezas! Minha mãe tem tido o cuidado de mas ensinar; ainda hoje, sabes a penitência que me deu? De recitar uma ladainha maior do que a Rua dos Mercadores!

— E foi isto que te demorou?

— Não, Inesita, respondeu a moça perdendo de repente o seu ar faceiro e entristecendo, foi coisa pior... Oh! muito pior!

— O quê?

— Chorei toda a noite.

— Ele te...

— Ele não, mas por causa dele. Minha mãe não quer ir hoje à festa.

Inesita teve um triste sobressalto, e emudeceu buscando no espírito um meio de amparar a amiga:

— Se pedir-lhe eu?

— É escusado; quando lhe metem alguma coisa de religião na cabeça, não há volta; disseram-lhe que não está bem a uma dama devota ver folguedos do mundo.

— E tu perdes tão lindas coisas?

— Hão de estar galantes as corridas, não é verdade? Depois me contarás?

— Sem faltar nada. Mas ninguém dirá, ao ver-te tão prazenteira, que hajas chorado toda a noite.

— Que queres? Quando cheguei esqueci tudo, para só me lembrar que estava perto de ti.

— De ti!... disse Inesita inclinando imperceptivelmente a cabeça para o lado da grade, sem contudo erguer os olhos.

Elvira reparou no movimento da amiga e quis tirar sua desforra.

— Bem sei, respondeu ela travessamente, que estar perto de uma é estar perto do outro; a sombra acompanha o corpo.

— Vamos rezar, menina, acudiu Inesita meio enfadada.

— Vamos. Sabes tu as Obras de Misericórdia?

— Que pergunta!

— Não as sabes, não; porque elas mandam consolar os aflitos; e ali está uma alma penando por tua causa à espera de um só olhar teu.

Inesita corou inclinando ainda mais a fronte; porém os cílios de seda, que roçavam as faces, se ergueram e cerraram logo, deixando coar um olhar doce e aveludado, que foi tremulando embeber-se no rosto de Estácio.

— Agora sim cumpriste tua devoção!

— Elvira!... Cuidas que também eu não reparo no que fazes?

As duas meninas continuaram o alegre colóquio, cujo matiz gracioso não se pode desenhar; porque há gestos feiticeiros e inflexões harmoniosas, que só os lábios e a gentileza de uma mulher sabem dar às palavras mais simples.

Naquele tempo, como hoje, como sempre, duas moças amigas que se encontravam, tinham tanto que dizer entre si, e estavam tão cheias de segredos e confidências, que o lábio rosado não emudecia, enquanto não destilava todo o mel que havia nos favos delicados do coração, toda a fragrância que respiravam as rosas d'alma em botão.

A mulher é sempre mulher; mudam os usos, as modas, os costumes e as línguas; mudam os tempos e com eles nós os homens, porém o anjo frágil e delicado que Deus prendeu à terra é a fênix moral, que renovando-se em todos os séculos e em todas as eras, remoça a humanidade, e a purifica.

Assim, quem ouvisse aquelas duas beatinhas dos começos do século dezessete, conversando tão travessa e profanamente sob a aparência do mais profundo recolhimento, esquecendo o traje e o lugar, julgaria escutar as falas de duas moças dos nossos dias, trocando no seu jardim as confidências de uma véspera de baile.

D. Luísa às vezes lançava à filha uma vista rápida e severa, que retirava satisfeita para fitá-la de novo no resplendor das imagens; de feito Elvira e Inesita com o véu baixo, as mãos cruzadas, as frontes inclinadas e os lábios a moverem frouxamente, tinham um tal ar de compunção, que ninguém suspeitaria o mais leve pecadilho sob aquele beático recolho.

Entretanto elas ainda falavam de mil coisas; não tinham dito nem metade da mútua confissão.